Simples e suave coisa, suave coisa nenhuma

Um casal em situação de rua, abraçado, numa noite de chuva, brinca com um bicho de pelúcia, num gesto tão puro e singelo de amor. Como se aquela fosse sua resposta a uma sociedade tomada de ódio que legitima violências do Estado contra pessoas vulneráveis

Crônica de Luiza Sansão

Não dava pra tirar uma foto, mas aquela cena ficou guardada na minha cabeça até o momento em que, deitada pra dormir, ainda me emocionava com sua lembrança. Somente no dia seguinte consegui fazer uma foto tímida de seus protagonistas — que permaneciam no mesmo lugar.

Passando pelo Arco do Teles, no Centro do Rio, por volta das 18h15 desta segunda-feira (19/02), depois de sair do trabalho, um casal em situação de rua — que eu havia visto dormindo abraçado e profundamente na hora do almoço —, brincava, ainda abraçado e, agora, sorrindo, com um bicho de pelúcia.

Ela balançava o bichinho e falava com uma voz infantil, como se fosse do bichinho — como fazemos quando somos crianças. Ele sorria e também segurava o bichinho. Aquele pedacinho da travessa que leva à Ouvidor protegia os dois da chuva, que eles ignoravam, juntinhos sob um cobertor.

No dia seguinte, ainda estavam lá: o casal e o bicho de pelúcia. | Foto: Luiza Sansão

Vi isto por uma fração de segundo, apenas — para não constranger o casal observando um momento tão íntimo. E tão simples. Tão doce. Tão bonito.

À noite, depois de assistir com meu marido e me emocionar com o filme “Eu, Daniel Blake” — que provoca uma reflexão tão profunda sobre as diversas violências do Estado contra seus cidadãos —, veio de novo a cena do casal. Cena que, como na música “Amor”, da banda Secos & Molhados, é, a um só tempo, “simples e suave coisa, suave coisa nenhuma” — como é mesmo o sentimento-título, por assim dizer.

Um homem e uma mulher negros, deitados na rua, abraçados, numa noite de chuva, brincando com o bicho de pelúcia, num gesto tão puro de amor. Como se aquela fosse sua resposta a uma sociedade tomada de ódio que legitima violências praticadas pelo Estado contra pessoas em situação de miséria. Uma demonstração de que o amor, além de “um descanso na loucura” — como escreveu Guimarães Rosa —, é também uma forma de resistência.

Inevitável chorar — é o “sentimento do mundo”, de Drummond. Importante adormecer com as lágrimas e, ao despertar, erguer-se com a mesma vontade de sempre de “mudar o mundo” — acreditar que isso é possível, nem que o combustível às vezes seja a imagem de um casal em situação de rua que brinca com um bichinho de pelúcia no Arco do Teles e sorri.

Luiza Sansão

Jornalista com foco em segurança pública e direitos humanos, formou-se pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, em 2013, com reportagem publicada na Revista Adusp. Foi repórter da Ponte Jornalismo entre 2015 e 2017. Está escrevendo livro sobre o caso Rafael Braga.

4 opiniões sobre “Simples e suave coisa, suave coisa nenhuma

  • 20 de fevereiro de 2018 em 22:38
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    Que bela crônica de uma cena de amor numa cidade cindida por rancores, ódios e preconceitos! Louvo os olhos da autora por conseguir vislumbrar a amorosidade em meio a esse nevoeiro.

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  • 22 de fevereiro de 2018 em 00:23
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    Belo, verdadeiro, tocante.

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  • Pingback: Simples e suave coisa, suave coisa nenhuma – Praia de Xangri-Lá

  • 26 de fevereiro de 2018 em 10:24
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    «(…)a lágrima clara sobre a pele escura, a noite, a chuva que cai lá fora…», essa canção chegou doída, cheia de ternura.

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