Papa quer renovação da Igreja no Brasil baseada no fim do clericalismo

O Papa recebe o padre Vilson Groh no Vaticano. Foto: L’Osservatore Romano

O Papa Francisco quer que os leigos sejam os grandes protagonistas da Igreja no Brasil, avalia que no país e na América Latina há um clericalismo crônico e aponta a dinâmica surgida nos três encontros mundiais dos movimentos populares convocados por ele como caminho para a “Igreja em saída” da qual ele fala recorrentemente.  Um tema de grande preocupação para o Papa: o desafio ambiental, a pobreza e a exclusão na Amazônia.

Essas foram as ideias-chave que ele expressou ao padre Vilson Groh numa longa audiência privada no Vaticano em 16 de fevereiro último. “O Papa disse que Igreja em saída é Verbo que se faz carne no ser humano”, disse Groh, em entrevista ao Caminho Pra Casa. Ele foi ao Papa para apresentar o trabalho do IVG (Instituto Pe. Vilson Groh), que atua há três décadas na periferia de Florianópolis, especialmente com crianças, adolescentes e jovens.

Quem articulou o encontro foi Paolo Rufini, diretor da TV Vaticano e um apoiador entusiasmado dos projetos do Instituto –“ele sempre vem a Florianópolis para ficar com a comunidade no morro”, disse o padre Groh. O encontro foi marcado por forte emoção. Groh levou cartas das crianças ao papa: “As cartas diziam ‘o senhor é uma esperança para nós, que vivemos na periferia’. Elas pediram que orasse por eles, e contaram que havia muito sofrimento na periferia.”. Em resposta, o Papa gravou, no próprio celular de Groh, uma mensagem para as crianças (veja ao fim desta reportagem).

“O Papa disse que a Igreja no Brasil e na América Latina é muito clericalizada [nota: o clericalismo é a substituição da centralidade de Cristo pela da hierarquia da Igreja] e que é preciso romper com isso e abrir um tempo de protagonismo leigo”, afirmou o padre de Florianópolis. Segundo ele, Francisco disse ainda mais sobre o tema: “É preciso se pensar, no Brasil, nas celebrações presididas por leigos formados, e não apenas por padres. O Papa disse que é fundamental ter em mente a formação de comunidades e que as Comunidades Eclesiais de Base são uma alternativa para a Igreja em saída”.

O tema do protagonismo dos leigos é um dos eixos da 55ª Assembleia Geral da CNBB que está acontecendo até 5 de maio em Aparecida (SP). Dois dias antes do encontro do Papa com Groh, o bispo emérito de Jales, Dom Demétrio Valentini, fez uma forte homilia exatamente no Santuário Nacional de Aparecida na qual apresentou a proposta de, a CNBB assumir a figura dos presbíteros de comunidade, leigos, que passem a assumir a presidência da Eucaristia. Ele lembrou, ao lançar a ideia, que o Papa tem instado a CNBB a apresentar um projeto para um novo protagonismo dos leigos –por isso o tema entrou na agenda da Assembleia Geral (aqui o link para a homilia).

O Papa tem seguidamente criticado o clericalismo como a grande doença da Igreja. Por isso, acolheu com visível entusiasmo a proposta que lhe fizeram os superiores dos quatro ramos principais dos franciscanos, em encontro no dia 10 de abril no Vaticano: que seja alteradas as normas para que leigos possam assumir cargos de lideranças em suas comunidades. “O Papa Francisco estuda as possibilidades de fazer avançar este projeto”, disse Frei Michael Perry, Ministro Geral dos Frades Menores, e acrescentou: “Deixamos uma carta com um pedido formal para uma dispensa dos requisitos da lei canônica que, na maioria das ordens religiosas,  apenas um padre pode ser eleito para os cargos de liderança” -leia aqui.

Até agora, os sinais emitidos pela Assembleia da CNBB no tema do protagonismo dos leigos são tímidos e podem frustrar o desejo do Papa. Numa entrevista coletiva na tarde de sexta (28), o coordenador do tema, dom Geremias Steinmetz, bispo de Paranavaí (PR), fez afirmações genéricas e sem qualquer indício de uma inovação relevante. Como o assunto está submetido à plenária de todos os bispos, pode haver novidades nos próximos dias.

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Em nota para o 1º de Maio, CNBB acusa governo e Congresso e diz que reformas são inaceitáveis

Na Zona Leste de São Paulo, o clamor do povo na Greve Geral. Foto: Mídia Ninja

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou na noite de quarta (27), véspera da greve geral, uma nota endereçada aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Os bispos brasileiros, reunidos em Assembleia Geral em Aparecida (SP) encorajam a organização e mobilização do povo e acusam “os Poderes Executivo e Legislativo”, governo Temer e Congresso, de atuarem segundo a “lógica perversa do mercado”.

A CNBB atacou a terceirização, e as mudanças pretendidas pelo governo nas relações trabalhista e na Previdência, considerando “inaceitável” que “decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.”

Na nota, os bispos conclamam: “nenhum trabalhador sem direitos!” e mencionam o discurso do Papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em julho de 2015: “Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar.”

Na manhã desta sexta, 28, IBGE anunciou que o desemprego atinge agora mais de 14 milhões de pessoas no país, algo sem precedentes (aqui).

Veja a íntegra da nota aqui ou abaixo:

AOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

MENSAGEM DA CNBB

“Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, em sua 55ª Assembleia Geral Ordinária, se une aos trabalhadores e às trabalhadoras, da cidade e do campo, por ocasião do dia 1º de maio. Brota do nosso coração de pastores um grito de solidariedade em defesa de seus direitos, particularmente dos 13 milhões de desempregados.

O trabalho é fundamental para a dignidade da pessoa, constitui uma dimensão da existência humana sobre a terra. Pelo trabalho, a pessoa participa da obra da criação, contribui para a construção de uma sociedade justa, tornando-se, assim, semelhante a Deus que trabalha sempre. O trabalhador não é mercadoria, por isso, não pode ser coisificado. Ele é sujeito e tem direito à justa remuneração, que não se mede apenas pelo custo da força de trabalho, mas também pelo direito à qualidade de vida digna.

Ao longo da nossa história, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista de direitos contribuíram para a construção de uma nação com ideais republicanos e democráticos. O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado. Diante disso, dizemos não ao “conceito economicista da sociedade, que procura o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social” (Papa Francisco, Audiência Geral, 1º. de maio de 2013).

Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.

Irmãos e irmãs, trabalhadores e trabalhadoras, diante da precarização, flexibilização das leis do trabalho e demais perdas oriundas das “reformas”, nossa palavra é de esperança e de fé: nenhum trabalhador sem direitos! Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar (Cf. Papa Francisco, Discurso aos Movimentos Populares, 9 de julho de 2015).

Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas, em defesa da dignidade e dos direitos de todos os trabalhadores e trabalhadoras, com especial atenção aos mais pobres.

Por intercessão de São José Operário, invocamos a benção de Deus para cada trabalhador e trabalhadora e suas famílias.

Aparecida, 27 de abril de 2017.

1/3 dos bispos convocam a greve geral; surge um novo desenho da Igreja no país

Assembleia Geral da CNBB vai até 5 de maio em Aparecida. Foto: CNBB

Até o meio da noite de quinta (27), véspera da greve geral contra as reformas do governo Temer, era possível contabilizar 98 bispos católicos que, em notas ou vídeos, convocaram os fiéis de suas dioceses e arquidioceses participarem ativamente do protesto. É certo que mais bispos manifestaram-se, mas a “garimpagem” realizada por dezenas de pessoas país afora não capturou toda a mobilização episcopal. É possível dizer que quase 1/3 dos 308 bispos na ativa no país estão comprometidos com a greve –veja a lista aqui.

Um olhar para a composição da lista de bispos mobilizados mostra um novo perfil da Igreja no país, superando os anos de silêncio e apatia. Nas últimas semanas, a Igreja no Brasil ficou mais parecida com a Igreja que as pessoas reconhecem no Papa Francisco, e assumiu importância na vida nacional, depois de um longo período de irrelevância. O profetismo e a vinculação com os pobres voltou à cena com vigor.

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, na Assembleia da entidade – Foto: CNBB

Isso não quer dizer que os bispos progressistas sejam maioria –nem no período auge da Teologia da Libertação o foram. Continua a haver uma maioria moderada, silente, preocupada com o futuro da instituição e seu próprio futuro, representada pelo presidente da CNBB, o cardeal dom Sérgio da Rocha.  O polo dinâmico, progressista, alinhado ao Papa Francisco, tem sua liderança partilhada entre o secretário-geral da CNBB, o franciscano dom Leonardo Ulrich Steiner e os presidentes e principais dirigentes das pastorais sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Pastoral Carcerária, Pastoral da Saúde e Caritas Brasileira –todos eles lançaram convocações à greve. Dentre os religiosos, os dominicanos, mais engajados durante a ditadura, cedem lugar aos franciscanos, com um protagonismo alegre e comprometido.  Nos momentos de maior compromisso da Igreja com os pobres no país, houve uma composição entre os blocos moderado e progressista do episcopado.

Dom Orani e dom Odilo: com Temer. no dia da votação da emenda de corte nos gastos sociais, em outubro de 2016. Foto: Beto Barata/PR

Há um polo abertamente reacionário, comprometido com os interesses dos ricos, minoritário como o progressista. É liderado pelos cardeais do Rio, dom Orani Tempesta, e de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer. Não é coincidência que nem eles nem qualquer dos bispos auxiliares de São Paulo ou Rio tenham se manifestado a favor da greve geral. Ambos foram os líderes da visita de um grupo de bispos a Temer, e não se cansam de manifestar simpatia ao governo golpista exatamente no dia da votação da PEC do Teto dos Gastos (que congelou os gastos sociais no país por 20 anos) –leia aqui.

Observe no quadro abaixo como está distribuída no país a liderança eclesial progressista. Foram mapeados 93 bispos, distribuídos regionalmente da seguinte maneira: 19 do Norte, 29 do Nordeste, 6 do Centro-Oeste, 31 do Sudeste e 13 do Sul. O Estado com mais bispos convocando a população é Minas Gerais, com 19, em parte devido ao protagonismo de dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte –acompanharam-no na convocação à greve cinco bispos auxiliares de BH. O segundo Estado com maior presença é o Maranhão, com 9 bispos –uma participação destacada, num Estado que possui 12 dioceses.

Veja o quadro:

 

Há um novo desenho da Igreja no país, sob influxo da liderança do Papa Francisco e em meio a uma brutal ofensiva contra os direitos dos mais pobres. Este perfil renovado será contemplado pela Assembleia Geral da CNBB, que acontece até 5 de maio em Aparecida (SP)? Uma aliança entre progressistas e moderados voltará a dar o tom à Igreja no país?

[Mauro Lopes]

CNBB e quase 100 bispos convocam população para a greve geral

A Igreja no Brasil acerta o passo com o Papa. Na foto, Francisco com o povo no Rio, em 2013

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – aqui) e 98 arcebispos e bispos de um universo de 308 na ativa neste momento no país lançaram convocações à população para a greve geral contra as reformas do governo Temer e a política de massacre dos pobres do país iniciada depois do golpe de Estado. É uma mobilização eclesial na direção dos pobres não vista desde o fim do regime militar no Brasil, sob o impacto da mudança de rumos que o Papa Francisco lidera na Igreja em todo o mundo.

[nota: na primeira versão desta reportagem, ao fim da manhã da quarta, 26, eram no total 42 bispos e arcebispos, mas a mobilização eclesial continua a crescer]

É significativo o silêncio dos cardeais de São Paulo (dom Odilo Pedro Scherer) e do Rio (dom Orani Tempesta), que tornam suas arquidioceses em bastiões do conservadorismo católico no país em oposição ao Papa Francisco.

[Nota: No começo da tarde de quarta, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, rompeu o silêncio e falou. Um vexame que envergonhou a Igreja. Escalado para a entrevista coletiva da primeira tarde da Assembleia Geral da CNBB, pouco depois das 15h, o cardeal foi encarregado de falar sobre os temas sociais do país. Ao apresentar a agenda da Assembleia, ele ignorou a greve geral, apesar do posicionamento oficial da CNBB. Questionado por um jornalista, dom Odilo deu razão a todos os que o acusam de aderir ao regime do golpe. Disse secamente que “o povo tem direito de se manifestar”, disse que espera que a reforma da Previdência seja boa (?) e arrematou: “dizer que somos a favor ou contra é muito simplista”.
Apresentou uma posição “neutra” quanto à reforma da Previdência e quanto à reforma trabalhista e à terceirização –neutralidade que é o desejo maior de Temer neste momento em que o governo está isolado na sociedade.
Como o personagem bíblico, o cardeal lavou as mãos: “Quanto aos bispos que conclamaram a greve, bem, cada bispo é livre para fazer o que quiser.
Candidato a Papa da Cúria romana no último conclave, derrotado por Francisco, o cardeal de São Paulo deixa toda a Igreja-Povo de Deus com enormes saudades dos tempos de dom Cláudio Hummes e especialmente dom Paulo Evaristo Arns.]

Veja a lista dos arcebispos e bispos que se manifestaram e, ao final, vários dos vídeos espalhados nas redes sociais –é uma lista parcial do que foi possível levantar a partir da “garimpagem” e partilha de muitas pessoas.

[Mauro Lopes]

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Um ano depois do golpe, 10 fatos provam: a vida dos pobres virou um inferno

Mulheres indígenas lideram marcha da Mobilização Nacional Indígena ao Congresso Nacional nesta terça. Carregavam 200 caixões, simbolizando o genocídio que o golpe está aprofundando. Foto: Mobilização Nacional Indígena/Mídia Ninja

Um ano depois do golpe de Estado perpetrado pelas elites do país que tomaram de assalto os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, é possível identificar claramente:

1) o objetivo único da operação: promover a maior reconcentração da renda nacional da história, em proporções que superam em muito aquela promovida pela ditadura militar;

2) o método da operação: construção do consenso a partir da maior mobilização de mídias da história brasileira, com o esmagamento do direito à informação –depois do golpe, com o controle total do aparelho de Estado pelas elites, tal método passou a ser acompanhado pela restrição/supressão dos direitos civis para sufocar a oposição à apropriação da renda nacional pelos ricos.

O rompimento dos pactos firmados pela “Constituição cidadã” de 1988 e pelos governos de Lula e Dilma, que previam uma desconcentração da renda nacional ainda que em pequena escala, fez com que, em um ano, a vida dos pobres no Brasil se tornasse um verdadeiro inferno.

Leia a seguir 10 fatos que demonstram como o objetivo do golpe, a concentração da renda nacional na mão dos ricos, e seu método, a restrição/supressão dos direitos civis tornaram a dos pobres, que nunca foi fácil, chegasse ao inferno.  Os cinco primeiros fatos elencados prendem-se mais ao método dos golpistas, mas em si mesmo carregam o objetivo das elites; os cinco últimos escancaram algumas das principais medidas de concentração da renda nacional.

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Shalôm: paz em plenitude, mesmo diante da opressão e do medo

Todos os Santos I, Wassily Kandinski, 1911, óleo sobre tela, Städtische Galerie in Lenbach, Munique, Alemanha.

Shalôm!

Shalôm aléikhèm!

Shalôm para vocês!

Neste domingo (23) os cristãos católicos encerram um período muito especial inserido nos 50 dias da celebração do Tempo da Páscoa: é denominado de Oitava da Páscoa. O sentido é místico (seguimento em grande proximidade os passos do Mestre): vivemos todos os dias desde o Domingo da Páscoa como se fosse um oitavo da semana, como se todo o tempo estivesse concentrado num único dia, o da Ressurreição e da grande alegria.

É um tempo raro, mais raro ainda é vive-lo nesta época frenética, colérica, na qual a fé parece ter se refugiado em fórmulas prontas sectárias. Viver este “oitavo dia da semana” como uma extensão do momento fundante do seguimento a Jesus Cristo, sua ressurreição, e a vitória da esperança sobre o medo e a dor.

A Liturgia da Palavra proposta pela Igreja acontece em torno de dois episódios ligados à ressurreição tomados do Evangelho de João (Jo 20, 19-31), o último deles um dos eventos mais conhecidos dos evangelhos, quando Tomé, que estivera ausente do primeiro encontro do Ressuscitado com os discípulos, encontra-o. É a origem das expressões “ver pra crer”, “sou como São Tomé” e assemelhadas.

Proponho que nos concentremos no primeiro encontro. Os discípulos estavam desnorteados e apavorados diante da perda de seu Mestre, preso, torturado e morto pelo consórcio entre as elites judaicas e o exército de ocupação romano, e pela onda de perseguições desencadeada a seguir.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana,

estando fechadas, por medo dos judeus,

as portas do lugar onde os discípulos se encontravam (v19)

Era um momento em tudo parecido com o que vivemos hoje, no Brasil e no mundo. A ameaça da trevas, a perseguição aos pobres e aos que os defendem a concentração do poder e da riqueza nas mãos das elites, a praga corrupção espalhada por toda a terra, os ricos a vender os pobres por um par de sandálias (Am 2,6), por uma emenda constitucional, pela terceirização das relações de trabalho, pela liquidação da Previdência Social.

Em meio ao fechamento e ao medo, Ele chegou. Sua presença e palavra mudaram tudo:

Shalôm aléikhèm! A paz esteja com vocês!

A tradicional saudação judaica não é apenas um cumprimento formal. Não é “olá! Como estão vocês?”. E não apenas um desejo de paz –ausência de brigas ou dissenções ou guerras. É muito mais..

É a expressão do desejo de que repouse a plenitude de todos os bens sobre aqueles a quem se dirige a saudação. É a manifestação de qual a vida deve ser pretendida.

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Temer e Doria tentam usar o Papa para seus projetos, com apoio da Globo e mídias auxiliares

 

Um beijo de farsa e constrangimento

Michel Temer e João Doria tentaram usar a figura do Francisco, querido em todo o mundo e por milhões de brasileiros e brasileiras, para seus projetos de poder. Com apoio das Organizações Globo e mídias auxiliares distorceram o conteúdo de uma carta de Francisco a Temer e, no caso de Doria, tentaram transformar encontro rápido na Praça São Pedro em “audiência” e uma cena constrangedora em momento de “intimidade e empatia”. Foram duas operações de relações públicas/pós-jornalismo nos últimos dois dias, ambas destinadas a engambelar as pessoas.

Francisco respondeu dias atrás uma carta de Temer na qual era convidado a vir ao Brasil. Como tratou-se de correspondência privada, a Santa Sé não divulgou o conteúdo. Mas o colunista global Gerson Camarotti, um dos queridinhos do Palácio do Planalto, recebeu trechos da correspondência e postou reportagem na qual tentou vender ao país uma suposta “neutralidade” de Francisco diante da situação do Brasil -desmentida até mesmo pelos trechos pinçados por Camarotti e suas fontes. O título da nota, verdadeiro press release oficial: “Em carta, Papa diz a Temer que crise no Brasil não é de fácil solução”.

O Papa foi duro com Temer e as reformas que ele e o capital financeiro tentam aprovar, com apoio da Globo: “não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira”. O Papa escreveu que o Brasil vive “um momento triste”. Estes são os trechos vazados da carta, que não autorizam “neutralidade” ou “simpatia” do Papa com regime do golpe.

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Um sacerdote gay escreve a católicos e evangélicos -é preciso ler com atenção

O sacerdote católico James Alison

James Alison é sacerdote católico. Define-se como “um sacerdote católico que procura, a partir da teologia, saídas para todo tipo de amor, incluindo o amor gay”. Afirma que “aqueles que mais perseguem os gays na Igreja são gays reprimidos” e confessa, a partir de sua experiência pessoal, que aquilo que mais lhe doeu “não foi a violência das pessoas más, mas o silêncio dos bons”.

Ele foi dominicano e, ao ser desligado da Ordem, manteve seus votos sacerdotais. No entanto, é um “padre errante”, sem paróquia, pois não encontrou bispo que o acolhesse até hoje. Inglês, mora no México atualmente.

Alison escreveu um artigo na primeira pessoa para a edição em espanhol da Newsweek veiculado nesta segunda (17) e traduzida para o português pelo Cepat. Escreveu como sacerdote e teólogo, conhecedor da cultura e pensamento evangélicos  -seu pai foi deputado evangélico pelo Partido Conservador na Inglaterra e sua mãe, igualmente evangélica, ajudou a organizar diversas marchas “a favor da família” mas, na verdade, contra as pessoas LGTB.

Leia o artigo a seguir:

Meus pais ajudaram a organizar uma marcha em Londres, a favor da família, em 1971. Foi parecida com aquelas que ocorreram no México e na Colômbia, no ano passado. Eram manifestações massivas de repúdio ao movimento em favor da regularização da vida das pessoas LGBT, seja pela descriminalização da homossexualidade, seja, mais recentemente, pela chegada do casamento civil igualitário.

Agora, coube-me ir em sentido contrário ao de meus pais: falar pessoalmente, como teólogo e sacerdote católico, que nesse caso também é um homem gay sem armário, ou fora do “closet”, a respeito das marchas e seus efeitos. Tocou-me dar este testemunho diante de vários públicos, católicos e ecumênicos, na Colômbia, no ano passado, e no México, nesta Quaresma.

Por que levantar a voz? Em primeiro lugar, porque nem meu pai, um deputado evangélico da linha do Partido Conservador, nem minha mãe, que participou na organização da marcha britânica, sabia que o menino que tinham em casa era gay. Eu, sim, acabava de aprender no colégio, aos nove anos, que era um queer – joto ou puto. Mas, caso eles tivessem sabido, é de se duvidar que teriam mudado de parecer.

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O Papa, no Domingo de Páscoa: defesa dos oprimidos e do Estado de Direito na AL

O Papa em sua homilia na missa de Páscoa na manhã deste domingo.

O Papa discursou por duas vezes numa manhã de sol que se seguiu a um aguaceiro neste Domingo de Páscoa (16) em Roma. Havia milhares de pessoas espremidas na Praça São Pedro, no Vaticano. Primeiro, numa homilia de improviso na Missa de Páscoa, quando afirmou que “a ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores”, mas “o mistério da pedra descartada que torna-se o alicerce da nossa existência”. A seguir, na tradicional mensagem e bênção Urbi et Orbi (“à cidade e ao mundo”), Francisco disse que Cristo ressuscitado “cuida de quantos são  vítimas de escravidões antigas e novas”.

Ele mencionou diversos países e regiões na mensagem. Quanto à América Latina, pediu respeito ao Estado de Direito e chamou a atenção para as tensões políticas e sociais e para o tema da corrupção: “Jesus ressuscitado sustente os esforços de quantos estão empenhados, especialmente na América Latina, em garantir o bem comum das várias nações, por vezes marcadas por tensões políticas e sociais que, nalguns casos, desembocaram em violência. Que seja possível construir pontes de diálogo, perseverando na luta contra o flagelo da corrupção e na busca de soluções pacíficas viáveis para as controvérsias, para o progresso e a consolidação das instituições democráticas, no pleno respeito pelo Estado de Direito.”

Francisco clamou por paz na Síria e Oriente Médio, com menções diretas a Israel, Iraque e Iêmen. Pediu paz também à África, mencionando o Sudão do Sul, Sudão, Somália e República Democrática do Congo. Mencionou os conflitos na Ucrânia e abordou a crise econômica europeia, com destaque para tema do desemprego, pedindo emprego “sobretudo para os jovens”.

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Sábado Santo: vivenciar o desespero do grande absurdo

Coliseo, William Congdon, 1951

Hoje, Sábado Santo (15) , é o dia em que os cristãos experimentam o grande absurdo da existência humana, o desespero da realidade terrível que marca nossa trajetória pessoal e coletiva; deparar-se com uma névoa tão densa que parece-nos, e assim tem sido ao longo da história da humanidade, nunca irá dissipar-se. O que vivemos os cristãos: Deus fez-se homem e foi preso, torturado, condenado, abandonado por seus amigos, deixado nu, à míngua, sem sequer as suas roupas, morto. E agora? Se Deus morreu e está enterrado num sepulcro, com uma monumental pedra sobre a entrada, o que resta?

O Tríduo Pascal, encerra-se na virada do Sábado Santo para o Domingo da Ressurreição. O Sábado Santo é o dia menos conhecido pelo público e foi, historicamente, menos valorizado. A atenção por séculos esteve concentrada na sexta-feira da Paixão, concentrada no suplício de Jesus, por conta de uma tradição dolorista construída pela Igreja ao longo da Idade Média. A Igreja institucional não inventou a tendência dolorista, mas aproveitou-se e potencializou o caráter neurótico  da civilização, que faz com que as imensa maioria das pessoas, castigadas por seu superego, vivam em culpa.

A exacerbação e individualização da celebração da Paixão tornou-se instrumento de controle e de desvinculação da morte de Jesus dos processos mais profundos, históricos, da trajetória humana. Mas o Sábado Santo, o dia do absurdo, convoca-nos a encarar esta realidade duríssima.

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