Monja ameaçada de morte: disse que Maria fazia sexo com o marido!

A monja dominicana Lucía Caram

Os seguidores de Jesus devem ser como uma lâmpada acesa, luz no mundo, sal na terra. Estes são os apelos de Jesus dirigidos aos seus amigos e amigas e que constituem o centro do Evangelho que será ouvido nas missas deste 5º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,13-16).

Em outras palavras: cristãos e cristãs devem buscar a verdade, tornar a vida saborosa, incomodar o reino das verdades estabelecidas ou, como disse uma vez o Papa, causar confusão (veja no final). Mas isso não é fácil. Nos últimos dias tivemos um bom exemplo disso.

Lucía Caram, uma monja dominicana argentina que vive num mosteiro em Barcelona concedeu uma entrevista em 29 de janeiro a um programa da TV espanhola e fez uma afirmação aparentemente prosaica:

“Acho que Maria estava apaixonada por José e que eles eram um casal normal – e ter relações sexuais é algo comum”.

Foi o suficiente para que desabasse uma tempestade brutal sobre ela, a ponto de receber ameaças de morte! Foi repreendida pelo bispo de Vic, sofreu toda sorte de insultos nas redes sociais ao redor do mundo, especialmente na Espanha, onde circula uma petição para que ela seja afastada de sua ordem. A manchete de um site conservador espanhol evoca o período inquisitorial: “A dominicana Lucía Caram blasfema contra a Virgem Maria”. O assunto mereceu uma reportagem do jornal britânico The Guardian.

Tudo porque ela disse que Maria fazia sexo com seu marido! A monja Lucía Caram afrontou um dogma da virgindade permanente da mãe de Jesus, “inscrito na pedra” no Catecismo da Igreja Católica, promulgado (não coincidentemente) por João Paulo II em 1992 e que estabelece: “O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria” (499). Este documento, o Catecismo, é considerado, ao lado do Código de Direito Canônico, como as duas referências básicas do cristianismo, no entendimento do pensamento conservador católico –em vez dos Evangelhos.

O episódio, inserido no contexto da onda moralizadora dos últimos tempos, que tem como um de seus pontos culminantes a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos com o discurso da “supremacia cristã”, dá razão a um grito de angústia que se multiplica: “Para o século XXI que eu quero descer!”

O que fez a monja Caram? Iluminou um canto empoeirado e escuro da Igreja Católica e do cristianismo conservador; ela foi sal, causou incômodo a ponto de reações como ameaças de morte.

O dogma da “virgindade eterna” de Maria, mãe de Jesus, é insustentável à luz dos Evangelhos e sua construção ao longo da história da Igreja tem pouco de teológica e muito de ideológica.

O que dizem os Evangelhos?

No tema específico da vida sexual de Maria há apenas uma citação direta, em Mateus 1,25, no relato da concepção de Jesus e da reação de José, então noivo da jovem. José aceitou a noiva grávida, “Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho” (na tradução da Bíblia de Jerusalém). A palavra conhecer, em sentido bíblico, quer dizer exatamente manter relações sexuais com uma pessoa (eginōsken –  ἐγίνωσκεν).

Uma busca da ressonância hebraica do texto indica que o verbo hebraico para o episódio seria iada’, que tem o sentido de penetração (tanto física quanto intelectual), o que levaria à seguinte tradução: “Ele não a penetra até que tenha gerado um filho” –com o sentido duplo de não penetrar em Maria física e intelectual/emocionalmente, permanecendo para José “um impenetrável mistério”, até que ele a irá conhecer depois do nascimento de Jesus.[1]

Portanto, o que o texto nos diz? Que o casal se absteve de sexo até o nascimento de Jesus –nada mais. Em várias passagens, os Evangelhos informam-nos taxativamente que Jesus teve irmãos e irmãs, indicando que a monja Caram iluminou o assunto-tabu:

Num episódio relatado em Marcos e Mateus, na sinagoga de Nazaré, a terra de Jesus, logo no começou de sua missão, quando as pessoas ficam espantadas com a sabedoria do homem da terra: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão entre nós?” (Mc 6,6 e Mt 13,55-56).

E noutro, quando Jesus pregava, relatado tanto por Mateus como Marcos e Lucas: “Estando ainda a falar às multidões, sua mãe e seus irmãos estavam fora, procurando falar-lhe” (Mt 12,46).

Desde a Antiguidade houve indagações sobre estas passagens. Eram eles irmãos e irmãs de Jesus no espírito de uma família nuclear ou primos e primas, considerando-se a família ampliada semítica? Eram filhos de José e Maria ou de um suposto primeiro casamento de José?

A interpretação conservadora quer fazer as pessoas crerem que “sempre” esteve estabelecido o sentido que favoreceria o dogma da virgindade permanente de Maria. Mas não é assim. No século IV, quando o debate estava muito aceso, Helvídio (apoiado pelos textos de um dos Padres da Igreja, Tertuliano) contestou a tese da virgindade perpétua, sendo contestado por Jerônimo num tratado (“A Virgindade Perpétua da Abençoada Maria”).

Mas se o sentido original do texto evangélico era indicar primos e primas de Jesus, porque eles são mencionados junto com a mãe de Jesus? Além disso, por qual razão os autores dos três Evangelhos sinóticos, escritos em grego, usariam em todas as passagens adelphoi  (ἀδελφοὶ) que designa irmãos de sangue, quando há outras palavras para primos, como nepsios?[2]

A fúria dos conservadores contra uma monja tem uma razão clara: sob o dogma da virgindade permanente de Maria está alicerçada boa parte do edifício de controle e submissão das mulheres na Igreja institucional. Em que pese o caráter claramente misógino do dogma, ele serve igualmente para manter os homens igualmente sob controle e submissos. O dogma da virgindade de Maria é a negação do direito ao prazer e à vida plena para mulheres e homens.

As descobertas da psicanálise na virada do século XIX para o XX deixaram patente que toda a vida humana, todas as relações estão perpassadas por nossa dinâmica afetivo-sexual. A sexualidade é o terreno a partir do qual cada pessoa constrói sua inserção no mundo, reivindica-se a si próprio, encontra-se com o outro. Não é à toa que, desde sempre, como William Reich apontou há quase cem anos, os poderes cuidaram de usar a repressão sexual como arma de obter docilidade e vassalagem.

Há uma série de afirmações encadeadas, oposições e deslocamentos que buscam negar o direito à sexualidade dos homens e mulheres católicos, e todas elas baseadas na imaginária virgindade de Maria.

Maria foi sempre a mãe virgem e casta. Maria é o modelo da mulher. Portanto, a mulher deve ser uma mãe virgem e casta, afastando-se liminarmente de qualquer desejo sexual: “Qualquer expressão de desejo sexual a torna digna de suspeita, porque o sistema social convencionou que a alternativa à mãe é a prostituta”.[3] Mãe ou prostituta, cada mulher que faça sua escolha, segundo a construção ideológica disfarçada de teologia. Maria, segundo este estatuto, precisa ser mantida virgem a todo custo, sob o risco de despertar na mulher o desejo, a reivindicação, a palavra.

É significativo que ao lado de virgindade e castidade, a imagem mais recorrente dos conservadores para Maria é a da mulher “pura”. À pureza contrapõe-se a impureza, ao limpo o sujo. Ser virgem e casta, portanto, é manter-se pura. Abandonar a virgindade é abandonar a pureza, entregar-se à “sujeira”. Sexo, portanto, é o caminho da impureza e da sujeira. Pode parecer pueril, e o é,  mas em pleno século XXI os conservadores ainda pretendem manter incólume tal lógica.

É preciso manter Maria virgem, casta, pura e calada. Para que toda mulher assim seja. Para que em minha neurose eu possa, em Maria, olhar para minha mãe e imaginar que ela me teve sem nunca ter tido sexo com meu pai, sem nunca ter gozado. É esta prisão que sustenta o discurso de vastos segmentos de clérigos e leigos conservadores. Escute o discurso de um padre conservador sobre a mãe –para ele, sua mãe biológica é Maria, invariavelmente.

No entanto, a essencialidade de Maria nos Evangelhos nunca esteve vinculada à sua virgindade ou “pureza”. Maria é bem-aventurada porque escutou a palavra de Deus e a viveu intensamente. É o depoimento de Jesus sobre ela ao longo dos Evangelhos.

Jesus insurgiu-se contra a marginalização da mulher, contra a sacralização da família e contra o pai como símbolo de opressão –e isso é insuportável para os que acreditam (ou fazem propaganda) da virgindade eterna de Maria.

A concepção da virgindade perpétua de Maria implica uma consequência igualmente dramática: a impotência de José, que é a condenação à impotência de todos os homens. No sistema de poder eclesiástico –e em todos os sistemas de poder- há uma lógica de dupla face na qual ao mesmo tempo ao homem-pai é entregue e retirada toda a potência. Ao homem é entregue todo o poder na família: pode controlar, bater, humilhar, embriagar-se… mas não pode fazer sexo, não pode ter prazer com a mulher.

Há uma articulação entre a virgindade pureza da mulher (mãe) e a potência impotente do homem (pai) que se afigura como uma condenação a aprisionar a vida do casal num redemoinho de infelicidade, indiferença, des-encontro. Um casamento de fachada.

Mas não se iluda. Como escreveu George Orwell no clássico A Revolução dos Bichos, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

Visite uma paróquia católica. Em boa parte delas há apenas um homem potente: o padre. Ao redor dele subsiste uma pequena multidão de homens e mulheres submissos e assexuados. É um microcosmos do desenho da Igreja institucional e da sociedade no capitalismo.

É um sistema, uma construção ideológica que nada tem a ver com Jesus e sua mensagem. No topo do sistema há lugar para homens potentes –como constatamos na sociedade e numa Igreja marcada pelos casos de pedofilia e relações nas sombras de tantos sacerdotes. Se uma vida sexualmente ativa e prazerosa é condenada como um mal, pecado, quase um crime pelos poderosos de plantão, abandone as ilusões e entenda a plena dimensão da expressão de Freud: “(…) o Estado proíbe ao indivíduo a prática do mal, não porque deseja aboli-la, mas porque deseja monopolizá-la”.[4]

A monja Lucía Caram cometeu um “crime” ao tocar numa pedra angular do edifício de controle da Igreja institucional. Foi luz e sal, na expressão de Jesus no Evangelho, que sofreu as consequências pela denúncia das pedras angulares da igreja da época (o judaísmo oficial). A pena para isso é a morte, pelo que conhecemos da história de Jesus e se depreende das mensagens furiosas dos conservadores.

Quanto à monja, vale o breve diálogo com o Papa num breve encontro na Praça São Pedro em outubro de 2015, quando Francisco ele saía de uma de suas audiências das quartas-feiras e ela contou brevemente a ele sobre a ação de sua comunidade com crianças e sem teto. O relato é da própria Lucía: “Eu lhe disse. Sim, Santidade, mas a Igreja não facilita as coisas, hoje é muito difícil ser cristão na Igreja Católica. Ele não hesitou, soltou uma risada cúmplice e disse: ‘Vou responder como aquele que disse: ‘Senhora, é a mim que diz isso?’ Rimos os três[5] e ele me disse: ‘Continue a criar confusão, não se canse, os pobres são o mais importante, isto é o Evangelho. Faça bagunça.”

Faça bagunça você também ou, em outras palavras, no ritmo do Evangelho do domingo: continue sendo luz –Lucía ou Lúcia é nome derivado de lux(luz)  em latim, que quer dizer iluminada.

 

[Mauro Lopes]

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[1] Chouraqui, André. A Bíblia – Matyah. Rio de Janeiro, Imago, 1966, p. 55
[2] Barbaglio, Giuseppe; Fabris, Rinaldo; Maggioni, Bruno. Os Evangelhos 1. São Paulo, Edições Loyola, 2002, p. 458
[3] Morano, Carlos Dominguez. Crer depois de Freud. São Paulo, Edições Loyola, 2014, p. 190
[4] Freud, Sigmund. Reflexões para os tempos de guerra e morte, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 2.ed., v.XIV. Rio de Janeiro, Imago, p. 316
[5] Lucía Caram estava acompanhada da superiora de seu mosteiro.

21 respostas para “Monja ameaçada de morte: disse que Maria fazia sexo com o marido!”

  1. Gostei !Numa enxerguei a questão da virgindade de Maria essencialmente ligada ao sexo, mas sim a sua pureza interior de caráter e humanidade..Conversei uma vez sobre este assunto e como eu o via com um sacerdote amigo meu e foi muito legal nossa conversa .

  2. Maria é bendita entre as mulheres; nela Deus fez maravilhas; mãe do filho filho de Deus e nos diz a fazer tudo que Jesus nos mandar…e é só o que me interessa.

  3. Acho que generalizar e dizer “católicos contra o prazer” apenas reproduz o erro do preconceito e intolerância que a reportagem condena. Quem são esse católicos? O Papa? Os padres? São todos? Ignorância em relação a sexualidade há em toda a sociedade e em toda religião, e não é algo exclusivo dos “católicos” ou algo que os caracteriza. Além disso, da repreensão formal que a freira sofreu, não dá para deduzir o que diz o texto, que é uma condenação da sexualidade. Dentro da vida espiritual da igreja acho que fazer especulações são improdutivas e podem até mesmo confundir as pessoas. Além disso , para os católicos que praticam e aceitam os dogmas da Igreja, Maria era virgem e assim permaneceu durante toda a sua vida. A questão da virgindade de Maria vai além de um moralismo, vai para o campo da santidade, na medida que é uma fato numa pessoa santa, o desejo por prazeres e comunhões espirituais é superior ao desejo material e uniões carnais. Se alguém não é católico, não é obrigado a concordar, claro! os católicos concordam porque tem fé , é uma escolha e vocação.

    1. Thais, obrigado por seu comentário. O título usado no Facebook buscou resumir ao máximo o espírito do texto e ao fazer isso talvez tenha mesmo generalizado -mas é uma convenção jornalística que quando não se usa o artigo (Os católicos, no caso) o sujeito é restritivo e não generalizado. Quanto ao conteúdo, creio que ele é bem explícito e não da margem à confusões. Sua afirmação confirma a tese do artigo: traçar um sinal de igualdade entre virgindade e santidade é sim uma tentativa de controle da sexualidade. Querer avocar para si o “monopólio do catolicismo” não me parece conduta fraterna. Você é católica, eu também. Mas pensamos diferente, não é?

  4. Texto perfeitamente interpretativo nele alguns pontos discordo, no tocante não aflige o católico que tem sua fé segura sem fundamentalismo, esse miasma nunca foi obstáculo par sentir amor a Maria.

  5. Artigo muito interessante e oportuno. Análise semelhante já foi feita também por Hannah Ahrendt com a tese de que a sexualidade é um campo de dominação e que não apenas controlar as mulheres com a imagem da perpétua virgem pura é um mecanismo eficiente, como também “capar” religiosos através da obrigação ao celibato é um modo de dominação dos homens. A natureza está fazendo a sua parte.
    O artigo ainda poderia ter tratado do assunto pela via da tradução. No hebraico havia um termo (almah) para designar “uma mulher jovem em idade de conceber”. Quando o Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego, não havia um termo grego que correspondesse exatamente ao significado de “mulher jovem em idade de conceber”. Mas, havia o termo parthénos que já tinha o significado de “uma mulher jovem que ainda não tinha tido relações sexuais”. Mais adiante, Jerônimo utilizou essa tradução grega (Septuaginta) como base para a sua tradução latina (Vulgata), no século IV, quando “coincidentemente” o cristianismo passou à condição de religião oficial do Estado do imperador Constantino… O resto eu não preciso contar.

    1. Hans, muito obrigado. É verdade! Tanto que em Isaías, a expressão é núbil, ou jovem, e não “virgem”. Os equívocos de Jerônimo na Vulgata (ele que tinha pouca afinidade com o grego) causaram e ainda causa enorme distorções e mal-entendidos. Um abraço.

  6. Infelizmente, dentro e fora dos conventos, está cheio de lobos vestidos em pelo de cordeiro e que querem à todo custo, derrubar os dogmas de fé da nossa igreja. No que depender de mim, esses lobos vão uivar em vão, até se cansarem….

    1. Oi, Tânia, paz. É verdade, tá cheio de gente que quer desviar o povo dos Evangelhos e da tradição do cristianismo pra enfiar dogmas que só servem para manter poderosos em seus tronos dentro da Igreja!

      1. Exatamente Mauro Lopes ! E esses que criam os “seus” dogmas, são os discípulos de Lúcifer, o anjo decaído e seus seguidores. “Salve Maria, puríssima sem pecado concebida!”.

        1. Hahahaha, Tânia, agora, como dizem as crianças, “forçou a amizade”… Faz tempo que deixei de acreditar em Papai Noel e Lúcifer. No cristianismo, a gente acredita mesmo é em Deus! Paz e bem!

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