Uma pergunta irrespondível e um caminho

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Cristãos católicos celebram em todo o mundo neste 31 de janeiro o 4º domingo do Tempo Comum, no qual contemplamos a missão de Jesus. Começamos a meditar a cena, tomada pela Igreja do Evangelho de Lucas, no domingo passado: Jesus, que havia começado sua missão na Galileia, foi rezar num sábado na sinagoga da aldeia onde fora criado, Nazaré. Entrou e escolheu um trecho do rolo do profeta Isaías, onde leu que havia sido enviado pelo Espírito do Pai para evangelizar os pobres, libertar os cativos e oprimidos, abrir os olhos dos cegos e proclamar a bondade de Deus sobre a terra.

Na Liturgia da Palavra nas missas de hoje, rezamos a continuidade dessa história: Jesus fechou o rolo do profeta, entregou-o ao ministro da sinagoga, sentou-se e anunciou que aquela profecia de Isaías referia-se a ele, afirmando que o Pai o enviara para estar com os pobres e não com seu grupinho social de origem.

No contexto judaico, as palavras de Jesus soaram muito agressivas, pois ele afrontou os presentes ao dizer que seu envio era para favorecer os não judeus, uma blasfêmia terrível –algo como dizer na sociedade capitalista de agora que ele veio para cuidar dos pobres, que eles são os mais importantes para Deus, e não para favorecer os que têm dinheiro ou prestígio ou influência.

Os que estavam na sinagoga foram tomados de fúria –algo como a direita no Brasil em relação aos poucos benefícios sociais que favoreceram os pobres nos últimos anos, algo como a repulsa das pessoas “de bem” diante de moradores de rua- e expulsaram-no da sinagoga e da cidade, levando-o até o alto do pequeno morro onde Nazaré está construída para precipitá-lo morro abaixo, matando-o. A cena, carregada de tensão, termina de maneira surpreendente: “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.” (v. 30)

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Dos 10 mais ricos do mundo, 9 atentam gravemente contra a dignidade das pessoas

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Teve grande repercussão o estudo divulgado pela OXFAM segundo o qual 1% das pessoas mais ricas do mundo detêm mais riqueza que as demais 99%. No mesmo estudo, indicou-se que apenas 62 multimilionários têm riqueza equivalente à da metade da população do planeta. Veja aqui a íntegra do estudo em português.  Agora, um conselheiro da entidade, que reúne 17 organizações não-governamentais, o russo Mikhail Maslennikov demonstrou como essa concentração é fruto de ação meticulosa das elites globais – veja a entrevista em português, veiculada pelo Outras Palavras clicando aqui.

A BBC Brasil apresentou em reportagem quem são os 62 multimilionários que controlam metade da riqueza mundial – leia aqui se quiser. Na reportagem da BBC há algo que é uma febre nas redes: listas. Apresentou na reportagem os “Top Ten”, os 10 mais ricos. É uma lista reveladora do caráter do capitalismo. Dos 10 listados, 9 são conhecidos por práticas que vão do uso de mão de obra escrava a abusos na relação com trabalhadores de suas empresa, submetidos a regimes de superexploração e espionagem a serviço da agência americana de segurança (NSA).

O sistema ideológico do capitalismo enfia na cabeça e coração das pessoas histórias de “heróis” que fizeram fortuna com base em sua criatividade, genialidade, perseverança, intuição… É o que nos é vendido na mídia tradicional, pelo sistema escolar e acadêmico dominante, consultorias, publicidade… Mas os pés de barro desses “gigantes” ficam ocultos.

Vejamos a lista dos “10 mais”:

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Um manifesto urgente

Missa celebrada na Praça da Sé, em São Paulo, pela Pastoral do Povo da Rua (24.01.2016)

Cristãos católicos ao redor do planeta celebram hoje o 3º domingo do Tempo Comum – período que em meditamos sobre a missão de Jesus. No primeiro, o tema foi seu batizado; no segundo, o início de sua missão com um milagre em tudo “profano”, transformando água em vinho numa festa de casamento. Hoje, Jesus apresenta o programa de sua missão (a passagem está no Evangelho de Lucas –toda a leitura do dia é Lc 1,1-4; 4,14-21).

A cena acontece em numa sinagoga em Nazaré, cidade onde ele passou a infância. Num sábado, ele foi à sinagoga e, no momento culminante do culto, a leitura das Escrituras, levantou-se, recebeu o rolo do profeta Isaías e escolheu o seguinte trecho que proclamou:

 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”

A seguir, ele sentou-se e disse: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura”.

A partir deste episódio, no Evangelho de Lucas, Jesus lançou-se à sua missão.

Na leitura da sinagoga, Jesus apresentou seu programa. “Na intenção de Lucas, este episódio é verdadeiramente o ‘manifesto’ de Jesus”. [1]

E do que trata este manifesto, tomado emprestado por Jesus do profeta Isaías, tão central no cristianismo que alguns chamam seu livro como o 5º Evangelho”?

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Um casamento na roça

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Cristãos católicos de todo o mundo celebram hoje o segundo domingo do Tempo Comum, período litúrgico fronteiriço de um lado com o Natal e de outro com a Quaresma. É o tempo por excelência de contemplação da missão de Jesus. Este segundo domingo segue-se ao domingo do batismo de Jesus, no qual ele lança-se à sua caminhada. Hoje, portanto, o que rezaremos nas missas e meditaremos, é aquele evento que a Igreja escolheu no período dominical para marcar o primeiro ato concreto de Jesus na missão (nas missas  dos dias da semana rezamos passagens tiradas do evangelho de Marcos).

É um domingo paradoxal. O primeiro evento da missão de Jesus no Evangelho de João, selecionado para hoje, não é um grande milagre, não é um ato estrondoso. Jesus não cura nenhum cego, não interrompe uma tempestade, não se apresenta transfigurado ou radiante. Nada disso. É um evento discreto, silencioso: “um conto ingênuo a respeito de um prodígio feito num casamento na roça”.[1] Está no Evangelho de João, no capítulo 2, 1-11 (se quiser, leia no final).

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O batismo de Jesus e o caráter do cristianismo

O batismo de Jesus – Cláudio Pastro

Cristãos e cristãs católicos de todo o mundo celebram hoje o domingo do Batismo do Senhor. É um dos momentos culminantes na vida dos católicos. Neste domingo encerra-se o Tempo do Natal –começa a ficar para trás a contemplação da espera/nascimento de Jesus e da sua vinda no fim dos tempos. Começa o Tempo Comum, onde contemplaremos a missão de Jesus.  Faremos isso por cinco semanas, até o início da Quaresma, sempre na dinâmica do tempo litúrgico, da vida litúrgica que encharca (ou deveria encharcar) o cotidiano dos membros da Igreja –milhões e milhões de pessoas mundo adentro. Segundo afirmou o Papa Francisco na manhã deste domingo àqueles que são batizados, como Cristo o foi têm “a responsabilidade de seguir Jesus” –se quiser, leia aqui reportagem sobre o discurso do papa.

A Liturgia da Palavra proclamada nas missas de hoje indica exatamente o caráter da missão de Jesus. Portanto, os cristãos –e, creio, as pessoas de bem em geral- precisam (precisamos) conhecer e apreender qual é o caráter, o conteúdo, a centralidade desta missão. São três as leituras das missas de hoje. A cena do batismo de Jesus, tirada do Evangelho de Lucas, um dos cantos do Servo Sofredor, do livro do profeta Isaías, e um trecho crucial dos Atos dos Apóstolos (ao final, reproduzo as três leituras). Concentro-me nos três pontos que são cruciais para entender a missão de Jesus:

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O capitalismo, sistema de morte (2) – a indústria da moda

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Trabalho escravo na cadeia da moda em pleno centro de São Paulo

Escrevo duas breves meditações sobre o capitalismo a partir do ensinamento da Igreja e do Papa Francisco, que no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, qualificou o sistema de “ditadura sutil”. Para o Papa, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” Antes, em abril, um dos líderes da reforma da Igreja , o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas mundial e coordenador do grupo encarregado da reforma da Cúria romana havia afirmado que o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Não são ensaios nem artigos, apenas breves meditações que buscam colocar-se a serviço da Igreja, que busca retomar o caminho original dos ensinamentos de Jesus -a anterior foi sobre os bancos.

Este artigo foi republicado  no site de comunicação independente Outras Palavras em 11.01.2016 -se quiser, leia aqui; e na agência de notícias do Instituto Humanitas Unisinos em 12.01.2016 – está aqui.

2. A indústria da moda

Tempos atrás, quando o dólar ainda estava ao preço “me engana que eu gosto” e a classe média se esbaldava na Flórida e pelo mundo afora, minha mulher e eu fomos a NY. Conhecemos algo novo. Roupa a preço de banana. Numa tal Forever 21 compramos um vestido a US$ 7 dólares (R$ algo como $ 15 à época); numa outra H&M, preços inacreditáveis também. Numa japonesa, Uniqlo, igual. Ressoava em nossos ouvidos a cantilena da direita: é mais barato porque o mercado é imenso e porque eles não têm a quantidade de impostos daqui do Brasil! Mas eis que a Forever 21 abriu quase 30 lojas no Brasil e… praticam os mesmos preços!

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O capitalismo, sistema de morte (1) – os bancos

Emil Nolde, Máscaras (1911)

Escrevo duas breves meditações sobre o capitalismo a partir do ensinamento da Igreja e do Papa Francisco, que no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, qualificou o sistema de “ditadura sutil”. Para o Papa, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” Antes, em abril, um dos líderes da reforma da Igreja , o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas mundial e coordenador do grupo encarregado da reforma da Cúria romana havia afirmado que o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Não são ensaios nem artigos, apenas breves meditações que buscam colocar-se a serviço da Igreja, que busca retomar o caminho original dos ensinamentos de Jesus. Publicado no Outras Palavras em 31.12.2015 – se quiser veja aqui. Republicado pela Agência de Notícias do Instituto Humanitas Unisinos em 06.01.2016 -se quiser, leia aqui.

1. Os bancos

Minha nova atividade profissional fez-me frequentar um ambiente no qual não pisava há quase 20 anos: as filas de agências bancárias. O que tenho testemunhado é um verdadeiro massacre.  Toda vez que uma pessoa chega para fazer um pagamento ou retirar dinheiro ou qualquer outra operação nos caixas dos grandes bancos e seu cartão é inserido nas maquininhas, abre-se uma tela para o funcionário do banco com as informações necessárias para espoliar a pessoa.

Os velhos e velhas aposentados são as vítimas preferenciais. Os bancos tentam arrancar seu dinheiro sem dó nem piedade, aproveitando-se do fato de estes aposentados terem uma renda mensal garantida. Nos caixas, jovens bem falantes, articulados e obrigados à “venda”, sob o risco de não “atingirem as metas” e, no limite, serem demitidos por isso. É um sistema infernal. Outro dia minha mulher testemunhou um velhinho quase aceitando um crédito de 40 mil reais diante da insistência do caixa: “O senhor não está precisando trocar de carro? Tem aqui 40 mil, podemos fazer já. O senhor usa e paga um pouquinho por mês”. Ela quase se meteu para impedir o assalto, mas a ultima hora o senhor recusou. Outro dia vi uma cena semelhante, com uma senhora que visivelmente não estava entendo a oferta criminosa da caixa do banco. Ao ver que eu estava ao lado olhando, a funcionária do banco recuou e desconversou. Imagine quantas milhares de vezes ao dia a cena se repete. E quantas vezes o assalto é bem sucedido.

Agora, os bancos inventaram um jeito de poderem praticar o crime de maneira mais discreta, reduzindo o risco da indignação pública nas filas. Meteram umas divisórias de vidro que impede aqueles que estão na fila vejam ou escutem o que acontece na boca dos caixas. A desculpa chega a ser ridícula. Dizem os gerentes de duas agências em que perguntei a razão da medida que é “para segurança dos clientes” –teoricamente para evitar assaltos à saída das agências. Conversa fiada. É para facilitar o assalto que acontece dentro das agências, para garantir privacidade à ação criminosa dos caixas. Não, em sua imensa maioria eles não são criminosos, são igualmente vítimas da engrenagem. Em minha família há duas pessoas que são funcionários de grandes bancos e estão gravemente adoentadas emocionalmente por isso.

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Até onde vai o Papa?

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O Papa e filhos e filhas de presos e presas das cidades de Bari e Trani que foram ao Vaticano sábado 30.05.2015.

O editor de Outras Palavras, Antonio Martins, amigo de anos a fio, hora mais perto, hora mais longe, propôs-me um artigo com o título acima. O mote do artigo seria a encíclica lançada há três semanas pelo Papa Francisco, sobre o planeta. Acabou que decidi esperar a realização do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, organizado pela Igreja em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, durante a viagem de Francisco à América Latina (Equador, Bolívia e Paraguai). Um convite inusitado, pois vazado por um cristão católico radical num site em que, pré-Francisco, talvez fosse inimaginável tal espaço. O artigo foi originalmente publicado em 21.07.2015 -se quiser ver, clique aqui.

Até onde vai o Papa?

Talvez o melhor seja mirar menos o ponto de chegada e mais o percurso. Uma questão central na visão cristã da história de cada pessoa e do planeta é que a cada dia se chega –e nunca se chegará. Inspirados por Cristo, seus seguidores querem chegar ao Reino de Deus, uma reconstrução da originalidade perdida no desastre do Éden, quando Adão tornou-se símbolo do ensimesmamento que tem pautado a história da humanidade e dos sistemas de dominação que se sucederam um após o outro.

Assim como Jesus, os cristãos olham –ou deveriam olhar- para tudo a partir de uma lógica reinocêntrica. O que contribui para a chegada do Reino (tempo e lugar de Paz e amor, isento de sofrimento, de fome e de misérias) é parte deste percurso. Tudo o que afasta o Reino é traição a este caminho. Pedro Casaldáliga, um dos maiores líderes da Igreja, perseguido implacavelmente durante anos pela hierarquia romana e hoje doente de Parkinson em São Félix do Araguaia, é um dos que tornou esta visão essencial do cristianismo em prosa e poesia (assista um filme imperdível sobre a trajetória de Casaldáliga, “Descalço sobre a terra vermelha”, clicando aqui).

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