Na peregrinação a Fátima, Papa rompeu com o culto retrógrado

O Papa Francisco na celebração da Bênção das Velas em Fátima, na noite de sexta, 12 de maio

Vale a pena ler a avaliação de José Manuel Vidal, diretor do site católico Religión Digital, que acompanhou a peregrinação do Papa a Fátima: a visita marca um rompimento radical com a apropriação da imagem de Nossa Senhora de Fátima pelo que há de pior no conservadorismo católico.

“Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como verdadeiro flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.  (…) Francisco buscou,  com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima ‘não é um santinha de graças baratas’ e que Deus nunca se cansa de perdoar, por maiores e graves pecados que se cometam”.

 

Leia em Religión Digital ou abaixo, em tardução livre do espanhol feita generosamente por Lula Ramires:

“Veni, vidi, vici.” (*) O Papa Francisco passou menos de 24 horas em Fátima, mas alcançou, com abundância, todos os objetivos a que se propôs para esta visita a um santuário ancorado na mentalidade popular e na história recente do papado romano. Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.

Mas Francisco, tal como Creso, tudo o que toca converte em outro. Com a força única do retorno às fontes do Evangelho e seu próprio testemunho de peregrino que tem fé de um catolicismo, religião do amor, e uma Igreja ‘hospital de campanha’. Uma Igreja que – voltou a repetir – ela a quer “missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica de amor”.

Só uma Igreja assim pode deixar de ser fortaleza assediada e tornar-se líder da esperança e da paz para a humanidade. E esse era o objetivo primordial de Francisco em Fátima: lançar ao mundo um grito pela paz, que ele a vê ameaçada seriamente por uma possível (e provável) conflagração mundial devastadora. Uma guerra que poderia ser infinitamente pior que a “guerra em pedaços” em diversas partes do planeta ou a guerra cibernética, que, precisamente, ontem se desencadeava no mundo.

Um chamamento papal à paz que, dito a partir de Fátima, tem uma ressonância especial. Porque Fátima é o epicentro dos anseios de paz dos católicos, mas também dos muçulmanos, que se sentem atraídos por este santuário de uma Virgem que evoca o nome da filha do profeta Maomé. “Dos braços da Virgem virá a paz que suplico para a humanidade”, proclamou Francisco. Amém.

Para dentro de sua própria casa, Francisco buscava, com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima “não é uma santinha de graças baratas” e que Deus nunca se cansa de perdoar, por mais graves e grandes que sejam os pecados cometidos.

Uma operação de limpeza em toda a régua. Com tino, com elegância, mas com firmeza. Sem alusão alguma aos três famosos segredos de Fátima, sem ameaçar com o inferno (tão presente em alguns dos relatos das visões dos pastorzinhos), a não ser para assegurar que o inferno consiste em esquecer e descartar os deserdados. Nem Maria é a quem detém “o braço justiceiro de Deus” nem Cristo é “o juiz implacável” que alguns seguem pregando. Porque, é preciso sempre “antepor a misericórdia ao julgamento”. Fátima, porta e farol da misericórdia, que é a luz de Deus.

Que a Virgem de Fátima volte a ser a Senhora do Magníficat, que “derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes”. Aquela que sempre socorre a seus filhos quem gemem e choram “neste vale de lágrimas”. A mãe, sempre mãe, que mostra Jesus, “bendito fruto bendito de seu ventre”.

Por esse motivo, o Papa gritou em várias ocasiões: “Temos mãe, temos mãe!”. Uma conversão eclesial no estilo mariano. Também nisto Francisco é revolucionário e retorna ao que é essencial: ao Evangelho da boa notícia, da misericórdia e do perdão. Fátima por sua mão revive. Nota-se que também aqui chegou a primavera.

(*) Frase em latim, atribuída ao general Caio Júlio Cesar, após uma vitória militar, que significa: “vim, vi e venci”.

 

7 ideias sobre “Na peregrinação a Fátima, Papa rompeu com o culto retrógrado

  1. Olá Prezado Mauro, fiz esta tradução do texto (com algumas pequenas adaptações):

    “Veni, vidi, vici”.

    “O Papa Francisco passou menos de 24 horas em Fátima, porém conseguiu, amplamente, todos os objetivos que se propusera, para esta visita à um santuário encravado na mentalidade popular e na história recente do papado romano. Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo (porque não contra o nazismo e o racismo do século XX também?) e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.
    Porém, o Papa Francisco, como Creso, que tudo o que toca converte em ouro. Com a única força do retorno às fontes do Evangelho e seu próprio testemunho de peregrino crível de um cristianismo, religião do amor, e de uma Igreja ‘hospital de campanha’. Uma Igreja que voltou a repetir que a quer “missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica de amor”.
    Só uma Igreja assim pode deixar de ser fortaleza assediada e tornar-se campeã da esperança e da paz para a humanidade. E esse era o primeiro objetivo de Francisco em Fátima: lançar ao mundo um grito pela paz, que vê ameaçada seriamente por uma possível (e provável) conflagração mundial devastadora. Uma guerra que poderia ser infinitamente pior que a “guerra aos pedaços” que acontece em diversas parte do planeta ou a guerra cibernética, que, precisamente, ontem se desencadeava no mundo.
    Um chamamento papal à paz que, dito desde Fátima tem uma ressonância especial. Porque Fátima é o epicentro das ânsias de paz dos católicos, porém também dos muçulmanos, que se sentem atraídos por este santuário de uma Virgem que evoca o nome da filha do profeta Maomé. “Dos braços da Virgem virá a paz que suplico para a humanidade”, proclamou Francisco. Amem.
    Para dentro de sua própria casa, o Papa Francisco buscava, com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitenciária e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, alto e claro, que a Virgem de Fátima “não é uma santinha de graças baratas” e que Deus nunca se cansa de perdoar, por muito grandes e graves pecados que se cometam.
    Uma operação de limpeza rigorosa. Com tino, com elegância, porém decidida. Sem alusão alguma aos três famosos secretos de Fátima, sem ameaçar com o inferno (tão presente em alguns dos relatos das visões dos pastorzinhos), a não ser para assegurar que o inferno consiste em esquecer e descartar aos deserdados. Nem Maria é a que detém “o braço justiceiro de Deus” nem Cristo é “o juiz implacável” que alguns seguem pregando. Porque, sempre há que “antepor a misericórdia ao julgamento”. Fátima, porta o farol da misericórdia, que é a luz de Deus.
    A Virgem de Fátima volta a ser a Senhora (e a serva) do Magníficat, que “derruba do trono aos poderosos e enaltece aos humildes”. A que sempre socorre a seus filhos que gemem e choram “neste vale de lágrimas”. A mãe, sempre mãe, que mostra a Jesus, o “fruto bendito de seu ventre”.
    Por isso, o Papa gritou em várias ocasiones: “Temos mãe, temos mãe!”. Uma conversão eclesial no estilo mariano. Também nisto Francisco é revolucionário e volta ao essencial: ao Evangelho da boa noticia, da misericórdia e do perdão. Fátima de sua mão revive.
    Nota-se que também aqui chegou a primavera.”

  2. Usar as visões em Fátima, como um libelo anticomunista, enterrou Portugal em mais de 50 anos de uma ditadura sangrenta inspirada e apoiada no fascismo italiano e alemão. Ah! e transformou Portugal em um dos mais pobres países da europa…

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