Semana Santa: o sofrimento do pobre, os confrontos e a vitória com o Mestre

Marc Chagall, Resistência, Ressurreição e Libertaçao, 1937 – 1948 – 1952, Paris, Centro Georges Pompidou

É a Semana Santa e não o Natal, diferentemente do que pensam muitos, o auge da vida litúrgica católica e da experiência mística cristã entendida como seguimento do Mestre. Mergulhar na Semana Santa é ir às profundezas do limite da vida e da morte, do desespero e da esperança, do sofrimento mais radical à felicidade em explosão. Se você quer passar pela experiência, conhecer, viver, re-viver o cristianismo, eis o momento.

A porta de entrada da Semana Santa é o Domingo de Ramos (9) e seu auge o Tríduo Pascal, no qual deparamo-nos com a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Na Liturgia da Palavra característica desta celebração está como que antecipado e condensado tudo o que está por vir nos próximos dias, algo como o trailer de um filme. As duas linhas místicas da Semana Santa já estão traçadas aqui: a escuta da profecia perfeita da chegada de Cristo, o Ungido, nos Quatro Cantos do Servo Sofredor, do profeta Isaías, que dominam toda a Semana; e na meditação das passagens dos Evangelhos, que relatam os seguidos confrontos entre Jesus e Judas, traidor do Mestre e aderido aos poderes de então, representados pela elite econômica e político-religiosa de Israel em aliança com o exército romano de ocupação.

As duas leituras de Mateus neste domingo abrem-se aos paradoxos da vida, aberta à festa mais entusiasmada, representada pela entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21, 1-11), num ritmo que em tudo lembra o Carnaval do Brasil; e pelas dinâmicas da morte: abandono, solidão, medo e reação violenta dos ricos à Boa Nova (Evangelho), representadas na liturgia por uma longa mas alucinante leitura (Mt 26,14-27,66) introduzida pela figura de Judas e sua traição por 30 moedas de prata e encerrada pela decisão de Pilatos de manter uma guarda diante do sepulcro do Torturado e Assassinado.

Os trechos dos Evangelhos selecionados para a Semana estão concentrados no de João, na segunda, terça, na quinta da última refeição de Jesus com seus amigos e na sexta da paixão e morte e no domingo da ressurreição; a sequência joanina combina-se com os relatos de Mateus na quarta e no sábado do grande silêncio, à espera do Ressuscitado.

Tão impactante como as leituras evangélicas é surpreender-se com a profecia da chegada de Jesus, no livro do profeta Isaias, datado de meio milênio antes do nascimento de Jesus. São os cantos do sofrimento do pobre na figura do Servo. Os cantos de Isaías são dos mais estudados na história da teologia, mas nada substitui a leitura/escuta de cada um deles.

No Domingo de Ramos, escuta-se o Terceiro Canto do Servo (Is 50,4-7) no qual se proclama que o dever de todo profeta (toda pessoa que segue o Mestre) é anunciar sua Palavra, enfrentar as consequências e a ira dos poderosos, a prisão e as torturas se necessário, sabendo que há Alguém sempre ao seu lado[i]:

O Senhor Deus me deu língua de discípulo

para que eu soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto.

De manhã em manhã ele me desperta, sim, desperta o meu ouvido

para que eu ouça como os discípulos.

O Senhor Deus abriu-me os ouvidos

e eu não fui rebelde,

não recuei.

Ofereci o dorso aos que me feriam

e as faces aos que me arrancavam os fios da barba;

não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros.

O Primeiro Canto do Servo (Is 42, 1-7) que será lido na segunda-feira é o alegre anúncio da escolha do Pobre do Senhor: “Eis o meu servo que eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer” –palavras que ecoarão no batizado de Jesus à beira do Jordão e na cena da Transfiguração.

A liderança firme e amorosa do Servo é descrita com beleza (“não quebrará a cana rachada, não apagará a mecha bruxuleante”) e, ao final, há uma antecipação do programa que Jesus leria, 500 anos depois, na sinagoga de Nazaré, tomando outro trecho de Isaías; no Canto do Servo, a missão do Ungido está resumida assim: ele vem para abrir os olhos dos cegos, libertar os presos, arrancar os pobres das trevas a que são condenados pelos poderosos -as trevas dos porões dos navios negreiros e das senzalas, a escuridão sufocante das celas, das favelas, alagados e cortiços que aprisionam milhões no Brasil e no mundo. São dois versículos emocionantes, o 6º e o 7º:

“Eu, o Senhor, te chamei para o serviço da justiça,

Tomei-te pela mão e te modelei,

te constituí como aliança do povo,

como luz das nações,

a fim de abrires os olhos dos cegos,

a fim de soltares do cárcere os presos,

e da prisão os que habitam nas trevas.”

Na terça Santa, o Segundo Canto do Servo (Is 49,1-6) profetizou o caráter agudo da missão do Servo, do Pobre que se levanta sobre suas próprias limitações, sobre sua fragilidade, e enfrenta a opressão dos Poderes, dos ricos e seus servos (v. 2):

De minha boca fez uma espada cortante,

abrigou-me à sombra da sua mão;

fez de mim seta afiada,

escondeu-me em sua aljava.

Na quarta-feira será escutado o mesmo Canto do Domingo de Ramos (o terceiro) e, finalmente, na sexta-feira da paixão e morte de Jesus o Quarto Canto do Servo Sofredor (Is 52,13 – 53,12), uma impressionante antecipação das torturas e crucifixão de Jesus e da oferta livre de sua prisão e morte para um caminho de salvação da humanidade:

Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido;

sua ascensão será ao mais alto grau.

Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo

– tão desfigurado ele estava que não parecia

ser um homem ou ter aspecto humano -,

do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos.

Diante dele os reis se manterão em silêncio,

vendo algo que nunca lhes foi narrado

e conhecendo coisas que jamais ouviram.

‘Quem de nós deu crédito ao que ouvimos?

E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor?

Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta

ou como raiz em terra seca.

Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos,

não tinha aparência que nos agradasse.

Era desprezado como o último dos mortais,

homem coberto de dores, cheio de sofrimentos;

passando por ele, tapávamos o rosto;

tão desprezível era, não fazíamos caso dele.

A verdade é que ele tomava sobre si nossas

enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores;

e nós pensávamos fosse um chagado,

golpeado por Deus e humilhado!

Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados,

esmagado por causa de nossos crimes;

a punição a ele imposta era o preço da nossa paz,

e suas feridas, o preço da nossa cura.

Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas,

cada qual seguindo seu caminho;

e o Senhor fez recair sobre ele

o pecado de todos nós’.

Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca;

como cordeiro levado ao matadouro

ou como ovelha diante dos que a tosquiam,

ele não abriu a boca.

Foi atormentado pela angústia e foi condenado.

Quem se preocuparia com sua história de origem?

Ele foi eliminado do mundo dos vivos;

e por causa do pecado do meu povo

foi golpeado até morrer.

Deram-lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre

os ricos, porque ele não praticou o mal

nem se encontrou falsidade em suas palavras.

O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos.

Oferecendo sua vida em expiação,

ele terá descendência duradoura,

e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.

Por esta vida de sofrimento,

alcançará luz e uma ciência perfeita.

Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens,

carregando sobre si suas culpas.

Por isso, compartilharei com ele multidões

e ele repartirá suas riquezas com os valentes

seguidores, pois entregou o corpo à morte,

sendo contado como um malfeitor;

ele, na verdade, resgatava o pecado de todos

e intercedia em favor dos pecadores

 

Os Cantos do Servo e trechos dos Evangelhos são os mesmos, a cada Semana Santa. Mas, incrivelmente, são diferentes, pois encontram aquele e aquela se se abrem ao seguimento do Manso e Humilde a cada ano num momento diferente de sua vida, de sua reflexão, de sua inserção na caminhada de libertação individual, comunitária, social, universal. São também ocasião para reflexão e meditação de todos os que, não sendo católicos ou cristãos, os que creem e os que não creem na transcendência -para todos os que, de seu jeito, buscam sentido na vida.

É uma semana de virar do avesso, se vivida como mergulho no Mistério.

[Mauro Lopes]

________________

[i] Apesar de o link do texto encaminhar para a tradução da CNBB, preferi na . transcrição dos Cantos do Servo usar a tradução da Bíblia de Jerusalém, exceto a do Quarto Canto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *