Quando um rico adere a Jesus – os cristãos, os pobres e os ricos

São Francisco de Assis abraça o leproso; como Zaqueu, caminho de empobrecimento

Cristãos católicos aproximam-se do final de seu Ano Litúrgico neste 31° domingo do Tempo Comum –logo mais virá o Advento, tempo de espera da celebração do nascimento do Senhor. A Igreja nos propõe hoje à reflexão a história da relação de Jesus com um dos mais emblemáticos personagens dos evangelhos: Zaqueu (Lc 19, 1-10)

E tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais.” Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.”

Para entender o percurso de Zaqueu, a proposta de Jesus e meditar um pouco sobre a Igreja e o tema da pobreza e da concentração de riqueza, escrevi esta semana um pouco mais longamente e dividindo o assunto em quatros breves “capítulos”.

1. A caminhada do empobrecimento; estar pobre com os pobres – servir a Deus

A Igreja apresenta-nos o relato sobre a conversão de Zaqueu neste 31º domingo num contexto de intensa reflexão sobre os ensinamentos de Jesus a respeito da relação das pessoas com o dinheiro: renúncia dos bens (23º domingo), fraternidade e partilha (24º), a escolha entre Deus e o dinheiro (25º), o rico e o pobre Lázaro (26º), a viúva e o juiz (29º), o fariseu e o cobrador de impostos (30º). Este era um tema central na sociedade judaica, como de resto em todas as sociedades (mais adiante discutirei isso), na vida das pessoas e na espiritualidade ao longo da história do judaísmo e do cristianismo. Toda e qualquer ideia de que esta relação não seria crucial, com um discurso sobre o caráter “espiritual” da religião é mistificadora. A insistência de Jesus em sua pregação e da Igreja em nos apresentar o tema à reflexão-oração de maneira recorrente patenteiam a relevância do assunto -e, no tópico 4 deste artigo restarão evidente as razões de tantas reticências ao redor da conversa aberta sobre dinheiro.

A história de Zaqueu é maravilhosa e plena de complexidades –ao mesmo tempo, direta.

Ele era um cobrador de impostos, rico. Provavelmente tinha ouvido falar daquele profeta famoso no seu tempo e corre a vê-lo quando passa em sua cidade, Jericó. Quando o olhar do cobrador de impostos e o do profeta cruzam-se, numa cena divertida –Zaqueu trepado sobre uma árvore–, a empatia é imediata. Jesus diz-lhe para fazer o que toda pessoa precisa na vida: descer. E convida-se para entrar no coração do pequeno homem, que se converte, na presença do Manso e Humilde num gesto carregado de simbolismo: ergue-se sobre suas contradições. O discurso de conversão (mudança de rumo) e adesão a Jesus não fala de “pecados” de fundo pretensamente moralista nem de “encontros espirituais”. Não: a conversão, a adesão a Jesus é a decisão de radical empobrecimento e seguimento.

O empobrecimento de Zaqueu é o centro da história e é crucial. Setores conservadores da Igreja, seduzidos ao dinheiro (será o tema da quarta parte deste texto) afirmam que Zaqueu não teria empobrecido, porque teria doado aos pobres “apenas” metade de sua fortuna –como se encontrássemos ricos às pencas dispostos a abrir mão de metade de seus bens e renda. Mas ele foi muito mais adiante: “e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v.8). Ele lança mão de uma prescrição do livro do Êxodo: “Se alguém roubar um boi ou uma ovelha e o abater ou vender, restituirá cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha.” (Ex 21,37) Era uma pena duríssima a quem não apenas roubasse mas se desfizesse do bem roubado de tal forma a não poder restituí-lo à vítima: quem roubou, por exemplo, 100 reais, deveria devolver 400. Ora, o cobrador de impostos era tido como um ladrão na sociedade judaica, especialmente entre os pobres. Arrancava-lhes o pouco que tinham para sustentar o sistema jurídico-político de Israel e os invasores romanos. Portanto, toda atividade de Zaqueu era um roubo.  Se ele devolveu quatro vezes mais o que roubou, e toda sua fortuna, como de resto, todas as fortunas, era fruto de roubo, a conclusão é obrigatória: ele tornou-se um pobre com os pobres. Jesus acolheu com entusiasmo o gesto raro de um rico: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” (v. 10).

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Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo

 

O Casamento Desigual (1525-1530), atribuída a um seguidor do artista flamengo Quentin Metsys,

Em apenas dez passos você poderá entender claramente como os grandes bancos globais, os verdadeiros detentores do poder no capitalismo, empurraram o planeta e 99% de sua população abismo abaixo. Eu achava que era coisa para economista com muitos anos de estudo, para experts. Mas, não -ainda bem! A leitura combinada de um entrevista e um artigo veiculados no Outras Palavras esclarece tudo.

1. Comece pela entrevista do economista norte-americano Michael Hudson clicando aqui -não se apavore, é curta. Ele é especialista em sistema financeiro e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China. Ao lê-la, você entenderá o processo de submissão da economia mundial ao sistema financeiro explicado de maneira simples, direta. O dilema brasileiro atinge todo o capitalismo neste momento: “Quando se diz ‘pagar os bancos’, o que eles realmente querem dizer é pagar os detentores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório [do FMI, nota minha], neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo”.

2. Lendo a entrevista você compreenderá (se eu compreendi todos podem!): é ilusão pensarmos que a PEC 241, que liquida com gastos públicos no país, e a reforma da Previdência são “invenções” dos golpistas brasileiros; descobrimos com Hudson que as duas políticas (redução brutal dos gastos públicos e reforma de sistemas previdenciários) são globais, ditadas pelo processo de financeirização do capitalismo.

3. O que deixa claro: o golpe não foi um evento nacional, “bananeiro”, mas parte de um processo global conduzido pelo sistema financeiro e os rentistas de todo o mundo. Há desmonte de políticas públicas e reformas dos sistemas previdenciários acontecendo em todo o planeta para, como no Brasil, destinar os recursos públicos para os bancos e o pagamento dos juros das dívidas públicas a eles e aos rentistas.

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Deus, amor e pecado -é tudo diferente do que dizem os conservadores

cunha-rezando
Eduardo Cunha, quando ainda era parlamentar e presidente da Câmara, rezando com outros deputados.

Neste 30º domingo do Tempo Comum (23), cristãos católicos escutam nas missas ou rezam na Liturgia da Palavra do dia mais um trecho do evangelho de Lucas. É um texto conhecido, a parábola do fariseu e do publicano rezando no templo de Jerusalém, contada por Jesus. É bem curta, vale a pena reproduzi-la para ajudar na meditação a seguir. Trata-se de Lucas 18,9-14:

Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

Nesta brevíssima parábola estão apresentados alguns dos temas cruciais do cristianismo e das relações humanas. Começo pelo que me parece o mais central.

O amor. O centro perdido e encontrado do cristianismo.

O que está mais próximo do que poderíamos chamar de uma definição de Deus em todas as Escrituras aparece duas vezes na primeira carta de João: “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). Nada mais. Tudo está aí.

Deus é amor.

O quanto esta ideia, este conceito, este norte esteve perdido –e ainda hoje aparece apenas às margens, no “escondimento”, apesar dos esforços atuais do Papa e de alguns outros líderes religiosos do tempo presente de recolocá-lo sob a luz.

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A oração do pobre é sempre um clamor por justiça

Coretta King no dia do enterro do marido, Martin Luther King, em 9 de abril de 1968. Ao seu lado, a mãe e a irmão do pastor assassinado. A oração da viúva: “Justiça!”.

Neste domingo (16 de outubro), cristãos católicos celebram o 29º Domingo do Tempo Comum. Escutam, nas missas ou na leitura orante da Liturgia da Palavra, mais um trecho do evangelho de Lucas -tirado do capítulo 18, dos versículos 1 a 8 – se quiser, leia ao final.

É trecho breve. Nele, Jesus apresentou aos discípulos e discípulas a necessidade de “orar sempre, sem jamais esmorecer” (v.1). Essa ideia de rezar persistentemente não foi criação de Jesus, aparece já no primeiro dos salmos da Bíblia, reunidos num livro cerca de 400 anos antes de Cristo. O autor indicava que está no caminho do Senhor aquele que “murmura sua Lei (Torá)  dia e noite”. São Paulo, logo em sua primeira carta, escrita no ano 51 aos tessalonicenses, apresentou esta prescrição de maneira direta: “orai sem cessar” (1Ts 5,17).

O tema da oração é, de fato, central para os cristãos e para os crentes de todas as vertentes, pois a oração “constitui o núcleo mais profundo e íntimo da experiência religiosa, a ponto de se poder afirmar, com toda razão, que não há religião sem oração”[1].

Para explicitar o assunto aos seus amigos e amigas, Jesus contou-lhes então uma brevíssima parábola, sobre uma viúva que apresentava insistentemente seu pleito a um juiz insensível. A viúva, assim como o órfão e o estrangeiro eram enxergados como os grandes frágeis no Antigo Israel e, por isso, gozavam de proteção especial segundo a Torá, especialmente nos livros do Êxodo e Deuteronômio.

A viúva, personificação do pobre na história de Jesus, apresenta todo o tempo seu pleito: “faze-me justiça contra meu adversário! ” (v. 3). Ela age da maneira como resta aos pobres agirem: “A mulher não pode fazer outra coisa senão pressionar, mover-se continuamente para reivindicar seus direitos, sem resignar-se aos abusos de seu ‘adversário’. Toda sua vida transforma-se num grito: ‘Faze-me justiça’”.[2]

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Quando cardeais prestam vassalagem aos poderosos e ricos e traem os pobres

Dom Odilo Pedro atrás de Temer no Alvorada. Foto: Beto Barata/PR
Dom Orani ao lado de Temer no Palácio da Alvorada. Foto: Beto Barata/PR
Bispos e cardeais em conversa animada com o presidente do golpe de Estado. Foto: Beto Barata/PR

O cardeal dom Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, acompanhados de mais uma dúzia de integrantes da cúpula da Igreja no Brasil viajaram a Brasília na manhã desta segunda (10) para prestar vassalagem a Temer, aos golpistas e aos ricos do país.

Foram ao Palácio da Alvorada sob o pretexto de uma agenda sobre a Rede Vida, emissora de TV católica. Mas o que se viu foi uma cena que envergonha a Igreja de Francisco, a Igreja do Manso e Humilde.

Mas não há desculpa que dê jeito. As fotos são esclarecedoras. Dom Odilo andando atrás de Temer, dom Orani ao lado de Temer, os bispos e cardeais sentados confraternizando com o líder do golpe de Estado contra os pobres do país.

E ainda por cima no dia da votação da PEC 241, que congelou por 20 anos todos os gastos públicos, especialmente os da saúde e educação -o único gasto não congelado foi o pagamento dos juros aos ricos.

A declaração de dom Orani a O Globo é um acinte aos cristãos católicos da Igreja pobre com os pobres: “Ele (Michel Temer) expôs que está preocupado com o dia de hoje, com a votação de hoje. Ele tem necessidade de colocar o Brasil nos trilhos”. Se quiser, leia aqui a reportagem.

Que trilhos? Do que fala o cardeal? Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos e referencial nacional dos católicos para a Pastoral da Saúde escreveu um artigo sobre a PEC 241 sob o título “Uma PEC devastadora e brutal, a 241” (leia aqui). Mais uma vez: o que a PEC 241 tem a ver com “colocar o país nos trilhos”? São os trilhos dos que esmagam os pobres com sua locomotiva.

Um dia triste para os católicos.

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Bela, recatada e do lar: um projeto

Marcela Temer no lançamento do “Criança Feliz”. Foto Lula Marques

O episódio do discurso de Marcela Temer no lançamento de um programa denominado “Criança Feliz, num eco evidente do “McLanche Feliz”, em 5 de outubro, ainda merece atenção. Porque evoca o desenho de país que os golpistas pretendem. É mais que tomar o pré-sal e deixar o Estado a serviço dos rentistas.

Há, para além da esfera econômica, uma construção cultural-ideológica que pretende assegurar a dominação.

Assim, eles vão “organizando” o lugar de cada um na sociedade. Para as elites, é essencial enfiar as mulheres numa caixinha que arrebente seu protagonismo, um dos principais vetores da renovação do país. O desejo da direita é relegá-la a papéis subalternos num arranjo que sequer existe mais no século 21 (bela, recatada e do lar). O primeiro-damismo cheira a mofo, mas eles pretendem soprar a poeira e passar um lustrinho.

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Eleições: a vitória dos ricos

Pierre-Auguste Renoir, O baile no moulin de la galette, 1876 (detalhe)

O resultado das eleições municipais de 02 de outubro é desastroso para os pobres. A vitória de João Doria no principal centro do país é o símbolo do que aconteceu neste domingo.

Os ricos venceram e não apenas pelo conteúdo dos projetos, mas venceram sendo eleitos eles próprios em grandes, médias e pequenas cidades.

O projeto das elites, urdido desde sempre, mas a partir de 2013 como um processo articulado de tomada de poder, está vitorioso: arrasou-se com o PT, prevaleceu o discurso do ódio, disseminou-se entre as classes médias e os pobres o “crack” do sonho de riqueza individual, tão ilusório quanto as viagens da pedra viciante.

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Habacuc e o voto dos cristãos e cristãs nesta eleição

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Repressão a manifestação por moradia em São Paulo (2016). Foto MTST

Cristãos católicos vão às missas neste domingo (2 de outubro), 27º do Tempo Comum –período que antecede do Tempo do Advento e depois o Natal. Continuamos a rezar o Evangelho de Lucas. Na Primeira Leitura, é dia de escutar, ler e mastigar um profeta do povo, Habacuc (Hab 1,2-3.2,2-4).

Ele viveu cerca de 600 anos antes de Cristo, período de intensa exploração do povo pela potência estrangeira, a Assíria, e pelas classes dominantes da sociedade judaica. Um dos grandes teólogos contemporâneos no Brasil, o luterano Milton Schwantes, morto há quatro anos, escreveu que o centro da atividade profética de Habacuc foi exatamente “sua crítica social aos espoliadores internos e internacionais” (em “Sofrimento e esperança no exílio”, Paulinas).

De Habacuc ecoa o grito desesperado dos oprimidos de todos os séculos, dos pobres explorados e espezinhados que escutamos hoje: “Até quando, Senhor, pedirei socorro e não ouvirás, e gritarei a ti: ‘Violência!’ e não me salvarás?” (1,2).

Quantas vezes gritos como esses foram ouvidos em Israel e ao redor do planeta? Quantas vezes esta clamor urgente não subiu aos céus dos porões dos navios negreiros, das senzalas, das favelas, das trincheiras das guerras, das cadeias?

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