Francisco segue os passos de Jesus e escolhe os mesmos interlocutores

Um dos traços definidores da mensagem de Jesus é a escolha de seus interlocutores. Ele não escolheu dialogar com reis, príncipes, chefes de governo, com os ricos. Sua escolha foi a da interlocução com os pobres, os marginalizados. O Sermão da Montanha é um momento culminante dessa escolha (Mt 5-7). Jesus subiu ao monte para falar à “multidão” de gente sem nada. Assim foi durante toda sua jornada de três anos. Examine-se a agenda de Francisco. É a essa mesma “multidão” que ele fala, com ela encontra-se, senta-se para partilhar o pão e a esperança.

Três encontros próximos são especialmente eloquentes quanto a essa escolha do Papa. No domingo (19), quando será celebrado o 1º Dia Mundial dos Pobres, instituído por ele, Francisco rezará a Missa com 4 mil deles, e almoçará com 1.500 em plena Sala Paulo VI (sacrilégio, gritarão os católicos conservadores, como o fizeram quando o Papa almoçou com um grupo de pessoas pobres na basílica de São Petrônio em Bolonha, em setembro).

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A Igreja dos “príncipes” contra Francisco -um vídeo espantoso

O vídeo que este post apresenta é, talvez, a mais condensada e simbólica representação da oposição conservadora ao Papa Francisco e seu projeto. A  cena aconteceu numa das basílicas do Santuário de Fátima, em  Portugal. O personagem é o cardeal estadunidense Raymond Burke, líder da oposição a Francisco.

São 14min15 impressionantes.

Mais da metade do tempo dedica-se a mostrar o cardeal sendo montado, em pleno altar –o vídeo começa quando a vestição de Burke já havia sido iniciada, o que leva a crer que a montagem completa talvez tenha se prolongado por  mais de 10 minutos.

O ambiente da cena oscila entre o surreal e o macabro, algo como um filme dos anos 1970/80 sobre a realeza decadente. O “príncipe” cercado por uma corte de homens de cenho cerrado, vestido com capas negras ou púrpuras, algo como um retrato em negativo da klu klux klan, sem os capuzes.

Aos 3min25 há uma cena difícil de acreditar que tenha acontecido depois de todos os escândalos de pedofilia e abuso de menores da Igreja: um menino leva ao cardeal seu barrete cardinalício, um chapéu que é um símbolo de caráter evidentemente fálico do poder dos hierarcas da Igreja. O menino ajoelha diante de Burke um sem-número de vezes e é orientado a beijar uma das pontas do barrete e da capa magna, um verdadeiro fetiche dos conservadores – é simbólico que um homem, adulto, fique todo o tempo conduzindo o menino no ritual de ajoelhar e beijar.

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Sinais de uma Igreja em saída: grávida de um mundo (tempo) novo

 

Romaria dos Mártires da Caminhada em São Felix do Araguaia (MT), 2016

Um artigo especial de Eduardo Brasileiro, educador popular, sociólogo e membro da equipe de articulação e coordenação do coletivo IPDM (Igreja – Povo de Deus – em Movimento):

As Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) atravessam os quase 30 anos de democratização do Brasil. Por isso, seus membros em especial nas cidades, são símbolos do que há de mais valioso na luta contra a ditadura civil militar e a dominação do capitalismo neoliberal: a resistência mística por outros mundos possíveis. Todavia, os rostos atravessados de tempo não escondem o desamparo político sentido por toda a militância social que o engloba. A forte análise que elaboram seus quadros também não escondem o maior desafio desses pequenos grupos espalhados pelo Brasil: a renovação de seus membros.

A igreja do Brasil perdeu o trem. Em todas as reuniões de grupos que ouvimos o povo falar, o trabalho de educação popular precisa ser retomado desde o início. A dimensão sociopolítica do Cristo tem de ser saboreada em banquete semanal e reafirmar o papel do cristão de oposição à sociedade capitalista, é a tarefa pedagógica inicial. Por isso, reunidos em pequenas comunidades e até mesmo fora de comunidades – dado que foram expulsos após avanços conservadores nas dioceses do Brasil inteiro -, a mística dos mártires beberá das idiossincrasias de um Brasil de autoritarismo nas periferias onde morrem milhares de jovens negros e pobres e de um feminicídio velado, sobretudo pelas igrejas que fazem campanha contra a diversidade de gênero.

Num movimento internacional, os donos do poder, nunca estiveram em momento tão favorável. Segundo relatório da OXFAM/2017 sobre as desigualdades brasileiras[1], seis pessoas possuem riquezas equivalentes ao patrimônio de 100 milhões de brasileiros. Esse disparate além de criminoso é um convite para o povo desobedecer qualquer lei até que seja julgada e punido todo esse acumulo de dinheiro nas mãos de um grupo de homens brancos. Afinal, segundo a mesma organização a diferença salarial entre mulheres e homens acabará somente em 2047, enquanto a de brancos e negros, somente em 2089. O Brasil é um país de dimensões desiguais continentais. E, por isso mesmo, é um país onde precisa-se ser aprofundado uma reinvenção de lutas do mundo urbano que resistam a litigância da desigualdade social.

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No Sermão da Montanha, Jesus convoca os pobres: em marcha!

Ocupação dos sem teto em São Bernardo do Campo. A eles Jesus se dirige: em marcha!

Neste domingo (6), cristãos católicos celebram a solenidade de Todos os Santos –a data original é 1 de novembro, mas há países, entre os quais o Brasil, nos quais ela é deslocada para o domingo seguinte. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que toma os capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Mt 5,1-12a:

“Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

1.  O que fala Jesus

Uma leitura de fato colada ao texto, ao seu espírito e ao contexto indicará claramente: a interpretação açucarada que se disseminou sobre o discurso  é em todo falsa e enganadora.

Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto-programa àqueles com os quais desejou caminhar e caminhou efetivamente.

Há um problema relevante nas traduções que são oferecidas nas diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação desta versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema a seguir.

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Papa Francisco vai aos “índios”

Líderes da tribo Shipibo, da Amazônia peruana

Um artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica) e da Comissão Pastoral da Terra do São Francisco. Sobre um encontro especial do Papa Francisco em Puerto Maldonaldo em janeiro de 2018, com os povos originários da Amazônia.

“Esperamos que Francisco retome o melhor do Conselho Missionário Indigenista, o CIMI, que não foi aos indígenas para fazer prosélitos e nem os converter ao cristianismo, mas para colaborar para que sobrevivam e mantenham seus territórios e seus modos de vida. Com esses missionários a Igreja Católica deu vários passos à frente na relação com a alteridade das populações originárias, seguindo a melhor tradição de Bartolomeu de Las Casas.

Não se obriga um muçulmano a ser católico, não se obriga um pai de santo a ser evangélico, não se obriga um Cariri ou Guarani a ser cristão. Eles têm sua própria religião e suas opções tem que ser respeitadas. O evangelho é apenas um anúncio e adere livremente quem quiser.”

Leia o artigo na íntegra: 

Dia 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco irá a Puerto Maldonado, Peru, encontrar-se exclusivamente com povos originários da Amazônia. Tudo indica que sequer haverá reuniões particulares com autoridades, sejam elas políticas ou mesmo eclesiásticas.

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CELAM retoma Medellín e convoca congresso para 2018

Dom Hélder Câmara foi um dos principais líderes de Medellín: agora é a vez de Francisco

A Igreja da América Latina, sob liderança do Papa Francisco, ensaia retomar de maneira decidida o percurso interrompido por João Paulo II. O CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) acaba de anunciar a convocação do Congresso 50 anos de Medellín que acontecerá de 23 a 28 de agosto de 2018 “na mesma cidade colombiana e nas mesmas instalações do Seminário de formação sacerdotal, que foi a sede dessa histórica Conferência.” O objetivo, segundo o comunicado do CELAM será “comemorar e projetar a mensagem da Conferência de Medellín como um eixo-chave da Igreja no continente, em diálogo com a Igreja universal”.

O encontro já está sendo preparado, informou o comunicado divulgado na tarde desta segunda (30), e  será promovido pelo CELAM, pela a Confederação dos Religiosos e Religiosas, secretaria da Caritas da América Latina e Caribe e pela Arquidiocese de Medellín.

A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano realizou-se em Medellín, na Colômbia entre 24 de agosto a 6 de setembro de 1968, convocada pelo Papa Paulo VI para aplicar as decisões do Concílio Vaticano II à Igreja da região. A abertura da Conferência foi feita pelo próprio Papa que marcou a primeira visita de um pontífice à América Latina. Foi um evento histórico, um “segundo concílio”, que aprofundou as decisões do Vaticano II e afirmou claramente, pela primeira vez, os pobres como protagonistas da Igreja e da sociedade. A delegação brasileira foi composta por 30 pessoas, entre bispos, padres e peritos. Os protagonistas essenciais foram dom Hélder Câmara, dom José Maria Pires, dom Aloísio Lorscheider e dom Cândido Paim.  Pouco mais de dez anos depois, a Conferência de Puebla (México) manteve os traços essenciais de Medellín, mas com recuos marcantes devido à pressão de João Paulo II e da Cúria romana.

O Congresso de 2018, diz o documento básico da organização, “procura reconhecer com gratidão a aplicação de Medellín em nossas igrejas particulares, aprofundar algumas das questões fundamentais que permanecem atuais no presente, examinar novos sinais dos tempos de hoje e projetar uma ação evangelizador que leva em consideração o espírito da Segunda Conferência, enriquecida com o Magistério da Igreja latino-americana, bem como o Pontifício Magistério, especialmente com os ensinamentos do Papa Francisco.”

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CELAM retoma Medellín: congresso convocado para 2018

Dom Hélder Câmara foi um dos líderes de Medellín; agora é a hora de Francisco

A Igreja da América Latina, sob liderança do Papa Francisco, ensaia retomar de maneira decidida o percurso interrompido por João Paulo II. O CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) acaba de anunciar a convocação do Congresso 50 anos de Medellín que acontecerá de 23 a 28 de agosto de 2018 “na mesma cidade colombiana e nas mesmas instalações do Seminário de formação sacerdotal, que foi a sede dessa histórica Conferência.” O objetivo, segundo o comunicado do CELAM será “comemorar e projetar a mensagem da Conferência de Medellín como um eixo-chave da Igreja no continente, em diálogo com a Igreja universal”.

O encontro já está sendo preparado, informou o comunicado divulgado na tarde desta segunda (30), e  será promovido pelo CELAM, pela a Confederação dos Religiosos e Religiosas, secretaria da Caritas da América Latina e Caribe e pela Arquidiocese de Medellín.

A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano realizou-se em Medellín, na Colômbia entre 24 de agosto a 6 de setembro de 1968, convocada pelo Papa Paulo VI para aplicar as decisões do Concílio Vaticano II à Igreja da região. A abertura da Conferência foi feita pelo próprio Papa que marcou a primeira visita de um pontífice à América Latina. Foi um evento histórico, um “segundo concílio”, que aprofundou as decisões do Vaticano II e afirmou claramente, pela primeira vez, os pobres como protagonistas da Igreja e da sociedade. A delegação brasileira foi composta por 30 pessoas, entre bispos, padres e peritos. Os protagonistas essenciais foram dom Hélder Câmara, dom José Maria Pires, dom Aloísio Lorscheider e dom Cândido Paim.  Pouco mais de dez anos depois, a Conferência de Puebla (México) manteve os traços essenciais de Medellín, mas com recuos marcantes devido à pressão de João Paulo II e da Cúria romana.

O Congresso de 2018, diz o documento básico da organização, “procura reconhecer com gratidão a aplicação de Medellín em nossas igrejas particulares, aprofundar algumas das questões fundamentais que permanecem atuais no presente, examinar novos sinais dos tempos de hoje e projetar uma ação evangelizador que leva em consideração o espírito da Segunda Conferência, enriquecida com o Magistério da Igreja latino-americana, bem como o Pontifício Magistério, especialmente com os ensinamentos do Papa Francisco.”

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500 anos da Reforma inspiram ação do Nós Também Somos Igreja

Cartazes como esse serão pregados nas portas de igrejas católicas em 22 países

Inspirados pela celebração dos 500 anos da Reforma, integrantes do movimento católico Nós Também Somos Igreja irão pregar nas portas de igrejas em 22 países neste domingo (29) cinco teses pela reforma imediata da Igreja Católica. No Brasil, a ação corajosa acontecerá em São Paulo, João Pessoa e outros municípios da Paraíba.

A iniciativa remete a Martinho Lutero, que em 31 de outubro de 1517 enviou uma carta ao arcebispo de Mainz, com as 95 teses que marcam o início da Reforma Protestante. Hoje se sabe que a afixação das teses na porta da Igreja do castelo de Wittenberg (Alemanha) não teria ocorrido. Mas tornou-se o símbolo da reação do padre Lutero ao estado da Igreja na ocasião.

Por isso, as cinco teses do Nós Também Somos Igreja serão pregadas nas portas de igrejas católicas em todo o mundo:

  1. Democratização da estrutura eclesiástica (Cúria Romana e diocesanas, paroquiais);
  2. Ordenação de mulheres na perspectiva de um novo modelo ministerial;
  3. Prevalência do Amor e da Justiça acima do direito canônico;
  4. Celibato opcional, permitindo que os homens ordenados possam assumir a condição matrimonial;
  5. Acolhida de todas as mulheres e homens na comunidade cristã independente das condições e situações em que se encontrem.

Em São Paulo, segundo Edson Silva, da direção do movimento, será realizada uma roda na praça diante da Igreja do Pátio do Colégio para leitura reflexiva das teses de Lutero e uma conversa sobre as cinco teses para a reforma da Igreja hoje; a seguir, os participantes caminharão até a Praça da Sé para afixar as teses nas portas da catedral.

Na Paraíba, a mobilização será liderada pelo grupo Kairós – Nós Também Somos Igreja.  Alder Calado, liderança histórica da Igreja brasileira e um dos pioneiros do movimento no Brasil, ao lado do padre José Comblin (1923-2011), um dos principais teólogos da Libertação, disse que haverá celebrações em João Pessoa e em comunidades rurais do Estado, como Sobrado. Na capital, o ato celebrativo será na capela ecumênica da UFPB. “Teremos uma de oração inicial, rezaremos um salmo, leremos o Evangelho, entremeados de cânticos. Haverá tempo de silêncio e partilha. Em seguida, partimos para ouvir um breve trecho do livro “Vocação para a Liberdade”, de autoria de José Comblin. Em seguida, uma exposição dialogada, contextualizando a Reforma e as lições que dela somos chamados a recolher, focando depois nos cinco pontos que buscam sintetizar os principais anseios por reformas, na Igreja Católica Romana. Terminaremos com oração e canto”, explicou Calado.

Roteiros similares acontecerão nos 22 países, em alguns deles com celebração eucarística. O espírito é de reencontro e retomada do caminho comum com os filhos da Reforma e de recuperação do melhor da trajetória protestante. “Fazemos a mesma reflexão que vem ganhando força entre os que apoiam o papa Francisco na Cúria romana: foi uma ação do Espírito Santo”, disse Edson Silva. Para ele, “o caminho de volta, que significa aproximação com as demais igrejas cristãs, é fundamental”.

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Um país chamado Canudos, 120 anos depois

Mulheres e crianças aprisionadas em Canudos; homens foram todos mortos

Artigo especial[1] do cientista social Ruben Siqueira, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recorda e atualiza a luta de Canudos, que até hoje é a maior mobilização do exército brasileiro: contra o povo. Nem mesmo a Guerra do Paraguai ou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra superaram o envolvimento de tropas como no combate à rebelião liderada por Antônio Conselheiro. A violência, pública e privada, continua uma marca da vida nacional, multiplicam-se as mortes nas cidades e nos campos, o Brasil sendo hoje o mais violento país do mundo sem guerra declarada, uma guerra contra os pobres.

“A mensagem de Canudos fica cada dia mais atual e necessária. Atravessa os tempos e faz seguidores a ousadia dos conselheiristas, de recriar, nas entranhas do latifúndio respaldado pela República, a comunidade dos primeiros cristãos, onde a única lei era a do amor, pela qual — ainda que entre eles houvesse comerciantes bem-sucedidos — os bens eram partilhados em benefício de todos. A bandeira fincada para sempre no coração do Brasil continua a atrair os pobres e desvalidos. Porque lhes ensina a única lição possível: a eles só resta resistir e insistir na vida, contra os poderes da terra, porque — dizia Antônio Conselheiro — ‘só Deus é grande’. É essa fé, de um povo que não separa religião e vida, crença e luta, que move ainda hoje centenas, milhares, milhões de brasileiros pelos vastos sertões deste latifúndio chamado Brasil, a lutar pela terra e pelo direito à vida digna na terra.”

Leia o artigo na íntegra:

Canudos virou moda há 20 anos, em seu centenário. Houve enorme expectativa à época com o lançamento do filme de Sérgio Rezende, Guerra de Canudos (assista aqui), que foi, rodado na região. Teses, livros, reportagens e seminários foram feitos para a celebração dos 100 anos e continuaram a ser produzidos, trazendo releituras do episódio, discutindo aspectos novos, alimentando a infindável polêmica. O governo da Bahia criou no cenário da guerra o Parque Estadual de Canudos, onde uma equipe da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) realizou estudos de arqueologia histórica. Neste outubro de 2017, vários eventos, sobretudo promovidos por movimentos e entidades sociais, estão acontecendo na pequena cidade herdeira da Canudos conselheirista.

A atualidade de Canudos

120 anos é data por si mesma expressiva, seja do que for. Mas, em Canudos, o quê exatamente se está comemorando? O que tem esse episódio, o que ele encerra — esconde e revela — que atrai tantas atenções?

É que em Canudos, ontem e hoje, o Brasil se vê face a face consigo mesmo, encontra seu desencontro. Canudos não está na memória nacional apenas como uma chaga, a mais ignominiosa das lembranças do passado, onde e quando se detonou toda a carga de violência que mal se esconde sob o manto roto da decantada cordialidade brasileira, praga ideológica que sedimenta a assimetria das relações sociais. Está também como repetição, reincidência, contínuo revisitar. Está como matriz da identidade brasileira e chave de explicação do País e de seu infortúnio como nação moderna, que nunca alcançou de fato a modernidade. Está, pois, como atualidade, contemporaneidade.

Uma primeira prova disso? Ao implantar-se o Parque Estadual de Canudos, por ocasião do centenário, famílias de agricultores residentes na área, muitas delas descendentes dos antigos canudenses, tiveram que resistir à implantação das cercas divisórias do parque porque estas inviabilizavam o criatório de cabras, sua principal fonte de subsistência… Talvez até quisesse o governo da Bahia que se retirassem de vez, para não estragar a composição nostálgica e folclórica do quadro… Ainda bem que os cientistas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não embarcaram nessa…

Canudos levanta questões que incomodam a má consciência nacional. Por que mais da metade do efetivo e todo o aparato militar do exército à época foi mobilizada em cinco expedições contra pobres e frágeis camponeses, armados de poucas espingardas e muita fé? Por que ali, numa das regiões mais secas do País, uma multidão de 25 mil destes deserdados encontrou um lugar e construiu, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, a maior cidade do interior do Brasil à época?

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Conservadores católicos atacam Lutero e a Reforma –Papa é o alvo

O cardeal Muller e o bispo Galantino: o sopro do Espirito e a Reforma

Quanto mais se aproxima a celebração dos 500 anos da Reforma iniciada por Martinho Lutero, no próximo dia 31, mais os conservadores se agitam na Igreja Católica. A lenta aproximação de anos que o Papa Francisco acelerou de maneira inédita nos últimos tempos, é alvo da fúria dos católicos restauracionistas. O jornal italiano La Nova Bussola Quotidiana publicou nesta quarta (24) artigo do cardeal Gerhard  Müller, o ex todo-poderoso da Congregação para a Doutrina da Fé, no qual ele ataca: a Reforma foi um evento “contra o Espírito Santo”.

Desde que Müller foi defenestrado pelo Papa, que lhe negou a renovação do mandato quinquenal à frente do ex-Santo Ofício, em junho passado, ele tornou-se o mais estridente porta-voz das teses da direita católica. A cada semana concede uma entrevista ou escreve um artigo para se contrapor a Francisco, aos novos líderes da Igreja e às suas reformas.

Agora, o objeto da cólera do cardeal é o bispo Nunzio Galantino, secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana (CEI). Ele esteve na quinta-feira passada (19) num evento sobre os 500 anos da Reforma, na Universidade Lateranense, em Roma. Em sua conferência, afirmou: “A Reforma iniciada por Martinho Lutero há 500 anos foi um acontecimento do Espírito Santo”.

O bispo, que atua em estreita relação com o Papa, acrescentou: “Lutero, não se considerava artífice da reforma, e escreveu: ‘enquanto eu dormia, Deus reformava a Igreja’. Também hoje, a Igreja necessita de uma reforma. E também Deus é o único que pode realiza-la.” Galantino afirmou ainda que “o amor de Lutero pela Palavra antecipou a sacramentalidade da Palavra afirmada pelo Concílio Vaticano II”.  E este é o verdadeiro tema que divide a Igreja católica: para os conservadores, a única “reforma” possível é a revogação do Vaticano II e a restauração do inverno tridentino.

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