Waackismo: racismo camuflado à brasileira

Leia o artigo do Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê neste Dia da Consciência Negra. Ele é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje.

A íntegra do artigo:

Padre Gegê

“Não caçamos pretos no meio da rua, a pauladas… Mas fazemos o que talvez seja pior”. (Nelson Rodrigues)

 

 

 

Inicio a reflexão sobre racismo/waackismo com a sincera e corajosa análise de Nelson Rodrigues, que, de algum modo, sumariza todo o texto. Escreve o branco dramaturgo. Repito: branco: “A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco do Brasil um dos mais racistas do mundo”.

Na linha da obra de Gabriel Garcia Marques, pergunto: Seria a vida do negro no Brasil, Crônica de uma morte anunciada?

Crio o termo “waackismo” (termo alusivo ao jornalista da Globo, William Waack) como expressão adequada para a caracterização do racismo à brasileira que é, a despeito do seu sinistro mascaramento, real e global. Waackismo, em nossa reflexão, é a engenhosa produção patenteada da ideologia colonial-escravista. Reitero, waackismo é tradução fidedigna e reeditada do racismo à brasileira. Maior prova de sua eficácia é quando um cidadão comete um crime de racismo e, pelo simples fato dele negar o ato, a sua palavra valer mais que a evidência do fato. Como uma sociedade com mentalidade escravocrata poderia contradizer a palavra de um branco? Faz parte de todo sistema de dominação condenar a vítima e condecorar carrascos; crucificar Jesus e soltar Barrabás. Nessa perspectiva, não me surpreenderia se o jornalista Wiliam Waack pedisse indenização a cada negro existente no mundo por um, supostamente, negro, ter perturbado a “paz” branca. Também não me surpreenderia se obtivesse um número significativo de veneráveis cúmplices e aguerridos defensores.

À guisa de introdução, deixo uma questão de ordem filosófica, isto é, do pensamento e da reflexão: o racismo/waackismo no Brasil tipifica a “banalidade do mal”, segundo acepção da pensadora Hannah Arendit ou a maldade produzida e justificada a partir do naturalizado e banalizado? Se a segunda posição estiver mais próxima da verdade (e é essa formulação que sustento) o racismo/waackismo constitui o modus operandi da maldade/violência colonial-escravista de ontem e de hoje. Dizendo de outro modo, no Brasil se inventou, historicamente, uma forma engenhosa, sutil e camuflada de subalternizar, violentar, ferir, enxotar, segregar e inferiorizar a população negra.

Essa sofisticada e macabra forma de violentar dispensa quase sempre, “pauladas em praça pública”, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, ou pelourinhos, mas isso não a faz menos perversa, menos traumática e menos dolorosa. Desse modo, independente da forma, no Brasil de ontem e de hoje, no que se refere ao negro/negra, se mata com a intenção de matar — física, moral, social ou psicologicamente. Entender, pois o racismo/waackismo no Brasil e suas escabrosas e nefastas consequências (inclusive à saúde da população negra) implica entender que uma agressão psicológica ou moral pode produzir mais e irreversíveis danos a uma pessoa ou coletividade que um homicídio ou chacina.

Singular atenção merece, a meu juízo, as pesquisas sobre o trauma (sofrimento) da população negra em virtude da escravidão que há quatro séculos alimentou a sociedade brasileira, inclusive a Igreja. Não é possível a uma sociedade que se mostra sensível ao bullying de seus filhos e filhas, não se permitir pensar nas consequências históricas e nos sofrimentos morais e psicológicos dos descendentes de milhões e milhões de seres humanos, que durante quatro séculos foram tratados como animais ou peças no projeto escravista. Waackismo é sim forma de genocídio (mais simbólico que físico), forma sinistra e, por vezes cordial, mas com poder destrutivo. Waackismo é o sapato branco que, desde a escravidão, foi treinado a pisar pele e alma negras, na surdina e no silêncio, como se fossem baratas…

O waackismo tem um potencial sádico capaz de (sofisticadamente) triturar, desqualificar, inferiorizar, invisibilizar e segregar; e o faz, em geral, não às gargalhadas, mas mediante sorriso contido… Às escondidas! Ele não se manifesta apenas nos “deslizes pessoais” (conforme o caso do jornalista em questão); o waackismo está nas mentes, nas praças, nos clubes, nos bancos, nos livros didáticos (ou não), nas igrejas, nas escolas, nas mídias, nas redes, nas praias etc… Quando ligamos a TV e não vemos negros, quando entramos numa universidade e não vemos negros, quando contemplamos os altos cargos de nossos país e não encontramos a população negra, lá está o waackismo sorridente.

Em se tratando de Brasil, o waackismo tem o “dom” da ubiquidade; é produto da dissimulação nacional — 100% Global! Em resumo, o racismo/waackismo no Brasil é mais invisível que visível, mais silencioso que audível; é mais nas entrelinhas que nos textos, porém, quando o latente se torna patente (como o caso do jornalista Willian Waack) toda sociedade (negros e brancos) deve se engajar para que se puna, segundo a Lei, a fim de que direitos inalienáveis sejam garantidos e o Brasil cresça rumo a uma verdadeira e efetiva democracia racial. No caso concreto do jornalista, não está em discussão o conjunto de sua vida, tampouco se massacra negro diuturnamente. Estamos diante de um fato ou um ato público de racismo, e é sobre ele que nos debruçamos, sabedores que ele (o ato) esconde/revela um sistema e uma cultura vincada e estruturalmente racista.

Abdias Nascimento, objeto de minha tese de doutorado na PUC-SP, é figura icônica no que se refere ao desmascaramento do “mito da democracia racial no Brasil”, mito segundo o qual o Brasil seria a terra do respeito e da igualdade — um paraíso racial. Abdias Nascimento, assim como qualquer negro no Brasil, desde cedo sentiu em sua pele a dor de pertencer a uma sociedade ambígua, dissimulada e perversa com a população negra. Para Abdias racismo é o arame farpado” da sociedade.

No ano de 2016 foi relançada pela Editora Perspectivas sua obra atualíssima intitulada sugestiva e acertadamente “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. Florestan Fernandes prefaciando a edição brasileira afirmou a contribuição que o livro deu por usar o conceito de genocídio aplicado a situação de matança física e simbólica do negro no Brasil. Segundo Florestan, “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora”. E pergunta: “O que se fez e se continua a fazer com o negro e com os seus descendentes merece outro qualitativo”?

No prefácio da edição nigeriana, Wole Soyinka advertiu, sem evasiva, que “a expressão ‘genocídio’ chocará, e o faz porque demole o tabu ou mito intocável da ideologia do paraíso racial”.

Sublinhou Abdias: “Devo observar que este assunto de ‘democracia racial’ está dotado, para o oficialismo brasileiro, das características intocáveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questão fechada, terreno proibido sumamente perigoso”. E ainda: “Ai daqueles que desafiam as leis deste segredo!”. Desse modo, qualquer pessoa, sobretudo, negro, que denunciar o racismo brasileiro está condenado a ser acusado de fazer racismo às avessas ou de negro recalcado. Contudo, enfatizou Abdias: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país”.

Desse modo, o caso do jornalista ajuda a compreender o racismo no Brasil, o debate ajuda na construção de novas mentalidades e a punição na forma da Lei ajuda ao Brasil a curar suas patologias mascaradas. Minimizar e não punir o ato significaria legitimar o sistema, o que nos levaria a concluir que no Brasil os brancos gozam de uma espécie de “imunidade racial” — o que seria desastroso, não apenas para os negros, mas para o processo democrático e civilizatório, uma vez que tratar do racismo (e de quaisquer outras violações dos Direitos Humanos) diz respeito a toda sociedade. Escreve Hannah Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter Direitos”.

A tua raça de aventura quis ter o céu, a terra, o mar / Na minha há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar… / A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar / A minha não quer ir nem vir / A minha raça quer passar!”. (Cecília Meireles)

Engajada, Feliz e Esperançosa Semana Preta da Consciência Negra!

 

Francisco segue os passos de Jesus e escolhe os mesmos interlocutores

Um dos traços definidores da mensagem de Jesus é a escolha de seus interlocutores. Ele não escolheu dialogar com reis, príncipes, chefes de governo, com os ricos. Sua escolha foi a da interlocução com os pobres, os marginalizados. O Sermão da Montanha é um momento culminante dessa escolha (Mt 5-7). Jesus subiu ao monte para falar à “multidão” de gente sem nada. Assim foi durante toda sua jornada de três anos. Examine-se a agenda de Francisco. É a essa mesma “multidão” que ele fala, com ela encontra-se, senta-se para partilhar o pão e a esperança.

Três encontros próximos são especialmente eloquentes quanto a essa escolha do Papa. No domingo (19), quando será celebrado o 1º Dia Mundial dos Pobres, instituído por ele, Francisco rezará a Missa com 4 mil deles, e almoçará com 1.500 em plena Sala Paulo VI (sacrilégio, gritarão os católicos conservadores, como o fizeram quando o Papa almoçou com um grupo de pessoas pobres na basílica de São Petrônio em Bolonha, em setembro).

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A Igreja dos “príncipes” contra Francisco -um vídeo espantoso

O vídeo que este post apresenta é, talvez, a mais condensada e simbólica representação da oposição conservadora ao Papa Francisco e seu projeto. A  cena aconteceu numa das basílicas do Santuário de Fátima, em  Portugal. O personagem é o cardeal estadunidense Raymond Burke, líder da oposição a Francisco.

São 14min15 impressionantes.

Mais da metade do tempo dedica-se a mostrar o cardeal sendo montado, em pleno altar –o vídeo começa quando a vestição de Burke já havia sido iniciada, o que leva a crer que a montagem completa talvez tenha se prolongado por  mais de 10 minutos.

O ambiente da cena oscila entre o surreal e o macabro, algo como um filme dos anos 1970/80 sobre a realeza decadente. O “príncipe” cercado por uma corte de homens de cenho cerrado, vestido com capas negras ou púrpuras, algo como um retrato em negativo da klu klux klan, sem os capuzes.

Aos 3min25 há uma cena difícil de acreditar que tenha acontecido depois de todos os escândalos de pedofilia e abuso de menores da Igreja: um menino leva ao cardeal seu barrete cardinalício, um chapéu que é um símbolo de caráter evidentemente fálico do poder dos hierarcas da Igreja. O menino ajoelha diante de Burke um sem-número de vezes e é orientado a beijar uma das pontas do barrete e da capa magna, um verdadeiro fetiche dos conservadores – é simbólico que um homem, adulto, fique todo o tempo conduzindo o menino no ritual de ajoelhar e beijar.

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Sinais de uma Igreja em saída: grávida de um mundo (tempo) novo

 

Romaria dos Mártires da Caminhada em São Felix do Araguaia (MT), 2016

Um artigo especial de Eduardo Brasileiro, educador popular, sociólogo e membro da equipe de articulação e coordenação do coletivo IPDM (Igreja – Povo de Deus – em Movimento):

As Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) atravessam os quase 30 anos de democratização do Brasil. Por isso, seus membros em especial nas cidades, são símbolos do que há de mais valioso na luta contra a ditadura civil militar e a dominação do capitalismo neoliberal: a resistência mística por outros mundos possíveis. Todavia, os rostos atravessados de tempo não escondem o desamparo político sentido por toda a militância social que o engloba. A forte análise que elaboram seus quadros também não escondem o maior desafio desses pequenos grupos espalhados pelo Brasil: a renovação de seus membros.

A igreja do Brasil perdeu o trem. Em todas as reuniões de grupos que ouvimos o povo falar, o trabalho de educação popular precisa ser retomado desde o início. A dimensão sociopolítica do Cristo tem de ser saboreada em banquete semanal e reafirmar o papel do cristão de oposição à sociedade capitalista, é a tarefa pedagógica inicial. Por isso, reunidos em pequenas comunidades e até mesmo fora de comunidades – dado que foram expulsos após avanços conservadores nas dioceses do Brasil inteiro -, a mística dos mártires beberá das idiossincrasias de um Brasil de autoritarismo nas periferias onde morrem milhares de jovens negros e pobres e de um feminicídio velado, sobretudo pelas igrejas que fazem campanha contra a diversidade de gênero.

Num movimento internacional, os donos do poder, nunca estiveram em momento tão favorável. Segundo relatório da OXFAM/2017 sobre as desigualdades brasileiras[1], seis pessoas possuem riquezas equivalentes ao patrimônio de 100 milhões de brasileiros. Esse disparate além de criminoso é um convite para o povo desobedecer qualquer lei até que seja julgada e punido todo esse acumulo de dinheiro nas mãos de um grupo de homens brancos. Afinal, segundo a mesma organização a diferença salarial entre mulheres e homens acabará somente em 2047, enquanto a de brancos e negros, somente em 2089. O Brasil é um país de dimensões desiguais continentais. E, por isso mesmo, é um país onde precisa-se ser aprofundado uma reinvenção de lutas do mundo urbano que resistam a litigância da desigualdade social.

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No Sermão da Montanha, Jesus convoca os pobres: em marcha!

Ocupação dos sem teto em São Bernardo do Campo. A eles Jesus se dirige: em marcha!

Neste domingo (6), cristãos católicos celebram a solenidade de Todos os Santos –a data original é 1 de novembro, mas há países, entre os quais o Brasil, nos quais ela é deslocada para o domingo seguinte. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que toma os capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Mt 5,1-12a:

“Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

1.  O que fala Jesus

Uma leitura de fato colada ao texto, ao seu espírito e ao contexto indicará claramente: a interpretação açucarada que se disseminou sobre o discurso  é em todo falsa e enganadora.

Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto-programa àqueles com os quais desejou caminhar e caminhou efetivamente.

Há um problema relevante nas traduções que são oferecidas nas diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação desta versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema a seguir.

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Papa Francisco vai aos “índios”

Líderes da tribo Shipibo, da Amazônia peruana

Um artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica) e da Comissão Pastoral da Terra do São Francisco. Sobre um encontro especial do Papa Francisco em Puerto Maldonaldo em janeiro de 2018, com os povos originários da Amazônia.

“Esperamos que Francisco retome o melhor do Conselho Missionário Indigenista, o CIMI, que não foi aos indígenas para fazer prosélitos e nem os converter ao cristianismo, mas para colaborar para que sobrevivam e mantenham seus territórios e seus modos de vida. Com esses missionários a Igreja Católica deu vários passos à frente na relação com a alteridade das populações originárias, seguindo a melhor tradição de Bartolomeu de Las Casas.

Não se obriga um muçulmano a ser católico, não se obriga um pai de santo a ser evangélico, não se obriga um Cariri ou Guarani a ser cristão. Eles têm sua própria religião e suas opções tem que ser respeitadas. O evangelho é apenas um anúncio e adere livremente quem quiser.”

Leia o artigo na íntegra: 

Dia 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco irá a Puerto Maldonado, Peru, encontrar-se exclusivamente com povos originários da Amazônia. Tudo indica que sequer haverá reuniões particulares com autoridades, sejam elas políticas ou mesmo eclesiásticas.

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