Coroa do Advento: redescobrir seu sentido na liturgia e na vida

Neste domingo (3), cristãos de várias Igrejas começam a se preparar para o Natal. Inicia-se o Tempo Litúrgico do Advento, de espera/esperança O uso da coroa do Advento é costume de anglicanos, batistas, católicos, luteranos, metodistas, presbiterianos, gentes da Ordem Evangélica dos Servos Intercessores e de outras denominações. A origem da coroa remete à Alemanha, no século XIX, por iniciativa de um pastor luterano, Johann Heinrich Wichern

Leia artigo de Cátia Cristina Tavares da Silva*, da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, sobre a coroa do Advento. Escrito a partir da perspectiva católica, é um texto no espírito de amizade e convergência com todas as Igrejas-irmãs.

 A íntegra do artigo: 

O tempo do Advento está chegando e com ele o convite da liturgia a uma preparação interior para vivermos bem o Natal, a festa da encarnação do Filho de Deus em nossa humana história. A palavra Advento significa vinda. Nós, cristãs e cristãos, reconhecemos que Jesus em  sua primeira vinda fez-se presente na carne, está continuamente conosco quando nos reunimos em nome dele e virá na plenitude dos tempos para estabelecer definitivamente seu Reino entre nós.

Num mundo como o de hoje onde todas as comemorações passam necessariamente pelo consumo e pelo comércio, nossa preparação interior se faz ainda mais necessária. Um símbolo próprio desse tempo litúrgico e que pode ajudar-nos nessa preparação é a coroa do Advento.  A coroa do Advento vem sendo usada há muito tempo em várias comunidades do Brasil como símbolo desse período de espera, de preparação da festa do Natal. Este símbolo pode ajudar para que o Natal seja uma festa verdadeira em seu sentido teológico-litúrgico, ajudando-nos a superar o apelo do comércio, que quer nos convencer de que o Natal só existe se houver uma grande ceia, com muita comida, muitos presentes, roupa nova e Papai Noel, ou seja, o Natal acaba sendo medido pelo quanto se pode comprar.

Na América Latina, muitas vezes, a coroa do Advento foi banalizada como uma guirlanda importada que se pendura na porta de entrada sem ligação alguma com a liturgia e tida como apenas mais um objeto de enfeite do Natal-consumo. Mas a coroa do Advento tem sua história e o seu sentido litúrgico. Um desafio é inculturar a coroa do Advento à nossa realidade e encontrar seu lugar na liturgia que celebramos nas nossas comunidades.

Um pouco de história – a primeira alusão que se tem a um objeto semelhante vem de um costume muito antigo, ainda não cristão, de colocar uma grande coroa feita de galhos e folhas, considerada como mágica, ao redor da casa para afastar o mal. A coroa aparecia também colocada em volta do caixão dos mortos para protegê-los e facilitar-lhes a vida além-túmulo. À medida que os costumes pagãos foram se cristianizando, a coroa, assim como outros símbolos, teria também recebido um sentido cristão. Mas há ainda outra hipótese: a de que a coroa do Advento se desenvolveu muito mais tardiamente e sempre teve a dimensão cristã, não sofrendo influência alguma do mundo pagão, o que a tornaria um símbolo muito peculiar, diferente da maioria dos nossos símbolos cristãos mais antigos que já faziam parte da vida de outros povos e foram cristianizados.

O próprio dia em que celebramos o Natal era originalmente, antes do surgimento do cristianismo, data da grande festa do Natalis Solis Invicti –o nascimento do Sol Invicto, início do solstício no hemisfério norte. A Igreja de Roma estabeleceu o dia 25 de dezembro como Natalis Christ” logo no século IV, dando um conteúdo inteiramente novo à grande festa dos pagãos greco-romanos que adoravam o deus sol.

Hoje está estabelecido que a coroa do Advento propriamente dita surgiu na cidade alemã de Hamburgo, em 1833, por iniciativa do pastor luterano Johann Heinrich Wichern. No início dos anos 1940, seu uso foi confirmado pelo Igreja Católica.

A teologia – a teologia da coroa do Advento acompanha a teologia desse Tempo Litúrgico. A coroa tem quatro velas que vão sendo acesas progressivamente em cada uma das quatro semanas do Advento; é símbolo da nossa alegre espera, da luz crescente até a plenitude da Luz, que é a encarnação do Senhor, o Deus da Luz.

Segundo Bergamini (1994, p.186-9) há quatro pontos principais na teologia do Advento. 1) Um primeiro ponto é a dimensão histórica da salvação. O Advento faz memória de que Deus não esqueceu da promessa e da aliança que fez com o povo. O envio de seu Filho mostra que o Reino de Deus está próximo (Mc 1,15). 2) O Advento comporta uma dimensão escatológica. Deus é “aquele que é, que era e que vem” (Ap 1,4) e se manifesta em Jesus Cristo. 3) O Advento tem ainda conotações missionárias, de anúncio do Reino e edificação da Igreja pela fé em Jesus Cristo e adesão ao seu Evangelho. 4) E, finalmente, a dimensão libertadora do Deus que assume a causa dos pobres restituindo-lhes a esperança e a dignidade. O Reino é daquelas e daqueles que põem sua confiança em Deus.

A esta última dimensão acrescenta-se agora a voz que o Papa Francisco dá aos pobres instituindo como seu dia o penúltimo domingo do Ano Litúrgico.

Imbuída deste sentido, a teologia da coroa do Advento recorda, na primeira vela a ser acesa, os tempos pré-cristãos ainda não iluminados pela fé em Jesus; na segunda, os profetas e profetisas (como Ana em Lc 2, 36-38) que anunciaram o Messias; na terceira, Maria que concebe o Filho de Deus e na última, o próprio nascimento de Jesus Cristo. Essa luz crescente nos lembra que foi na história, e através de uma mulher, que a promessa de Deus se cumpriu.

A espiritualidade – a vida dura e difícil do povo sofrido revela-nos  que as pessoas mais pobres estão sempre em ritmo de Advento -a esperança é o tom da vida. Estão sempre esperando conseguir um emprego, esperam terminar de construir a casa ou comprar uma, esperam que o governo cumpra suas promessas, enfim, esperam que a vida seja melhor, que seja plena porque acreditam que Deus olha por elas e não as abandona.

O tempo do Advento quer suscitar essa atitude vigilante das cristãs e cristãos que creem na realização das promessas de Deus, e também uma atitude de alegria porque essas promessas já estão se tornando realidade em nosso meio. A Boa Notícia marcou, de maneira indelével, nossa caminhada como mulheres e homens de fé. E a liturgia exprime essa esperança: estamos todos grávidas e grávidos da Luz!

A esperança supera provações, dificuldades e situações de morte porque o reino pelo qual esperamos e trabalhamos é um Reino de Justiça e de Paz. Esta atitude vigilante nos convida a resistir às trevas, ao individualismo, à desesperança, aos poderes violentos ou sedutores que querem corromper nossa busca pela sociedade igualitária. Por isso somos convidadas e convidados à conversão constante e a nos mantermos fieis ao Amor e aos valores éticos do Evangelho.

É preciso vigiar porque a Luz não vai brilhar onde “brilham” a riqueza, o acúmulo e o poder. É no meio daquelas e daqueles que foram esquecidos e abandonados em sua fome, dor, doença, preconceito, desespero que a Luz vai brilhar, porque o Messias quis nascer obre entre os pobres. Visualizando o aumento progressivo da luz na coroa do Advento através do acendimento das velas, fortalecemos a certeza de que não estamos fazendo um teatro litúrgico ou apenas lembrando um acontecimento longínquo. A nossa esperança não é vã, mas concretizada em Jesus Cristo.

A confecção da coroa do Advento – a atual coroa do Advento, em sua versão mais simplificada, é uma estrutura feita com uma tira circular de madeira ou metal, com cerca de 30cm de diâmetro, em torno da qual enrolam-se plantas perenes; entre os ramos colocam-se quatro velas. Há também modelos feitos com argila, com espaço para as velas e em cujo centro há um pequeno vaso no qual é possível colocar uma planta aquática capaz de desenvolver-se em torno da estrutura da argila.

Pode ser usada também uma tira de espuma (floral) presa com arame para dar o formato circular. Nessa estrutura, que deverá ser mantida úmida, enrolam-se plantas aquáticas capazes de criar raízes na espuma. Tanto a estrutura de argila quanto a de espuma devem ser preparadas meses antes do Advento para dar o efeito desejado.

Outra proposta é fazer uma grande coroa, com mais ou menos um metro de diâmetro, para ser colocada diante do altar sempre com plantas vivas ou que não murchem com facilidade. Nesse caso, as velas, que necessariamente fazem parte da coroa, devem ser de tamanho proporcional.

A criatividade fez com que se colocasse uma fita vermelha em volta da coroa e velas de diferentes cores, atribuindo-se sentido a cada novo elemento acrescentado. O essencial, porém, são as plantas sejam perenes e as velas, que podem ser brancas.

O uso pastoral e litúrgico – habitualmente, a coroa do Advento era colocada nas casas, na mesa da família ou num local especialmente preparado para ela. Os(as) filhos(as), a cada sábado à noite ou domingo do Tempo do Advento acendiam o número de velas correspondente àquela semana (uma para o primeiro domingo do Advento, duas para o segundo…). Fazia-se, então, uma oração recordando a espera feliz pelo Natal e evocava-se a bênção de Deus sobre a família. Este pode ser um momento privilegiado nos dias correntes: inserido na novena, pode reunir a família e os vizinhos para meditar sobre o sentido do Natal e rezar.

Incorporada à celebração da comunidade, é possível ligar esse pequeno rito à Liturgia da Palavra. Em cada domingo do Advento a coroa pode ser levada na procissão de entrada (seria significativo se fosse levada por uma mulher grávida) e colocada em uma mesinha previamente preparada diante da mesa do altar.

Após a proclamação das leituras deve ser acesso o número correspondente de velas para aquele domingo. Faz-se uma oração e canta-se uma das antigas Antífonas do Ó (que se referem aos títulos que Jesus recebeu: Ó Sabedoria, Ó Sol Nascente, Ó Emanuel, entre outros).

Numa adaptação, algumas comunidades que fazem a novena de Natal colocam nove velas na coroa do Advento e as acendem em cada dia da novena.

Os prefácios do Advento também comportam as duas dimensões desse tempo litúrgico: primeiro, o Advento escatológico, que fala da segunda vinda de Jesus, à qual somo convidados(as) a estar sempre preparados(as), e a segunda dimensão é o Advento Natalino: o Messias anunciado pelos profetas e esperado com o amor de mãe vem nos trazer a paz e a salvação.

A coroa do Advento é a expressão visual desse anseio de toda a Igreja Povo de Deus. Este símbolo litúrgico pode ajudar a suscitar em nós a atitude vigilante que deveria ser permanentemente a de toda cristã e cristão que está atento aos sinais dos tempos e também às irmãs e irmãos mais pobres, os preferidos do Deus que se fez pequenino.

Então voltaremos cada vez mais nossa esperança para a vinda definitiva de Jesus e pediremos com todos as cristãs e cristãos através dos séculos: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20)

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*Cátia Cristina Tavares da Silva é associada da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, bacharel em Teologia, licenciada em Pedagogia e Letras, especialista em ensino de Língua Espanhola, mestra em Liturgia e professora no IFITEPS – Instituto de Filosofia e Teologia Paulo VI

BIBLIOGRAFIA

BERGAMINI, Augusto. Cristo – festa da Igreja – o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1995 (Col. Liturgia e Participação)

 

4 respostas para “Coroa do Advento: redescobrir seu sentido na liturgia e na vida”

  1. Bom dia!
    A PAZ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO!
    Quero agradecer por esse ensinamento rico ,onde podemos conhecer melhor a nossa igreja.
    Por favor, eu posso fazer a coroa do advento na novena e levar em nove casas?

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