Jesus e o mergulho no conhecimento de nós mesmos

Rasgado (detalhe), Bruce Denny, escultura em bronze, Londres – www.brucedenny.com

A passagem a ser proclamada neste 6º Domingo do Tempo Comum (clique em Mt 5,17-37 ou no fim deste artigo)  é um trecho relativamente longo, de 20 versículos, ainda no contexto do Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus. É um texto complexo, composto de ditos de Jesus que abrem inúmeras portas interpretativas, a partir das relações entre a lei mosaica e os ensinamentos do próprio Jesus. Há nesta passagem seis formulações em formas de antíteses, numa fórmula sapiencial característica (Foi dito… eu, porém, vos digo).

Nesses ditos, encontramos uma dimensão de rara profundidade. Jesus indica que devemos investigar as origens de nossas ações, avançar até nossos recalques, se quisermos entender quem somos –numa antecipação de algo que só seria detalhado como método na virada do século XIX para o XX por Freud, na psicanálise. Jesus apresenta-nos às grandes interrogações que somos para nós mesmos e convida-nos ao mergulho no mistério de cada ser humano e de toda a humanidade: o inconsciente, fonte de todas as nossas ações, angústias e alegrias. Apesar de sua postura contra as religiões e religiosidades –com boa dose de razão, diga-se-, Freud enveredou no caminho aberto por Jesus para a compreensão do ser humano, seus atos, pensamentos e motivações profundas.

Assim, para Jesus, é preciso ir muito além da lei, da visão legalista da religião e das interpretações rasas sobre nós mesmos: não basta não matar, é preciso indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); é preciso entender a razão de nossos desejos e sentimentos tão contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28).

Há dois ditos que evocam de maneira surpreendente e carnal o mistério que representamos para nós mesmos, a incompreensão angustiante que muitos atos e sentimentos nos suscitam, a sensação de estarmos partidos, dilacerados, rasgados, afogados em desejos contraditórios, como se partes de nós se tornassem objetos com vontade própria a nos desafiarem : “Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno.” (v. 29-30).

Outro dos temas abordados por Jesus é o do divórcio e, apesar da passagem de Mateus deixar explicitamente aberta a possibilidade do fim do casamento por conta da dificuldade extrema dos arranjos relacionais (“por motivo de união irregular” –v. 32), ela será usado por muitos padres nas homilias para mais uma vez apontar o dedo moralizador contra os casais divorciados.

A solução desta sequência de ditos de Jesus é uma proposta desafiadora de abandono das ilusões sobre nós mesmos, os juramentos e promessas que são expressões do autoengano e encararmos, sem deixarmo-nos paralisar pela culpa, a busca pelo equilíbrio no qual em alguns momentos de nossa vida nosso “sim” seja efetivamente “sim” e nosso “não” uma escolha serena de recusa a algo.

Como fazer isso? A resolução será apresentada apenas nos versículos que se seguem aos deste domingo, aqueles que fecham este capítulo do Sermão da Montanha e serão objeto da reflexão/oração nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum. Uma dica: só há resolução possível no processo relacional com o outro/outra. Ao ser humano é vedado o autoconhecimento ensimesmado, solitário, pois o mistério do inconsciente jamais se desvelará em nossa clausura interior –a propósito, foi exatamente esta a conclusão de Freud, muito depois de Jesus. Só no amor abre-se a possibilidade do conhecimento de si próprio.

[Mauro Lopes]

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Evangelho – Mt 5,17-37

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 17Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento.

18Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus.

20Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.

21Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’.

22Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de ‘tolo’será condenado ao fogo do inferno.

23Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta.

25Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.

27Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. 28Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.

29Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno.

31Foi dito também: ‘Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. 32Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério.

33Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. 34Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35nem pela terra, porque é o suporte onde apoia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. 36Não jures tão pouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. 37Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno.

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