Para o país que os ricos estão desenhando não haverá muros suficientes

O muro que separa os ricos do Morumbi dos pobres da favela de Paraisópolis, em São Paulo. O país que o governo Temer está desenhando. Foto: Tuca Vieira

Eduardo Fagnani é um professor dos bons. Ilumina o que está à frente, a partir da experiência passada; ensina que é preciso escolher um lado, e escolheu o dele -o dos pobres lascados; é rigoroso com o estudo, a necessidade de profundidade; sabe que conhecer é um caminho de humanidade e poesia.Tornou-se o maior especialista na malfadada reforma da Previdência Social pretendida pelo governo golpista.

Concordo com ele: as elites brasileiras são predadoras, tacanhas, não têm compromisso com o país. O tripé composto pela emenda constitucional de restrição dos gastos públicos, pela terceirização e demais medidas da reforma trabalhista e pela reforma da Previdência é o sonho (pesadelo) de páis dos ricos escravocratas, que nunca renunciaram à volta da senzala para os pobres.

Fagnani garante:  “O cenário é catastrófico” se não houver reação vigorosa dos pobres. Haverá miséria e muito sofrimento neste país os ricos que vivem de costas para o Brasil e com os olhos postos em Miami. Leia a entrevista/conversa que tivemos, publicada originalmente no site Previdência, Mitos e Verdades.

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O professor Eduardo Fagnani é hoje um dos mais profundos conhecedores dos temas vinculados à Previdência Social –foi ele o coordenador do estudo mais abrangente sobre a “reforma” do governo Temer, Previdência: reformar para excluir?. Ele diz que a combinação da emenda constitucional que limita os gastos públicos, a terceirização irrestrita das relações de trabalho de demais medidas na reforma trabalhista e a “reforma” da Previdência tem uma consequência dramática: “eles estão matando o futuro do país”.

“O cenário é catastrófico, um desastre sem precedentes” –afirmou. Fagnani diz que a melhor imagem para o projeto do governo de Temer e associados é a “cidade linda” do prefeito de São Paulo, João Dória: “O que eles estão fazendo é ampliar para o país o ’cidade linda’ do Dória; linda para menos de 20%, um inferno para mais de 80%. São Paulo vai virar uma cidade de muros para impedir que os pobres reajam. É o que acontecerá com o Brasil, o país do muro a separar os ricos dos pobres. Mas eles precisarão de muito muro, muito mesmo”.

Ele explicou que hoje quase a metade (49%) dos trabalhadores e trabalhadoras já estão na informalidade –a soma dos que trabalham no setor privado e domésticas sem carteira assinada, o trabalhador por conta própria e os “ empreendedores individuais”, onde se concentram os trabalhadores PJ (Pessoa Jurídica). “Não é exagero supor que em pouco tempo esse percentual de trabalhadores informais chegará a 70% do total”, projetou Fagnani.

“A Previdência vai quebrar”, afirmou categoricamente. Com a brutal redução de recursos no INSS por conta da terceirização combinada à informalização selvagem será “uma implosão”: “O estoque de contribuintes sofrerá uma redução drástica, com o processo de demissões em massa dos trabalhadores com carteira assinada e sua recontratação como terceirizados; os trabalhadores rurais não irão mais aportar com a obrigação de contribuição mensal; os jovens entrantes no mercado de trabalho não serão mais contribuintes da Previdência, pois ingressarão já no contexto da terceirização; e como a percepção da crise do sistema logo se espalhará, haverá uma debandada dos contribuintes de renda mais alta para os planos de previdência privada”. Qual o prazo para desastre final? “A Previdência vai quebrar em 10 a 15 anos, se tudo continuar na batida atual”.

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Francisco dormirá num presídio: somos capazes de perdão?

O Papa irá a Milão, no norte da Itália, no próximo sábado (25). O maior destaque de sua viagem será a visita ao presídio de San Vittore que, inaugurado em 1879, sofre atualmente do mesmo drama das prisões brasileiras: superpopulação. Francisco irá se encontrar com os 400 presos, almoçará com eles e pretender dormir um pouco depois do almoço (a sesta) na cela do capelão do cárcere. Toda a visita acontecerá sob o tema do perdão.

O gesto do Papa no próximo sábado é de alto impacto. Ele irá, mais uma vez, ao encontro daquilo que boa parte da humanidade considera escória. Como diz o lugar comum da classe média conservadora brasileira, “bandido bom é bandido morto”. É a estes que o Papa dedicará sua atenção e afeto, em apoio à atividade anônima e cotidiana da Pastoral Carcerária do Brasil e suas similares no mundo.

“Se o Senhor me perdoou tanto, quem sou eu para não perdoar?”, perguntou  o Papa, em sua homilia na missa matinal desta terça (21) na capela de Santa Marta, no Vaticano. O perdão é um tema central do papado de Francisco e se dirige ao ser humano em todas as condições em que se encontra: no cárcere, nas famílias desfeitas, às múltiplas condições de marginalização pela sociedade. É um tema que antagoniza o Papa a amplos segmentos conservadores do catolicismo em particular e do cristianismo como um todo, cujo foco de atenção é na condenação, e não no perdão.

Este foi tema de um instigante artigo do teólogo italiano Andrea Grillo sobre o pontificado de Francisco, publicado poucos dias atrás: “A Igreja redescobre que pode realmente perdoar e caminhar. Esse caminho e esse perdão, finalmente reconhecidos como possíveis, são, para poucos, um erro imperdoável; para muitos, a consolação preciosa que abre uma nova temporada.”

É este Papa, tão estranho ao mundo enclausurado da Cúria romana, que recoloca a Igreja no caminho do encontro com a pessoa tal como ela é. O teólogo Grillo captou a percepção da hierarquia católica sobre um Papa que lhe é de fato tão estranho; ela entendeu desde o primeiro instante: “o Papa não mora mais aqui. Permanece periférico, mesmo estando no centro. Trabalha com a Cúria, mas não faz parte dela. Permanece extraterritorial, incontrolável, indomável. Presta serviço, mas permanece livre”.

Livre, ele vai ao encontro dos que estão aprisionados: “Estive preso e vieste me visitar” –a prescrição de Jesus no capítulo 25 do Evangelho de Mateus é uma das escolhas decisivas dos que pretendiam e pretendem segui-lo. Com os encarcerados, Francisco irá conversar, “um a um”, segundo o porta-voz vaticano David Milani, comer, visitar suas celas e partilhar humanidade.

[Mauro Lopes, com Religion Digital e IHU Unisinos]

Presidente da CNBB diz que entidade apoia o Papa, mas evita polêmicas

O cardeal dom Sérgio Rocha, presidente da CNBB, na sede da entidade. Foto de Wilson Dias, Ag. Brasil

Dom Sergio da Rocha, cardeal Arcebispo de Brasília e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) concedeu entrevista exclusiva ao Caminho pra Casa na última sexta-feira (17). Ele afirmou que a entidade tem “manifestado reiteradamente a nossa comunhão sincera, apoio e solidariedade ao Papa Francisco, pessoalmente e por mensagens”. Mas evitou qualquer comentário sobre a campanha dos segmentos restauracionistas (expressão do Papa) contra Francisco, limitando-se a dizer que ele “tem continuado com firmeza e serenidade” e “não se deixa abalar por críticas, nem recua”. Sobre o pontificado de Francisco, o presidente da CNBB declarou: “As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral”.

Ele garantiu que a CNBB tem “procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade” e que a exortação apostólica sobre a família, centro dos ataques conservadores ao Papa, será examinada na próxima Assembleia Geral da entidade.

Dom Sérgio revelou que haverá um posicionamento oficial da CNBB sobre a reforma da Previdência Social. Ele evitou qualquer crítica direta ao governo Temer, mas pontuou que a Igreja opõe-se a qualquer reforma que não assegure “o direito dos pobres”.

Leia a íntegra da entrevista, na qual ele fala também sobre a perda de fiéis pela Igreja Católica no país, a proposta de ministros e ministras leigos poderem presidir as missas, a Campanha da Fraternidade 2017, sobre biomas brasileiros e defesa da vida”

Caminho pra Casa – Como o senhor avalia o pontificado de Francisco até o momento?

Dom Sérgio da Rocha – O Papa Francisco tem nos ensinado a ser uma “Igreja em saída” ao encontro das ovelhas feridas e errantes; uma Igreja misericordiosa e acolhedora, casa de portas abertas; uma Igreja servidora, que vive da simplicidade. As palavras e gestos do Papa Francisco tem sido comoventes. Ele tem nos oferecido textos belíssimos e profundos, de grande repercussão, como a Evangelii Gaudium e a Amoris Laetitia. Ele ensina, não apenas por aquilo que fala ou escreve, mas por seus gestos concretos, de grande riqueza simbólica, a começar da escolha do nome “Francisco”; mas também a sua preocupação com a situação trágica dos refugiados e imigrantes, o seu empenho em favor da paz no mundo, a defesa dos pobres, o “cuidado da casa comum”, dentre tantos outros aspectos. Temos muito ainda a aprender com ele!  O seu jeito simples, acolhedor, paterno e fraterno tem nos motivado a redescobrir valores essenciais da vida cristã, especialmente da vida da Igreja, como a simplicidade e a misericórdia. As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral, a reforma do coração e da ação evangelizadora. Ele nos motiva a caminhar!

A Igreja vive um momento de intensa agitação em torno da exortação Amoris Laetitia. O Papa abriu a questão da comunhão dos divorciados em segunda união ao discernimento das igrejas locais. Qual a sua posição como pastor sobre o assunto? A CNBB pretende posicionar-se?

Desde o primeiro momento da publicação, temos procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade. O próprio Papa nos alerta para não reduzi-la a um aspecto ou a uma parte do texto. O documento ressalta o matrimonio e a família como dom; por isso, já no seu título aparece a “alegria do amor” na família. Matrimônio e família não podem ser reduzidos a problemas. A ação pastoral da Igreja deve ser ampla e continuada: antes do matrimônio, na sua celebração e durante a vida conjugal e familiar; não apenas nos momentos de crise. Mas, é preciso dar especial atenção aos casais e famílias que mais sofrem, sobretudo àqueles que não conseguiram viver o ideal conjugal proposto pela Igreja. O famoso capítulo VIII deve ser inserido e compreendido no conjunto. Não se trata de fazer uma nova regra geral canônica; o próprio Papa Francisco alerta a respeito disso. O caminho a ser seguido é o da misericórdia e do discernimento pastoral. A proposta é “acompanhar, discernir e integrar”, conforme o próprio título do capítulo VIII. Por isso, a CNBB não pretende elaborar novas normas a respeito. Quer ajudar os Bispos e Dioceses a acolherem e a aplicarem a Amoris Laetitia, de modo mais fiel possível. Por isso, foi formada uma Comissão para refletir a respeito dessa Exortação Apostólica Pós-Sinodal. Esperamos estar aprofundando o assunto na próxima Assembleia Geral da CNBB [que acontece entre 26 de abril e 4 de maio de 2017] .

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Igreja Católica confronta a “reforma” da Previdência

Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais

A CNBB, a entidade dos religiosos (CRB), franciscanos, jesuítas e a Arquidiocese de Londrina posicionam-se contra a “reforma” da Previdência em termos duros. Do site Previdência, Mitos e Verdades

Cresceram nos últimos dias e chegaram ao auge na quarta (15) as manifestações de segmentos da Igreja Católica no Brasil contra a “reforma” da Previdência. Leigos de comunidades das periferias, seminaristas, religiosos, padres e freiras participaram das manifestações em diversas cidades do país.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota na manhã de quarta (15) na qual anuncia um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.

A nota franciscana apresenta um retrato pungente dos efeitos da “reforma” sobre os mais pobres: “Basta olharmos para a luta diária de nossos irmãos agricultores, especialmente nas áreas rurais em que estamos presentes nos estados do PR (especialmente a Região Sudoeste), SC (Alto Vale do Itajaí, Planalto Central e Oeste) e ES (especialmente a região de Colatina), ou para a dureza da vida dos operários nas periferias urbanas do Rio de Janeiro (Baixada Fluminense) e São Paulo para percebermos o grau de insanidade presente em exigir que estes trabalhadores braçais se desdobrem em quase 50 anos de trabalho para, depois, receberem migalhas que mal custeiam os remédios que se fazem necessários depois de uma vida de trabalho intenso e extenuante.”

Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais (no alto deste post).

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O maior teólogo do século XX profetizou há 50 anos a primavera de Francisco

Francisco e Karl Rahner: profecia cumprida

No quarto aniversário do papado de Francisco está cumprida a profecia do maior teólogo do século XX, de que haveria uma primavera depois de longo inverno. O alemão Karl Rahner profetizou há mais de 50 anos a chegada deste Papa que é a encarnação mais radical do Concílio Vaticano II. Não é possível pensar o Vaticano II sem a contribuição decisiva de Rahner que, por escolha do Papa João XXIII, foi nomeado em 1959 como consultor da comissão preparatória do Concílio e a seguir como um dos peritos conciliares. Todos os principais teólogos surgidos no contexto do Vaticano II e depois dele foram e são diretamente influenciados por ele.

Rahner profetizou a chegada de Francisco e os eixos de seu pontificado em quatro conferências que proferiu durante os anos do Concílio e depois transformou em breves ensaios[1]. Ele também foi capaz de antecipar alguns dos principais embates que ocorrem hoje, como aquele em torno da exortação Amoris Laetitia, a aproximação com os protestantes, o governo colegiado da Igreja e outros.

A leitura dos ensaios de Rahner, jesuíta como Francisco, indica que este é de fato o primeiro Papa do Concílio, o primeiro Papa que encarna o espírito que o Vaticano II buscou infundir na Igreja Católica.  O final do último ensaio é a profecia mais acabada sobre o tempo transcorrido desde o fim do Vaticano II, com o estrangulamento de seu espírito pela Cúria romana e parte da hierarquia, e a semente plantada que agora viceja em Francisco:

“A coisa mais importante acerca do Concílio Vaticano II não é a letra dos decretos, os quais de algum modo devem ser traduzidos por todos nós em vida e ação. É o espírito, as tendências, perspectivas e significado mais profundos do que aconteceu que realmente importa e que continua em vigor. Talvez eles possam ser escondidos novamente pelo tempo, por uma onda contrária de cautela, por medo da própria coragem, por terror de falsas conclusões que as pessoas possam igualmente extrair. Pode parecer a algumas pessoas de vida curta e míopes que após muito barulho tudo está como era. Mas as verdadeiras sementes de uma nova perspectiva e força para entender e resistir ao iminente futuro de um modo cristão estão plantadas  no campo da Igreja”.[2]

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Acabou a conversa da “escravidão” na China: eles já ganham mais que os brasileiros

No domingo (26), país pulava e cantava FORA TEMER e uma notícia publicada pelo inglês Financial Times passou despercebida: a média salarial na indústria chinesa já é maior que no Brasil. Lembra aquele discurso sobre a “escravidão” na China? Foi o tempo. A verdade é que em dez anos, a contar de 2005, a média salarial dos chineses na indústria triplicou, para US$ 3,60 por hora, enquanto Brasil caiu de US$ 2,90 para US$ 2,70. Dá pra imaginar o que acontecerá se aprovada a reforma trabalhista de Temer e dos golpistas ultraliberais –os carnavalescos sabiam bem o que cantavam país adentro.

Veja o gráfico. Veja com calma.

O fato tem dimensão de alto impacto, pois derruba o mito neoliberal que é um dos vetores do golpe no Brasil e dos conservadores na América Latina, segundo o qual é preciso arrochar sempre mais os salários para ser “competitivo”. O economista Oru Mohiuddin, do Euromonitor, falou ao Financial Times, e explicou que o aumento espetacular na remuneração média dos operários e operárias chineses não levará a uma fuga das indústrias estabelecidas naquele país. O gigantismo do mercado interno chinês passou a ser decisivo para as indústrias: “Em muitos setores, a China representará 20% do mercado em 2020, similar à América do Norte e à Europa Ocidental”.

Como diria o ditado americano: “é o tamanho do mercado interno, idiota”. Os economistas de Temer querem massacrar os trabalhadores do país com suas reformas. Vão liquidar com o Brasil. Se quiser, leia aqui a versão em português da reportagem do Financial Times.

Os dados utilizados pelo jornal inglês são do instituto Euromonitor que usou as estatísticas da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Eurostat, da União Europeia, e dados oficiais dos países analisados. Os salários nacionais foram convertidos para dólar norte-americano e ajustados segundo a inflação.

[Mauro Lopes]

 

Como o cocô tornou-se dinheiro e a seguir o Deus do capitalismo e de muitos cristãos

O culto ao Deus-dinheiro oficializado nas cédulas no Brasil e EUA

O filósofo italiano Giorgio Agamben, um dos relevantes protagonistas do pensamento crítico na virada do século XX para o XXI disse numa entrevista em 2012 que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro” (aqui). A afirmação de Agamben inspirou-se em outro filósofo, este um protagonista da primeira metade do século XX, um pensador fora da curva, Walter Benjamin. Em seu curto e denso “O Capitalismo como Religião”, de 1921 (aqui), Benjamin escreveu que o capitalismo é em si mesmo a religião mais implacável que já existiu, e promove um culto ininterrupto ao Dinheiro, “sem trégua nem piedade”, uma religião que não visa a reforma da pessoa, “mas seu o seu esfacelamento”.[1]

O filósofo alemão sugeriu uma comparação entre as imagens dos santos das religiões e as cédulas de dinheiro de diversos países –ele não imaginava, à época, que este Deus-dinheiro estaria diretamente louvado nas cédulas nos EUA (In God we Trust, em Deus Confiamos) e, desde 1980, no Brasil, onde lê-se em todas as notas a frase de adoração à moeda corrente: Deus seja louvado.

Ambos inspiraram-se num dito de Jesus, que está no centro da liturgia católica do 8º Domingo do Tempo Comum (26), às portas do período quaresmal que antecede a Semana Santa e a Páscoa: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” O texto proclamado é do Evangelho de Mateus (Mt 6,24-34). A oposição entre Deus e o dinheiro é um tema central ao longo da história e, para Jesus, a relação de cada qual com o dinheiro é definidora de sua relação com as outras pessoas e a vida.

Como essa questão aparece na vida das pessoas? A psicanálise procurou investigar a relação entre o ser humano e o dinheiro e chegou a conclusões que podem soar surpreendentes e inacreditáveis num primeiro momento. Como apontou o sacerdote jesuíta e teólogo espanhol Carlos Domingues Morano, dinheiro é um assunto crucial, apesar de muitas vezes escamoteado -como o sexo. Na verdade, o tema nunca é “só dinheiro”. As relações entre os homens/mulheres com o dinheiro comportam dimensões nem sempre lógicas, que extrapolam o discurso racional mais ou menos organizado –é sempre “algo mais” que dinheiro.[2] Na relação das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psicanálise, “está também implicada uma ‘questão de amor’; dito em termos mais freudianos, uma questão de ordem libidinal, inconsciente e com raízes na infância. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas reações de dissimulação, falso pudor e hipocrisia.”[3]

Há uma questão oculta que Freud trouxe à tona –e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa relação o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.

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Bispos e movimentos sociais convocam desobediência civil nos EUA contra deportações de Trump

O bispo de San Diego, dom Robert McElroy, em pronunciamento no I Encontro dos Movimentos Populares dos EUA: romper com Trump

Bispos e movimentos populares dos EUA lançaram neste domingo (19) uma convocação à desobediência civil no país depois que a agência Associated Press divulgou um memorando interno do governo Trump indicando o uso de 100 mil soldados da Guarda Nacional para promoverem uma caçada humana e deportação em massa de imigrantes sem documentos. O porta-voz de Trump, Sean Spicer, negou a informação, mas a agência de notícias publicou a íntegra do documento, assinado pelo secretário de Segurança Interna, John Kelly (aqui).

No domingo, houve o encerramento na cidade de Modesto (Califórnia) de uma reunião de quatro dias de mais de 600 líderes de movimentos americanos, no primeiro encontro regional acontecido no âmbito do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, articulado pelo Papa Francisco desde 2014 (foram três edições até agora). No documento final, com apoio do Vaticano, as lideranças sociais e comunitárias lançaram uma convocação para que “cada comunidade de fé, incluindo todas as paróquias católicas, declarem-se santuários para as pessoas que estão enfrentando a ameaça da deportação e para aqueles perseguido por causa de sua religião, raça ou crenças.” Trata-se de uma convocação à desobediência civil diante da ameaça do governo Trump e uma ponte para acolher de mexicanos a muçulmanos, negros, pessoas de todo o planeta que moram nos EUA e agora estão sob grave risco (leia a íntegra do documento final do encontro aqui).

O I Encontro dos Movimentos Populares dos EUA convocou também uma mobilização nacional e internacional “contra o ódio e os ataques a nossas famílias”, que deverá acontecer entre 1 e 7 de maio. No documento final, os participantes mencionaram a carta que Francisco enviou a eles poucos dias antes, contendo um ataque direto ao capitalismo, “sistema que causa enormes sofrimentos à família humana, atacando ao mesmo tempo a dignidade das pessoas e nossa Casa Comum para sustentar a tirania invisível do dinheiro que garante apenas os privilégios de alguns”.

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Francisco x Trump: o ódio de cada um usado como política de Estado -e a epidemia atual

Campo de refugiados: eles são os outros a serem odiados, os inimigos que ameaçam a segurança do capitalismo e da “civilização”

Cristãos católicos escutaram nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum (19) um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 5,38-48) ainda no contexto do longo Sermão da Montanha, reunião de ensinamentos de Jesus no formato de um único discurso, que o evangelista completaria com discursos menores e que foi apresentado em quatro domingos consecutivos. Como um elenco de ditos, os dez versículos permitem diversas abordagens. Escolhi uma em particular: o tema do ódio em Jesus, à luz da psicanálise, como política de Estado e no âmbito das relações sociais; os impasses e caminhos propostos, especialmente, nos dias de hoje, pelo Papa Francisco e pelo conservadorismo em geral e católico em particular.

Três versículos do texto são amplamente conhecidos: aquele no qual Jesus faz a crítica  do preceito conhecido como Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” (v.38-39), expresso em três dos cinco livros da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, o Pentateuco); a proposta de oferta da outra face diante da agressão (v. 39); e a recomendação expressa de amar os inimigos (v. 44).

Para Jesus, o ódio nasce e é alimentado por um processo que vincula o indivíduo, seu contexto familiar e a estrutura da sociedade. No domingo anterior, o tema nas missas havia sido a necessidade de indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); compreender a razão de nossos desejos e sentimentos contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28) –leia aqui.  Neste, o foco desloca-se para a instrumentalização do ódio pelos poderes (a Lei de Talião) e a necessidade de uma resposta da pessoa que negue tal caminho de dominação.

Freud, ao fundar a psicanálise, constatou séculos depois que o ódio nasce como par do amor ou ainda antes dele. Todos os bebês odeiam o desprazer que sobrevém com a fome, com o frio ou a dor de uma assadura e mais tarde, já crianças, endereçam este sentimento àquele que lhe toma algo que consideram seu direito legítimo: o acesso ilimitado à mãe. Esta mobilização  em relação à figura paterna é a origem do ódio ao outro que a pessoa entende  como usurpador de seu direito.

O outro é visto pela criança como ameaçador e usurpador e torna-se alvo do ódio –este é o percurso que vamos reter aqui. Com o tempo, há uma ampliação deste alvo para todo aquele que se configura como ameaça e usurpação. Ao mesmo tempo, a criança tende a construir códigos de pertença no processo de socialização no qual, muito lentamente há uma aliança com aqueles que se lhe aparecem como assemelhados (a família, o clã) em oposição aos “de fora” e, com o tempo, esta codificação amplia-se em função dos agrupamentos sociais, desde colegas de escola, grupos de amigos, corporações até classe social. Estes somos “nós” contra todos os que estão fora deste círculo e que representam uma ameaça, potenciais ou reais usurpadores do que a pessoa enxerga como seus direitos inalienáveis.

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Governo Temer: os ricos querem arrancar dos pobres mais de 6% do PIB

O documento-síntese do estudo sobre a demolição da Previdência Social; texto completo estará disponível em alguns dias

Estive na noite desta terça (14) numa apresentação do economista Eduardo Fagnani sobre o documento-síntese do estudo Previdência: reformar para excluir? a um grupo de jornalistas do site Previdência, Mitos e Verdades e da CTB. Saí muito impactado. A explicação deveria ser apresentada às escolas, nas favelas, no Congresso, nas ruas. O texto completo sairá à luz nos próximos dias e o Previdência, Mitos e Verdades irá apresentá-lo em capítulos, de maneira didática e atraente, em textos e vídeos.

O que está por trás da reforma da Previdência e da Lei do Teto dos Gastos Públicos e outras medidas do governo Temer? Elas não guardam qualquer relação com a saúde financeira do Estado, como alardeiam os porta-vozes do governo golpista.

O que está em jogo é simples assim: desde a Constituição de 1988 e de maneira expressiva nos governos do PT, os gastos federais com a Previdência Social e programas sociais superaram 10% do PIB. Este patamar foi garantido por decisões políticas quanto à alocação dos recursos, pelo programa de valorização do salário mínimo dos governos petistas e pelo crescimento econômico.  Ora, qual era o percentual do PIB destinado aos mais pobres antes de 1988? 3% a 4% do PIB!

Para que se tenha uma ideia ainda que muito parcial do impacto destas políticas desde a Constituição de 1988, elas significaram que 82% dos velhos no país recebem benefício da Previdência, enquanto no resto da América Latina este percentual não ultrapassa 40% e há países em que é 10%. É para onde vamos se o governo Temer conseguir aprovar seus pacotes –a miséria irá se alastrar como uma epidemia no país e rapidamente voltaremos aos padrões dos anos 1980 (o que já começou a acontecer).

Toda a ação do governo Temer tem como objetivo devolver aos ricos esses 6% a 7% que a Casa Grande considera que lhes foram roubados desde a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães e durante os governos do PT. Estamos falando de os ricos tomarem dos pobres quase R$ 400 bilhões anualmente! Para isso, foi aprovada a Lei do Teto, querem aprovar a reforma da Previdência, arrochar e desvincular cada vez mais os benefícios do valor do salário mínimo, entre outras medidas.

É claro que tal programa jamais seria aprovado nas urnas. É a razão do golpe.

Previdência: reformar para excluir?  é um estudo inédito sobre a Previdência Social no Brasil e sua destruição arquitetada pelo governo Temer, realizado por mais de 50 economistas, especialistas em finanças e Seguridade Social de alto nível, organizado pela Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e coordenado por Fagnani.

[Mauro Lopes]