Jesus e as bem-aventuranças, uma convocação aos pobres: a caminho!

James Tissot, Jesus Preaches the Sermon on the Mount (1886-1896) – detalhe

Neste domingo (29), cristãos católicos celebram o 4º domingo do Tempo Comum, período no qual ao longo de 33 domingos do Ano Litúrgico, até 19 de novembro, meditam sobre o tempo da missão de Jesus acompanhado por seus amigos e amigas –este é o Ano A, no qual privilegia-se a leitura de trechos do Evangelho de Mateus. Não será um Tempo Litúrgico contínuo, pois será entrecortado pela Quaresma, Semana Santa e Tempo da Páscoa. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que se estende do capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto (Mt 5, 1-12a) é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil):

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.

1. O que fala Jesus

Uma leitura que busque fidelidade  ao texto original e seu contexto indicará claramente: a toda interpretação açucarada feita deste discurso, a partir de bases supostamente “espirituais” é equivocada.

O discurso sobre a montanha em geral e as Bem Aventuranças em particular Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto, seu programa àqueles com os quais desejou caminhar –e caminhou efetivamente. Os estudos realizados ao longo do século XX indicam que este discurso jamais foi pronunciado por Cristo, tratando-se de uma sistematização de diversas falas de Jesus, a partir de um denso trabalho redacional recolhido da mesma fonte que usou Lucas[1], que situou o Sermão não numa montanha, mas numa planície (Lc 6, 17-23).

Há um problema crucial nas traduções que são oferecidas em diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação de uma versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema seguir.

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Padre Paulo: papados conservadores “destruíram Igreja inserida na vida dos pobres” no Brasil e AL

Padre Paulo ao fim de um batizado em 2015

Padre Paulo Sérgio Bezerra não cede um milímetro sequer no seguimento dos ensinamentos da Igreja à luz do Evangelho e da renovação do Concílio Vaticano II, como um dos protagonistas da Teologia da Libertação na periferia de São Paulo. Padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

O sacerdote, de 63 anos, foi formado pela escola do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro de 2016 e dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região Leste II da cidade de São Paulo e hoje emérito da diocese de Blumenau (SC), aos 84 anos. Isso anos antes que João Paulo II dividisse a Arquidiocese em 1989, numa articulação para esvaziar a liderança de dom Paulo e nomear bispos conservadores para as novas dioceses, que trataram de demolir toda a construção da “Igreja rumo à periferia” na antevisão de dom Paulo, agora retomada pelo Papa Francisco, que tem convocado os católicos para novamente partirem “às periferias existenciais” de uma “Igreja em saída”.

A matriz e as capelas das sete comunidades da paróquia estão sempre cheias, quase duas mil pessoas frequentam as celebrações e participam da vida da Igreja local.  Acorrem às missas presididas por padre Paulo gente de toda a cidade, em busca de uma liturgia que fuja ao rigorismo dos tradicionalistas ou ao estilo neopentecostal dos carismáticos. “Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas”, diz ele, desolado com o ambiente da Igreja em boa parte da cidade: “A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários”. Ele não desanima, está empolgado com a primavera da Igreja promovida por Francisco: “Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo”.

Um tempo novo que se abre depois da terra arrasada. Para ele, a ofensiva conservadora de 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI quase liquidou com a Igreja na América Latina e no Brasil, com a perseguição aos leigos, leigas, padres, freiras, teólogos, teólogas e até bispos vinculados à Igreja dos pobres, à Teologia da Libertação e, sobretudo, às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): “Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região”.

Entre outubro e novembro de 2016, padre Paulo sofreu uma campanha agressiva promovida por blogs católicos ultraconservadores. Motivo: ter recebido em celebrações na Igreja, durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, pessoas como o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos, líder nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a filósofa Marilena Chauí e, sobretudo, a drag queen Albert Roggenbuck (Dindry Buck). No caso da de Buck, os rigoristas deixaram de informar que a jovem é catequista em outra paróquia da região. Os integristas moveram intensa campanha de ódio contra o padre nas redes sociais, incentivaram um abaixo assinado pela remoção dele e mantiveram uma reunião constrangedora e inquisitorial com o bispo, dom Manuel Parrado Carral. Não deu em nada. “No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola para isso”, afirmou padre Paulo. Em reportagem da TVCarta sobre as ações da paróquia, padre Paulo questionou: “Porque o Alckmin, por exemplo, chega e fala na basílica nacional (de Aparecida) e ninguém questiona?” (veja aqui).

Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa em duas rodadas de conversas, entre 12 e 16 de janeiro –todas as observações entre colchetes são intervenções do autor deste blog.

Caminho pra Casa: As celebrações na paróquia Nossa Senhora do Carmo estão sempre cheias e a mobilização da comunidade é sempre muito forte. O que acontece aqui?

Padre Paulo Sérgio Bezerra: Bem, talvez seja melhor dizer o que não acontece aqui. Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas (risos). Há mais de 30 anos o que fazemos aqui é manter a linha do Vaticano II. Seis anos depois de minha ordenação decidi fazer pós-graduação em Liturgia e sempre procurei inspirar-me na renovação do Concílio que pretendeu uma caminhada litúrgica dinâmica, com o povo. Ao longo dos anos houve um enrijecimento litúrgico notável, que negou em boa medida o espírito do Vaticano II, ao lado do surgimento da onda de padres cantores e celebrações com acento neopentecostal, mas buscamos nos manter fiéis e eu tentei manter-me amparado no ensinamento de dom Paulo (Evaristo Arns) e dom Angélico (Sândalo Bernardino). Para eles, como filhos diretos do Vaticano II, a Liturgia deveria refletir e ser concretização de uma vida pastoral de compromisso com os pobres. Não se sacralizavam as normas litúrgicas, mas elas eram adaptadas à vida da Igreja como Povo de Deus. Com os anos a liturgia virou uma “vaca sagrada”; ninguém toca. E não tem mais vida, não pulsa.

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10 revelações chocantes do estudo da Oxfam atestam condenação do Papa à concentração da riqueza

Papa discursa no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares; no detalhe, cartaz do estudo da Oxfam

O estudo da Oxfam,  rede de ONGs destinada a estudar a desigualdade no mundo divulgado nesta segunda (16),  aponta uma realidade dramática: os oito homens brancos detém mais riqueza que a soma daquela destinada a 3,6 bilhões de pessoas –metade da humanidade. No Brasil, a concentração é ainda maior: seis bilionários tomam pra si mais do que metade da população. A leitura da íntegra do estudo é muito impactante, e deve ser incentivada nas escolas, comunidades, em todo canto (aqui).

Uma lista de 10 informações do estudo divulgado nesta segunda (16) são de fato estarrecedores para as pessoas que mantêm contato com sua humanidade:

  1. Desde 2015, o 1% mais rico detém mais riqueza que o resto do planeta.
  2. Os lucros das 10 maiores empresas do mundo somam uma receita superior à dos 180 países mais pobres juntos.
  3. Atualmente, oito homens detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo –no Brasil, apenas seis homens têm mais riqueza que 100 milhões de pessoas no país (a metade mais pobre).
  4. O mito da meritocracia: um terço do patrimônio dos bilionários do mundo tem origem em riqueza herdada, enquanto 43% podem ser atribuídos ao favorecimento ou nepotismo.
  5. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de pessoas são trabalhadores forçados (em condição análoga à escravidão) que geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas anualmente.
  6. Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas passarão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – uma soma mais alta que o PIB da Índia, um país que tem 1,2 bilhão de habitantes.
  7. As mulheres ganham de 31 a 75% menos do que os homens ; no ritmo de evolução atual, serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens.
  8. Um diretor executivo de qualquer empresa do índice FTSE-100 ganha o mesmo em um ano que 10.000 pessoas que trabalham em fábricas de vestuário em Bangladesh.
  9. Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente realizada pelo economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.
  10. No Reino Unido, 10% dos lucros das empresas foram distribuídos aos seus acionistas em 1970; atualmente, esse percentual é de 70%.

A estudo confere ainda mais autenticidade ao anúncio profético do Papa Francisco por uma Igreja que caminhe ao lado das multidões de pobres da Terra. A denúncia da concentração da riqueza mundial e a degradação do ambiente do planeta em destruição, violência e medo tem sido uma tônica do papado de Francisco. Em sua  encíclica história Laudato Sii, de maio de 2015, sobre a condição do planeta, o Papa colocou o planeta todo como um pobre oprimido: “entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada” (tópico 2).

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Divorciados católicos: voltem a comungar já!

O sacerdote jesuíta chileno Jorge Costadoat, uma referência para a Igreja na América Latina, acaba de lançar uma boa palavra para os católicos e católicas de toda a região Latina: divorciados e divorciadas em segunda união, voltem a comungar já! Ao mesmo tempo, ele apresentou um questionamento profético aos bispos da região: qual a razão de seu silêncio?

Ele escreveu um artigo precioso no site Religion Digital (aqui) e indica: diante da inaceitável ausência de orientação dos bispos da América Latina (e do Brasil, portanto), vamos nos permitir dialogar com os bispos-pastores-profetas da pequenina ilha de Malta!
Costadoat, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, é professor de Cristologia na Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Chile, é membro da Comissão Teológica dos jesuítas para a América Latina e pertence à Comunidade Eclesial de Base Enrique Alvear, no Chile.

O jesuíta começou seu artigo questionando: “Porque os bispos latino-americanos, nem como pastores de suas dioceses, nem nas conferências de seus países, deram até agora uma orientação particular às pessoas sobre a possibilidade aberta pela exortação apostólica Amoris Laetitia para que os divorciados que voltaram a casar possam comungar na missa? O Papa entregou a eles a tarefa de indicarem as especificações regionais de aplicação da exortação. Só podemos supor que haja uma razão poderosa para que até agora os bispos em sua quase totalidade não tenham se pronunciado sobre o tema.”
Neste espaço de silêncio, uma voz se fez ouvir. A dos dois bispos da pequena ilha de Malta que, segundo o sacerdote chileno, “redigiram um documento notável”.

Prosseguiu o padre Costadoat:

“Não entendo o porquê este silêncio. O Papa precisa de ajuda. Francisco tem uma oposição impressionante de parte de seus próprios colaboradores. Quatro cardeais, e outros católicos por trás dele, ameaçaram Francisco, sugerindo que com a Amoris Laetitia o Papa teria se afastado da ortodoxia. E os demais cardeais, o que pensam? O sínodo aprovou o documento base da exortação Amoris Laetitia por mais de dois terços dos votos. Porém, deixou em aberto explicar aos católicos como devem entender as aplicações do texto em suas respectivas regiões.

Posso entender que os bispos latino-americanos não entrem em polêmica com o cardeal Burke e os demais prelados (…) contra outras autoridades da cúria contrárias ao Papa. Porém, se há bispos de acordo com Francisco, por que não o apoiam na aplicação do documento, sobretudo quando o que está em jogo é orientar o Povo de Deus?”

O que seria preciso?

Volto ao sacerdote jesuíta: “Bastaria um documento como o da Igreja de Malta: ‘Critérios para a aplicação do capítulo VIII de Amoris Laetitia‘. No parágrafo decisivo está escrito:

Se, como resultado do processo de discernimento, empreendido com ‘humildade, reserva, amor à Igreja e a seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e com o desejo de alcançar uma resposta a ela mais perfeita” (AL 300), uma pessoa separada ou divorciada que vive uma relação consegue com clara e informada consciência, reconhecer e crer que ela ou ele estão em paz con Deus, ela ou ele não podem ser impedidos de participar dos sacramentos da reconciliação ou eucaristia (cf. AL, notas 336 y 351).

A conclusão de Costadoat é uma indicação para todos: “Enquanto não houver pronunciamentos dos bispos latino-americanos, este documento e este parágrafo podem servir para muitas igrejas da América Latina; e, quem sabe, para outras igrejas do mundo também.”

Outra mudança radical: Papa nomeia duas mulheres para a Congregação do Culto Divino

Neste sábado (14), batizou 13 bebês nascidos nas localidades do centro da Itália abaladas pelos terremotos dos meses passados. Apenas os familiares participaram da cerimônia, da qual foram divulgadas algumas fotos. A menor das crianças batizadas tem 5 dias de vida

O Papa Francisco está tomando medidas em diversas frentes e acelera a reforma da primavera da Igreja Católica. Neste sábado (14), além da nomeação do cardeal progressista Sean O’Malley para a Congregação para a Doutrina da Fé [aqui] ele ampliou sua intervenção na Congregação para o Culto Divino, chefiada pelo cardeal ganense ultraconservador Robert Sarah. Francisco nomeou nada menos que 17 assessores para o organismo, entre sacerdotes, leigos e –novidade das novidades- duas mulheres!

Passam a ser assessoras da Congregação mais misógina do Vaticano, responsável pela liturgia católica: Donna Lynn Orsuto, professora do Instituto de Espiritualidade da Universidade Gregoriana e Valeria Trapani, professora de liturgia na Faculdade de Teologia São João em Palermo.

É a segunda mudança contundente na Congregação em poucos meses. Em outubro, Francisco havia afastado 16 dos membros mais conservadores do organismo que regula o rito da missa, como os cardeais Raymond Burke (líder do quarteto ultraconservador rebelado contra o Papa) e George Pell (secretário de Economia do Vaticano envolvido em graves acusações em casos de pedofilia na Austrália), e nomeando prelados mais alinhados com o espírito do Vaticano II –leia aqui. Isso não quer dizer que a Congregação não tenha ainda um “núcleo duro” tradicionalista sob o comando de Sarah.

O cardeal Robert Sarah

Mas o espaço do atual Prefeito está cada vez menor.  Em julho, ele já havia sido publicamente repreendido por sinalizar uma orientação a que os sacerdotes passassem a celebrar as missas de costas para a assembleia dos fieis, costume medieval que foi abolido no Concílio Vaticano II – diz-se no Vaticano que os dias de Sarah à frente da congregação estão contados. A notícia, se confirmada nos próximos meses, será recebido com grande alívio nas bases da Igreja: a Congregação  para o Culto Divino congelou a liturgia da Igreja, contrariando o espírito do Vaticano II, espalha ameaças por todo o mundo católico há anos, e tenta impor retrocessos sobre retrocessos.

Os rigoristas, alinhados ao cardeal ganense, defendem a restauração do rito tridentino da missa, no qual:

  1. havia um único celebrante (depois do Concílio, todos os membros da assembleia reunida passaram a ser igualmente celebrantes e o padre apenas preside);
  2. o sacerdote rezava de costas para as pessoas, em latim, enquanto aos membros desta assembleia manietada restava entregar-se a suas devoções  ou a seus ensimesmamentos (era comum que as pessoas rezassem o terço durante as celebrações, pois a missa era “do padre”);
  3. a missa era um cerimonial de suposta “adoração eucarística” e a Liturgia da Palavra era praticamente irrelevante, posto que os textos bíblicos eram lidos igualmente em latim e, portanto, incompreensíveis para quase toda a assembleia.
Missa tridentina: como na Idade Média

Pode parecer incrível, mas os integristas querem mesmo que este “modelo” ritual seja restaurado (veja um dos sites deles aqui). De fato, existe hoje uma “forma extraordinária do Rito Romano” que é a missa tridentina, em referência ao Concilio de Trento (1545-1563) que foi readmitida a partir de 2007 por uma carta Apostólica do Papa Bento XVI.

Este é um tema sensibilíssimo aos conservadores, que estão reagindo com enorme irritação desde que, no início de dezembro veio,  à luz uma entrevista do Papa ao jesuíta Antonio Spadaro SJ, editor da revista La Civiltà Cattolica, no livro recém-publicado “Em teus olhos está minha palavra”. Ao falar sobre o rito tridentino, Francisco foi enérgico e irônico: “É apenas uma exceção. O Papa Bento realizou um próprio e generoso gesto para ir ao encontro de certa mentalidade de alguns grupos e pessoas que tinham nostalgia e que estavam distantes.”

[por Mauro Lopes]

 

Francisco nomeia cardeal progressista como membro pleno da Congregação para a Doutrina da Fé

O cardeal franciscano Sean O’Malley, alinhado ao Papa, muda o perfil da Congregação para a Doutrina da Fé
O PAPA NÃO PARA!

O site da revista  America, dos jesuítas americanos, anunciou no fim da tarde deste sábado (14) a nomeação do arcebispo de Boston, o cardeal franciscano Sean P. O’Malley, como membro pleno da Congregação para a Doutrina da Fé. O’Malley é um cardeal progressista, da confiança de Francisco. O Vaticano, segundo a revista, confirmou a notícia por volta de 12h deste sábado em Roma (15h em Brasília), mas não houve até o momento divulgação oficial da notícia pelos canais de comunicação da Santa Sé.

A nomeação é um estrondo. A Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora do Santo Ofício, sempre foi dominada pelos conservadores e promoveu nas últimas décadas perseguições a teólogos, teólogas, sacerdotes e leigos progressistas. O prefeito (chefe) da Congregação é o cardeal alemão conservador Gerhard Müller, que buscou aproximações com o Papa nos últimos meses e distanciou-se do grupo radical dos quatro cardeais das “dubia” que lideram uma mini rebelião a Francisco. Com a chegada de O’Malley à Congregação, o equilíbrio de forças sofre uma mudanças história -estará ele sendo preparado para a sucessão de Müller?

Há outro aspecto relevante na decisão, que foi destacado na reportagem de America: o cardeal O’Malley é também o presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores que Francisco instituiu em 2014. Com a nomeação, segundo o próprio Vaticano, passa a haver uma ligação direta entre a mais antiga e poderosa Congregação da Cúria e a comissão que cuida dos casos de pedofilia e abuso sexual, até agora muito ativa, mas sem poder real.

A decisão de Francisco indica claramente que ele não recuará nas reformas nem está intimidado pela estridência conservadora, que mobiliza mídias e dinheiro ao redor do mundo para combatê-lo. As reformas seguirão em frente.

Aguarda-se para as próximas horas uma reação furibunda dos “contras”, que já haviam ficado perplexos com o que consideram uma “traição” de Müller, que numa entrevista a uma TV italiana há uma semana censurou as iniciativas dos cardeais rebelados (leia a reportagem deste blog sobre o assunto: “Os conservadores perdem o chão: Müller apoia o Papa e condena os quatro cardeais“). Há dois dias, os conservadores ficaram novamente indignados com a decisão dos bispos de Malta de apoiar a Amoris Laetitia e permitir a comunhão de divorciados em segunda união. A pequena Malta tem pouquíssima relevância no contexto do catolicismo global, mas ganhou destaque com a rebelião da Ordem de Malta contra o Papa, estimulada por seu patrono, exatamente o cardeal líder da marcha ultraconservadora, Raymond Burke.

Os próximos dias serão agitados.

[por Mauro Lopes]

Você pode ler a versão em espanhol da reportagem, publicada no blog Camino a Casa, em Religion Digital – clique aqui.

Um Cordeiro que denuncia a ideia da “expiação”, centro da teologia de controle, medo e submissão

Neste domingo, são dados os primeiros passos da caminhada litúrgica católica do Tempo Comum, na qual se reza, na Liturgia da Palavra nas missas, o tempo da missão de Jesus antes de sua paixão e morte. Esta jornada litúrgica prossegue até o fim de fevereiro, quando será interrompida pela Quaresma, a Semana Santa e o Tempo da Páscoa, até a retomada do Tempo Comum em junho.

Este é o 2º Domingo do Tempo Comum e a leitura do Evangelho de João (Jo 1,29-34),  apresenta trecho de uma peça fundamental do cristianismo, aquele que é conhecido como o testemunho de João, o Batista, sobre Jesus. O profeta havia sofrido um duro interrogatório de representantes da elite religiosa judaica, preocupados em saber se ele era o Esperado –o que ele negara; no dia seguinte, houve encontro entre o Anunciador e o Anunciado, Batista e Cristo, e sobre ele proclamou João: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29).

A interpretação desta frase está no centro de uma grande divisão dentro do cristianismo, que percorre os séculos. Pois nela apresenta-se quem é Jesus, sua missão e o significado de sua morte.

O edifício teológico conservador, que estrutura o pensamento hegemônico da hierarquia católica ao longo dos tempos, está em parte construído a partir desta pequena frase.

O que diz este pensamento?

Que Jesus, em sua morte na cruz, foi condenado pelo “mundo”; em seu sacrifício, foi o cordeiro imolado, que expiou todo o pecado da humanidade. A palavra central aqui é expiação. Significa que, com seu sofrimento e morte, Jesus purificou, compensou todas as culpas dos homens (e mulheres –mas, para os conservadores elas são apenas peças acessórias), resgatando a humanidade do “pecado original”.

É uma lógica binária sobre a qual irá se estruturar o governo da Igreja pelos conservadores: pecado/perdão; pureza/impureza.  Por esta lógica, a hierarquia teria se tornado “sucessora de Cristo” e se configuraria como polo da pureza e perdão na equação, enquanto o resto da humanidade carregaria sobre si o ônus do pecado e da impureza. É relevante mencionar que este ônus iria pesar, ao longo da história, especialmente sobre os pobres, os marginalizados, mulheres, homossexuais, todos os “diferentes”, pois a hierarquia tornou-se fiadora das monarquias e, depois, num processo complexo e não isento de contradições, da riqueza e do poder no mundo –e, com isso, teria “transferido” parcialmente sua “pureza” para os monarcas e os ricos.

O pensamento divergente sobreviveu às margens da Igreja depois dos primeiros tempos, costurado por teólogos e teólogas perseguidos pela hierarquia, até ser consagrado no Concílio Vaticano II (1962-65) em meio a uma grande crise da Igreja -para ser, logo depois, sufocado pela cúpula da Igreja (a  Cúria Romana), especialmente com as eleições de João Paulo II (1979-2005) e Bento XVI (2005-2013).

O pensamento divergente da teologia institucional sobreviveu igualmente em comunidades que seriam designadas, séculos depois daquelas dos primeiros cristãos, de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), consagradas pela  Conferência de Medellín, em 1968 (a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, realizada naquela cidade da Colômbia). O encontro dos bispos latino-americanos respirou o sopro do Vaticano II e tornou-se, na definição do teólogo belga-brasileiro José Comblin, locus capaz “de expressar o que o Concílio não tinha tido a capacidade de dizer. Foi uma novidade mundial significativa para a Igreja universal. Medellín trouxe algo novo que vai além dos textos conciliares e dos documentos da Igreja, embora tenha sido durante séculos a aspiração de inúmeros santos e profetas, começando com São Francisco de Assis.”[1] As decisões da conferência foram combatidas ato contínuo pela Cúria romana e os bispos, sacerdotes e teólogos conservadores de todo o mundo, especialmente da América Latina, até que suas decisões fossem estraçalhadas ao longo dos papados de João Paulo II e Bento XVI.

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Pastoral Carcerária: “se colocassem cães e gatos nos presídios, tratados como as pessoas o são, teríamos milhões nas ruas”

Padre Valdir em visita a um presídio – foto de arquivo pessoal

O padre Valdir Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária no Brasil, é uma das pessoas que mais conhecem o sistema prisional do país. São anos de escuta aos presos, presas, seus familiares, funcionários e autoridades. Ele não tem dúvida: “O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.” E completa: “se colocassem cães e gatos nos presídios brasileiros, tratados como as pessoas são tratadas atualmente, teríamos milhões nas ruas e mobilização mundial contra o Brasil.” Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa na tarde desta segunda (10) pouco antes de embarcar para a região Norte.

Desde 2012 a autoridades carcerárias e os governos estaduais e federal são informados pela Pastoral sobre o barril de pólvora que são as prisões, em todo o país, com relatórios específicos sobre a região Norte, sem qualquer ação. “Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.“ Para ele, a declaração do ex-secretário nacional da Juventude (“Tinha que fazer uma chacina por semana”) foi a mais “autêntica” e “sincera”: “É o que o governo deseja, de fato. Ele caiu, mas foi o porta-voz do governo”.

Padre Valdir contesta a estatística oficial que posiciona o Brasil com a 4ª maior população carcerária; diz que ela está defasada e que o país já passou a Rússia. Dos quatro países com maior população aprisionada –EUA e China, além do Brasil e Rússia- apenas em um o número de presos cresce, exatamente o Brasil; nos demais, há diminuição ano a ano.

São mais de 6.500 agentes da Pastoral em todo o Brasil, atuando diuturnamente nos presídios e delegacias e testemunhando situações desde a violência física até a ausência de sabonete, papel higiênico –e absorvente íntimo para as mulheres. O que faz a Pastoral? “Nossa missão é em primeiro lugar evangelizar: uma ação na qual o anúncio de Cristo só existe se estamos implicados na vida digna das pessoas encarceradas. (…) Não podemos esquecer que nosso Mestre foi também um preso, e um preso torturado.“ Para ele, o Papa Francisco “é um profeta” também no tema carcerário.

Caminho pra Casa –  Como a Pastoral Carcerária avalia os massacres do início de 2017, com 64 mortos em Manaus (AM), entre 1 e 8 de janeiro e mais 33 mortes em Boa Vista (RR) , no dia 6?

Padre Valdir Silveira – Os massacres não foram uma surpresa. Desde 2012 a Pastoral Carcerária faz relatórios, encaminhados às autoridades, sobre a situação limite dos presídios no país, com destaque para os do Norte, tanto no Amazonas [aqui] como em Roraima [aqui]. O governo sabia do que podia acontecer. Há rebeliões em todo o país. Vimos o massacre de Pedrinhas (PI), que aconteceu em três ondas sucessivas, entre 2010 e 2013, com 97 mortes no total.

Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.  Mesmo nestes casos, do massacre continuado em aparente pequena escala, que sequer é notícia, os números quando consolidados são terríveis. E olhe que os levantamentos são todos precários, sempre subestimados. Aos presos pobres não é dado o direito nem mesmo de figurar em estatísticas.

Veja estes números, são chocantes: só no primeiro semestre de 2014, o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen) informou 565 mortes no sistema prisional, sendo mais ou menos metade delas classificada como intencionais, violentas –portanto, algo como 280. Isso apenas no primeiro semestre de 2014! E quer saber mais? Sem que os estados de São Paulo e Rio apresentassem seus dados! O governo de São Paulo, que tem um terço da população carcerária nacional, ignorou o levantamento federal! Em 2016 o governo Alckmin informou mais de 400 mortos no sistema penitenciário no Estado –e garantiu que apenas 17 teriam sido mortes violentas. Dá pra acreditar?

O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.

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