Sábado Santo: vivenciar o desespero do grande absurdo

Coliseo, William Congdon, 1951

Hoje, Sábado Santo (15) , é o dia em que os cristãos experimentam o grande absurdo da existência humana, o desespero da realidade terrível que marca nossa trajetória pessoal e coletiva; deparar-se com uma névoa tão densa que parece-nos, e assim tem sido ao longo da história da humanidade, nunca irá dissipar-se. O que vivemos os cristãos: Deus fez-se homem e foi preso, torturado, condenado, abandonado por seus amigos, deixado nu, à míngua, sem sequer as suas roupas, morto. E agora? Se Deus morreu e está enterrado num sepulcro, com uma monumental pedra sobre a entrada, o que resta?

O Tríduo Pascal, encerra-se na virada do Sábado Santo para o Domingo da Ressurreição. O Sábado Santo é o dia menos conhecido pelo público e foi, historicamente, menos valorizado. A atenção por séculos esteve concentrada na sexta-feira da Paixão, concentrada no suplício de Jesus, por conta de uma tradição dolorista construída pela Igreja ao longo da Idade Média. A Igreja institucional não inventou a tendência dolorista, mas aproveitou-se e potencializou o caráter neurótico  da civilização, que faz com que as imensa maioria das pessoas, castigadas por seu superego, vivam em culpa.

A exacerbação e individualização da celebração da Paixão tornou-se instrumento de controle e de desvinculação da morte de Jesus dos processos mais profundos, históricos, da trajetória humana. Mas o Sábado Santo, o dia do absurdo, convoca-nos a encarar esta realidade duríssima.

Nos mosteiros, conventos e comunidades que vivem ao ritmo da Liturgia das Horas, ciclo diário de orações e contemplação, ouviu-se, na madrugada deste sábado, como em todos os Sábados Santos, um texto anônimo, do século IV, intitulado  De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo, que se inicia com este grito desesperado: “Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão.”

Um grande silêncio, uma grande solidão, uma des-esperança porque Deus está enterrado debaixo da terra. O mesmo silêncio, solidão e des-esperança dos cristãos nas masmorras do Coliseu romano, ouvindo o rugir das feras e da platéia; dos negros e negras enterrados nos porões dos navios negreiros e depois nas senzalas; dos judeus, ciganos, homossexuais e cristãos enterrados nos campos de concentração; dos indígenas arrancados de suas matas e enterrados como mortos-vivos à beira das estradas; das mulheres enganadas por falsas promessas de emprego e aprisionadas e estupradas diariamente em casas de prostituição; de homens, mulheres, crianças e velhos expulsos de suas casas com a morte a inundar-lhe os olhos nas guerras sem fim; no terror noturno dos meninos em colégios internos à espera dos  padres pedófilos a destruir cotidianamente suas infâncias; dos pobres enterrados nas favelas, alagados, cortiços ou tornados incômodos invisíveis a morar pelas ruas; dos homens e mulheres encarcerados em verdadeiros matadouros; dos  presos e presas lutadores da liberdade que sofreram suplícios em nada diferentes dos de Jesus ao longo de toda a história.

É fácil esperar algo enquanto escrevo num computador, com uma xícara de café ao lado, ouvindo os pássaros que acordam o dia. Como ter esperança no navio negreiro, no campo de concentração, nos centros de tortura, com as bombas explodindo ao redor. Como esperar algo, depois que Deus morreu e está enterrado?

É este o absurdo da vida que contemplamos ao longo do Sábado Santo.

O Papa Francisco, ao falar no encerramento da Via-Sacra realizada exatamente no Coliseu de Roma ontem, Sexta-feira Santa, apresentou a perplexidade,  o absurdo e a vergonha a milhões de pessoas:

Vergonha por todas as imagens de devastação, destruição e naufrágio que se tornaram ordinárias na nossa vida. Vergonha pelo sangue inocente que diariamente é derramado de mulheres, crianças e migrantes, de pessoas perseguidas pela cor de sua pele ou pertença étnica e social e por sua fé no Senhor. Vergonha pelas muitas vezes que, como Judas e Pedro, O vendemos e traímos e O deixamos só a morrer pelos nossos pecados, fugindo como covardes da nossa responsabilidade. Vergonha pelo nosso silêncio diante da injustiça, pelas mãos preguiçosas em dar e ávidas em tirar e em conquistar, pelo nossa voz forte em defender os nossos interesses e tímida em falar dos interesses dos demais. Pelos nossos pés velozes no caminho do mal e paralisados no caminho do bem. Vergonha por todas as vezes que nós bispos, sacerdotes, consagrados e consagradas escandalizamos e ferimos o Seu corpo, a Igreja, e esquecemos o nosso primeiro amor, o primeiro entusiasmo e nossa total disponibilidade, deixando enferrujar o nosso coração e a nossa consagração.

Ao longo do Sábado Santo, o absurdo da existência toca-nos com força. Haverá, na celebração noturna nas Igrejas, a passagem deste absurdo para a esperança de que, afinal, o Deus morto e enterrado derrotou a morte. Há uma antífona, um pequeno verso que se entoa ou diz antes e ao final de um salmo ou cântico religioso, que é proclamada na oração das Vésperas –do fim da tarde-  nos mosteiros e comunidades, neste mesmo sábado. Ela é rezada ao início e no fim do salmo 115 (116). Canta-se: “Ó morte, eu serei a tua morte!/Ó inferno, eu serei a tua ruína!”.

Sim, esta é a esperança. De que, ao final, a vida vença a morte, que o Deus enterrado ressuscite e nos empurre a derrotar a morte e o inferno das torturas, encarceramentos, misérias, abusos. A ressurreição, para os cristãos, é a derrota do grande absurdo: deixaremos viver o ab-surdus, a surdez diante da desarmonia completa.

É, no entanto, um longo caminho. Um sábado que parece nunca acabar. O navio negreiro que nunca aporta, o campo de concentração ao qual não chegam as tropas de libertação, as guerras infindas, o sangue derramado, o choro desesperado, a morte violenta de milhões e milhões.

É um sábado de des-esperar. Que venha o domingo da esperança. Mas ele chegará?

[Mauro Lopes]

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