O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia

“O Papa é de esquerda?”, pergunta Le Figaro Maganize. Trechos do livro “Política e Sociedade”

A Figaro Magazine, revista do jornal francês Le Figaro, publicou na última sexta-feira (1) um longo extrato de trechos das sete entrevistas/conversas  do Papa Francisco com o pesquisador francês Dominique Wolton que estarão no livro Política e Sociedade a ser lançado nos próximos dias. O título da capa da revista francesa pergunta: “O Papa é de esquerda?”. Já está claro: ele é sim, -o que não quer dizer que comungue de todas as ideias comuns ao ideário progressista-libertário, como em sua visão sobre o casamento de homossexuais.

A revelação de que ele se consultara com uma psicanalista na Argentina, aos 42 anos, já havia vazado na última sexta. Mas a íntegra do que publicou Le Figaro Magazine tem muito mais:

  • ele revela ter aprendido sobre política com uma comunista, assassinada pelos militares durante a ditadura argentina;
  • afirma peremptoriamente que  “a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo.”;
  • ao falar sobre os refugiados, explicita: “Nossa teologia é uma teologia de migrantes.”;
  • critica os tradicionalistas: “a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes…”;
  • defende a absolvição nos casos de aborto;
  • explica o direito à comunhão dos divorciados em segunda união;
  • defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas que a palavra “casamento” seja reservada à união entre homem e mulher;
  • critica o rigor moralista voltando à repressão sexual: “Há um grande perigo de se condenar apenas a moral abaixo do cinto”.

Mas há mais, muito mais. Leia a seguir:

Refugiados e teologia migrante

Dominique Wolton: O senhor disse em Lesbos, em janeiro de 2016, uma coisa bela e inusual: “Somos todos migrantes, e somos todos refugiados.” No momento em que as potências europeias e ocidentais estão se fechando, o que dizer além desta magnífica frase? O que fazer?

Papa Francisco: Há uma frase que eu disse, e que as crianças migrantes portavam em suas camisetas: “Eu não sou um perigo, estou em perigo.” Nossa teologia é uma teologia de migrantes. Porque nós todos o somos desde o chamado de Abraão, com todas as migrações do povo de Israel, inclusive o próprio Jesus era um refugiado, um imigrante. E depois, existencialmente, pela fé, nós somos migrantes. A dignidade humana implica necessariamente ‘estar a caminho’. Quando um homem ou uma mulher não está a caminho, é uma múmia. É uma peça de museu. A pessoa não está viva.

Dominique Wolton: Um ano e meio após o senhor pronunciar essa frase em Lesbos, a situação piorou. Muitas pessoas admiraram o que o senhor disse, mas depois, nada. O que o senhor diria hoje?

Papa Francisco: O problema começa nos países de onde vêm os migrantes. Por que eles deixam suas terras? Por falta de trabalho, ou por causa da guerra. Estas são as duas principais razões. A falta de trabalho, porque eles foram explorados – penso nos africanos. A Europa explorou a África… Não sei se podemos dizê-lo! Mas algumas colônias europeias… sim, elas a exploraram. Li que um Chefe de Estado africano eleito recentemente teve como seu primeiro ato de governo submeter ao Parlamento uma lei de reflorestamento de seu país – a qual, aliás, foi promulgada. As potências econômicas do mundo tinham cortado todas as árvores. Reflorestar. A terra está seca por ter sido muito explorada, e não há mais trabalho. A primeira coisa que deve ser feita, como eu disse perante as Nações Unidas, no Conselho da Europa, em toda parte, é encontrar fontes de criação de emprego e investir nelas. É verdade que a Europa também deve investir internamente. Porque também aqui há um problema de desemprego. A outra razão das migrações são as guerras. Podemos investir, as pessoas terão uma fonte de trabalho e não precisarão sair, mas se houver guerra, elas precisarão fugir. Agora, quem faz a guerra? Quem dá armas? Nós.

 

A crise e o fechamento da Europa

Papa Francisco: Creio que a Europa se tornou uma “vovó”. Quando eu gostaria de ver uma Europa-mãe. Em termos de nascimentos, a França está no topo dos países desenvolvidos, com, acredito, mais de 2%. Mas a Itália, em torno de 0,5%, é muito menor. O mesmo vale para a Espanha. A Europa pode perder o senso de sua cultura, de sua tradição. Pensemos que é o único continente que nos deu uma riqueza cultural tão grande, e isso eu enfatizo. A Europa deve se reencontrar retornando às suas raízes. E não ter medo. Não ter medo de se tornar uma Europa-mãe. (…)

Dominique Wolton: Qual é a sua principal preocupação e principal esperança em relação à Europa?

Papa Francisco: Eu não vejo outros Schumann, eu não vejo outros Adenauer…

Dominique Wolton: (risos) No entanto, há o senhor. E outros…

Papa Francisco: A Europa, no momento, tem medo. Ela se fecha, fecha, fecha… (…) Além do mais, a Europa é uma história de integração cultural, multicultural muito forte, como você diz. Desde sempre. Os lombardos, nossos lombardos de hoje, são bárbaros que chegaram há muito tempo… E então tudo se misturou e nós temos nossa cultura. Mas qual é a cultura europeia? Como eu definiria hoje a cultura europeia? Sim, ela tem importantes raízes cristãs, é verdade. Mas isso não é suficiente para defini-la. Existem todas as nossas aptidões. Essas aptidões para integrar, para receber os outros. Há também a linguagem na cultura. Em nossa língua espanhola, 40% das palavras são árabes. Por quê? Porque eles estiveram lá durante sete séculos. E deixaram a sua marca. (…)

 

Argentina: uma identidade misturada

Dominique Wolton: No que o senhor se sente argentino? No que consiste a seu ver a identidade argentina?

Papa Francisco: Na Argentina existem nativos. Temos povos indígenas. A identidade argentina é mista. A maioria dos argentinos é o resultado da miscigenação. Porque as ondas de imigração foram misturadas, misturadas e misturadas… Penso que a mesma coisa aconteceu nos Estados Unidos, onde ondas de imigração misturaram as pessoas. Os dois países são bastante semelhantes. E eu, eu sempre me senti um pouco assim. Para nós era absolutamente normal ter na escola várias religiões juntas. (…) Alguns países conseguiram integrar os imigrantes em suas vidas. Mas outros, por duas ou três gerações, transformaram-nos em “objetos”, nos guetos. Sem integração.

 

Igreja e sociedade

Papa Francisco: O Estado laico é uma coisa saudável. Há uma laicidade saudável. Jesus disse que é preciso dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Nós somos todos iguais perante Deus. Mas acredito que em alguns países como a França, essa laicidade tem uma coloração muito forte herdada do Iluminismo, que constrói um imaginário coletivo no qual as religiões são vistas como uma subcultura. Eu creio que a França – é a minha opinião pessoal, não a oficial da Igreja – deveria “elevar” um pouco o nível de sua laicidade, no sentido de que deveria dizer que as religiões também fazem parte da cultura . Como expressar isso respeitando a laicidade? Através da abertura à transcendência. Todos podem encontrar sua forma específica de abertura. Na herança francesa, o Iluminismo pesa demais. Compreendo esse legado da história, mas é uma tarefa pendente ampliá-lo. Há governos, cristãos ou não, que não admitem a laicidade. O que significa um estado laico “aberto à transcendência”? Que as religiões são parte da cultura, que não são subculturas. Quando se diz que não se devem usar cruzes visíveis ao redor do pescoço ou que as mulheres não precisam usar isso ou aquilo, é uma estupidez. Porque ambas as atitudes representam uma cultura. Aquele leva a cruz, o outro leva outra coisa, o rabino leva a kipá, e o papa leva o solidéu! (risos)… Eis a laicidade saudável! O Concílio Vaticano II fala muito bem disto, com muita clareza. Eu acredito que há exageros sobre esses assuntos, especialmente quando a laicidade é colocada acima das religiões. As religiões não seriam parte da cultura? Seriam subculturas?

 

O tema da castidade clerical

Papa Francisco: Renunciar à sexualidade e escolher o caminho da castidade ou da virgindade constitui uma vida inteira consagrada. E qual é a condição sem a qual esse caminho morre? É que esse caminho conduz à paternidade ou à maternidade espiritual. Um dos males da Igreja são os sacerdotes “solteirões” e as irmãs “solteironas”. Porque eles estão cheios de amargura. Por outro lado, aqueles que chegaram a essa paternidade espiritual, seja através da paróquia, da escola ou do hospital, estão indo bem… E é a mesma coisa para as irmãs, porque elas são “mães” (…) É uma renúncia voluntária. A virgindade, masculina ou feminina, é uma tradição monástica que precede o catolicismo. É uma procura humana: renunciar [ao casamento] para buscar Deus na origem, para a contemplação. Mas uma renúncia deve ser uma renúncia fecunda, que conserva uma espécie de fecundidade diferente da fecundidade carnal, da fecundidade sexual. Mesmo na Igreja existem sacerdotes casados. Todos os sacerdotes orientais são casados, isso existe. Mas a renúncia ao casamento para o reino de Deus é um valor em si. Significa renunciar para estar ao serviço, para melhor contemplar.

 

Os padres abusadores

Papa Francisco: Antes se transferia o padre, mas o problema se transferia com ele. A política atual é a que Bento XVI e eu criamos através da Comissão para a Proteção de Menores, fundada há dois anos aqui no Vaticano. Proteção de todos os menores. É para fazer tomar consciência do que é esse problema. A Igreja mãe ensina como prevenir, como fazer uma criança falar, de modo que ele diga a verdade aos pais, conte o que está acontecendo, etc. É um caminho construtivo. A Igreja não deve tomar uma posição defensiva. Se um padre é um abusador, é alguém doente. De quatro abusadores, dois foram abusados quando eram crianças. Estas são estatísticas dos psiquiatras.

 

Casamento e união civil

Papa Francisco: O que pensar do casamento entre pessoas do mesmo sexo? O “casamento” é uma palavra histórica. Sempre na humanidade, e não apenas na Igreja, é um homem e uma mulher. Não se pode mudar isso assim, ao bel-prazer… (…) Não se pode mudar isso. Essa é a natureza das coisas. Elas são assim. Chamemos, pois, isso de “uniões civis”. Não brinquemos com as verdades. É verdade que por trás disso existe a ideologia de gênero. Nos livros também, as crianças aprendem que se pode escolher o sexo. Porque o gênero, ser uma mulher ou um homem, seria uma escolha e não um fato da natureza? Isso favorece este erro. Mas digamos as coisas como elas são: o casamento é entre um homem e uma mulher. Esse é o termo preciso. Chamemos a união do mesmo sexo de “união civil”.

 

Os tradicionalistas e as viseiras

Papa Francisco: Como cresce a tradição? Cresce como cresce uma pessoa: através do diálogo, que é como a amamentação para a criança. Diálogo com o mundo que nos rodeia. O diálogo faz crescer. Se não dialogarmos, não podemos crescer, permanecemos fechados, pequenos, um anão. Não posso contentar-me em caminhar com viseiras de cavalo, tenho que olhar e dialogar. O diálogo faz crescer, e faz crescer a tradição. Dialogando e ouvindo outra opinião, eu posso, como no caso da pena de morte, da tortura e da escravidão, mudar o meu ponto de vista. Sem mudar a doutrina. A doutrina cresceu junto com a compreensão. Esta é a base da tradição.

Pelo contrário, a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes… O que o Vaticano II fez da liturgia foi realmente uma coisa muito boa. Porque abriu o culto de Deus ao povo. Agora, o povo participa.

 

O diálogo com os muçulmanos avança

Dominique Wolton: E sobre o diálogo com o Islã, não seria necessário pedir um pouco de reciprocidade? Não há liberdade real para os cristãos na Arábia Saudita e em alguns países muçulmanos. É difícil para os cristãos. E os fundamentalistas islâmicos assassinam em nome de Deus…

Papa Francisco: Eles não aceitam o princípio da reciprocidade. Alguns países do Golfo também estão abertos e nos ajudam a construir igrejas. Por que eles estão abertos? Porque têm trabalhadores filipinos, católicos, indianos… O problema na Arábia Saudita é realmente uma questão de mentalidade. Com o Islã, no entanto, o diálogo está progredindo bem, porque, eu não sei se você sabe, mas o Imam de Al-Azhar veio nos visitar. E haverá uma reunião lá: irei. Eu penso que lhes faria bem fazer um estudo crítico do Alcorão, como fizemos com nossas Escrituras. O método histórico e crítico de interpretação fá-los-á evoluir.

 

A Igreja é o povo, não os bispos, o papa, os padres

Papa Francisco: Há os pecados dos líderes da Igreja, que não têm inteligência ou se deixam manipular. Mas a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo. E o Vaticano II disse: “O povo de Deus, em seu conjunto, não erra”. Se você quer conhecer a Igreja, vá a uma aldeia onde se vive a vida da Igreja. Vá a um hospital, onde há tantos cristãos que vêm ajudar, leigos, irmãs… Vá à África, onde encontramos tantos missionários. Eles queimam suas vidas lá. E fazem verdadeiras revoluções. Não para converter, é em outra época que se falava de conversão, mas para servir.

 

A santidade no cotidiano

Papa Francisco: Há tanta santidade. É uma palavra que eu quero usar hoje na Igreja, mas no sentido da santidade diária, nas famílias… E esta é uma experiência pessoal. Quando falo dessa santidade comum, que eu chamei da outra vez de “classe média” da santidade… você sabe o que isso me evoca? O Angelus de Millet. É o que me vem à mente. A simplicidade desses dois camponeses que rezam. Um povo que reza, um povo que peca e depois se arrepende de seus pecados. Há uma forma de santidade oculta na Igreja. Há heróis que partem em missão. Vocês, franceses, fizeram muito, alguns sacrificaram suas vidas. Isto é o que mais me atrai na Igreja: sua santidade fecunda, ordinária. Essa capacidade de se tornar santo sem ser notado.

 

O rigorismo  moral que só olha para o sexo

Papa Francisco: Mas nós, católicos, como ensinamos a moralidade? Não se pode ensiná-la com preceitos como: “Tu não podes fazer isso, tu deves fazer isso, tu deves, tu não deves, tu podes, tu não podes.” A moral é uma consequência do encontro com Jesus Cristo. É uma consequência da fé, para nós católicos. E para os outros, a moral é uma consequência do encontro com um ideal, ou com Deus, ou consigo mesmo, mas com a melhor parte de si mesmo. A moral é sempre uma consequência.

Dominique Wolton: A mensagem mais radical da Igreja desde sempre, a partir do Evangelho, é de condenar a loucura do dinheiro. Por que essa mensagem não está sendo ouvida?

Papa Francisco: Nunca acontece? Mas porque alguns preferem falar de moral nas homilias ou nas cátedras de teologia. Há um grande perigo para os pregadores, que é o de cair na mediocridade. De não condenar senão [as violações] à moral – peço desculpas – “abaixo do cinto”. Mas dos outros pecados, que são os mais graves, o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida… não se fala tanto assim.

 

A abertura aos divorciados

Papa Francisco: (…) há o que eu fiz depois dos dois sínodos, Amoris Laetitia… É algo claro e positivo, que alguns com tendências muito tradicionalistas combatem dizendo que não é a verdadeira doutrina. A respeito das famílias feridas, digo no oitavo capítulo que existem quatro critérios: acolher, acompanhar, discernir as situações e integrar. E essa não é uma norma fixa. Isso abre uma via, um caminho de comunicação. Perguntaram-me imediatamente: “Mas pode-se dar a comunhão aos divorciados?”. Eu respondo: “Fale, então, com o divorciado, converse com a divorciada, acolham, acompanhem, integrem, discirnam!” Infelizmente, nós sacerdotes, estamos acostumados com normas fixas. Com padrões fixos. E é difícil para nós “acompanhar no caminho, integrar, discernir, elogiar”. Mas a minha proposta é essa. (…) O que realmente acontece é que se ouve as pessoas dizerem: “Eles não podem comungar”, “Eles não podem fazer isso e aquilo”: a tentação da Igreja está aí. Mas não, não e não! Esse tipo de proibições é o que se encontra no drama de Jesus com os fariseus. O mesmo! Os grandes da Igreja são aqueles que têm uma visão que vai além, aqueles que compreendem: os missionários.

 

Absolvição para o aborto

Papa Francisco: Durante o Jubileu da Misericórdia houve o fato de estender o poder de absolver o pecado do aborto a todos os sacerdotes. Atenção, isso não significa banalizar o aborto. O aborto é grave, é um pecado grave. É o assassinato de um inocente. Mas se há pecado, devemos facilitar o perdão. Então, no final, decidi que essa medida seria permanente. Cada sacerdote agora pode absolver esse pecado.

Dominique Wolton: Sua posição aberta e humanista suscita oposições na Igreja Católica.

Papa Francisco: Uma mulher [que abortou e] que tem uma memória física da criança, porque é frequente o caso, e que chora, que chora há muitos anos sem ter a coragem de ir ver o padre… quando ouviu isso que eu disse… você percebe quantas pessoas respiram finalmente?

 

A rigidez é incapaz da comunicação

Papa Francisco: Atrás de cada rigidez há uma incapacidade de se comunicar. E eu sempre encontrei… Tome esses sacerdotes rígidos que temem a comunicação, tomem os políticos rígidos… É uma forma de fundamentalismo. Quando encontro uma pessoa rígida, e especialmente um jovem, eu digo a mim mesmo que ele está doente. O perigo é que eles buscam segurança. Eu lhe conto a este respeito uma anedota. Quando eu era mestre de noviços, em 1972, acompanhava-se durante um ou dois anos os candidatos que queriam entrar na Companhia. (…)

Lembro-me de um deles, que se via um pouco rígido, mas que tinha grandes qualidades intelectuais e que eu achava de muito bom nível. Havia outros, muito menos brilhantes, a cujo respeito eu me perguntava se passariam. Eu pensava que eles seriam recusados, porque tinham dificuldades, mas eventualmente foram admitidos porque tinham essa capacidade de crescer, de ter sucesso. E quando o exame do primeiro aluno chegou, [os examinadores] disseram imediatamente não.

“Mas por quê? Ele é tão inteligente, ele é cheio de qualidades.

“— Ele tem um problema – explicaram-me –, ele é um pouco empolado, um pouco artificial sobre certas coisas, um pouco rígido.

“— E por que ele é assim?

“— Porque não tem segurança de si mesmo.”

Sente-se que esses homens pressentem de modo inconsciente que são “doentes psicologicamente”. Eles não sabem, eles o sentem. E vão, portanto, procurar estruturas fortes que os defendam na vida. Eles se tornam policiais, se alistam no exército ou na Igreja. Instituições fortes, para se defenderem. Eles fazem bem o seu trabalho, mas uma vez que se sentem seguros, inconscientemente a doença se manifesta. E sobrevêm então os problemas. E eu perguntei: “Mas, doutora, como se explica isso? Eu não compreendo bem.” E ela me deu esta resposta: “O senhor nunca se perguntou por que há policiais torturadores? Esses rapazes, quando chegaram, eram rapazes valentes, bons, mas doentes. Então eles ficaram confiantes de si mesmos e a doença começou.” Eu tenho medo da rigidez… Prefiro um jovem desordenado, com problemas normais, que se irrita… porque todas essas contradições o ajudarão a crescer.

 

Mãe, avós, pai

Dominique Wolton: (…) Qual é o papel das mulheres em sua vida?

Papa Francisco: Pessoalmente, agradeço a Deus por ter conhecido verdadeiras mulheres na minha vida. Minhas duas avós eram muito diferentes, mas ambas eram mulheres verdadeiras. Eram mães, trabalhavam, eram corajosas, passavam o tempo com seus netos… Mas sempre com essa dimensão da mulher… (…) Também havia minha mãe. Minha mãe… Vi minha mãe sofrer, após o último parto – houve cinco – quando contraiu uma infecção que a deixou sem poder andar por um ano. Eu a vi sofrer. E vi como ela conseguiu evitar desperdiçar qualquer coisa. Meu pai tinha um bom trabalho, era um contador, mas seu salário apenas nos permitia chegar ao fim do mês. E eu vi essa mãe, a maneira como ela enfrentava os problemas um após o outro… (…) Era uma mulher, uma mãe. E também as irmãs… É importante para um homem ter irmãs, muito importante. Depois, havia as namoradas da adolescência, as “pequenas noivas”… Estar sempre em contato com as mulheres enriqueceu-me. Eu aprendi, mesmo na idade adulta, que as mulheres veem as coisas de maneira diferente dos homens. Porque em face de uma decisão a tomar, em face de um problema, é importante ouvir ambos.

 

Aprendizado político: com uma comunista

Dominique Wolton: O senhor conheceu mulheres, depois da infância e da adolescência, que o marcaram?

Papa Francisco: Sim. Há uma que me ensinou a pensar sobre a realidade política. Ela era comunista.

(…) Dominique Wolton: Qual era o seu primeiro nome?

Papa Francisco: Esther Ballestrino de Careaga.

Dominique Wolton: Ela ainda está viva?

Papa Francisco: Não… Durante a ditadura, ela foi “pfftt…”, morta. Ela foi capturada no mesmo grupo que duas irmãs francesas, estavam juntas. Ela era química, chefe do departamento onde eu trabalhava, no laboratório bromatológico. Era uma comunista do Paraguai, do partido que lá se chama Febrerista. Lembro-me que ela me fez ler a condenação à morte dos Rosenberg! Ela me fez descobrir o que havia por trás dessa condenação. Ela me deu livros, todos comunistas, mas ensinou-me a pensar sobre a política. Eu devo tanto a essa mulher. (…) Foi-me dito uma vez: “Mas você é comunista!” Não. Os comunistas são os cristãos. São os outros que roubaram a nossa bandeira!

 

Um peixe na água

Dominique Wolton: Suas origens latino-americanas e sua formação jesuíta lhe dão os meios para viver as coisas de maneira diferente?

Papa Francisco: Um exemplo que me vem à mente, mas não sei como expressá-lo: sou livre. Sinto-me livre. Isso não significa que eu faça o que eu quero, não. Mas eu não me sinto preso em uma gaiola. Em uma gaiola aqui, no Vaticano, sim, mas não espiritualmente. Eu não sei se é isso… Para mim, nada me causa medo. Pode ser inconsciência ou imaturidade!

Dominique Wolton: Ambas!

Papa Francisco: Mas sim, as coisas se passam assim, faz-se o que se pode, toma-se as coisas como elas vêm, evita-se fazer certas coisas, algumas caminham, outras não… Isso pode ser superficialidade, eu não sei. Não sei como chamá-lo. Eu me sinto como um peixe na água.

 

A psicanalista

Papa Francisco: (…) Em certo momento da minha vida tive necessidade de consultar. Eu consultei uma psicanalista judia. Durante seis meses, fui à casa dela uma vez por semana para esclarecer certas coisas. Ela era muito boa. Muito profissional como médica e psicanalista, mas sempre permaneceu em seu lugar. E então, um dia, quando ela estava prestes a morrer, ela me chamou. Não para os sacramentos, uma vez que era judia, mas para um diálogo espiritual. Uma pessoa muito boa. Durante seis meses, ela me ajudou muito, eu já tinha na época 42 anos.

[tradução de Hélio Dias Viana]

 

4 respostas para “O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia”

  1. Mauro,
    Muito bonito este testemunho de vida e missão. Homem verdadeiramente humano e espiritual. Bem integrado. Por isso ele consegue ser uma presença animadora e inspiradora para a igreja e a sociedade de hoje. Obrigado pelo artigo! Abraço Beto

  2. Como não se apaixonar espiritualmente pelo Papa Francisco? Assim como por Dom Hélder, pelo Cardeal Martini e por São Romero da América? Isso para ficar em quatro verdadeiros cristãos que representam milhões.

  3. O papa Francisco nunca deixa de surpreender… Acho que tem a ver com a essência do significado da palavra Evangelho, na sua origem grega, aplicada ao andar, ao falar, ao agir, ao ouvir, ao curar, ao ensinar, ao “ser” de Jesus. Como os discípulos de Emaús, ouso dizer que “arde o coração” enquanto o ouço. Deus o abençoe, Francisco!

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