No que deu a Polônia dos sonhos de João Paulo II

Eis os católicos de direita na Polônia: querem forca; mais adiante pedirão fogueiras?

Eis no que deu a “revolução cristã” conservadora encetada sob a liderança de Karol Wojtyla no final do século XX e início do XXI em sua terra, a Polônia..

Veja a foto que encima este post. São membros do grupo católico de extrema direita, integrista e antissemita ONR (Obóz Narodowo-Radykalny Falanga), que, no último sábado (25) foram às ruas com forcas (isso mesmo). Quem esses católicos desejam ver enforcados: seis eurodeputados do partido Plataforma Cívica que votaram a favor de uma resolução do Parlamento Europeu advertindo o governo de Varsóvia contra os seguidos desrespeitos ao Estado de Direito (veja aqui a nota do italiano La Repubblica).

O ONR Falanga é um grupo fascista inspirado na Falanges espanholas de Franco. Mas eles assumem que o catolicismo tem um aspecto ainda mais central no movimento do que no falangismo/fascismo espanhol. São críticos do “capitalismo liberal”, odeiam a esquerda, os judeus e os muçulmanos, são arquiconservadores quanto às questões identitárias e defendem abertamente a restrição aos direitos humanos. O símbolo da organização é eloquente quanto à sua identidade, moldada pela estética nazi-fascista (veja ao lado).

Milhões de católicos conservadores e amedrontados diante do mundo tornaram-se a bucha de canhão dos diversos agrupamentos (quase todos católicos) de extrema-direita que buscam lançar o pais numa jornada xenófoba, racista, que investe igualmente contra muçulmanos, judeus, direito ao aborto e qualquer direito que ofenda o que denominam sua “fé”.

Em outubro, um milhão de católicos foi às fronteiras do país para rezar o terço com o objetivo de repudiar os refugiados. Foi o “Rosário nas Fronteiras”.

A data foi escolhida a dedo: 7 de outubro. Neste dia, em 1571, a Liga Santa, formada pela República de Veneza, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta e Estados Pontifícios venceu o Império Otomano ao largo de Lepanto, na Grécia. A batalha representou o fim da expansão islâmica no Mediterrâneo.

É curiosa a evolução do tema na Igreja em 1572, o Papa Pio V instituiu Nossa Senhora da Vitória como uma festa litúrgica para comemorar a vitória na batalha. A vitória foi atribuída à intercessão da Virgem Maria por ter sido feita uma procissão do rosário naquele dia na Praça de São Pedro, em Roma, para o sucesso dos cristãos. A partir de então começou-se a difundir entre os católicos o mito de que a vitória teria sido fruto de uma intervenção da Virgem Maria. Em 1573, Papa Gregório XIII mudou o título da comemoração para Festa do Santo Rosário. No Vaticano II a festa foi renomeada para Nossa Senhora do Rosário com o objetivo de esvaziá-la de seu conteúdo belicoso e xenófobo -como se vê, o espírito dos padres conciliares não é um consenso na Igreja.

Veja a ilustração que demonstra a presença dos católicos poloneses nas fronteiras do país. O objetivo foi o de mostrar uma Polônia “cercada” contra os refugiados:

Duas semanas depois, o arcebispo de Gniezo e primado polonês Wojciech Polak, alinhado ao Papa Francisco, advertiu: “se escuto um protesto contra os refugiados com a participação de meus sacerdotes, a resposta será rápida; cada sacerdote que se juntar a isso será suspenso” (aqui). A luta na Igreja polonesa é encarniçada, mas os conservadores não se atemorizaram diante das advertência de com Polak.

Em 11 de novembro, mais de 60 mil foram às ruas, numa noite de sábado, na “Marcha da Independência”, evocativa da restauração do país depois da I Guerra Mundial. Na reportagem do Avvenire, jornal da conferência dos bispos da Itália, descreveu-se assim a manifestação na principal praça de Varsóvia:

“Na praça, a extrema direita desfilou com o slogan ‘Queremos Deus’, um frase de uma velha canção tradicional polonesa. Os oradores do palco lançaram gritos contra os liberais e pediram que se defendam os valores cristãos das supostas invasões islâmicas e do liberalismo. Participaram da marcha especialmente jovens, muitos com o rosto encoberto e com a bandeira verde pró-fascista dos anos 1930. ‘Foi uma bela visão’, comentou o ministro do Interior, Mariusz Blaszczak, enquanto a TV pública TVP descreveu os manifestantes como ‘patriotas que expressaram o seu amor pelo país’, e não como extremistas.”

No La Reppublica, foram registrados os textos das faixas nas mãos dos manifestantes: “Polônia pura, Polônia branca, Europa branca”, “Fora os refugiados”, “Rezem por um Holocausto dos muçulmanos”.

Outros católicos de direita da Europa acorreram para o evento, que em tudo lembra a marcha dos supremacistas brancos em Charlottesville (EUA), em 13 de agosto. Um deles foi Roberto Fiore,  líder do partido italiano de inspiração fascista Forza Nuova, que se recusa a reconhecer Francisco como Papa –para ele, Bento XVI continua à frente da Igreja.

O que se vê na Polônia é a resultante de um projeto de hegemonia católica dos restauracionistas inspirados pelos papados de João Paulo II e Bento XVI, nostálgicos do tempo da Cristandade; o outro projeto é aquele liderado pelo Papa Francisco, que enxerga o catolicismo como parte integrante de um mundo multifacetado e que só pode sobreviver numa perspectiva dialógica.

[Mauro Lopes]

 

3 respostas para “No que deu a Polônia dos sonhos de João Paulo II”

  1. As “uvas amargas” do tempo de João Paulo II e Bento XVI estão aí. Os cegos “papistas” de ontem, hoje são os “raivosos anti-este PP. Francisco”. Para os conservadores a História não é “mestra da vida”, mas espaço que, à força, devem sempre ocupar. Há uma fraqueza nisso tudo contra eles: o processo histórico, à luz da fé, e, naturalmente (cientificamente), é pascal. O ontem não se repete (a não ser em cacos carcomidos); o hoje se impõe como novidade a ser aconchegada ou rechaçada…o amanhã, sem negar que a Deus pertença, no entanto é entregue a Deus como fruto do discernimento histórico. Esse hum milhão de católicos poloneses, somado a outros tantos milhões, ficarão como refratários, não só da História, mas do próprio evangelho enquanto fermento na massa.

    1. Sim, padre Paulo, acredito nisso. É gente amedrontada diante do mundo, que busca nessas ofertas fáceis de respostas ideologizadas e fechadas seu “abrigo quentinho” neste mundo “hostil e frio”. Acreditam que com isso se manterão “puros” enquanto o resto da humanidade é toda corrompida, degradada. É uma perspectiva de chumbo e tristeza e raiva. Mas a proposta de Francisco está aí, para abrir as janelas coração e deixar a luz da alegria do Evangelho entrar! Paz e bem!

  2. O mundo em que as “organizações religiosas” são usadas por “FIEIS” que fazem de tudo para se afastarem DA PAZ E DA UNIDADE AMOROSA DE DEUS e se aproximarem da guerra e destruição de irmãos!

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