A lágrima clara sobre a pele escura

Ele se arrastava com dificuldade, a cada passo. Os pés, inclinados para fora, prejudicavam seu equilíbrio. As roupas esfarrapadas, o tênis velho, o semblante de um homem solitário. Um metro e 60 de altura, pele negra e cabelos brancos como algodão, contrastando com o preto azulado da pele do homem idoso

Crônica de Luiza Sansão

Ele se arrastava com dificuldade, a cada passo. Os pés, inclinados para fora, prejudicavam seu equilíbrio. As roupas esfarrapadas, o tênis velho, o semblante de um homem solitário. Um metro e 60 de altura, pele negra e cabelos brancos — brancos como algodão, contrastando com o preto azulado da pele do homem idoso.

Foi como vi seu Pedro, de 80 anos, por volta das onze horas da noite, em um bar da rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Eu tomava cerveja, ele vendia amendoins.

Seu Pedro e eu na rua Voluntários da Pátria, Botafogo. | Foto: Mariana Gomes

Observei com ternura aquele homem andando lentamente, levando sua mercadoria em um carrinho que ele puxava com esforço. Ele encostou o carrinho próximo a uma mesa onde alguém comprara amendoim e foi ao banheiro do bar — tudo lentamente.

Quando o vi retornar, interpelei-o antes que chegasse ao carrinho. “Olá, boa noite”, cumprimentei-o. Ele sorriu timidamente e balançou a cabeça de maneira amistosa. Perguntei seu nome e vi que, por trás do olhar sofrido que ele me lançou, existia uma história.

Ele se sentou diante de mim como quem solta o corpo cansado sobre a cadeira. Eu me sentei também, deixando de lado a mesa onde um grupo de amigos continuava a conversar. Uma menina se aproximou da nossa mesa e interrompeu o papo: “o senhor está com fome?”. Seu Pedro disse que não. Ela insistiu. Ele não cedeu. Eu permaneci calada e ela se afastou.

Tímido e muito simples, ele exalava o odor de quem havia andado horas a fio a puxar aquele carrinho. Queria conversar. Mas eu sabia que ele não podia ficar muito tempo ali, sentado. Precisava seguir adiante para vender seus amendoins.

Perguntei se ele tinha um número de telefone por meio do qual eu pudesse encontrá-lo para conhecer sua história. Ele não tinha telefone. Peguei um guardanapo, anotei o meu e expliquei que ele poderia me encontrar a qualquer dia no meu local de trabalho, no coração do Rio.

De seus olhos lacrimejantes rolaram lágrimas. A pouca luz as fazia brilhar.
Naquele momento foi como se Caetano Veloso tivesse visto exatamente o reflexo daquela luz baixa do bar sobre as lágrimas do seu Pedro quando compôs “Desde que o samba é samba” — música imortalizada nas vozes dele e do Gil no disco “Tropicália 2”, lançado em 1993.

Levantei-me e fui para perto dele. Seu Pedro tirou do bolso uma carteira velhinha e toda rasgada, guardou o guardanapo e começou a me contar um monte de coisas de modo confuso — com a dificuldade de quem nunca fala sobre si mas sente vontade de fazê-lo, sem saber exatamente por onde começar.

Emocionei-me e fui tomada de uma certa angústia, por ter que me despedir dele sem saber se ele me procuraria depois — o que até hoje, duas semanas depois, não aconteceu. Mesmo assim, tenho esperança de ainda cruzar com seu Pedro e simplesmente comprar um monte de amendoins para que ele possa conversar comigo pelo tempo que for preciso até eu conhecê-lo.

Despedimo-nos após ele garantir que me procuraria. Voltei para a mesa dos meus amigos com aquela imagem na cabeça e cantando, em silêncio e devagarzinho, a música.

“A tristeza é senhora / Desde que o samba é samba é assim / A lágrima clara sobre a pele escura / À noite a chuva que cai lá fora / Solidão apavora / Tudo demorando em ser tão ruim…”

Sem que eu me desse conta, uma amiga havia feito fotos de quando eu me levantei e postei-me diante dele para confortá-lo e segurar em sua mão o guardanapo com o meu telefone.

Ainda espero a ligação do seu Pedro ou, quem sabe, que ele apareça onde trabalho. Nunca mais ouvi a música sem me lembrar dele e do brilho da lágrima clara sobre sua pele escura. Espero que a solidão que ele trazia no olhar não o apavore.

O senhor tem uma aura grande, seu Pedro, e agora, em um voo do Rio para Salvador, sua lembrança me invadiu e achei que, de repente, o fato de ainda não ter tido a oportunidade de ouvir sua história talvez não seja motivo para eu deixar de contar a história do nosso breve encontro.

Até um dia.

Luiza Sansão

Jornalista com foco em segurança pública e direitos humanos, formou-se pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, em 2013, com reportagem publicada na Revista Adusp. Foi repórter da Ponte Jornalismo entre 2015 e 2017. Está escrevendo livro sobre o caso Rafael Braga.

4 opiniões sobre “A lágrima clara sobre a pele escura

  • 17 de março de 2018 em 05:47
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    Eu o conheço. Achei que ficava apenas por Copacabana. Quando o vir vou contar da crônica. Pedir que te ligue. Já vi que tem sensibilidade para contar sua história de modo lindo…

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  • 4 de abril de 2018 em 17:37
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    Lindo demais mana! Arrasou, preencheu, fez sorrir.

    Obrigada.

    Resposta

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