E era tudo ódio a Lula e aos pobres

O ódio dos ricos e de amplos segmentos da classe média não se volta aos corruptos: os pobres e Lula são seus alvos

A implosão do governo golpista de Temer revela com transparência o caráter do que aconteceu no país nos últimos três anos, especialmente depois que Aécio Neves convocou as elites à derrubada de Dilma, ainda na noite do segundo turno, em 26 de outubro de 2014. Nesse tempo, as mídias conservadoras em aliança com os representantes das elites incrustados no aparelho de Estado instrumentalizaram o nojo de boa parte da população aos políticos e construíram uma narrativa segundo a qual o PT seria o autor de toda a corrupção no país. Mas a rejeição à corrupção era apenas a couraça, a carapaça legitimadora. O vetor decisivo das mobilizações verde/amarelas foi um sentimento que está na gênese da elite e de boa parte da classe média do país: o medo/ódio aos pobres e àquele que é visto como seu grande representante, Lula –como no passado devotaram ódio a Getúlio Vargas.

Os pobres são vistos pela elite do país e por vastos segmentos por ela ideologizados como usurpadores que querem assaltar “o que nos pertence por direito”. São assaltantes, vagabundos, feios, cheiram mal e, crime supremo, consideram-se pessoas com direitos. Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido –ele é sempre ameaçador. Aos ricos é um escândalo que os pobres invadam seus ambientes, de aeroportos a universidades e, sobretudo, que tomem para si receitas do Estado que sempre foram reservadas às elites. Uma economista que se tornou a queridinha da elite, Mônica de Bolle, recentemente formulou com clareza esta concepção: os pobres entendem por direitos o que “na verdade se tratam de benefícios” (esmolas, atos de caridade). Se tiver um dinheirinho na carteira (no Tesouro), que sobrou da farra (o pagamento dos juros aos bancos e rentistas), a gente dá pros pobres, se não sobrar… danem-se.

Se corrupção fosse o fio condutor do processo de derrubada de Dilma, porque os ricos e a classe média estão em casa, quietos, silentes?

Há um ano, de braços dados na alegria do poder conquistado

Porque não era corrupção o tema. O que a derrocada de Temer escancara é na verdade um segredo de polichinelo: ELES SABIAM DE TUDO, e não se importavam.

Os ricos sabiam que Aécio é um dos políticos mais venais da história, que tem relações íntimas com Zezé Perrela, envolvido em tráfico de drogas, que enriqueceu assaltando os cofres públicos.

Os ricos sabiam que Temer durante anos controlou o porto de Santos, num esquema milionário, que Eduardo Cunha era seu operador, a quem, conforme afirmou num discurso público, entregava “as tarefas difíceis”.

Os ricos conheciam e conhecem o caráter e os métodos de Eliseu Padilha, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Geddel Vieira Lima e os demais membros da quadrilha.

Os ricos e todos esses agentes políticos têm algo em comum: o amor desmedido ao dinheiro. São iguais.

Doria e o homem da mala, na alegria do encontro

Como iguais são João Dória e Luciano Huck, as esperanças dos  ricos para o futuro.

Como conheciam os demais, conhecem os dois.

Um achacador implacável, voraz, como o empresariado sabe –e “colabora”. Não é coincidência em que no dia da grande implosão, estivesse em Nova York com o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), responsável por levar e receber malas de dinheiro para Temer.

Hulk e Aécio, alegria na identidade

Quanto a Huck, criado no ambiente da fina flor tucana em São Paulo, o amigo “jovem” de José Serra e FHC, era carne e osso com Aécio até a implosão. Quando o agora ex-amigo foi pego em flagrante, saiu a correr e apagar as fotos dois em cenas de alegre intimidade Instagram. Os ricos todos sabem que sua grife foi pega duas vezes em campanhas publicitárias abertamente racistas e que ele, de olho no Planalto, ofereceu R$ 6 milhões para o Salgueiro cantar um samba enredo em sua homenagem em 2018 –proposta recusada.

Assim é a elite brasileira.

Embolsam milhões, dezenas, centenas de milhões, mas tentam transformar Lula, por causa de um sítio e um tríplex no Guarujá que sequer lhe pertencem em “símbolo da corrupção”.

Eles sabem que Aécio, Cunha, Temer, que todos eles são corruptos, adoram o deus dinheiro –como os ricos do país e os milhões de basbaques que se encantam com tolices como meritocracia.

Eles sabem que Lula não é corrupto. Mas Lula cometeu um crime mortal, que nada tem a ver com a corrupção: ousou afirmar que os pobres têm direitos, mesmo que tivesse sido de maneira tímida e buscando, até desesperadamente em alguns momentos, conciliação com os ricos. Por isso é perseguido de maneira implacável, sem que sequer ao luto pela morte da mulher tenha direito.

Não, corrupção nunca foi o que moveu os que vestiram as camisas verde/amarelas e seus patrocinadores. Era tudo ódio aos pobres e a Lula, como os áudios de Aécio e Temer revelam de maneira definitiva.

[Mauro Lopes]

2 ideias sobre “E era tudo ódio a Lula e aos pobres

  1. Desculpe-me Mauro, mas o fato de Aécio, Temer, Cunha, Caiado terem horror e ódio aos pobres; não salva Lula, Dilma e o PT de terem se aproveitado da “ajuda” aos pobres para enriquecerem e afundar o Brasil nessa crise cruel que já dura 5 anos, com 14 milhões de desempregados e muitas falências, públicas e privadas…

    Desculpe, irmão, ninguém amealha milhões de patrimônio pessoal, com salário de presidente, cerca de R$ 30 mil…

    • Valdecir, obrigado por seu comentário. Desculpe, mas depois de três anos de investigação não há sequer uma prova que Lula e Dilma tenham enriquecido com ao política, ao contrário de todos esses que você aponta. Todas as apurações -e eles foram investigados numa profundidade que nem de longe lembra a que atingiu até agora os que você menciona- indicam que eles usaram dinheiro das empresas para as campanhas políticas. São coisas bem diferentes. Todos políticos das elites todos fizeram fortuna pessoal com a sua atividade política utilizando-se de propina. O dinheiro que Lula tem, segundo todas as investigações feitas, advém de sua atividade com ex-presidente da República, algo comum em todo o planeta. Não se esqueça que ele foi o melhor presidente da história do país e uma referência mundial. Quem roubou deve ser processado e preso, independentemente do partido. Mas não é isso que move o ódio das elites a Lula, não é mesmo. Um abraço.

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