Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo

 

O Casamento Desigual (1525-1530), atribuída a um seguidor do artista flamengo Quentin Metsys,

Em apenas dez passos você poderá entender claramente como os grandes bancos globais, os verdadeiros detentores do poder no capitalismo, empurraram o planeta e 99% de sua população abismo abaixo. Eu achava que era coisa para economista com muitos anos de estudo, para experts. Mas, não -ainda bem! A leitura combinada de um entrevista e um artigo veiculados no Outras Palavras esclarece tudo.

1. Comece pela entrevista do economista norte-americano Michael Hudson clicando aqui -não se apavore, é curta. Ele é especialista em sistema financeiro e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China. Ao lê-la, você entenderá o processo de submissão da economia mundial ao sistema financeiro explicado de maneira simples, direta. O dilema brasileiro atinge todo o capitalismo neste momento: “Quando se diz ‘pagar os bancos’, o que eles realmente querem dizer é pagar os detentores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório [do FMI, nota minha], neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo”.

2. Lendo a entrevista você compreenderá (se eu compreendi todos podem!): é ilusão pensarmos que a PEC 241, que liquida com gastos públicos no país, e a reforma da Previdência são “invenções” dos golpistas brasileiros; descobrimos com Hudson que as duas políticas (redução brutal dos gastos públicos e reforma de sistemas previdenciários) são globais, ditadas pelo processo de financeirização do capitalismo.

3. O que deixa claro: o golpe não foi um evento nacional, “bananeiro”, mas parte de um processo global conduzido pelo sistema financeiro e os rentistas de todo o mundo. Há desmonte de políticas públicas e reformas dos sistemas previdenciários acontecendo em todo o planeta para, como no Brasil, destinar os recursos públicos para os bancos e o pagamento dos juros das dívidas públicas a eles e aos rentistas.

4. Há um agrupamento misto de pessoas que se consideram “moderninhas” com gente que tem muita clareza do que está em jogo que dizem e escrevem: na pós-modernidade a luta de classes teria acabado e os conceitos de esquerda e direita estariam superados. Não se deixe enganar. A luta de classes está em um momento dos mais cruentos da história da humanidade e todos os aparatos ideológicos como as redes de TV, o jornalismo conservador e a indústria do entretenimento estão mobilizados para desmobilizar os pobres, confundindo-os e vendendo ilusões e mentiras. Se você está no Brasil: pare imediatamente de assistir a TV Globo e a imprensa golpista. Eles só veiculam mentiras, pois fazem parte deste grupo de rentistas que quer liquidar os gastos sociais e a Previdência para que os recursos sejam direcionados todos para eles.Sim, é só disso que se trata: para quem irá o dinheiro.

5. Leia a seguir este artigo de Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Ruiz Garcia, publicado originalmente no Portal EcoDebate e depois no Outras Palavras. Clique aqui. Entenda como a situação pré-falimentar do Deutsche Bank aponta a possibilidade de uma crise muito pior a de 2008.

6. Aprenda com os autores, se você não sabe (eu não sabia), como se dá o processo de criação do dinheiro no sistema bancário. E como os bancos chamados de dealers primários (entre eles o Deutsche Bank) definem este processo de criação do dinheiro subordinando os governos nacionais e os bancos centrais. Descubra, espantado, que estes bancos, verdadeiros gigantes de pés-de barro, são dealers primários de uma série de governos nacionais e podem desencadear um efeito dominó capaz de levar o mundo a uma crise sem precedentes –ao que tudo indica tal crise, está a caminho. Não é algo de uma complexidade apenas para economistas! Você e eu podemos entender!

7.Veja sem falta a figura construída por Ranulfo Paiva Sobrinho e você saberá como há um teia de aparência forte mas de fato frágil que interliga os grandes bancos e os governos dos países capitalistas. Clique aqui. Melhor ainda, clique no link a seguir e veja a imagem interativa. Na medida em que você passar o cursor sobre cada banco, verá o tamanho das conexões e ameaças que eles representam para o planeta:http://bit.ly/2elIPu0.

8. Por fim, saiba o tamanho da encrenca em que o Brasil está metido. Cinco dos dez dealers primários do Banco Central brasileiro são bancos estrangeiros!

9. Estes bancos, junto com os brasileiros, especialmente Itaú, Bradesco e BTG Pactual (também dealers primários) empurram a lógica dos juros goela abaixo do país, com apoio dos rentistas e dos meios de comunicação. Eles muito provavelmente serão tragados num processo de crise global se de fato o Deutsche Bank quebrar. Os cinco bancos estrangeiros que criam dinheiro no Brasil são: Santander, Bank of America/Merryl Linch, Credit Suisse/CSB, JP Morgan e Goldman Sachs. Veja a lista na imagem abaixo (se quiser, veja a lista na própria página do Tesouro Nacional clicando aqui.

Dealers primários – lista oficial Tesouro Nacional

10. Agora, faça o seguinte: pegue cada um destes bancos estrangeiros e volte às figuras de Ranulfo logo acima no item 7: você verá as conexões de cada um destes cinco bancos no dominó financeiro global (se você for à imagem interativa será simples e surpreendente).

Só a mobilização dos pobres e a união das forças progressistas em cada país e globalmente pode frear esta ameaça que pesa sobre o Brasil e toda a humanidade.

[por Mauro Lopes]

18 respostas para “Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo”

  1. Poderia incluir que esses juros, além de abusivos, estão calculados sobre dívidas fraudulentas, com contratos ilegais. Pois as pessoas pensam que quem questiona essa dívida é caloteiro. E falar dos esforços e tentativas de se fazer uma auditoria nesses contratos, que encontram barreiras intransponíveis.

    1. Nesse link, tem uma lista de 7 pequenos vídeos (de 2 a 7min) que dizem muito das fraudes dessa nossa dívida:
      https://www.youtube.com/playlist?list=PLcTtpJkh7TJMtCxRxvlLnOnGmDRSLWLa7

      No site http://www.auditoriacidada.org.br tem tudo sobre isso.

      Precisamos encontrar um meio de tornar esse assunto popular, para que o povo passe a pressionar o governo pela auditoria da dívida pública.
      É incrível como esse assunto importantíssimo ainda é desconhecido, ou tabu, para a maioria das pessoas, de todos os níveis.

    1. O documentário Inside Job, que também tem legendado como Trabalho Interno, mostra quais as empresas, bancos e pessoas, estão por trás dessa destruição em massa que eles vêm fazendo no mundo, por pura ganância. Oscar em 2011.

  2. “A crise fiduciária aberta em 2008 (títulos hipotecários podres na crise do subprime3) foi coberta nos chamados países industrializados com a emissão desenfreada de moedas e inoculação dos tesouros públicos em quantidades absurdas no sistema financeiro como um todo. O que se viu nestes países não foi a retração do Estado; ao contrário, teve papel fundamental no quesito econômico como agente emulador, ao gradualmente se financeirizar de 2008 até os dias atuais em clara oposição ao capital real produtivo – talvez como única exceção seja a indústria bélica que tem sólidas raízes fincadas na economia mundial – o que sempre será o prenúncio de uma crise sistêmica global e base para o endividamento público.”

  3. A democracia “concedida” pelas elites não tem por objetivo atender as aspirações do povo.. serve apenas para controlar a pressão, de maneira a manter o trabalhador “satisfeito”, produzindo conforme os interesses do capital.. isso acontece em praticamente todo o mundo, e é preciso subverter essa condição..

    O povo demanda e as lideranças vão surgindo, mas todas elas, em todos os lugares, acabam sendo absorvidas ou controladas pelo “establishment” (ou são descartadas)..

    Vivemos ciclos de lideranças que são criadas e cooptadas (ou destruídas).. altamente frustrante porque somos focados em super-políticos salvadores da pátria.. que falham..

    A culpa é dos políticos? Não! A culpa é das pessoas, que pensam que o exercício político é um ato passivo.. as pessoas pensam que indo 1 vez a cada 4 anos votar num político resume a sua responsabilidade cívica.. esse é o problema..

    E para resolver esse problema, é preciso compartilhar o poder com o povo, atualmente uma exclusividade do “político”..

    É preciso estimular o exercício da política..

    Algo mais próximo de uma democracia direta (e que ao mesmo tempo contenha movimentos de massa – pesos e contrapesos de qualquer democracia)..

    Isso me parece óbvio, mas não é consenso, nem entre a galera de esquerda supostamente revolucionária.. porque não estão atentos à mudança de comportamento que a internet produziu na raça humana.. muitos são tecnofóbicos..

    A verdadeira revolução está na forma como as pessoas interagem com o estado.. embora seja fundamental a intermediação do político, é preciso fazer valer o poder do povo..

    Não devemos desprezar uma solução nesse sentido, já que existe uma enorme demanda e temos tecnologia para implementar algo assim..

    A minha sugestão é uma coisa chamada parlamentarismo online.. eu quero manifestar minha opinião em tempo real, inclusive com direito a arrependimento, e quero que a soma de todas as opiniões seja, de fato, o poder em nossa sociedade..

    Se você pudesse hoje acessar o site do congresso nacional e re-avaliar todos os parlamentares que ali estão, o que faria? E se pudesse, trocaria algum?

    Isso é quase como “fazer política sem intermediários”..

    Então, estamos esperando o quê para investir nessa ideia?

    O que vc acha?
    https://www.facebook.com/groups/setimarepublica/

    1. Tenho receio desse modelo proposto. Temas como Pena de Morte certamente seriam aprovados pq nossa sociedade tem prazer histórico no sangue. Mas quem morreria? E o mais incrível é que os próprios pobres, alvos de toda exclusão possível, compartilham dessas posturas e opiniões que lhes desfavorecem. Temos um povo muito perigoso, a tal ponto que ser representados por esses crápulas é menos arriscado. Nossa história é de crueldade humana e ainda não purgamos esse mal, ele está latente. A dominação ideológica concretiza-se na sua forma mais plena entre nós. Pobres e ricos protegem um modelo que só favorece os ricos. Mas e a semente da esperança de riqueza? Está plantada na maioria…

  4. Aí este texto, q gostei, encerra: “Só a “mobilização” dos pobres e a “união” das forças progressistas em cada país e globalmente pode frear esta ameaça que pesa sobre o Brasil e toda a humanidade.”
    Aí eu me pergunto:
    1.EM TORNO DE Q PENSAMENTO de MOBILIZAÇÃO dos pobres levará a um fato social?
    2. Em torno de Q PENSAMENTO de UNIÃO das forças progressistas levará a um novo fato social?
    3. De Q forma intelectual e prático se consegue unir união de pobres com mobilização progressista e Q leve a um fato social?

  5. Isso só prova o que o papel da democracia burguesa é mascarar o funcionamento do capitalismo, iludindo o trabalhador que ele vive sobre um regime democrático quando na verdade todo o sistema gira em torno da lógica do capital cujo objetivo é acumular sempre mais, manter o sistema dentro dos limites da ordem e o poder nas mãos da burguesia. Nos iludimos com governos de esquerda tipo o PT pois quando chega no poder quem dá as cartas? o grande capital tipo a Odebrecht. O capitalismo tá pouco se importando com uma sociedade que erradique a miséria, a pobreza e as desigualdades sociais, ou com a educação pública de qualidade para o filho do pobre trabalhador, ou um SUS digno para atender a população, o filho do pobre começa a trabalhar aos 14 anos de idade como jovem aprendiz (criado para explorar as crianças pobres, nessa idade o filho do patrão está estudando línguas estrangeiras, fazendo intercâmbio, se dedicando ao esporte ou construindo sua base para passar num vestibular de medicina e não trabalhando de menor ‘escravo’) para ter que se aposentar só aos 65 anos, ou seja serão 51 anos de trabalho, sem falar num salário mínimo de miséria que ganhou a vida toda o suficiente para lhe manter vivo e trabalhando. Misérias da humanidade.

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