No feminino repousa a esperança para 2017

O assassinato de Luiz Carlos Ruas e as três Marias: no alto, Raíssa, a travesti que escapou da morte e Maria Souza, a esposa; abaixo, Maria de Fátima, a irmã

A Igreja Católica celebra em todo primeiro dia do ano a solenidade de Maria, mãe de Deus -e é um paradoxo que numa instituição ainda hoje tão misógina (que tem aversão ao feminino) uma mulher ocupe o centro da liturgia que abre um novo tempo; nas missas, o Evangelho de Lucas descreve a cena da visita dos pastores à mãe, ao pai e ao Bebê e o relato que fizeram da aparição do anjo, que lhes proclamou haver nascido o Esperado (Lc 2,16-21).

Eles, os pastores, eram figuras marginais na sociedade judaica, desprezados, alguém como os vendedores ambulantes de hoje; eram tidos como impuros, pois passavam o tempo nos campos em meio a animais imundos, assim com os vendedores ambulantes de hoje que passam o dia em meio à fuligem e à brutalidade das ruas; eram os moradores do campo, assim como hoje há os moradores das ruas.

Talvez houvesse no grupo que visitou a pequena família há mais de dois mil anos um pastor de nome Luiz Carlos Ruas, o pastor-ambulante assassinado a pancadas na estação do metrô em São Paulo em 25 de dezembro de 2016. Um pastor-ambulante que ousou defender uma travesti moradora de rua, esta a última dentre últimas da sociedade.

Há um centro silencioso na cena do Evangelho: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19).

Há igualmente um centro silencioso na cena da morte de Luiz Carlos Ruas: três Marias, como a mãe do Bebê. Maria Souza Santos, que foi casada com Luiz por 33 anos; Maria de Fátima Ruas, sua irmã; e Raíssa, a travesti perseguida pelos assassinos, que teria sido morta se não fosse a coragem do pastor-ambulante.

O feminino guarda todos estes fatos, medita sobre a violência e contempla a esperança em seu no coração.

O menino nasceu, o homem morreu; os braços que os acolheram, os olhos que contemplaram e choraram são femininos. Maria, a de Jesus, como as Marias de Luiz Carlos Ruas, iria dobrar-se, anos depois do nascimento em Belém, sobre o corpo do filho igualmente assassinado, ambos –Jesus e Luiz- com uma coroa de pancadas cravada na cabeça.

2016 encerra-se sob o signo da violência de um sistema machista, misógino, homofóbico.

Ano em que homens com ódio e medo do feminino, em sua fixação por poder/dinheiro, destruíram a democracia (palavra feminina) com um golpe de Estado no Brasil para depor uma mulher; e liquidaram sociedades tradicionais em vários cantos do planeta, obrigando milhões a abandonarem suas casas para migrarem, numa política deliberada de extermínio que atingiu homens fragilizados e, sobretudo, mulheres, crianças e homossexuais.

A morte de Luiz Carlos Ruas é a expressão cruel e individual do drama de um país e um planeta aterrorizado pela violência do macho. Em sua vida/morte, estão condensados de maneira concreta/profética todos aqueles e aquelas que são as vítimas: negro, conhecido como Índio, com a sensibilidade e o abraço típicos do feminino, cidadão e amigo das pessoas das Ruas, respeitoso e solidário com gays, travestis, trans, crianças, doentes. Todas as gentes de Jesus.

Neste ano houve uma pequena luz: o despertar de um novo protagonismo do feminino. Marias e Raíssas assumiram a liderança nas Ruas do Brasil, da Polônia, nos Estados Unidos, Argentina, Palestina, em todo canto onde conseguiram confrontar o machismo-poder.

Marias e Raíssa. Com Luiz Carlos Ruas e todos os homens capazes do feminino: é para elas que se volta a esperança de 2017.

[por Mauro Lopes]

CNBB: tema da Igreja é anúncio do Evangelho e não estatísticas ou marketing

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB

Uma entrevista excepcional de dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, à Folha, a pretexto da tal pesquisa que constatou uma queda de 9 milhões de pessoas que de declaram católicas no Brasil.

É muito interessante observar como há duas maneiras radicalmente distintas de olhar o mundo e a vida: a da repórter, representante do jornal, que vaza todas as perguntas de dentro  dos parâmetros do status quo de sucesso/fracasso, competição, perdas/ganhos estatísticos; e as respostas de dom Leonardo, assentadas na lógica do cristianismo, que opera a partir das condicionantes do amor, caminhada com os pobres, compaixão. Vale a pena ler e contemplar esses “dois mundos” em paralelo.

A entrevista é relevante igualmente pela denúncia à vigência dos valores do capitalismo neoliberal em largos segmentos do catolicismo brasileiro. É digno de nota perceber que há mais identidade entre o discurso da jornalista e o de tais segmentos do que deles com o de dom Leonardo, sacerdote franciscano e bispo auxiliar de Brasília.

Alguns pontos que sugiro à reflexão:

1.  A “onda” das estratégias de espírito capitalista – dom Leonardo deixa claro que a “moda” de incorporar conceitos tomados do capitalismo para os planos pastorais é um equívoco: “A Igreja cuida da evangelização, do anúncio dos valores do Evangelho, e não se ocupa com estratégias para melhorar estatísticas.”

É uma condenação à febre capitalista dos últimos anos, nos quais a invasão dos valores neoliberais em segmentos da Igreja fez com que os planos pastorais passassem a se tornar cópias malfeitas de planejamentos empresariais. Planos com metas para arrecadação de dinheiro e outras, como “captação de fiéis”, prêmios (e punições), estatísticas etc.

Pulularam pretensas “agências de marketing” católicas, feiras de “produtos” católicos, “eventos comerciais” católicos. Existe até um Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC), presidido pelo arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que tem se colocado como líder do conservadorismo católico no país e responsável pela inserção dos conteúdos capitalistas neoliberais na Arquidiocese do Rio e em sua área de influência em outros recantos. Vale a pena visitar no site da entidade a página Estatuto do IBMC. É um “recorta e cola” de qualquer associação de marketing empresarial. Não há nada que aproxime o texto do cristianismo, exceto pelo uso das expressões “Igreja Católica” e “católico” –como se a inserção simples desses vocábulos mudasse o caráter e o espírito da associação.

Marketing é um conceito, processo(s) e ferramenta típica do capitalismo. Segundo o “guru do marketing”, o norte-americano Philip Kotler, ele é uma “função empresarial que identifica necessidades e desejos insatisfeitos, define e mede sua magnitude e seu potencial de rentabilidade, especifica que mercados-alvo serão mais bem atendidos pela empresa, decide sobre produtos, serviços e programas adequados para servir a esses mercados selecionados”. Imaginar que é possível “integrar” esta disciplina capitalista à atividade da Igreja colocando-a a serviço do cristianismo é uma ilusão (ou, mais propriamente, conversa fiada): o que se viu ao longo dos anos foi a submissão dos segmentos cristãos que se renderam ao canto da sereia do marketing aos princípios do capitalismo. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,3) disse Jesus. Se o marketing é a “ciência” maior do capitalismo, ferramenta para dotar as empresas de capacidade de arrancarem o máximo de dinheiro dos seus clientes/consumidores, uma atualização cabível da frase é: “Não podeis servir a Deus e ao marketing”.

Vale a pena cotejar o que disse dom Leonardo na entrevista sobre as “cinco urgências pastorais” da Igreja e as definições dos planos elaborados por segmentos da Igreja a partir dos conceitos de “eficiência e resultados” com uso de estratégias de marketing. O que é prioritário para a Igreja, segundo o secretário-geral da CNBB:

  • “permanecer em constante estado de missão, ou, como diz o papa Francisco, sermos uma ‘Igreja em saída’;
  • cuidado com a iniciação à vida cristã;
  • assumir, sempre mais, a animação bíblico-catequética das comunidades;
  • reconhecer e vivenciar a Igreja como comunidade de comunidades;
  • e, por fim, ser cada vez com maior vigor e coragem uma Igreja a serviço da vida plena para todas as pessoas.”

Nada a ver com “resultados”, “performance”, “metas”…

2. A participação na política – o secretário-geral da CNBB afirmou a presença dos católicos na política como necessária e sempre integrada à opção de uma Igreja pobre com os pobres, e não a partir de temas “moralizadores” e vinculados às noções de “meritocracia” defendidas por segmentos católicos submetidos aos poderosos de plantão. As declarações de dom Leonardo referenciaram-se no Papa Francisco: “O Papa Francisco, no esforço que tem feito para que os jovens conheçam a Doutrina Social da Igreja, considera que ‘o mundo só mudará quando homens com Jesus se entregarem por ele, com Ele forem para as periferias e para o meio da miséria’”. E ainda: “O Papa desafia todos os jovens a irem para a política e a lutar pela justiça e pela dignidade humana, sobretudo dos mais pobres”.

É um estrondo a escolha por dom Leonardo de uma frase da apresentação DOCAT, um catecismo para jovens sobre a Doutrina Social da Igreja lançado por Francisco na Jornada Mundial da Juventude 2016: “Um cristão que não seja revolucionário neste tempo, não é cristão”.

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2017 começará com agravamento do confronto na Igreja

A verdadeira guerra que quatro cardeais e segmentos ultraconservadores movem contra o Papa deixou definitivamente os bastidores, acontece à luz do dia e deve agravar-se no início de 2017. A sucessão de confrontos entre o grupo apoiado por uma agressiva mídia católica conservadoras e Francisco mudou de qualidade em novembro e tornou-se uma crise aguda.

Apesar de o primeiro movimento público ter sido assumido por cardeais quatro cardeais conservadores, os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e mais Carlo Caffarra (italiano) e Raymond Burke (norte-americano), a liderança pública das afrontas ao Papa têm sido lideradas por este último, que se apresenta como um porta-voz dos conservadores da Igreja.

As ações dos conservadores acontecem em torno da exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor) lançada pelo Papa depois do Sínodo da Família e especialmente a questão do direito à comunhão de casais divorciados casados pela segunda vez. Mas a disputa verdadeira acontece em torno da decisão de Francisco de de retomar a opção preferencial pelos pobres e retomar as diretrizes do Concílio Vaticano II.

A sequência e velocidade da crise a partir de meados de novembro é de fato impressionante:

  • 14 de novembro – os quatro cardeais vazaram ao vaticanista conservador Sandor Magister uma carta privada que haviam endereçado a Francisco em setembro apresentando as agora famosas “dubia” (dúvidas); o objetivo foi decretar que a indissolubilidade do casamento seria uma “norma moral absoluta” para os católicos -o que carece de amparo histórico.
  • 16 de novembro – apenas dois dias depois do vazamento a Magister, o site conservador Infovaticana veiculou entrevista de Burke na qual ele afirmou que seu grupo poderá decretar  “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às ameaças (aqui).
  • 18 de novembro – o Avvenire jornal dos bispos italianos publicou entrevista com Francisco na qual ele reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores, acusando-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico (aqui).
  • 20 de novembro – o bispo Fragkiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal da Grécia saiu na defesa de Francisco e divulgou uma carta aberta aos quatro cardeais, dizendo que eles deveriam, por dever de honestidade, renunciar às suas cadeiras no Colégio Cardinalício.
  • 26 de novembro – o Papa enviou carta a 800 gestores das organizações religiosas participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, contendo dura advertência quanto à “hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Este é um tema que confronta Francisco diretamente com os conservadores.
  • 30 de novembro – divulgado texto de um dos mais destacados teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, em defesa do Sínodo da Família e da Amoris Latetitia, colocando-os em linha direta com o Vaticano II. Foi no prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes –leia aqui.
  • 8 de dezembro –  numa ação coordenada por Raymond Burke, patrono da Ordem de Malta, a direção da organização destituiu seu grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, cargo de nomeação direta do Papa. Burke foi colocado à frente da Ordem por Francisco em 2014, que o removeu do poderoso  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano -apesar da inexpressividade da Ordem de Malta, Burke encontrou mais um meio de confrontar Francisco e conseguir repercussão, mobilizando apoios entre os conservadores.
  • 19 de dezembro – em entrevistas a veículos conservadores dos EUA, Burke apresentou como que dois “ultimatos” ao Papa. Ao LifeSite, assegurou que se o Papa não responder às “dubia” seu grupo irá divulgar a anunciada “correção formal” a Francisco logo depois da solenidade da Epifania, que será celebrada em 8 de janeiro de 2017 (aqui); ao portal Catholic World Report Burke foi ainda mais longe e insinuou que o Papa é herege, ameaçando com a destituição: “Se o Papa professar uma heresia formalmente deixaria, por esse ato, de ser Papa. É automático.” Espertamente, para evitar uma punição direta, disse a seguir que “não estou dizendo que o Papa Francisco está em heresia” (aqui).
  • 22 dezembro – o Papa nomeou uma comissão para investigar a destituição do grão-chaceler da Ordem de Malta.
  • 22 de dezembro – depois de ter abalado a Cúria romana no discurso de Natal em 2014 quando atacou o que qualificou de “15 doenças curiais”, Francisco voltou à carga este ano numa duríssima advertência contra as “resistências maliciosa” de “mentes distorcidas” contra as reformas da Igreja (aqui).
  • 24 dezembro – a cúpula da Ordem de Malta reagiu de maneira sem precedentes a um Papa e contesta a comissão nomeada por Francisco, qualificando o gesto de “inaceitável” (leia aqui a reportagem de Religion Digital sobre o assunto).

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2016: um Natal cercado por sofrimento, dor e perseguição aos pobres

Sagrada Família – Marc Chagall

Há uma ideia corrente segundo a qual o cristianismo cultivaria ilusões quanto à vida e disseminaria uma visão enganadora sobre o caminho da alegria ou felicidade, com o objetivo de manter os mais pobres sob controle, auxiliando o sistema de dominação a manter-se incólume. O ensinamento original de Jesus, o assentamento bíblico da religião e a tradição das primeiras comunidades cristãs desautorizam tal interpretação.

No entanto, muitas concepções e ações  da Igreja institucional ao longo dos séculos, hoje representadas pelos segmentos conservadores do cristianismo, operaram e operam exatamente no sentido da crítica. Boa parte da hierarquia católica e de outras confissões cristãs aliou-se ao longo do tempo e alia-se hoje aos poderosos de plantão; tais segmentos buscam conferir legitimidade à dominação e exploração e assegurar aos ricos o conformismo dos pobres em relação ao status quo, admitindo no máximo a busca de soluções individualistas (a teologia da prosperidade). A religião transforma-se então num verdadeiro salve-se quem puder.

A liturgia da Palavra que será proclamada nas missas da noite de Natal em quase todo o planeta neste 24 de dezembro de 2016 afirma uma visão profundamente realista do cristianismo sobre a vida e assegura que seu projeto de esperança está imerso numa relação  amorosa-compassiva com cada ser humano e toda a humanidade.

Duas leituras constituem o centro da liturgia natalina.

A primeira, tomada de Isaías (Is 9,1-6), anuncia um novo tempo para o povo judeu, com a chegada do Messias. O texto é todo costurado com base na contraposição entre o tempo de opressão e a possibilidade de uma nova época de libertação: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (v.1); neste novo tempo, “o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã” (v.3); e então o “menino que nos nasceu” (v.5) irá assegurar “o estabelecimento de uma paz sem fim” (v.6), numa era apoiada “sobre o direito e a justiça” (v.6).

A alegria do novo tempo anunciada por Isaías está permeada por uma visão histórica dos anos de sofrimento do povo, com raízes de exploração e opressão muito concretas.

A leitura culminante da noite de Natal dialoga com o trecho de Isaías. É o relato, no Evangelho de Lucas (Lc 2,1-14) do nascimento do Menino anunciado pelo profeta. Relata o nascimento de um bebê nascido em pobreza e enorme fragilidade, pois sua mãe “deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (v.7) –a manjedoura é o tabuleiro onde come o gado nos estábulos. O paralelismo com Isaías é evidente (v.8): na escuridão da noite (como em Isaías), um grupo de pastores (o povo) foi envolvido de luz (viu uma grande luz) e apareceu-lhe um anjo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo” (v.9).

Tanto em Isaías como em Lucas relata-se uma alegria nascida em meio a condições terríveis de opressão e sofrimento e revelada não aos ricos e poderosos, mas aos mais pobres –os pastores estavam à margem da vida social judaica de então, eram gente menosprezada e suspeita.

Trevas e luz, opressão e libertação, sofrimento e alegria –estes são os duplos que marcam o profetismo bíblico e sua culminância, a chegada do Esperado.

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Cesar Kuzma: Francisco incomoda; aparecerão mais divergências

O teólogo brasileiro Cesar Kuzma ao lado do teólogo protestante alemão Jürgen Moltmann

Cesar Kuzma é dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da novíssima geração. Ele concedeu entrevista ao Caminho pra Casa sobre o atual momento da Igreja: a marca do pontificado de Francisco, disse, é a abordagem dos problemas estruturais da Igreja, e isso causa enorme incômodo aos que estavam e ainda estão encastelados. Para o teólogo, equivoca-se quem pensa que polêmica em torno do Sínodo da Família prenda-se ao tema da família ou mesmo à exortação do Papa: “o que se discutiu ali foi o tema da Igreja. Explico: estava em relevo o modelo vigente, fechado em si mesmo e sem qualquer chance de diálogo com as novas realidades e também distante do Evangelho; agora, é o modelo de Francisco, disposto a ouvir e a dialogar com os novos problemas humanos.”

Kuzma é doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador, e presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Assessor da Comissão do Laicato da CNBB e do Departamento de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM). Autor, entre outros, de O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica (2014), um estudo sobre a obra do “teólogo da esperança”, o protestante Jürgen Moltmann, e Leigos e Leigas –força e esperança da Igreja no mundo (2009).

Leia a entrevista:

Caminho pra Casa: Como você vê o cenário na Igreja hoje, com o Papa aparentemente acelerando suas reformas ao mesmo tempo em que aparecem as primeiras divergências explícitas com segmentos da hierarquia?

Cesar Kuzma: O avançar do Pontificado de Francisco tem evidenciado cada vez mais que ele é um Papa de reformas. A sua eleição surge por esta necessidade de mudanças e a renúncia de Bento XVI, que provocou esta eleição, evidenciou que a Igreja enquanto instituição tem problemas estruturais que devem ser tocados e transformados. Francisco assume este papel. Na sua primeira exortação, a Evangelii Gaudium, em 2013, ele diz de início que uma reforma seria inadiável. Ali isto já ficou bem claro. Poderíamos dizer também quanto ao seu nome, Francisco, é um projeto que deve ser buscado por toda a Igreja e que a coloca de modo mais coerente na prática do Evangelho.

Nós já vamos para quatro anos de Pontificado e, desde o início, houve certa inquietação. No início, muito pautada pelo seu modo de ser e de se comportar, depois, na sequência dos fatos, pelas mudanças que vem propondo. O que sinto e observo é que Francisco tem uma visão ampla e faz um bom discernimento de cada situação. Ele não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo. Mas quer lançar pistas e apontar caminhos.

As divergências são normais e vão aparecer cada vez mais. Devemos olhar que elas até nos fortalecem, pois nos fazem ver com mais propriedade a proposta que seguimos e alimentar a nossa esperança em uma aceleração de reformas que Francisco propõe: uma Igreja mais aberta e disposta a acolher a todos na misericórdia, que ninguém seja indiferente a ela e ao amor de Deus; uma Igreja onde se possa falar livremente e com seriedade, com respeito; uma Igreja mais aberta a novas realidades estruturais, tanto da sociedade quanto dela mesma; e, por fim, uma Igreja mais pobre, mais simples e despojada dos poderes do mundo e mais alinhada com o Cristo que segue, um Cristo pobre e sofredor que se faz ver e perceber nos limites da história. Isso recupera uma eclesiologia presente no Concílio Vaticano II e em Medellín, onde ressalto que Francisco é um papa da Igreja latinoamericana.
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Um Deus que só pode ser humano; a humanidade como natureza intrínseca de Deus

Neste 4º Domingo do Advento, às portas do Natal, cristãos católicos escutam na Liturgia da Palavra das missas em todo o planeta uma breve descrição sobre o que o evangelista Mateus chama de “a origem de Jesus Cristo” (Mt 1,18-24):

Maria estava noiva e ficou grávida sem que José e ela tivessem feito sexo. Seu futuro esposo, que era justo (seguidor da Torá-Lei) e compassivo, não fez o que a Lei lhe permitia: denunciar a noiva adúltera publicamente, o que poderia levar a jovem a ser apedrejada; ele decidiu abandonar Maria em segredo. Antes de fazê-lo, entretanto, teve um sonho no qual um anjo lhe disse que ela não o havia traído com outro homem, mas que estava grávida do Espírito Santo, que iria nascer um menino ao qual José poria o nome de Jesus (“Deus salva”, em hebraico); na Israel antiga, era prerrogativa do pai dar o nome aos filhos; o anjo disse ainda que a gravidez de Maria cumpria uma profecia de Isaías (Is 7,14), segundo a qual uma jovem daria à luz um filho com o nome Emanuel (“Deus está conosco”) e que José deveria acolher o menino. José acordou e cumpriu a orientação (em Israel, no Egito, Babilônia, entre os gregos e romanos na Antiguidade os sonhos eram tido como absolutamente prescritivos –séculos adiante, Freud compreenderia que eles são a manifestação de nossos desejos escondidos). José recebeu Maria como esposa, mas se absteve de ter relações sexuais com ela até o parto.

Este relato é a passagem que antecede imediatamente a cena do nascimento de Jesus. Tornou-se tão corriqueiro que não nos damos conta. É, na verdade surpreendente. Durante séculos e séculos os cristãos e mesmo as pessoas que não o são, mas nascidas em sociedades culturalmente marcadas pelo cristianismo, acostumaram-se com a imagem de um “Deus onipotente todo-poderoso vingador e punitivo, um pai com requintes de crueldade, um monarca distante e o Cristo-Rei como sua “representação” na terra.

E quem veio? Que Deus nasceu?

Um bebê.

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“Como Deus comanda” – o impressionante documentário sobre Francisco

O Papa numa tomada da webserie “Como Deus comanda”

Surpreenda-se: “Como Deus comanda”. Um webdocumentário vertical realizado pela produtora italiana 42º Parallelo e que foi ao ar na noite de 11 de dezembro (domingo) na Itália na Sky Atlantic. Abaixo, você poderá assistir a pré-visualização em cinco partes que foi ao ar no site do jornal italiano La Repubblica. 

Há dois trailers disponíveis do documentário. Um deles, tocante, feito com apenas com imagens e fundo musical da visita de Francisco às Filipinas, em janeiro de 2015, quando uma multidão estimada entre 6 e 7 milhões de pessoas participou de uma missa dominical presidida por ele -algo sem precedente. É marvilhoso: assista aqui

O segundo trailer é energia pura.  As imagens do Brasil são quase todas tomadas do Rio de Janeiro da visita papal de 2013 e a trilha musical é o funk Morro do Dendê, interpretado por Menor do Chapa: “Parapapapapapapapapa / Paparapaparapaparaclackbum / Morro do Dendê é ruim de invadir / Nós com os Alemão vamô se divertir / Porque no Dendê, eu vou dizer como é que é / Aqui não tem mole, nem pra DRE / Pra subir aqui no morro até a B.O.P.E. treme / Não tem mole pro exército civil nem pra PM / Eu dou o maior conceito, para os amigos meus / Mas morro do Dendê também é terra de Deus / Fé em Deus, Dj”   É eletrizante, veja aqui. Se quiser, conheça a música na íntegra aqui.

Na maior parte do documentário, utilizam-se trechos de entrevistas do Papa, que se torna, assim narrador das imagens. Mesmo que você não saiba italiano poderá entender o sentido das palavras de Francisco. Há muitas imagens nunca vistas, exceto pela na rede social das pessoas que as gravaram em seus brevíssimos encontros o Papa durante suas viagens ou em Roma. .

As cinco partes levadas ao ar pelo La Repubblica e que você pode ver a seguir são temáticas tanto nas imagens como na locução do Papa: 1) Porque me chamo Francisco, com cenas do anúncio de sua eleição na noite de 13 de maço de 2013 ao povo reunido na Praça São Pedro. Nele, o Papa ressalta a importância do cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes na escolha de seu nome papal; 2) O pároco – com cenas de uma saída sua em Roma, Francisco fala sobre sentir-se como um “papa-pároco”, com proximidade e ligação de intimidade com as pessoas; 3) A raiz do mal – é a única seção em que não há imagens do Papa. Ele fala sobre a guerra, enquanto vemos imagens da Síria; 4) Periferia existencial – imagens dos encontros do Papa com os pobres em suas viagens, enquanto ele fala na locução sobre este tema central no seu papado, a saída da Igreja para as “periferias existenciais”; 5) Não muros, pontes – os refugiados são o tema aqui. Muitas imagens de refugiados, a visita do Papa a Lesbos e, no fim a frase famosa sobre Trump, quando o Papa disse que uma pessoa que constrói muros (o então candidato á Presidência dos EUA defendeu na campanha erguer um muro fechando toda a fronteira entre seu país e o México) e não pontes não pode ser chamada de cristão.)

[por Mauro Lopes]

VEJA OS CINCO EPISÓDIOS veiculados nas redes do jornal italiano La Repubblica:

Episódio 1 – Porque me chamo Francisco

Episódio 2 – O pároco

Episódio 3 – A raiz do mal

Episódio 4 – Periferia existencial

Episódio 5 – Não muros, pontes

Morre dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-profeta do Brasil, “para ver melhor”

Dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns, profetas da Igreja no Brasil

Morreu no final da manhã desta quarta-feira (28) em São Paulo, cardeal arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. Ele estava internado desde 28 de novembro com uma broncopneumonia. Foi um dos líderes da renovação teológica do Brasil e da América Latina dos anos 1960/70 que levou à criação da Teologia da Libertação. “Morreu um profeta e pastor”, disse o padre Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, criada por dom Paulo. O funeral ocorrerá na catedral da Sé, no centro de São Paulo. O teólogo Leonardo Boff, franciscano como dom Paulo, disse que o cardeal “foi ao encontro do Senhor a quem sempre serviu nos pobres e torturados. Foi meu mestre inesquecível. Disse um poeta latino-americano ‘Morrer é fechar os olhos para ver melhor’. É o que ocorreu com o cardeal Arns. Agora vê Deus face a face.” Não é possível olhar para a história do Brasil na segunda metade do século XX sem ver dom Paulo Evaristo Arns. [ao final, 14 fotos marcantes da trajetória de dom Paulo]

Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros.

Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Agnelo Rossi, e a partir de então sua ligação com a maior cidade do Brasil tornou-se profunda. Estimulava a criação de centenas de núcleos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), visitava com frequência os presos da Casa de Detenção e, em 1969, foi designado por dom Agnelo Rossi para acompanhar os frades dominicanos e outros religiosos na prisão. Ao visitá-los e a outros presos, constatou que todos eram torturados –a experiência marcou dom Paulo.

Um ano depois, em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de São Paulo –os dois tiveram uma amizade sólida, que foi decisiva anos depois na defesa de dom Pedro Casaldáliga, perseguido e odiado pelo regime militar brasileiro e pela cúpula conservadora da Cúria romana. Dom Paulo procurou o Papa para interceder por dom Pedro e a resposta de Paulo VI tornou-se famosa: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”.

Os militares não gostaram nada da nomeação de dom Paulo, menos ainda quando ele tornou-se cardeal, em 1973, no auge da repressão governamental. Ato contínuo à sua nomeação como cardeal, ele criou Comissão de Justiça e Paz, que funcionava na Cúria Metropolitana e tornou-se o polo de resistência, refúgio, solidariedade e ações legais em defesa de prisioneiros e desaparecidos políticos, seus familiares.

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Combate ao clericalismo é um dos eixos do papado de Francisco

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Criança beija Francisco na Praça São Pedro, no Vaticano

O Papa atacou o clericalismo com contundência nada menos que três vezes nos últimos dias. Na missa da manhã de terça (13) na capela da Santa Marta, no Vaticano, Francisco comparou clérigos católicos (padres, bispos, cardeais) e leigos poderosos nas estruturas eclesiais aos chefes religiosos que perseguiram Jesus até sua morte. A vítima do espírito clerical, assim como foi Jesus, disse o Papa, é o “povo humilde e pobre que confia no Senhor”, “aqueles que são descartados”. São “condenados” e “abusados”, pelo poderoso da Igreja que é sempre “presunçoso, orgulhoso, soberbo”. Francisco ataca o espírito clerical com uma agressividade que reverbera as condenações de Jesus ao clericalismo judaico. Talvez não tenhamos nos dado conta, mas combate ao clericalismo está na origem do atual papado: foi o centro do discurso do então cardeal Bergoglio no colégio de cardeais reunidos para a sucessão de Bento XVI, em 7 de março de 2013, seis dias antes de ser escolhido, e é considerado decisivo para sua eleição. A contundência de Francisco é resultante de um mandato que recebeu de seus eleitores.

No último domingo (11), durante encontro com 180 seminaristas do Pontifício Seminário Regional Pio XI, da Puglia (Itália), o Papa advertiu os futuros sacerdotes: “se tens medo da pobreza, a tua vocação está em perigo!” E voltou ao tema da opção da Igreja pelos pobres, à qual se opõe o clericalismo: “Um sacerdote que se separa do povo não é capaz de dar a mensagem de Jesus. Não é capaz de dar o carinho de Jesus às pessoas”. [a íntegra do discurso foi distribuída pelo Vaticano apenas em italiano, aqui]

Antes, na missa matinal do dia 9 (sexta-feira), Francisco havia advertido os sacerdotes a serem “mediadores do amor” de Deus e não “intermediários que pensam somente no próprio interesse”. O Papa vinculou o clericalismo ao conservadorismo rigorista e ao afastamento do povo: “Mas para fazerem-se importantes, os sacerdotes intermediários seguem pelo caminho da rigidez: tantas vezes, separados das pessoas, não sabem o que é a dor humana;  perdem aquilo que haviam aprendido em suas casas, com o trabalho do pai, da mãe, do avô, da avó, dos irmãos… Perdem estas coisas. São rígidos, aqueles rígidos que largam sobre os fieis tantas coisas que eles não carregam, como dizia Jesus aos intermediários de seu tempo. A rigidez. Chicote em mãos com o povo de Deus: ‘Isto não pode, isto não pode…’. E tantas pessoas que se aproximam buscando um pouco de consolação, um pouco de compreensão, acabam expulsas com esta rigidez”. [veja aqui a cobertura da Rádio Vaticano]

Clericalismo é a doutrina e maneira como se organiza em boa medida a Igreja Católica, segundo a qual os membros da hierarquia (cardeais, bispos, padres e uma elite de leigos, em geral ricos) como o centro da vida do catolicismo. É a doutrina que informa o pensamento conservador na Igreja. Na base da Igreja vive-se esta distorção apontada pelo Papa como uma relação de reverência e temor dos fiéis pelo padre (relação que se reproduz hierarquia acima), que passa a ser o “proprietário” da paróquia.

O combate ao clericalismo é um dos centros do pontificado de Francisco e o principal tema de seu embate com a hierarquia católica (leia reportagem recente sobre isso aqui no blog clicando aqui). Na missa da manhã de terça, o Papa disse que há um “espírito do clericalismo”, segundo o qual  “os clérigos se sentem superiores, se afastam das pessoas, não têm tempo para escutar os pobres, os que sofrem, os presos, os doentes”. O afastamento dos pobres e da vida pobre assim como a fascinação pela riqueza e a aparente rigidez moral são as característica que marcam o clericalismo, segundo as diversas manifestações de Francisco.

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O Papa com seminaristas em 11 de dezembro: ““se tens medo da pobreza, a tua vocação está em perigo!”

Francisco chegou a endereçar aos “seduzidos pelo clericalismo” a mesma advertência que Jesus, no Evangelho do dia (Mt 21,28-32), dirigiu aos sacerdotes judeus: “’Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (v.31). Disse o Papa: “O mal do clericalismo é uma coisa muito feia! É uma nova edição desta gente. E a vítima é a mesma: o povo pobre e humilde, que tem esperança no Senhor. O Pai sempre procurou se aproximar de nós: enviou seu Filho. Estamos esperando, uma espera alegre e exultante. Mas o Filho não entrou no jogo desta gente: o Filho foi com os doentes, os pobres, os descartados, os publicanos, os pecadores – é escandaloso isso… – as prostitutas. Também hoje Jesus diz a todos nós e também a quem está seduzido pelo clericalismo: ‘Os pecadores e as prostitutas entrarão primeiro no Reino dos Céus’”. [se quiser, leia aqui a cobertura da Rádio Vaticano]

COMO COMEÇOU E EVOLUIU COMBATE DO PAPA AO CLERICALISMO

O Papa começou a tratar do tema do clericalismo antes mesmo de sua eleição. Houve um famoso discurso de pouco mais de 3 minutos aos cardeais durante o processo eleitoral, na congregação geral de 7 de março de 2013 (ele seria eleito em 13 de março), que foi considerado crucial para que ele fosse escolhido. Parte deste discurso acabou vindo a público a partir das anotações do cardeal arcebispo de Havana, Jaime Lucas Ortega y Alamino –que se tornaria uma peça-chave no papado de Francisco na evolução da relações entre a Igreja e o governo cubano e nas negociações para o fim do bloqueio americano (a divulgação foi autorizada por Francisco, o que lhe conferiu ainda mais veracidade).

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