Arcebispo Bruno Forte defende Papa e revolução da Amoris Laetitia

estive-divorciado-bruno-forte

Arcebispo Bruno Forte e o livro do padre e teólogo Jesus Maria Gordo, “Estive divorciado e me acolhestes” – foto de Religion Digital

Um dos mais destacados arcebispos e teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, acaba de sair em aberta defesa do Papa Francisco, dos resultados do Sínodo da Família e da exortação Amoris Latetitia (A Alegria do Amor) -sob cerrado ataque de segmentos conservadores da Igreja. Ele escreveu o prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes (em tradução livre).

O livro, recém lançado na Espanha pela PPC Editorial, busca entender o percurso do Sínodo extraordinário dos bispos de 2014 e o ordinário, de 2015, dedicados ao tema da família. Para isso, o autor relaciona o Sínodo à trajetória das formulações da Igreja a partir do Concílio Vaticano II e dos debates dos teólogos católicos nesse período. [Se quiser, leia reportagem sobre o lançamento do livro no site Religion Digital clicando aqui].

O arcebispo e teólogo Bruno Forte, que foi secretário dos dois sínodos, escreveu que eles “respiraram a pleno pulmão o ar do Concílio, aquele espírito de primavera eclesial de João XXIII” -exatamente o espírito contra o qual se insurgem os conservadores na Igreja [toda a tradução de trechos do prólogo é de minha responsabilidade].

Um dos aspectos centrais deste espírito, para Forte, foi o caráter “colegialidade episcopal” que, de fato, não se via na Igreja desde o Vaticano II e mais especialmente desde a posse de João Paulo II, quando e estrutura hierárquico-piramidal voltou a prevalecer. Esta colegialidade “foi o procedimento que o Papa Francisco entendeu que haveria de impulsionar as decisões sinodais”, acrescentou o cardeal italiano.

No prólogo, o prelado e teólogo chamou atenção para o fato de o Sínodo não apenas respirar o espírito horizontalizado do Concílio, mas igualmente privilegiar a “dimensão pastoral” nas discussões e decisões, com foco nas “implicações existenciais e sua aplicação na vida diária”.

A grande revolução está na exortação pós-Sinodal Amoris Laetitia de Francisco: o Papa deixou de lado orientações assertivas que tendem a considerar a base da Igreja como incapacitada para o discernimento e entregou a padres, freiras religiosos, religiosas e fiéis a tarefa de co-elaborar e amadurecer decisões e sua aplicação. Uma revolução que está deixando os conservadores em estado de choque!

Escreveu Forte:  “o Sínodo não quis oferecer respostas prontas, mas antes preferiu convidar os pastores e fiéis a uma tarefa de fé adulta, que possa discernir a vontade do Senhor nas situações singulares e ajude cada um a compreendê-la e colocá-la em marcha. Uma escolha difícil, dirigida a cristãos adultos e, com efeito, uma escolha a favor da liberdade e da maturidade para os crentes casados, tendo presentes as luzes e desafios do nosso tempo”. Desde o tempo de Jesus e das primeiras comunidades não se via nada parecido.

Isso significa que cada comunidade deverá discernir e escolher o melhor caminho a seguir quanto “à situação dos divorciados que voltaram a se casar e quanto à sua participação na vida eclesial e sacramental”.

O texto de Bruno Forte talvez tenha sido o primeiro a captar a profundidade da mudança que Francisco propõe à Igreja com “um estilo magisterial inédito em muitos aspectos: que busca combinar liberdade e consciência pessoal no marco de um horizonte de fé no qual a ninguém é permitido agir sozinho e no qual ninguém se anime a abdicar da própria responsabilidade como cristão adulto na fé. Uma mensagem para novos protagonistas, novos tempos e novos desafios aos quais os cristãos do terceiro milênio deverão responder solidariamente com serena confiança na fidelidade do Deus vivo a seus filhos e a toda sua Igreja”.

Continue lendo

Advento: Deus que vem à procura do homem

portinari

A grande marcha do Nordeste para o Sudeste, o Êxodo brasileiro – talvez a maior migração da história: quase 30 milhões de pessoas em 55 ano. (Retirantes, Portinari)

Os cristãos católicos iniciam no domingo (27) o Tempo do Advento, a espera pelo Natal num novo Ano Litúrgico, o A, que será centralizado pela leitura de trechos do Evangelho de Mateus nas missas dominicais. Neste 1º Domingo do Advento, escutamos nas missas texto de Mateus (Mt 24, 37-44) no qual o próprio Jesus Cristo convoca: “Vigiai!” (v.42).

Vigiar o quê? “A Vinda do Filho do Homem”, ele diz (v. 39). Como assim? O próprio Cristo anuncia, às vésperas de sua prisão pela tropa da elite judaica, que ele virá novamente? Sim, isso mesmo. Esta fala está situada no momento em que, depois de entrar em Jerusalém, Jesus começa a pregar e a antagonizar-se de maneira definitiva com aqueles que controlavam o acesso, a receita (dinheiro), as celebrações e o poder no lugar por excelência do judaísmo, o Templo de Jerusalém. O confronto final não é com o grupo dos fariseus, ao contrário do que se possa imaginar. Jesus passou boa parte de sua missão em diálogos às vezes serenos e em outros momentos extremamente ásperos com os fariseus, mas o desenlace acontece por iniciativa dos saduceus, o segmento religioso-político dos judeus ricos, verdadeiros donos do Templo.

Os capítulos 24 e o 25 de Mateus são tomados pelo assim chamado “discurso escatológico” de Jesus, o conjunto de ensinamentos nos quais ele anuncia a chegada do Reino de Deus –a volta dele próprio no “fim dos tempos”, quando a humanidade viverá o tempo do final, o tempo da superação de toda a dominação dos homem pelo homem, do planeta pelo homem que o destrói, quando tudo se reconciliará por meio de Cristo com o universo e consigo próprio (cf. Col 1,20 e  2Cor 5,19).

Esta leitura, um trecho do discurso escatológico de Mateus, abre o tempo do Advento. A palavra origina-se de adventus, vocábulo latino que significava acontecimento ou aniversário de um determinado acontecimento, em geral referido à ascensão de um imperador ao trono.[1] No cristianismo, o termo passou a indicar o período litúrgico de espera simultânea pela 1) chegada deste “fim dos tempos” e 2) do nascimento do Deus Menino, culminando com a noite do Natal. O duplo significado fez com que o Advento fosse divido em duas partes: na primeira, até 16 de dezembro, espera-se pela chegada de Cristo-Reino de Deus; na segunda, entre 17 e 24 de dezembro, contempla-se propriamente o nascimento de Jesus.

É, portanto, um período de expectativa. Mas não é como aguardarmos passivamente o metrô que chegará na estação ou nossa vez numa fila no caixa do banco; trata-se de uma espera ativa, atenta e participativa: “Vigiai!”. Pois esperamos algo muito especial, a chegada d’Aquele que está vindo à nossa procura, como um apaixonado, um “louco de amor”. Neste período do Advento podemos meditar e experimentar uma característica central da experiência religiosa judaico-cristã: é Deus que vem em busca de seu amado(a), cada ser humano e toda a humanidade.

Continue lendo

Papa condena a riqueza no interior da Igreja e artifícios para mantê-la

papa-simples

Francisco: vida simples e exigência de pobreza exemplar para a Igreja

O Papa Francisco enviou neste sábado (26) uma carta contendo dura advertência aos 800 ecônomos participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que acontece em Roma: “A hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Ele fez igualmente uma crítica contundente ao uso dos padrões de mercado na gestão destas instituições. Ecônomos são os responsáveis pelas finanças nas organizações religiosas.

As pessoas consagradas, que podem ser leigos ou clérigos, homens ou mulheres, normalmente agrupam-se em institutos de vida religiosa (ordens religiosas e congregações) ou nos institutos de vida apostólica (sem votos religiosos), mas todos submetidos à Igreja. São institutos de vida religiosa, por exemplo, os agostinianos, beneditinos, franciscanos, dominicanos e outras comunidades de frades, freiras, monges e monjas. O conceito de vida consagrada alcança também as chamadas comunidades novas, associações privadas que igualmente se submetem à disciplina da Igreja, como a Renovação Carismática Católica e a Comunidade Canção Nova.

O Papa atacou os artifícios que muitos usam para encenar uma vida “pobre” enquanto suas instituições garantem a eles uma vida de opulência: “Não basta esconder-me atrás da afirmação de que ‘não possuo nada porque sou religioso, religiosa, se meu instituto me permite administrar ou desfrutar de todos os bens que desejo e controlar as fundações civis criadas para manter as próprias obras, evitando assim o controle da Igreja”.

O Papa, em sua carta, convocou não apenas os ecônomos, mas todos os membros destes institutos, sociedades e comunidades a terem uma vida “animada pela ‘charis’, pela lógica do dom, da gratuidade; somos chamados a criar fraternidade, comunhão e solidariedade com os mais pobres e carentes”. Para Francisco, a dimensão da humanidade dos cristãos e especialmente destes que tomaram decisão livre de se consagrarem ao aderirem a estas sociedades, institutos e comunidades mede-se pelo princípio da gratuidade: “Se quisermos ser realmente humanos, devemos dar espaço ao princípio de gratuidade como expressão de fraternidade”. Mais ainda, a gestão destas organizações (e de toda a Igreja) deve “escutar o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres.”

O ataque à vida individual de “ricos” de muitos membros dos institutos, sociedades e comunidades não foi o único tema do Papa. Ele abordou também a questão dos princípios de gestão dessas organizações, afirmando enfaticamente que eles devem afastar-se dos modelos capitalistas e da ideia corrente de “maximização do benefício”. Francisco interrogou: “Quantas vezes a avaliação sobre uma reestruturação ou a venda de um imóvel é vista apenas com base na análise de custos-benefícios e do valor do mercado? Que Deus nos livre do espírito do funcionalismo e de cair na armadilha da avareza!”. O Papa decretou o fim de qualquer concepção de “neutralidade” na gestão das coisas:  “Nunca a economia e a sua gestão são ética e antropologicamente neutras. Ou concorrem para construir relações de justiça e de solidariedade, ou geram situações de exclusão e de rejeição.”

Francisco tem tomado seguidas atitudes no sentido do empobrecimento do papado: renunciou desde o primeiro dia a morar no Palácio Apostólico, no Vaticano, morando em um apartamento simples na Casa Santa Marta; nunca utilizou o palácio Castel Gandolfo como residência de verão, uma praxe dos papas desde o século XVII e, em outubro repassou a gestão do palácio aos Museus do Vaticano, para visitação pública de todas as suas instalações; continuou a usar a cruz simples de metal que usava ainda antes de ser bispo, recusou a cruz de ouro e o ouro para o anel pontifício, o “anel do pescador”; continuou a usar os mesmos sapatos pretos comuns que sempre usou, dispensou os tradicionais e caríssimos sapatos vermelhos dos papas; abriu mão do uso de carros e roupas luxuosas; aboliu gratificações de alto valor que eram recorrentes à burocracia do Vaticano; está impondo à Cúria romana um padrão de vida sem precedentes; e liderando um processo de reforma nas instituições financeiras do Vaticano.

Continue lendo

Francisco: novo combate aos deuses do capitalismo em meio à “guerra civil” na Igreja

missa-hoje

O Papa Francisco na missa da manhã desta quinta na Casa Santa Marta, no Vaticano.

O papa Francisco continuou a aprofundar sua visão da inserção da Igreja e do cristianismo no mundo, nesta quinta (24), em sua homilia na missa matinal na Casa Santa Marta. Os cristãos católicos rezam desde o início da última semana o Livro do Apocalipse, na etapa final de seu Ano Litúrgico, uma grande reflexão sobre a promessa de Cristo da chegada do Reino de Deus que abolirá todas as formas de exploração e dos homens e decretará o fim dos impérios . [Veja aqui a cobertura da Rádio Vaticano e aqui a do site católico espanhol Religion Digital]
A reflexão de Francisco alarga a questão colocada por Jesus sobre a escolha entre Deus e o dinheiro (Lc 16,13) e alinha como antagônicas à escolha por Deus: “o deus dinheiro, o deus bem-estar, o deus exploração…”. Francisco anunciou: o modelo civilizacional do capitalismo cairá por terra, como o autor do Apocalipse profetizou a queda da Babilônia (figura do império romano).
A homilia do Papa insere-se no contexto da agudização da luta interna na Igreja entre os que defendem a restauração às origens do cristianismo e aos princípios do Vaticano II e os que advogam a restauração do Concílio de Trento -a conflito foi qualificado como verdadeira “guerra civil” em reportagem do vaticanista  Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano (leia aqui no original ou em português na tradução do Instituto Humanitas Unisinos clicando aqui).
No artigo, Politi escreve que há um “movimento sistemático de contestação, ao qual a frente reformadora opôs apenas timidez” e que a oposição ao Papa é muito mais ampla que apenas os quatro cardeais que o contestaram recentemente, aos quais Francisco respondeu assertivamente (leia aqui). Para o vaticanista, há “uma guerra civil em curso na Igreja” cujo objetivo final seria garantir uma sucessão conservadora de Francisco. O que Politi não escreveu é que o Papa tem realizado movimentos exatamente para mudar a relação de forças no colégio eleitoral dos cardeais que, pela primeira vez, deixou de ser majoritariamente europeu (leia aqui).
[por Mauro Lopes]

Os católicos estão celebrando seu Ano Novo

Jesus Cristo ressuscitado na 15ª estação da Via Sacra, por Cláudio Pastro. Deus irrompe de dentro da história humana

Caetano Veloso cantou o tempo, numa música-oração (Oração ao Tempo):

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

(ouça-a completa no link acima, sobre o nome da música)

O tempo é um tema-chave para os seres humanos, objeto de indagações, estudos e angústias na filosofia e na física, na astronomia e na biologia, na prosa e no verso, na psicanálise e na política. O tempo atravessa-nos em todas as dimensões.

Nas religiões, igualmente, ocupa um lugar central, porquanto é nele que se manifesta o sagrado: “Dar ao tempo uma conotação de ‘tempo sagrado’ é reconhecer e ‘dar espaço’ ao Eterno no tempo que ‘irrompe na história’ (Gl 4,4-5), igualmente concebendo que Deus passa a fazer parte do tempo dos que não vivem fora do tempo”.[1]

É de tempo que se trata este artigo.

A maioria das pessoas ignora, como provavelmente a maioria dos católicos igualmente, mas a Igreja Católica está celebrando o Ano Novo. Ou, mais exatamente: um novo Ano Litúrgico. A liturgia, palavra de origem grega que designa originalmente o trabalho do povo (a junção de leit, de laós, povo + urgía, trabalho). Este significado original foi tardiamente modificado para ofício público ou culto público, que é o sentido com o qual a palavra tornou-se corrente. Portanto, o Ano Litúrgico é o culto público dos católicos num tempo determinado.

É ainda mais que isso.

Acompanhe-me nesta viagem –ela é fascinante.

Continue lendo

Arcebispo anuncia: decisão do Papa sobre aborto muda Código de Direito Canônico

 

Arcebispo Rino Fisichella:  “a misericórdia de Deus não conhece limites”

O arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização no Vaticano e responsável pelo Jubileu da Misericórdia encerrado domingo, anunciou que a decisão do Papa de autorizar todos os padres a concederem o perdão nos casos de aborto implica modificações no Código de Direito Canônico. Ele concedeu entrevista na segunda (21), veiculada pelo Vatican Insider, portal do jornal italiano La Stampa para cobertura do Papa, do Vaticano e da Igreja Católica. Se quiser, leia a íntegra em espanhol aqui (se você clicar pode escolher outra língua de sua preferência). Na mesma entrevista, ele revelou que 21,9 milhões de peregrinos estiveram em Roma durante o Ano Santo.

O Papa oficializou mudança da posição da Igreja sobre o tema do aborto na Carta Apostólica Misericordia et Misera, que ele assinou no domingo e foi divulgada ontem, segunda. Francisco tornou permanente a excepcionalidade concedida aos padres durante o ano do Jubileu da Misericórdia: todos podem conceder o perdão ao pecado do aborto. Logo depois da divulgação da decisão papal, segmentos conservadores da Igreja saíram a público para anunciar que nada mudava.

O arcebispo Fisichella esclareceu, entretanto, que a decisão irá ter impactos diretos sobre o Código de Direito Canônico.

O primeiro e maior deles: deixará de existir no Código o cânone 1398  de “excomunhão latae sententiae” (automática, sem necessidade sequer de comunicação direta aos afetados) para os casos de aborto. “Não existirá mais a excomunhão latae setentiae”, disse o arcebispo, acrescentando que com isso deixa de pesar a pena gravíssima contra a mulher que pratica o aborto, assim como aos médicos, enfermeiras, pai, mãe, marido e todos os eventualmente envolvidos no caso. “O pecado nos toca a todos, então o perdão deve ser abrangente, para todos os atores”. A pena da excomunhão transformava especialmente a mulher numa pária nas comunidades católicas, pois aos excomungados ficam bloqueados os acessos a quaisquer dos sacramentos da Igreja (como a comunhão e o casamento).

Serão realizadas mudanças também nos cânones 1354 a 1357; eles estabelecem que a absolvição nesse caso só poderia ser concedida pelo próprio papa, pelo bispo da diocese ou por um padre expressamente autorizado por um deles.

Segundo Fisichella, o Papa concedeu e incentivou os sacerdotes a “absolver este pecado como sinal concreto de que a misericórdia de Deus não conhece limites, não conhece obstáculos”. Na Carta Apostólica, Francisco foi enfático. Escreveu que a decisão foi adotada para que “nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus” e que o perdão deve ser concedido “não obstante qualquer disposição em contrário”. Portanto, mesmo antes de realizadas formalmente as modificações nos cânones indicados do Código de Direito Canônico, eles já estão revogados.

A relação da Igreja com a mulher e demais envolvidos nos casos de aborto sofre uma mudança radical: foco deixa de ser na condenação dos pecadores e passa a ser no seu perdão e acolhimento.

[por Mauro Lopes]

 

 

 

 

O Papa surpreende de novo e muda posição da Igreja quanto ao aborto

 

O Papa Francisco assinando a Carta Apostólica “Misericordia et Misera”, durante o encerramento do Jubileu da Misericórdia neste domingo (20) na Praça São Pedro, no Vaticano.

Foi divulgada na manhã desta segunda (21) a Carta apostólica Misericordia et Misera, assinada ontem pelo Papa Francisco, no encerramento do Jubileu da Misericórdia. Ele surpreendeu de novo, ao mudar a relação da Igreja com o tema do aborto. O Papa estendeu aos sacerdotes de maneira ilimitada o direito que havia concedido temporariamente durante o Jubileu, de absolver as mulheres que os procurarem, nas confissões, angustiadas por terem feito aborto. A absolvição abrange “a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto”, o que alcança  homens e profissionais de saúde envolvidos com um caso concreto. [Você pode ler a íntegra da Carta aqui ou no fim desta reportagem]

Até antes do Jubileu, de acordo com  o Código Canônico, a mulher que abortasse voluntariamente estava automaticamente excomungada (cânone 1398), “sem sequer que a autoridade competente precise pronunciar-se”, conforme o Catecismo da Igreja (2272, nota explicativa). Isso equivalia a transformá-la numa pária nas comunidades católicas, pois aos excomungados ficam bloqueados os acessos a quaisquer dos sacramentos da Igreja (como a comunhão e o casamento).  A decisão estendia-se a todos os participantes do processo, como médicos, enfermeiras ou parteiras, além do marido, namorado, amante, pai ou mãe da mulher em tela. A absolvição, conforme o Código, só poderia ser concedida pelo próprio papa, pelo bispo da diocese ou por um padre expressamente autorizado por um deles. Conforme a decisão de Francisco, todos os sacerdotes passam a ter liberdade de perdoar, sem necessidade de autorização do bispo ou do próprio papa e passam a desconsiderar “qualquer disposição em contrário”.

O Jubileu da Misericórdia foi decretado pelo papa e prolongou-se entre 8 de dezembro de 2015, na Solenidade da Imaculada Conceição, até ontem na solenidade de Cristo, Rei do Universo, que encerra o Ano Litúrgico da Igreja. .

Além do tema do aborto, o Papa voltou a tocar na questão da família, objeto de um choque violente entre Francisco e um grupo de cardeais conservadores, que contestam a autorização para que casais divorciados em segunda união voltem a comungar. Segundo o Papa, a Igreja “não pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual.” Mesmo sem tocar diretamente no assunto da comunhão dos divorciados, Francisco mais uma vez apontou nesta direção ao escrever que os sacerdotes devem estar atentos para que “toda a pessoa sem exceção, em qualquer situação que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus, participar ativamente na vida da comunidade e estar inserida naquele Povo de Deus que incansavelmente caminha para a plenitude do reino de Deus, reino de justiça, de amor, de perdão e de misericórdia”.

Continue lendo

O Papa reage aos conservadores e acusa: há críticas desonestas; querem dividir a Igreja

O Papa enfrenta a Cúria romana durante audiência de Natal em dezembro de 2014 -os confrontos com conservadores agravam-se

O Papa Francisco reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores numa entrevista ao jornal Avvenire  e acusou-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico. Ela foi concedida ontem, quinta (17) à jornalista Stefania Falasca e veiculada hoje, o que dá a dimensão do sentido de urgência; e foi publicada num “jornal interno” (o Avvenire pertence ao episcopado italiano) o que indica o desejo de aprofundar o debate dentro da Igreja. [Leia a íntegra da entrevista aqui. Traduzi alguns trechos dela ao longo desta reportagem].

Na missa matinal de hoje, na casa na Casa Santa Marta, o Papa continuou a dar o tom na luta que divide a Igreja; a missa foi concelebrada com os secretários dos núncios apostólicos, que são os representantes diretos do Papa nos países ao redor do planeta. Ele questionou-os e, na figura deles, a toda a hierarquia: “Como é a atitude de vocês em relação ao dinheiro? São apegados ao dinheiro?”. E completou: “O coração apegado ao dinheiro é um coração idolatra”. O dinheiro – afirmou o Papa – é “o anti-Senhor”. Este é um tema central para os católicos hoje, pois os conservadores rejeitam a opção da Igreja pelos pobres, definida por Jesus Cristo nos Evangelhos e reafirmada no Concílio Vaticano II (nos anos 1960). O Papa colocou o dedo na ferida, afirmando que as pessoas comuns, os cristãos na comunidade não perdoam um sacerdote “interessado, apegado ao dinheiro”. [Veja a cobertura da Rádio Vaticano à homilia do Papa clicando aqui.]

Continue lendo

Parece o fim dos tempos; mas é possível viver com esperança

Foto de acampamento de sem-teto na noite de 5 de novembro de 2016, na periferia sul de São Paulo. A imagem evoca o Êxodo dos judeus na saída do Egito. Foto: Jornalistas Livres

Há uma sensação que tem se espalhado entre as pessoas, especialmente os pobres, de que “não dá mais”, de que chegamos ao limite. Um travo na boca e um amarrado no estômago de que é o fim dos tempos: concentração de riqueza e espraiamento da pobreza sem precedentes; a brutal crise dos refugiados; os golpes de Estado que sepultam avanços sociais; a violência policial que massacra os jovens, especialmente negros, árabes e refugiados em todo o Ocidente; a agressividade dos ricos que se apropriam de tudo para si, dinheiro, terras, casas, o planeta. Há angústia e, muitas vezes desespero.

É este o tema sobre o qual meditam cristãos católicos no 33º Domingo do Tempo Comum (13 de novembro). Em todo este Tempo, entrecortado pela Quaresma e a Páscoa, rezou-se nas missas o terceiro Evangelho, o de Lucas. É um texto conhecido como o Evangelho dos Pobres e o Papa Francisco chamou a atenção para a sua centralidade neste Jubileu da Misericórdia, ano santo que ele proclamou em dezembro passado e irá encerrar-se na próxima semana. Em todas esses domingos acompanhamos o percurso do profeta Jesus, que os cristãos reconhecem como Deus feito Homem-Compaixão. O Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da Subida a Jerusalém; toda a atividade profética de Jesus transcorre enquanto ele está a caminho a partir das periferias pra o centro religioso, político e econômico de Israel, onde seria preso, torturado e assassinado como um subversivo.

Este domingo é praticamente o fim do Tempo Comum. Depois dele, virá o Tempo do Advento, espera/preparação do Natal, e as leituras nas missas deixam de seguir o roteiro de Lucas. No outro domingo (20), há uma solenidade, Cristo Rei, que marca o encerramento oficial deste ciclo, mas que na verdade é como uma “dobradiça”, que fecha/abre a porta entre os tempos.

Ao encerrarmos o Tempo Comum, Jesus, no roteiro lucano, já chegou a Jerusalém. Rezamos um trecho do capítulo 21 de Lucas, dos versículos 5 a 19; mas na verdade todo ele merece ser meditado. Veja a íntegra do capítulo aqui, que usei da Bíblia na versão dos franciscanos capuchinhos de Portugal ou então no fim deste texto.

Continue lendo