2017 começará com agravamento do confronto na Igreja

A verdadeira guerra que quatro cardeais e segmentos ultraconservadores movem contra o Papa deixou definitivamente os bastidores, acontece à luz do dia e deve agravar-se no início de 2017. A sucessão de confrontos entre o grupo apoiado por uma agressiva mídia católica conservadoras e Francisco mudou de qualidade em novembro e tornou-se uma crise aguda.

Apesar de o primeiro movimento público ter sido assumido por cardeais quatro cardeais conservadores, os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e mais Carlo Caffarra (italiano) e Raymond Burke (norte-americano), a liderança pública das afrontas ao Papa têm sido lideradas por este último, que se apresenta como um porta-voz dos conservadores da Igreja.

As ações dos conservadores acontecem em torno da exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor) lançada pelo Papa depois do Sínodo da Família e especialmente a questão do direito à comunhão de casais divorciados casados pela segunda vez. Mas a disputa verdadeira acontece em torno da decisão de Francisco de de retomar a opção preferencial pelos pobres e retomar as diretrizes do Concílio Vaticano II.

A sequência e velocidade da crise a partir de meados de novembro é de fato impressionante:

  • 14 de novembro – os quatro cardeais vazaram ao vaticanista conservador Sandor Magister uma carta privada que haviam endereçado a Francisco em setembro apresentando as agora famosas “dubia” (dúvidas); o objetivo foi decretar que a indissolubilidade do casamento seria uma “norma moral absoluta” para os católicos -o que carece de amparo histórico.
  • 16 de novembro – apenas dois dias depois do vazamento a Magister, o site conservador Infovaticana veiculou entrevista de Burke na qual ele afirmou que seu grupo poderá decretar  “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às ameaças (aqui).
  • 18 de novembro – o Avvenire jornal dos bispos italianos publicou entrevista com Francisco na qual ele reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores, acusando-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico (aqui).
  • 20 de novembro – o bispo Fragkiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal da Grécia saiu na defesa de Francisco e divulgou uma carta aberta aos quatro cardeais, dizendo que eles deveriam, por dever de honestidade, renunciar às suas cadeiras no Colégio Cardinalício.
  • 26 de novembro – o Papa enviou carta a 800 gestores das organizações religiosas participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, contendo dura advertência quanto à “hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Este é um tema que confronta Francisco diretamente com os conservadores.
  • 30 de novembro – divulgado texto de um dos mais destacados teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, em defesa do Sínodo da Família e da Amoris Latetitia, colocando-os em linha direta com o Vaticano II. Foi no prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes –leia aqui.
  • 8 de dezembro –  numa ação coordenada por Raymond Burke, patrono da Ordem de Malta, a direção da organização destituiu seu grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, cargo de nomeação direta do Papa. Burke foi colocado à frente da Ordem por Francisco em 2014, que o removeu do poderoso  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano -apesar da inexpressividade da Ordem de Malta, Burke encontrou mais um meio de confrontar Francisco e conseguir repercussão, mobilizando apoios entre os conservadores.
  • 19 de dezembro – em entrevistas a veículos conservadores dos EUA, Burke apresentou como que dois “ultimatos” ao Papa. Ao LifeSite, assegurou que se o Papa não responder às “dubia” seu grupo irá divulgar a anunciada “correção formal” a Francisco logo depois da solenidade da Epifania, que será celebrada em 8 de janeiro de 2017 (aqui); ao portal Catholic World Report Burke foi ainda mais longe e insinuou que o Papa é herege, ameaçando com a destituição: “Se o Papa professar uma heresia formalmente deixaria, por esse ato, de ser Papa. É automático.” Espertamente, para evitar uma punição direta, disse a seguir que “não estou dizendo que o Papa Francisco está em heresia” (aqui).
  • 22 dezembro – o Papa nomeou uma comissão para investigar a destituição do grão-chaceler da Ordem de Malta.
  • 22 de dezembro – depois de ter abalado a Cúria romana no discurso de Natal em 2014 quando atacou o que qualificou de “15 doenças curiais”, Francisco voltou à carga este ano numa duríssima advertência contra as “resistências maliciosa” de “mentes distorcidas” contra as reformas da Igreja (aqui).
  • 24 dezembro – a cúpula da Ordem de Malta reagiu de maneira sem precedentes a um Papa e contesta a comissão nomeada por Francisco, qualificando o gesto de “inaceitável” (leia aqui a reportagem de Religion Digital sobre o assunto).

Não é à toa que nos corredores do Vaticano, altos funcionários chamam Francisco à boca pequena de “esse argentinozinho”.

 Para termos uma ideia do que Francisco enfrenta é preciso retroceder na história. Ao ser apresentado ao mundo, o novo Papa surgiu no balcão do Vaticano vestido de branco, sem ouro algum. Num gesto inédito, curvou-se diante da multidão que ocupava a Praça São Pedro e pediu que as pessoas rezassem por ele. Com isso, rompeu uma tradição milenar de identificar o Papa com um monarca, abalada com a nomeação de João XXIII e o Concílio Vaticano II, há 50 anos, mas reconstruída por João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013). Na noite de na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013, o mundo viu um Papa humilde, sem ornamentos e vestes pomposas. O novo papa curvou-se [Clique aqui para o vídeo da apresentação do novo papa ao povo; vá até 7min20 e veja a cena]

 

Francisco curva-se diante do povo na praça São Pedro na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013 –ao lado dele, o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes

O equilíbrio de forças no interior da Igreja, fortemente impactado pela onda conservadora dos últimos 35 anos, parece manter Francisco em relativo isolamento na cúpula católica, agravado pela onda conservadora que varre o planeta. Mas o cenário é paradoxal, pois este é o Papa mais popular da história, superando João Paulo II. Segundo seus aliados e alguns vaticanistas, Francisco está, aos poucos, modificando o perfil da Igreja. É o que diz dom Cláudio Hummes, o cardeal brasileiro que se tornou conhecido mundialmente pelo fato de, estando ao lado do Papa no exato momento de sua eleição, cumprimentá-lo sussurrando em seu ouvido uma frase que inspirou Bergoglio a escolher o nome de Francisco: “Não se esqueça dos pobres”.

Hummes assegura que a imensa maioria dos cardeais está ao lado do Papa: “Sem querer relativizar este fato, são quatro cardeais. E na Igreja somos mais de 200. Sem querer relativizar demasiadamente, são quatro de um grupo enorme que está dando todo o seu apoio ao Papa”. Não são apenas quatro; nas últimas semanas pelo menos outros três cardeais acorreram em apoio ao grupo original (George Pell, prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, alvo de um processo no qual é pesadamente acusado de encobrir casos de pedofilia na Austrália;  o arquiconservador Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino; Renato Martino, presidente emérito do Pontifício Conselho de Justiça e Paz).

‎Os movimentos no tabuleiro da Igreja estão sendo pensados de olho no próximo Papa, pois Francisco, aos 80 anos, não terá tempo para concluir suas reformas. Ele sabe disso e está redesenhando o colégio eleitoral do próximo papa com frieza e tirocínio típicos dos jesuítas. Para o teólogo brasileiro César Kuzma, Francisco “não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo.”

Por isso, ao nomear 13 cardeais com direito a voto (menos de 80 anos de idade) em 19 de novembro, ele é responsável por 1/3 do total de indicações do colégio de cardeais com direito a voto neste momento (44 de um total de 121). Em três rodadas de nomeações desde 2013, o Papa já conseguiu um feito memorável na história da Igreja: acabou com a maioria europeia. São agora 54 cardeais do Velho Continente contra 67 do resto do mundo.

É de se esperar mais uma ou duas rodadas de nomeações cardinalícias à frente. Com isso, o cálculo e a esperança dos conservadores para o próximo Papa pode estar em risco. O que explicaria a radicalização da luta no interior da Igreja nas últimas semanas.

O início de 2017 promete tensão e ações agressivas na disputa pelo perfil da Igreja Católica que se apresenta aos fiéis e ao mundo.

‎[por Mauro Lopes]

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[Uma primeira versão desta reportagem foi publicada originalmente na revista eletrônica Calle2, em 17 de dezembro, e, coautoria com Sérgio Kraselis, por ocasião do 80º aniversário do Papa Francisco – a versão original está aqui e republicada pela agência de notícias do Instituto Humanitas Unisinos, clique aqui e pelo site da Associação Rumos, aqui]

42 respostas para “2017 começará com agravamento do confronto na Igreja”

    1. E a necessidade urgentíssima de reformas em nossa igreja. Tb sinto que as mudanças já ocorridas e as já bastante comentadas, nossa IGREJA voltou a ter mais presença dos FIÉIS nas CELEBRAÇÕES. A IGREJA tem que ouvir/sentir o que os FIES DESEJAM. E não o que apenas 4 CARDEIAS desejam.

      ESTOU COM O PAPA FRANCISCO

  1. Quem guia a Igreja é o Espírito Santo. Os problemas mundanos são apenas efêmeros arranhões na marcha inexorável da Igreja rumo à vitória definitiva do Bem e da Verdade. Portanto, aos modernistas e libertários que tomaram de assalto à estrutura da Igreja e a aparelharam, que fecharam o Reino dos Céus a tantas pessoas, digo uma coisa: comam e bebam enquanto podem, como nos dias antes do dilúvio. Porque um dia tudo isto lhes será tirado.

    1. Espírito de Deus enviai dos céus um raio de LUZ! Pai dos miseráveis, vossos dons afáveis daí aos corações, CONSOLO que acalma, hóspede da alma, DOCE ALÍVIO vinde.
      Enchei luz BENDITA, chama que crepita, o íntimo de nossos cardeais e do nosso Papa!
      Sem a LUZ que acode, NADA O HOMEM PODE, nenhum bem há nele!
      Dai à Santa Igreja, que espera e deseja, os Vossos SETE DONS. Dai em prêmio ao FORTE, uma santa morte e a ALEGRIA eterna! Amém!

    2. Parabéns Renato, pois me parece que vc e alguns “príncipes” da Igreja Católica, sofrem de uma insensatez a toda prova, pois Cristo Jesus, esteve cercacdo pelo povo da sua época, por pescadores, pobres, doentes, prostitutas e todos aqueles que eram rejeitados pela sociedade!!!… Você e outros que se consideram leite, busquem uma igreja de hipócritas, aqui está cheio delas!!!…

      1. Paulo César, entendo seu ponto de vista. E também muito me admira a forma simples e voltada aos pobres que Francisco dirige seu ministério.
        Mas o que pensa sobre essa ‘reforma’ do matrimônio?
        Jesus é bem claro na Palavra ao consolidar o matrimônio como indissolúvel. A Santa Igreja em toda a sua história, com a Tradição, sempre sustentou a indissolubilidade. Mas agora já não é mais?

        1. Creiam a INSISSOLUBILIDADE só existe quando houve MATRIMÔNIO de verdade. Nossos casais estão casando sem o mínimo de reflexão, de aprofundamento do SER PESSOA HUMANA. Trabalho com família há anos e tenho aprofundado esta noticia a cada momento. PERDEMOS O SENTIDO À VIDA. AO SER PESSOA, AO RELACIONAMENTO a cada hora. Não se namora mais, não se noiva mais, vai tudo no OBA. OBA. Precisamos resgatar o AMOR fraterno, familiar, conjugal…….
          Casa-se já com a idéia: se não der certo separa…. Isto não é Matrimônio. A Igreja está nos ajudando a repensar o sentido da vida, o sentido do ser pessoa humana, o sentido do ser FAMÍLIA. O Papa está nos abrindo os olhos.!!!!!!

        2. Creiam a INSISSOLUBILIDADE só existe quando houve MATRIMÔNIO de verdade. Nossos casais estão casando sem o mínimo de reflexão, de aprofundamento do SER PESSOA HUMANA. Trabalho com família há anos e tenho aprofundado esta noticia a cada momento. PERDEMOS O SENTIDO À VIDA. AO SER PESSOA, AO RELACIONAMENTO a cada hora. Não se namora mais, não se noiva mais, vai tudo no OBA. OBA. Precisamos resgatar o AMOR fraterno, familiar, conjugal…….
          Casa-se já com a idéia: se não der certo separa…. Isto não é Matrimônio. A Igreja está nos ajudando a repensar o sentido da vida, o sentido do ser pessoa humana, o sentido do ser FAMÍLIA. O Papa está nos abrindo os olhos.!!!!!!
          Volto a insistir no real.

    3. Obrigado por seu comentário, José Renato. Deixa eu lhe dizer, o Papa Francisco não tomou nada de assalto -foi eleito pelo colégio de cardeais. Quanto ao combate aos modernistas, este foi um tema da Igreja no século XIX, um capítulo encerrado pelo Concílio Vaticano II -que igualmente não foi uma “tomada de assalto”, mas a reunião de quase todos os bispos da Igreja à época.

    4. Mauro e demais comentaristas: eu citei no meu último comentário o nome do papa Francisco e do Concílio Vaticano II? Resposta: não.

      O modernismo iniciado no século XIX e combatido por S. Pio X não desapareceu com o Concílio. Recrudesceu. Tomou novas formas. O homem é uma criança. Quando os pais baixam a guarda, a criança bagunça. E nenhuma criança gosta de ser repreendida. Para a criança, ela está sempre certa.

      É a ele, o modernismo, que o papa Paulo VI se referia, quando afirmou que a fumaça de Satanás havia penetrado no Templo de Deus por alguma brecha.

      1. Mas José Renato, com todo respeito, nós já estamos na pós-modernidade e você está combatendo a modernidade! Não creio que a Igreja tenha acertado ao “combater” a modernidade. Não se combate uma era, um tempo histórico. Dialoga-se e eventualmente confronta-se com o espírito do tempo a partir de nossos valores. Mas não adianta querer voltar o relógio da história para trás. O tempo da cristandade está morto e enterrado. A Igreja perdeu o controle, definitivamente. Ela é uma das protagonistas do tempo, mas não é mais hegemônica -e não mais será. É a partir desta realidade que os cristãos devem viver, e não do saudosismo de um tempo passado e cujas lembranças sequer correspondem à verdade histórica. Um abraço!

    1. Obrigado por seu comentário. Esta expressão “pessoas de bem” é mesmo a definição do preconceito, não é mesmo? A adúltera que Cristo acolheu, os leprosos que ele tocou, o pescadores que ele reuniu em torno de si, nenhum deles era “pessoa de bem”.

    1. Exatamente, vamos rezar, e muito, pelo Papa Francisco ! ! !
      Que todas as decisões tomadas sejam inspiradas pelo Espírito Santo de Deus ! ! !
      Jesus Cristo veio para os doentes ! ! !

  2. A IGREJA É DO POVO DE DEUS. OS CARDEAIS SÃO PASSAGEIROS QUE DEVERIAM BUSCAR CADA VEZ MAIS FORTALECER A ‘”PERTENÇA” DESTE POVO NUMA ACOLHIDA MISERICORDIOSA.

  3. O amado e abençoado Papa Francisco, assim como São Francisco de Assis, recebeu como missão maior a recontrução da Igreja. Deus é perfeito em seus propósitos.

    1. Sabia que São Francisco mandou o principal líder islâmico da época se converter ao catolicismo em debate teológico? Francisco se preocupa com os pobres tanto quanto o falecido milionário Niemeyer, Lula e etc. Deus é perfeito e as respostas das Dúbias será providencial

      1. Caro Carlos, obrigado por seu comentário. Creio que ele revela desconhecimento histórico. É mentirosa essa versão segundo a qual São Francisco teria tentado converter o sultão al-Melek al-Kamel em 1219, quando os dois encontraram-se no Egito. Veja o que disse o Papa Bento XVI em discurso em 27 de janeiro de 2010 sobre o episódio, em registro da agência Zenith do Vaticano (e creio que sua raiva em relação ao Papa Francisco não se estende a Bento XVI):
        “Em 1219, ‘Francisco obteve autorização para dirigir-se ao Egito e falar com o sultão muçulmano Melek-el-Kâmel, para pregar também lá o Evangelho de Jesus. Eu gostaria de sublinhar este episódio da vida de São Francisco, que tem uma grande atualidade’, afirmou Bento XVI. ‘Em uma época em que estava em curso um enfrentamento entre o cristianismo e o islã, Francisco, armado voluntariamente só com sua fé e sua mansidão pessoais, percorreu com eficácia o caminho do diálogo’, explicou. O Papa recordou que o sultão ofereceu a São Francisco ‘um acolhimento benevolente e uma cordial recepção’. ‘Este é um modelo que deve inspirar, ainda hoje, as relações entre cristãos e muçulmanos, para promover um diálogo na verdade, no respeito e na compreensão mútuos’, afirmou.” Como você pode ver, é bem diferente dessa visão que você prega. São Francisco não esteve lá para fazer proselitismo (o que o Papa Francisco hoje igualmente condena com veemência), mas para dialogar, como disse Bento XVI, e foi muito bem acolhido pelo sultão muçulmano. Quanto à sua opinião a respeito do Para Francisco, creio que ela revela mais sobre você do que sobre ele.

        1. Obrigado Mauro, primeiramente devo agradecer porque que é perceptível que vc trata com cortesia todos que aqui cometam , independente de terem opiniões contrárias às suas. É dessa cortesia e relação interpessoal que se refere o papa. Vc relembra fatos de Bento XVI e podemos também relembrar de Ratisbona em 2006 e vc deve se recordar da repercussão da fala de Bento XVI: foi achincalhado tanto pela mídia secular quanto por membros da igreja inclusive o então Cardeal Bergoglio não foi nada misericordioso nas críticas. E hoje diante de tanto terrorismo podemos perceber que o papa tinha razão. Vc mesmo se contradiz Mauro ao dizer que Bento XVI disse que São Francisco foi pregar o evangelho! Ora, o que seria pregar o evangelho, senão levar a boa nova e o acolhimento da verdade com a consequente conversão? Ninguém está falando de conversão forçada isso quem faz até hoje é o islã. A sua versão é que é falaciosa de que São Francisco foi à passeio ao Egito apenas para estreitar laços com o sultão. Inclusive ele corria o sério risco do martírio pelas circunstâncias, mas seria interessante as pessoas pesquisarem e há inclusive relatos do diálogos com o sultão, e acho que se surpreenderiam… Talvez se surpreendessem também com o zelo de São Francisco para com a beleza da liturgia que faz com que as pessoas confundam pobreza com mau gosto. O proselitismo não existe mais, caro Mauro e isso também não é o problema. Hoje na Europa pessoas e padres têm medo de montar um simples presépio ou árvore de natal em público por medo dos muçulmanos!

          1. Caro Carlos, se a gente conseguir manter um bom diálogo entre nós, cristãos católicos, sem desejos de morte, isso já será algo muito positivo para o mundo. O que não quer dizer que precisemos concordar nem invocar supostas “autoridades” para obter a concordância do outro. O diálogo, mesmo quando em termos mais duros, sempre gera algo novo, se houver escuta. Leio sua resposta e penso que talvez tenhamos visões distintas sobre evangelização. A conversão verdadeira nunca pode ser consequência obrigatória da evangelização, posto que só será de fato verdadeira se for adotada de coração. E eu não preciso tentar “converter” um muçulmano, um espírita ou um budista ao conversar com ele. Podemos simplesmente nos enriquecer mutuamente com este diálogo, sem que precisemos, um ou outro, abrir mão de nossas crenças. Creio que é disso que falava o Papa Bento XVI quando descreveu o encontro entre São Francisco e Melek-el-Kâmel. Não disse que São Francisco foi a passeio. Ir para dialogar não é “ir a passeio”. É algo que, como a realidade do mundo ao longo da história o demonstra, muito relevante. Talvez mais que desejar a conversão do outro. Quanto aos muçulmanos, considero-os irmãos, como os budistas, judeus, espíritas, pessoas das religiões afro, ateus… Há grupos extremamente radicais deles, fundamentalistas mesmos, mas é preciso entender historicamente seu surgimento, baseado nos seguidos massacres e aniquilamentos em massa que sofreram. Combatê-los com violência só nos colocará numa espiral de violência ainda maior. Vejamos Israel, a maravilha do processo de paz da época de Itzak Rabin, liquidado com sua morte. Ele não foi assassinado por um muçulmano radical, mas por um judeu de extrema direita. Se há muçulmanos radicais e violentos, há milhões que são pacíficos. E quanto aos violentos, o que defenderemos? Bombas? E se lembrarmos do tempo da cristandade quando populações inteiras foram convertidas à força sob ameaça de morte? Os cristãos fizeram isso. Talvez seja algo a nos deixar menos incisivos nas acusações a eles. Que tal lembrar apenas um episódio? A conversão forçada dos judeus em Portugal por conta da aliança entre a Igreja e dom Manuel: em 1497, o rei mandou sequestrar as crianças judias menores de 14 anos, para serem criadas por famílias cristãs, o que foi feito com grande violência. Em outubro de 1497, os que ainda resistiram à conversão foram arrastados à pia batismal pelo povo incitado por clérigos fanáticos e com a complacência das forças da ordem. É suficiente? E o massacre dos indígenas nas Américas com apoio da Igreja? Só no Peru foram 7,5 milhões de mortos? E a escravidão dos negros? Não é suficiente para sermos mais compassivos em relação aos muçulmanos? Creio que se queremos ser fiéis a Cristo e reconhecer os crimes que a Igreja e os fanáticos cristãos cometeram ao longo da história, devemos pensar em diálogo com ele, e não estigmatização. Um abraço!

  4. Meu caro Mauro, temos posições diferentes e sei que não vamos mudar, além do mais o blog é seu, e naturalmente a maioria das pessoas que aqui frequentam compartilham de sua opinião e revisão histórica. Mas a ideia de ecumenismo veio com o Vaticano II e São Francisco não era ecumênico por mais que isso incomode as pessoas, pois isso é documentado, não é questão de achismo. O sultão não se converteu, ainda que São Francisco tenha tentado mas ainda sim são exemplo de diálogo, pois se respeitaram sem recorrer a violência, o que deve prevalecer e nisso estamos de acordo. E por falar no Peru, ainda hoje, país majoritariamente composto de ameríndios e descendentes o Presidente de lá ao tomar posse consagrou a nação ao Sagrado Coração de Jesus. Não é bonito? Quem sabe teremos ainda um presidente corajoso que tome essa atitude. Que no centenário de Fátima, Nossa Senhora interceda pela Igreja e a Verdade prevaleça. Viva Cristo Rei!

    1. Talvez não mudemos, Carlos -quem sabe? De qualquer forma, obrigado por escrever -escreva sempre que quiser. Paz e bem, como dizia o primeiro Francisco.

  5. O Papa Francisco certamente esta consciente da oposição que parte da cúria romana lhe fará até o final do seu pontificado. Contudo vejo no Papa um autentico argentino que luta com garra no que acredita. A igreja precisa voltar as comunidades aos mais pobres, pois é nesse meio que Jesus anunciou a boa nova. Os conservadores de plantão vão usar de todas as armas e artimanhas, mais ao final o Papa Francisco irá vencer.

  6. Rezo por Francisco e que aqueles que o compreendem, também tenham a coragem de se mostrar e partir para o diálogo com serenidade e luz.
    Pois acredito que só se vence o discurso fechado quando estamos disponíveis ao diálogo. Não é clichê. É bíblico e pura certeza : ” A verdade vos libertará!”
    E o diálogo nos leva à verdade. Num é?
    Abraço Mauro!

    1. Obrigado, Sérgio. Rezamos juntos por Francisco! Diálogo sempre foi o “método” de Jesus. Os hierarcas tentam impor tudo sob ameaça de punições, mas Jesus nunca fez isso. Um abraço amigo.

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