Na ausência da CNBB, a Igreja dos debaixo insurge-se contra a intervenção

Enquanto a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) mantém silêncio sobre a intervenção federal/militar no Rio de Janeiro, uma rede de organizações da Igreja Católica lançou um documento condenando a iniciativa do governo Temer e exigindo sua revogação imediata

Por Mauro Lopes

Dez organizações da Igreja Católica em São Paulo lançaram um manifesto contra a intervenção federal/militar decretada pelo governo Temer em 16 de fevereiro. A CNBB mantém-se silente desde então, apesar de haver lançado  apenas dois dias antes do decreto a Campanha da Fraternidade 2018, que tem como tema exatamente a violência, sob o lema “Fraternidade e a superação da violência”.

No lançamento da Campanha da Fraternidade, a principal convidada pela entidade dos bispos foi a presidenta do STF, Carmén Lúcia, chefe de um Poder que tem tido como política o encarceramento em massa no país, excluindo as organizações da própria Igreja e dos movimentos sociais que lutam com tal política (leia aqui).

Na nota lançada agora, dez as organizações de base da Igreja Católica afirmam que a Campanha da Fraternidade representa uma convocação para “cerrar fileiras com todos os que defendem a construção democrática da segurança pública, em total oposição à estarrecedora decisão do Governo Federal de intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro”.

O texto começa citando a exortação apostólica Evangelii Gaudium, lançada pelo Papa em 2013, na qual Francisco escreveu que sem “eliminar a exclusão e a desigualdade” a violência não terá fim.

As entidades denunciam “o pacto da mídia com o governo” e indicam elementos do texto-base da Campanha da Fraternidade que apontam um caminho radicalmente diferente daquele trilhado pelo governo Temer para o combate à violência.

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Nova geopolítica do Vaticano: perto da China, longe dos EUA

Chineses saúdam o Papa na Praça São Pedro em Roma

Com Francisco, a geopolítica do Vaticano é marcada por aproximação com a China, a Rússia, a América Latina e as periferias. E distância dos EUA e dos governos de direita na Europa e no mundo. Vira-se a página tanto da visão geopolítica de João Paulo II de alinhamento com os EUA numa dinâmica anticomunista e antiesquerda como da visão do “eurocentrismo frouxo” de Bento XVI

Por Mauro Lopes

A normalização das relações entre a Igreja Católica e a China, esperada para as próximas semanas é resultado de um dos mais notáveis feitos de Francisco: a mudança radical operada na geopolítica do Vaticano. Este giro talvez possa explicar a oposição crescente ao Papa de forças poderosas, pois na esfera da geografia política está a balança do poder global.

É uma virada espetacular. Foram 70 anos de conflito que estão para ser deixados para trás. O sinal definitivo de que as negociações estão maduras para um desenlace veio em 30 de janeiro, quando o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, declarou numa entrevista ao Vatican Insider: “A esperança é poder chegar um dia, quando seja a vontade do Senhor, em que não se fale mais de bispos ‘ legítimos’ e ‘ilegítimos’, ‘clandestinos’ e ‘oficiais’ na Igreja chinesa, mas num encontro como irmãos”.

Durante décadas, a Igreja esteve dividida entre uma “patriótica”, admitida pelo governo chinês, e uma “clandestina” (na verdade, mais discreta que clandestina), alinhada ao Vaticano. Em dezembro, uma delegação vaticana esteve em Pequim e costurou um acordo para que todos os bispos, seja os da Igreja “patriótica” como os da “clandestina” passem a compor uma estrutura única.

João XXIII, João Paulo II e Bento XVI

Foram quase 40 anos, sob João Paulo II e Bento XVI, especialmente sob Karol Wojtyla, de uma geopolítica vaticana orientada pelo anticomunismo. O auge desta política foi sob João Paulo II, nos marcos da Guerra Fria. O papa polonês era um anticomunista ferrenho que ideologizou por completo as relações geopolíticas do Vaticano. Rompeu-se a lógica eurocêntrica de séculos e soterrou-se igualmente a tentativa de abertura ensaiada por João XXIII. Continue lendo “Nova geopolítica do Vaticano: perto da China, longe dos EUA”

Intervenção no Rio: Temer afronta Estado de Direito

Uma leitura serena do decreto de Temer mostra que a intervenção “federal” mal esconde, de fato, uma intervenção militar. O poder concentrado nas mãos do general-interventor é brutal. E os militares que cometerem crimes nas favelas ou contra os movimentos sociais serão julgados exclusivamente por tribunais compostos por eles mesmos. É uma agressão ao Estado de Direito.

Por Mauro Lopes

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

1.  Não há precedente – Nunca houve uma intervenção federal em nenhuma unidade da Federação desde a Constituição de 1988. Houve sim, por diversas vezes, a aplicação do instituto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que é pontual e não interfere nos poderes constitucionalmente (eleitoralmente) estabelecidos.

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Quando a CNBB partilha a mesa com os algozes em vez das vítimas

Dom Sérgio da Rocha e Cármen Lúcia: com quem quer estar a CNBB?

CNBB lançou a Campanha da Fraternidade 2018 que tem como tema a violência. Uma ausência marcante: não estavam as vítimas da violência na solenidade. Em vez disso, a estrela da festa foi a chefe do Poder Judiciário, um dos maiores promotores da violência contra os pobres no país. Ao lado do presidente da CNBB, na mesa do evento, a chefe de um sistema que fez do Brasil o país com a terceira maior população carcerária do mundo, sendo metade ela composta por jovens de 18 a 29 anos, 64% negros e 40% presos “provisórios”, sem condenação judicial. Enquanto rolava a entrevista, tornou-se  público que um juiz de São Paulo mandou para a cadeia uma mãe com um bebê de dois dias.

Por Mauro Lopes

Dá pra imaginar o Papa Francisco lançando uma campanha mundial contra a violência e deixando de convidar as vítimas, ignorando-as? Ou ainda: o Papa lançando tal campanha ao lado daqueles que promovem a violência contra os pobres?

Pois foi o que aconteceu na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nesta Quarta-Feira de Cinzas (14), que marca a abertura da Quaresma -nesta data é lançada desde 1964 no Brasil a Campanha da Fraternidade, pela CNBB. O tema da campanha de 2018 é exatamente a violência, sob o lema “Fraternidade e a superação da violência”.

As vítimas da violência não estavam na sede da CNBB na solenidade de início da Campanha. A direção da entidades dos bispos convidou a presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, para ser a grande estrela do momento e em seu site explicitou a escolha da Conferência: “O presidente da entidade, cardeal Sergio da Rocha, e o secretário-geral, dom Leonardo Steiner, receberam autoridades para o evento”.

Nada das vítimas da violência. Não estavam na sede da CNBB indígenas ou negros e negras, mulheres, sem teto, sem terra, moradores de rua; igualmente não estavam os líderes da Pastoral Carcerária, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) ou da Comissão Pastoral da Terra (CPT), todos organismos vinculados à conferência episcopal brasileira.

Estava -por convite da CNBB- a chefe do Poder Judiciário, um dos maiores protagonistas da violência no país.

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Bancos: lucro em 2017 foi maior que dois anos de Bolsa Família

 

2017 foi um dos piores anos da história para o povo brasileiro: mais de 12 milhões de desempregados, a volta do terror da fome, redução ou fim de programas sociais (veja aqui também). Para os banqueiros e seus associados, os rentistas, foi uma festa de gala: o lucro dos três maiores bancos no ano passado foi de R$ 53,8 bilhões, mais de duas vezes o orçamento do Bolsa Família para 2018, de R$ 28,7 bilhões. Em cinco anos, o lucro dos bancos saltou nada menos que 127%.

Por Mauro Lopes

Os banqueiros e rentistas gargalham, às custas do povo brasileiro. Enquanto 2017 passa à história como um dos piores anos para os mais pobres do país, o Itaú, Bradesco e Santander tiveram em 2017 um lucro de R$ 53,8 bilhões, 20% superior ao lucro do ano anterior. Isso ao mesmo tempo em que o Bolsa Família sofreu um corte de R$ 1 bilhão e seu orçamento, o primeiro em termos nominais em desde sua criação em 2003 e o salário mínimo foi estabelecido em R$ 954,00, retornando ao mesmo valor real de janeiro de 2015.

De um lado, um punhado de famílias brasileiras que controlam o Itaú e o Bradesco e espanholas que controlam o Santander, além deles, mais 121 mil sócios do Itaú  e 321 mil do Bradesco -não some os dois números, pois milhares são sócios dos dois bancos. Esse grupo embolsou os quase R$ 54 bilhões. De outro, as 12,7 milhões de famílias participantes do Bolsa Família -que, de fato, beneficia nada menos que 21% da população do Brasil (cerca de 40% da população), assim como as 48  milhões de pessoas que têm seus ganhos referenciados no salário minimo.

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Bolsa Juiz x Bolsa Família: uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte (veja foto abaixo), apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

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País está dividido: pobres com Lula e ricos contra ele

Pesquisas do DataFolha mostram como pobres e ricos estão em polos opostos no país hoje e as camadas médias estão divididas. A Folha, proprietária do instituto de pesquisas, escondeu o fato em suas reportagens. Mas as pesquisas são claras: pobres querem que Lula concorra às eleições e ricos não; pobres querem Lula presidente e ricos não; pobres têm taxa de rejeição a Temer muito superior à dos ricos. Veja os gráficos extraídos das planilhas do DataFolha: eles são taxativos –no Brasil, pobres de um lado, ricos do outro; e as camadas médias em disputa.

Por Mauro Lopes*

Nos dias 29 e 30 de janeiro, menos de uma semana depois da condenação de Lula pelos desembargadores do TRF4, em Porto Alegre, o DataFolha, instituto do grupo do mesmo nome, ouviu 2.826 pessoas em todo o país sobre três temas. Foi um campo único, mas apresentado nas páginas do jornal dos Frias como três pesquisas: sobre como a população vê o desdobramento da condenação de Lula, o impacto da decisão dos desembargadores nas intenções de voto para presidente e, finalmente, sobre a “popularidade” do governo Temer.

A constatação que emerge das pesquisas é taxativa –mas foi sonegada aos leitores da Folha nas reportagens: é a luta de classes que dá o ritmo da vida nacional hoje. Os pobres estão em posição diametralmente oposta à dos ricos.

Primeiro, quanto ao desdobramento da condenação de Lula do ponto de vista de sua presença na eleição presidencial.

Para 58% dos mais pobres do país (com renda até 2 salários mínimos), Lula deve ter o direito de concorrer; para 70% dos ricos (com renda superior a 10 salários mínimos), Lula deve ser barrado. O gráfico tem  uma evolução notável: quanto mais se sobe na renda, mais o desejo de ver Lula proibido de concorrer. O DataFolha interrompe a pesquisa no universo dos ricos numa faixa “mais de 10 salários mínimos” de renda mensal (mais de R$ 9.370,00), mas a linha indica que quanto maior a renda, maior deve ser o desejo de bloquear o direito de Lula concorrer. Seria interessante ter os dados para renda superior a 20 SM (R$ 18.740,00) e mesmo superior a 40 SM (R$ 37.480,00), onde seria possível capturar com mais nitidez a posição, de juízes, altos executivos do Estado e do setor privado, empresários e rentistas.

Veja o gráfico:

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