Dom Zumbi Maria Pires: a Igreja na senzala, com os seus, e não na Casa Grande

Dom José (Zumbi) Maria Pires, profeta da Igreja no seio do povo brasileiro

Leia ao final  o emocionante e emocionado texto-homenagem  de padre Gegê (Geraldo Natalino), negro como dom Zumbi Maria Pires, morador das favelas-senzalas-navios negreiros do Rio de Janeiro, terra de escravos que buscam afirmar sua resistência e altivez, neste momento enfrentando a ocupação dos capitães do mato/PMs-soldados do Exército.

Os profetas escolhem eternizar-se em 27 de agosto no Brasil. A síntese mais sensível deste dia, marcado em 2017 pela páscoa de dom José Maria Pires aos 98 anos, foi feita no texto de um padre, Luis Miguel Modino, pároco em São Gabriel da Cachoeira (AM), no coração da floresta amazônica, espanhol como dom Pedro Casaldáliga, em artigo para o site católico Religion Digital: 27 de agosto, dia em que os profetas vão ao céu. Sim, porque neste dia, dom Zumbi Maria Pires, o primeiro bispo negro da história do Brasil, decidiu celebrar no céu com dom Hélder Câmara e dom Luciano Mendes de Almeida, todos nascido para a eternidade num 27 do mês de agosto, em 1999 e 2006. Três dos maiores líderes da teologia latino-americana, da Teologia da Libertação.

Dom Zumbi e dom Hélder foram grandes amigos anos a fio. Os dois estiveram no Concílio Vaticano e ajudaram a acordar a Igreja de um longo sono ao qual ela voltaria tempos depois, quando  o cardeal Wojtyla decidiu que era tempo de disciplina e não de amor. Ambos celebraram o compromisso fundante da Igreja que retomou a trajetória das primeiras comunidades cristãs no principal evento do Concílio. Tão crucial foi o evento que aconteceu às margens da reunião oficial, reunindo 40 bispos e padres conciliares na Catacumba de Domitila, em 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.

Naquela noite, os 40 assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver.   Dos 40, oito eram brasileiros, entre eles exatamente dom Zumbi e dom Hélder. Eles assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata (práticas ainda correntes na hierarquia católica), abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses (leia este documento-chave para se entender a Igreja que Francisco busca resgatar clicando aqui).

Num de seus últimos depoimentos gravados, dom José/Zumbi explicou de maneira didática, testemunhal e emocionante o que é o Pacto das Catacumbas, e como ele transformou a vida de uma geração de bispos e padres. Realista, ele constatou no depoimento a como o Pacto das Catacumbas foi deixado de lado pela restauração conservadora que sobreveio até Francisco. O documento que deveria ser o juramento de todo cristão, leigo/leiga ou ordenado que deseje viver no seguimento do Mestre. Assista:

Dom Hélder Câmara era arcebispo de Olinda e Recife quando recebeu de braços o mineiro de Córregos que se tornaria seu irmão de fé e afeto como novo arcebispo da Paraíba, em 1966. Ambos mergulharam na vida sofrida do nordestino, despojados de tudo.

Ambos assumiram de maneira radical o mergulho na religiosidade e cultura popular do Brasil e, inspirados pelo sopro de renovação do Concílio, entenderam em profundidade que a liturgia é “viva” e “vida para todo o povo da igreja” como busca recuperar agora o Papa Francisco, depois de anos de liturgia morta (leia aqui)

Dom José compôs uma missa resultantes desse mergulho, a Missa Conga. Ele e dom Hélder co-presidiram numa celebração história, em 20 de novembro de 1981, a Missa dos Quilombos, composta por Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento –Dia de Zumbi, depois tornado Dia da Consciência Negra.

Mais de oito mil pessoas celebraram a missa com os dois arcebispos, em frente à Igreja do Carmo, no Recife, mesmo local onde fora exposta a cabeça de Zumbi, em 1695, depois de morto em combate no cerco ao Quilombo dos Palmares, promovido pelo bandeirante sanguinário Domingos Jorge Velho.

Amigos-irmãos

Nesta missa, dom Zumbi Maria Pires fez uma homilia que está entre as mais pungentes da história da Igreja e dom Helder declamou pela primeira vez sua Invocação a Mariama, poesia-oração a Maria mãe de Jesus, mãe dos negros escravizados; nela, há um versículo que se tornaria símbolo da Teologia da Libertação: “Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama” –leia toda a poesia-oração mais abaixo.

Você pode ver abaixo uma cena rara,  trecho do filme Pé (Fé) Caminhada, produzido pela Verbo Filmes, da Congregação do Verbo Divino (os verbitas), e dirigido por Conrado Berning. É a gravação da celebração da Missa dos Quilombos em 1981 –veja de relance dom Hélder Câmara. Assista um trecho da história homilia de dom José Maria Pires, da qual destaquei dois trechos a seguir –mas é indispensável assistir tudo. Na sequência da Missa dos Quilombos, como uma fusão, o filme registra um momento do 6º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base, realizado em 1986 em Trindade (GO), onde aparece dom Pedro Casaldáliga cantando no meio do povo.

Dois trechos da homilia de dom José Maria Pires e, a seguir, o filme:

“Estamos presenciando hoje e aqui os sinais de uma nova aurora que vem despertar a Igreja de Jesus Cristo. No passado ela não se mostrou suficientemente solidária com a causa dos escravos; não condenou a escravidão do negro; não denunciou as torturas de escravos; não amaldiçoou o pelourinho; não abençoou os quilombos; não excomungou os exércitos que se organizaram para combatê los e destruí-los.”

“(…) Mais longa que a escravidão do Egito, mais dura do que o cativeiro da Babilônia foi a escravidão do negro no Brasil. Houvesse a Igreja da época marcado presença mais na Senzala do que na Casa Grande, mais nos Quilombos do que nas Cortes, outros teriam sido os rumos da História do Brasil.”

Leia agora a Invocação a Mariama, de dom Hélder:

“Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!

Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.

Claro que seremos intolerados.

Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é Paz.

Basta de injustiça!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico.

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama.”

Pouco depois de celebração, a Missa dos Quilombos foi proibida simultaneamente pela ditadura militar brasileira e pelo governo conservador do Vaticano sob o Papa João Paulo II.

***

Dom José com camponeses da Paraíba nos anos 1970

Muito se escreveu sobre dom Zumbi Maria Pires nos últimos dois dias. Há dois artigos que, com uma breve introdução de Leonardo Boff, são referências bonitas da vida do profeta, de autoria de Fernando Altemeyer  Junior, sacerdote de vocação e coração como Boff, e do padre José Oscar Beozzo (se quiser, leia aqui)

O que reproduzo agora é um texto inédito de padre Gegê (Geraldo Natalino), da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro.

Escrito poucas horas depois da morte de dom José Maria Pires:

“Faleceu hoje à noite o arcebispo emérito da Paraíba Dom José Maria Pires.

Durante alguns anos foi um dos poucos bispos negros da Igreja Católica. Como ele assumia sua negritude, foi “carinhosamente” batizado de “dom Pelé”; porém, na medida em que se engajou na luta do Movimento Negro Brasileiro,tornando-se um dos grandes protagonistas da articulação que deu origem à Pastoral Afro-Brasileira da Igreja Católica(PAB);foi rebatizado pelo Movimento Negro como “dom Zumbi”. Tornou-se um dos Patriarcas da Pastoral Afro-Brasileira.

Proferiu sua famosa homilia na histórica Missa dos Quilombos em 1981 na cidade do Recife Recife, considerada pelos historiadores como um dos textos fundadores da Teologia Afro-Brasileira Contemporânea.

Defensor das comunidades quilombolas, dos povos indígenas, dos sem terra, das mulheres em situação de prostituição, dos camponeses,foi um dos “padres antigos” da Igreja dos Pobres na América Latina.

Incentivou as Comunidades Eclesiais de Base no Brasil e foi um dos precursores da Teologia da Libertação.

Orador dos mais brilhantes, dentro da mais lídima tradição afro-brasileira da cultura oral.Sua oratória simples, profunda e testemunhal, colocou-o na mesma galeria onde brilha por exemplo Martin Luther King Jr.

Foi incansável defensor e teórico da firmeza permanente e não-violência ativa.

Poeta, intelectual orgânico, contador de histórias, teólogo, pastor, orientador espiritual, irmão, pai e amigo.

Era apreciado por sua doçura e elegância, dito por muitos um verdadeiro black gentleman

Foi um homem aberto ao diálogo, sendo um dos precursores do diálogo inter-religioso da Igreja Católica com o Candomblé.

Dom Zumbi  é uma dessas pessoas que fará falta  ao Brasil, notadamente neste momento em que vivemos uma crise de proporções gigantescas tanto no cenário sócio-político, bem como no cenário eclesial.

Foi um dos gigantes da CNBB.

Morreu na mesma data(27 de agosto) em que outros patriarcas da Igreja da Libertação foram chamados ao Orun; desse modo, reúne-se a dom Luciano Mendes de Almeida e dom Hélder Câmara; a eles juntam-se no céu padre Antônio Aparecido da Silva (Toninho), irmã  Corina, dom Jairo Rui Matos da Silva, monsenhor Hilário Pandolfo, padre Heitor Frisotti, padre Francois L’Espinay, padre Maurício de Limeira, padre Edir e tantos outros e outras…

Dom Zumbi foi, como ele mesmo definiu os padres que abraçam sua negritude, um verdadeiro Babalorixá.

Axé para Dom José Maria Pires!”

 

[Mauro Lopes]

 

11 respostas para “Dom Zumbi Maria Pires: a Igreja na senzala, com os seus, e não na Casa Grande”

    1. Obrigado, amigo querido. Minha sensação é essa mesma, que há um enorme desconhecimento sobre a verdadeira e bela história de resistência da Igreja dos pobres no Brasil. Paz e bem sempre!

    1. Gilberto querido, paz. Um profeta mesmo. Quanto à Folha, nem dá pra falar. Pensar que trabalhamos lá. Não é apenas que eles aderiram ao conservadorismo mais retrógrado; mas a qualidade jornalística foi para o ralo, e faz tempo. Tornou-se completamente dispensável ler.
      Um abraço amigo!

  1. Estimado Mauro Lopes, que alegria poder fazer essa leitura.
    É ter a certeza que não estamos sozinhos, que D. Zumbi, D. Luciano, D. Hélder, D. Evaristo, deixou um grande legado que resiste a cada dia.
    Fiquei com uma grande vontade de te conhecer, Mauro.
    Suas palavras deixou meu coração numa alegria que só.

    1. Thalisson, paz! Alegria podermos nos unir cortando o país, em caminhada com o Manso e Humilde! Quem sabe a vida não nos propicia um encontro com um bom café ou chimarrão ou água de coco ou cajuína hora dessas? Um abraço fraterno.

  2. Amei este texto, pois, relata verdades de pessoas que lutaram com dignidade por um Brasil melhor, principalmente para os pobres e excluídos.
    Parabéns a você, Mauro, por fazer chegar até nós todas essas verdades e a grandeza desses homens de Deus que viveram a fé.

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