No cristianismo, o que importa não é a fé, mas o amor

O Papa abraça Vinicius Riva, na Praça São Pedro, em 6 de novembro de 2013

A seguir, o comentário do grande biblista italiano, o padre Alberto Maggi, sobre o Evangelho que encerra o Ano Litúrgico A (centralizado pelo texto de Mateus nas Liturgia da Palavra dominical).

O título da solenidade de hoje, Cristo Rei do Universo, é uma criação do Papa Pio XI, em 1925, no espírito da Igreja tridentina e que aspirava a poder e serviço aos ricos –mas isso é assunto para outro dia

Ele nos apresenta uma questão central: o cristianismo não é a religião da fé, mas a religião do amor: “O Deus de Jesus nunca vai perguntar a você se acreditou Nele, mas se você amou como Ele ama!”.

A tradução é do padre Meo Bergese.

[Mauro Lopes]

O texto da Liturgia deste domingo é um dos centrais do Novo Testamento, do capítulo 25 de Mateus (31-46):

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 31”Quando o Filho do homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’

40Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ 41Depois o rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar’. 44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’ 46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

 

O comentário de Alberto Maggi:

No Evangelho de Mateus que vamos comentar – cap. 25, versículos 31-46 – nos é dado o último grande ensinamento de Jesus. Para esse ensinamento Jesus serve-se de uma imagem conhecida no mundo hebraico: encontra-se no Talmud (livro sagrado e registro dos estudos rabínicos), onde se diz que “na vida do além, o Santo – bendito seja – tomaráo roloda Torá,a Lei,o colocarásobre os joelhose dirá: ‘Que venha quem se ocupou com isso e receberáa sua recompensa’”.

Pois bem, Jesus toma essas palavras como modelo, mas muda o conteúdo. O que determina a realização da pessoa humana não é a relação que ela teve com a lei, com Deus, mas a relação que ela teve com as outras pessoas. Porque isso? Por que, com Jesus, Deus – como o próprio evangelista Mateus descreve no início de seu evangelho – é o “Deus conosco”, o “Emanuel”. Portanto, com Jesus a orientação da humanidade não aponta mais para Deus, mas com Deus e como Deus para os seres humanos.

O Deus deJesusnunca vaiperguntar a você se acreditouNele,mas sevocê amou como Ele ama!

Vejamos, então, o ensinamento de Jesus. Jesus se apresenta como “o Filho do Homem” que vem “em sua glória” e divide os povos pagãos. Não é um juízo final. Israel já foi julgado neste evangelho! Aqui trata-se do julgamento “de todos os povos da terra”, quer dizer, daqueles que não conheceram a Deus.

Pois bem, “como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” o Filho do Homem vai separar as pessoas. Assim como o agricultor separa os bons frutos dos frutos podres e como o pescador, neste evangelho, sabe distinguir os peixes bons e descartar os podres, assim também o Senhor reconhece imediatamente quem tem orientado a sua própria vida para o bem dos outros!

”Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! ’”. Abençoa-los, porque eles são aquelesque realizaramo projeto de Deuspara a humanidade.

Em seguida, enumera seis ações de carência, de sofrimento, de necessidade que uma parte da humanidade sofre e, logo, enumera as respostas concretas que foram dadas.

Nessasseis ações, nenhuma tem a ver com comportamentosreligiosos, nenhuma tem a ver com atitudes em relação aDeus, mas, todas têm tudo a ver com as necessidades de uma humanidade carente!O que merece a vida eterna (“a herança do reino do meu Pai”) não é, portanto, o comportamentoreligioso, mas o comportamento humano.

O destaque, nessas seis situações, é o presidiário. “Eu estava na prisão e fostes me visitar”. Naquela época, o presidiário não despertava compaixão, não suscitava qualquer piedade, mas apenas desprezo! Visitar um prisioneiro significava, também, alimentá-lo, uma vez que os guardas carcerários não forneciam alimento algum.

Eis a surpresa daquelas pessoas às quais Jesus diz que foi a Ele que elas fizeram todas essas coisas:  “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber… etc.”.

Pois bem, a resposta de Jesus: “Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!”.

Quem são esses “menores”?Eles são os invisíveis dasociedade,sãoos necessitados, osmarginalizados, os excluídos. Portanto,Jesusconsidera tudo isso feito a Ele. Isso não significaque devemos amaros outros porJesus, mas amá-loscomJesusecomo Jesus!

Em seguida, logo, o outro lado da medalha! “Depois o rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! ’”. É importante sublinhar queenquanto Jesus chamou os justos de “benditos de meu Pai”, aquidiz“malditos”, mas não por seu Pai;Deus nãoamaldiçoa. Deusapenas é bênção!

Essa maldição- éa únicavez que apareceno Evangelho-recorda aprimeiramaldiçãona Bíblia,no livro deGênesis: é sobre Caim que havia assassinado seu próprio irmão.

Então,Jesusé muito severo.Não oferecerajudas, não responderàs necessidades básicas, aos sofrimentos,às necessidades dos outros, é o mesmo queassassinar as pessoas!São amaldiçoados não por Deus, mas, pelo seu próprio egoísmo, peloseu fechar-seperante as necessidades dos outros: é essa atitude que osamaldiçoa.Quem se fecha à vida, amaldiçoa a si mesmo!

“Malditos! Ide para o fogo eterno…” – o fogo eterno,significao quedestróitudo – “… preparado para o diabo…”. É a última vez, neste evangelho,que o diaboaparece em suadestruição final!  Isso significa sua derrotadefinitiva, porqueele termina no fogo eternoque é imagemdaquilo que tudo destrói.  “… e para os seus anjos” – isto é, os seus emissários, aqueles que se tornaram instrumentos de morte. Jesus não repreendeessas pessoaspor ter feitoalgo errado,mas por se tornareminstrumentos de morte, por que não fizeram o bemem momentos de necessidade, em tempos desobrevivência.

Esses também ficam surpreendidos – e demonstram-no. Repetindo todas as privações da humanidade, a fome, a sede…

Mas, é interessante o que dizem no final: “…e não te servimos?”. Os justos não falam isso! Evidentemente esses últimos acreditam ter servido ao Senhor, tê-lo servido na liturgia, no culto, na adoração… Mas não se deram conta de que, com Jesus, Deus não pede para ser servido, mas Ele próprio que é Deus se coloca ao serviço dos seres humanos, a fim de que, os homens, com Ele e como Ele se coloquem ao serviço dos outros.
E eis a sentência de Jesus: “Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!”. Portanto, mais uma vez, o que determina o sucesso na vida e nas atitudes da pessoa não é a relação havida com Deus, mas a relação tida com os outros. Quem se fechar aos outros, fecha-se a Deus!

“Portanto, estes irão para o castigo eterno”. Essa imagem, tirada do livro do profeta Daniel, capítulo 12, versículo 2, significa o fracasso total de suas próprias vidas. A palavra traduzida como “castigo” em grego significa “mutilar”.  A punição, portanto, não é devida ao Pai, mas eles mesmos se puniram a si próprios, porque a vida deles continuará mutilada, isto é, uma vida que não chegou à plenitude.

Portanto não é um castigo, mas o fracasso total! O Apocalipse definirá isso como “morte segunda”.

Mas o Evangelho termina com uma imagem positiva: “os justos irão para a vida eterna”. Aqueles que viveram fazendo o bem, comunicando vida aos que dela precisavam, esses  realizaram sua própria existência e, sobretudo, realizaram o projeto de Deus para a humanidade!

 

 

2 respostas para “No cristianismo, o que importa não é a fé, mas o amor”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *