Porque fui candidato e porque acho que você também deveria

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“(…) só por meio da mudança de nosso mundo institucional podemos ao mesmo tempo modificar a nós mesmos, do mesmo modo como apenas por meio do desejo de mudar a nós mesmos pode a mudança institucional ocorrer

David Harvey, 2006, Espaços de Esperança

1) Se você não decide, alguém decide por você

Uma coisa é certa: se você não toma decisões, alguém as toma por você.

Quando eu me candidatei a vereador na cidade de São Carlos, interior de São Paulo, muita gente me perguntou como eu conseguia me envolver com política. “cara, isso é nojento! Você vai ter estômago? Como você consegue?”.

O que me assusta é pensar justamente no imenso número de pessoas que consegue NÃO se envolver com política. Umas poucas porque não se importam, mas a maioria, porque não sabe. Não sabe que é o silêncio dos bons que ajuda a eleger os corruptos, e que esse silêncio faz a alegria da bandidagem. Não sabe que o afastamento do povo é fundamental para a manutenção das injustiças e crimes que se perpetuam por dentro das instituições e governos, e que, quanto mais longe estivermos, mais fácil é pra quem rouba.

Nunca fiz a pesquisa, mas arriscaria dizer que nove entre dez brasileiros odeiam “os políticos”. E tendo em vista os exemplares que temos, trata-se de um fenômeno bastante compreensível. Um dos principais e mais danosos resultados disso é o afastamento do universo institucional, tido por maculado, inacessível e maligno. O que precisa ficar claro é que esse sentimento de ódio, esse asco que sentimos pela casta política privilegiada, apesar de legítimo pois baseado em fatos concretos, é intencionalmente fabricado; é um projeto e não um acaso: nós somos ensinados e estimulados a sentir nojo dos políticos e, a partir desse nojo, nos afastar de qualquer coisa que remeta à eles. Uma espécie perigosa de transferência.

Além disso, a gramática das instituições, com sua hermética burocracia, agiganta-se perante nossa ignorância. Nos sentimos inúteis, pequenos e despreparados. Também não é mero acaso que os burocratas usem de ‘uma outra língua’ para se comunicar: eles precisam que a gente não entenda o que acontece.

Seja como for, certas coisas simplesmente precisam ser feitas. E se a gente não engolir seco, tampar o nariz, e mergulhar fundo nessa fossa de merda que se tornou o país, nada vai mudar de verdade. O que os que estão no poder mais querem é que você só reclame em casa, no bar, tomando uma cerveja. Que você fale alto na mesa de domingo, na frente da TV, e se sinta orgulhoso de não se envolver (como o analfabeto político de Brecht). Mas eu vou te dar uma notícia triste: você já está envolvido. Na política não tem jeito, ou você decide o que fazer, ou alguém decide por você. Não existe vácuo ou meio termo.

Eu me candidatei porque me cansei de terceirizar as escolhas. Eu vejo caminhos possíveis para a nossa cidade, para o estado, para o país. Por que não posso oferecê-los de forma ativa à sociedade? Por que assistir impotente quando podemos tomar outros rumos? Por esse mesmo motivo, acho que você também deveria tentar: por que não colocar suas ideias à prova e promover diálogos amplos com as pessoas ao redor? Se você anseia decidir mais do que um nome a cada dois anos, pense seriamente em ser também candidatx.

 

2) Para além do(s) senso(s) comum(s)

Mafalda Política

Algumas preconcepções precisam ser revistas e superadas.

A consolidação do esteriótipo daquilo que se entende por ‘político’ é também parte desse projeto que inibe a participação popular nos espaços de tomada de decisão. O homem, branco, rico e grisalho, tido como o arquétipo, o tipo ideal de político, faz com que amplas parcelas de nossa população não se vejam representadas e, a priori, sintam-se coibidas a reivindicar um lugar ‘que não é o delas’.

O estigma do ‘político igual bandido’ faz com que todo e qualquer indivíduo que ‘se envolva com isso’ seja atirado conjuntamente na vala comum – outro mecanismo de coibir mudanças e nivelar por baixo os sujeitos, como se literalmente não houvessem possibilidades, e todas as pessoas fossem igualmente prejudiciais à população, não importando suas propostas e posições. Isso é benéfico para os que estão no poder, pois coloca a mudança no campo do impossível, e banaliza a corrupção apenas como algo que ‘qualquer um faria’.

Me tornei candidato para ter a oportunidade de mostrar que pode e deve ser diferente, não com discursos, mas com outra prática política. É claro que existem inúmeras limitações, mas garantir a honestidade, a ética e a transparência são pilares inegociáveis e que precisam retornar à esfera da administração pública. É importante mostrar que um político não precisa ser engravatado, nem rico, e nem grisalho, nem homem, nem branco, e que esse espaço deve acolher a todos e todas, garantindo a maior representatividade social possível. Precisamos superar esse senso comum, e é por isso que acho que você também deveria se candidatar, para desmistificar esse espaço tido por inacessível. Nós podemos e devemos ocupar as cadeiras; a política precisa estar repleta de gente comum, de gente simples, de gente como a gente! Política não é apenas lugar de tecnocratas, ricos e grisalhos.

Se as pessoas comuns, como eu e você, aprenderem a gramática da burocracia, e o funcionamento das engrenagens, os que vivem da ignorância perdem seu poder. Se, por odiar isso tudo, simplesmente dermos as costas, ainda mais espaço terão pra nos roubar até as cuecas. Então não tem jeito: somos justamente nós, que sentimos nojo disso tudo, que devemos ficar em cima, dia a dia, nos informar e nos engajar até o pescoço com a política, com as instituições e as decisões de nossa cidade.

 

3) Disputar as instituições não é o limite, mas só um começo

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Ao mesmo tempo, temos que ter claras as limitações do Estado, e frisar que esse texto não é uma ode ‘participacionista’. Não é só participando e disputando as instituições que as coisas vão mudar, certamente; mas tampouco sem disputá-las algo muda. O mais importante é percebermos a importância da simultaneidade nas frentes de atuação. O Estado é uma máquina de moer gente, e na relação com ele, não cabem heroísmos. É preciso uma ação organizada para suplantá-lo por uma outra forma de organização.

Um querido amigo me escreveu que,

se a política só for encarada em seu aspecto positivo ela se torna mistificada. Na sociedade de classes – em que o Estado é imprescindível, seja qual for a sua forma – ela também é alienação, é o meio pelo qual as classes dirigentes governam, disciplinam e dominam os de baixo, por isso ela se apresenta sempre pragmaticamente calculista (“maquiavélica”) se se pretende ser eficiente, vitoriosa. No fim, parte da aversão a política é também sintoma de um dado real: a racionalidade política na sociedade de classes é “a continuação da guerra por outros meios”, ou seja, é também desumanização. Se devemos encorajar a conscientização e a ação política, não devemos fazê-lo sob o manto da mistificação, sob o risco das ilusões ulteriores tornarem-se problemas ainda maiores que a apatia do presente.

Logo, não se trata de promover a mistificação, mas de encontrar esse ponto de equilíbrio necessário entre a apatia do presente e a ilusão do possível.

Se por um lado não devemos parar com os trabalhos de organização comunitária, civil, local em nossos bairros, comunidades, escolas, etc, por outro não podemos perder de vista os espaços de tomada de decisão que regem parte da sociabilidade que nos é imposta. Como nos ensina David Harvey, é mudando as instituições que mudaremos aos sujeitos por elas influenciados, e é com a vontade de mudança pessoal que mudaremos as instituições. Não renunciamos ao mundo e nem ao ‘poder’ (aqui visto não como dominação, mas espaço decisório soberano). Como costuma dizer outro amigo, trata-se de “tomar o mundo para mudar o poder”.

Paradoxalmente, ao disputar um cargo eletivo no legislativo, minhas atenções estavam (e estão) voltadas justamente para o que está fora dele: para a sociedade civil. É lá que que, a partir da organização e da participação direta que outro projeto de sociedade pode ser gestado. É a partir da organização popular que apresentaremos uma proposta concreta e democrática de um outro mundo possível, feito com nossas próprias mãos, aqui e agora.

Em síntese, a disputa pela instituições é só um caminho possível dentre tantos para se fazer política. Sem mistificação nem alienação.

 

4) Também nada muda se você não tentar

Quando me tornei professor de sociologia da rede pública estadual, um dia, quase ao acaso, improvisei uma dinâmica para tentar explicar aos educandos o que era política. Pedi para que fechassem os olhos e, na escuridão, tateassem ao redor, sentados em seus lugares. Eles apalpavam então a carteira à frente; o colega; o vazio ao lado; e uma ou outra coisa que ali estava. Pedi que ficassem assim por um ou dois minutos, percebendo com atenção tudo o que se encontrava ao redor apenas usando o tato. Risonhos e gozadores, eles obedeciam. Na sequência, pedi que abrissem os olhos, e confirmassem se as coisas estavam de fato ali ao que, invariavelmente, respondiam de forma positiva. Nada tinha mudado afinal. Passei então a mensagem: “muita gente diz não gostar de política, e prefere não participar, fechando os olhos pra ela. O resultado é bem esse: as coisas continuam em seus lugares, nada muda. Política é como as coisas se organizam, ela é maior do que a nossa vontade ou aprovação. Você pode não gostar da carteira ou da cadeira, abrir e fechar os olhos mil vezes, mas elas vão continuar aí; elas são parte da realidade, a menos que você, de olhos bem abertos, decida colocá-las em outro lugar”.

Eu me candidatei porque cansei de ver outros decidindo (e decidindo mal) em meu nome; porque queria superar o senso comum; e porque enxerguei ali um caminho possível (mas não o único) para promover transformações reais. Me candidatei porque tinha muita gente boa em volta animada, torcendo e trabalhando.

E eu queria te fazer um convite bem sério: acho que você também deveria. Se as pessoas boas se afastam, os que lá estão agradecem, e nós precisamos de muita gente boa pra mudar as coisas! Alguns acham que não levam jeito, outros que não estão preparados, mas é só olhar ao redor e ver o quão despreparados são os parlamentares que ocupam seus cargos para termos certeza de que estamos mais do que prontos para fazer melhor. Claro que nem todo mundo precisa se candidatar, mas se engajar com política, gostando ou não dela, é um dever de todxs. E se não o cumprirmos, não faz sentido sequer reclamar.

Esse texto é, simultaneamente, uma partilha de minhas motivações e reflexões pessoais e um convite à ação: respira fundo e vem mergulhar nessas águas turvas, sem ilusões nem renúncias. Se você tiver qualquer disposição em encarar uma batalha nesse ‘front‘ de luta, não deixe de se comunicar comigo e com as pessoas ao seu redor. Vamos tocar isso juntos, e ocupar os espaços abertos à sociedade!

Por outros rumos possíveis!

Esquerda Canibal: sobre a tática de disputa das vanguardas

sectarismo

1) Pra começar, pessoas

A busca por pessoas é um elemento comum e indispensável à qualquer organização política. Todas necessitam de indivíduos que referendem, construam e aprimorem suas existências a partir de práticas e ideias, e que, também, defendam seus programas. Sem gente, nada acontece.

O perfil destas pessoas e o local aonde são captadas variam entre as organizações, que possuem distintas concepções do que é – e como deve funcionar – um partido. De maneira genérica, de um lado, podemos identificar grupos que não apresentam critérios éticos ou ideológicos bem definidos para arregimentar filiados; do outro, organizações que trazem uma lista de expectativas, valores e referências para se aceitar alguém como membro, com etapas prévias ao momento oficial da filiação.

Como os partidos fisiológicos1 não podem se dar ao luxo de dispensar militantes, pois precisam gerir os espaços e máquinas que hegemonizam, trata-se do pólo menos restritivo desta equação. Os aspectos para se aderir ou fundar um desses partidos em um município são, majoritariamente, de ordem burocrática, estando a dimensão ‘pragmática’ muito mais presente em detrimento da ‘ética’. O mínimo de vivência e participação nos mostra que tais partidos são, em geral, considerados de ‘direita’, ‘centro’, ou mesmo ‘centro-esquerda’.

É na esquerda que encontramos organizações aonde o processo de inserção é mais lento e seletivo, pois baseado em uma análise dos indivíduos que delas se aproximam. Isso traz benefícios e também dificuldades. De um lado, o crescimento e alcance dessas organizações fica restrito a um grupo seleto da sociedade que partilha de determinadas ideias e valores prévios; de outro isso garante uma maior coerência, unidade e força política para o grupo.

‘Política’ é algo feito por seres humanos – ela não existe em abstrato. Pessoas são portadoras de valores e práticas que, por sua vez, darão a tônica das organizações que constroem. Em uma metáfora: indivíduos são o principal ingrediente para a existência de um partido.

 

2) Que pessoas?

Observando o resultado das eleições municipais deste ano, e a partir da experiência pessoal mais intensa do último período, saltou-me aos olhos algo que considero um equívoco metodológico na atuação de setores da esquerda brasileira: fazer de sua fonte prioritária de captação de militância as fileiras dos iniciados e iniciadas. Em outras palavras: a vanguarda.

Quem se identifica e é considerado apto a integrar estas organizações, são, em geral, como mostram as estatísticas, pessoas com considerável grau de instrução, e que tiveram tempo, condições e inclinação para se debruçar sobre estudos e reflexões, edificando suas posições políticas para além do senso comum construído pelo pensamento dominante.

Isso faz com que esses partidos acabem se comunicando mais com estes setores, e disputem um público limitado que, muitas vezes, já se encontra organizado em outros grupos e partidos, por entender a importância da participação política direta. Isso cria um círculo vicioso, pois aproxima cada vez mais indivíduos com este perfil, levando as organizações a especializarem ainda mais sua comunicação.

Fenômenos como os mapas de votação do PSOL (em especial no Rio de Janeiro), demonstram que a esquerda obteve melhor desempenho entre setores mais instruídos e abastados da sociedade, ainda que defenda pautas que privilegiem aqueles em situação de vulnerabilidade. Isso porque, para nos comunicar, partimos de nossas concepções daquilo que é ‘melhor’ à todos e todas; e nem sempre tais concepções são partilhadas. Assistimos então a uma inversão: parte da classe média defendendo um programa que beneficiará os mais pobres que, por sua vez rechaçam tal programa, por não se sentirem por ele representados.

Em síntese: para que as pessoas se sintam parte de um projeto, precisamos estar aptos a ouvi-las e aceitá-las da maneira como são, ainda que suas formulações e características não nos agradem. Não faz impor um programa pronto, calcado única e exclusivamente em nossa visão (a visão de um grupo reduzido) daquilo que é melhor para todos. Para isso, nossa comunicação deve ser estratégica, abolindo terminologias herméticas, desgastadas, e as que não somos capazes de explicar em poucas palavras; e temos de aprender a lidar tranquilamente com reflexões e posições que nos parecem completamente equivocadas.

 

3) Ampliar fronteiras de recrutamento

Então, ao invés da esquerda buscar incorporar setores distintos daqueles que normalmente atinge – o que eventualmente poderia significar abrir mão de determinados símbolos e discursos –, observa-se uma tendência a disputa endógena das vanguardas que transitam entre diversas organizações para contemplar sua militância. Assim, PSOL, PCB, PSTU, MAIS, RAIZ, Brigadas Populares, MRT e vários outros agrupamentos disputam militantes entre si para se construir. Mas se os entendemos como pertencentes a um mesmo campo, a despeito de suas divergências, é possível afirmar que seu crescimento se baseia em uma prática canibal – incorporam derivações de si mesmos para fazer crescer outras derivações.

Afeitos a certa “zona de conforto”, muitas vezes, optamos por abordar preferencialmente pessoas predispostas a nos ouvirem. Porém, nunca foi tão urgente nos lançarmos ao diálogo para com públicos heterogêneos, distintos e, por vezes, até mesmo antagônicos às nossas expectativas. Nisso exercitar empatia e fraternidade ao tratar com maturidade as divergências mais extremas, abrindo mão de purismos e principismos, e percebendo que política é a arte do diálogo.

A exemplo disso, temos a relação com os setores religiosos da sociedade, em especial os evangélicos, vistos como uma das maiores ‘ameaças’ para o avanço das forças progressistas no Brasil, já que se lançaram em um projeto de poder (especificamente os setores neopentecostais fundamentalistas) que tem obtido relevante sucesso tendo em vista sua representatividade cada vez mais numerosa nos espaços eletivos e de tomada de decisão. A fábula do Estado laico se dissolve, com cultos realizados dentro dos parlamentos, crucifixos e leituras de bíblias cristãs coroando a liturgia das sessões ordinárias e extraordinárias das Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e do Congresso Federal.

No entanto, não podemos tratar estes setores como se fossem uma massa amorfa, doutrinada e perdida. São pessoas, cujas subjetividades foram formadas pelas experiências que viveram e pela sociabilização que lhes foi possível. Existe muita gente boa com quem dialogar, mas isso exige que não desistamos no primeiro obstáculo, ao menor sinal de racismo, machismo e homofobia, reagindo com rechaço, raiva ou violência. Afinal, esta é a grande contradição da esquerda: querer organizar as massas, mas esperar pelo surgimento de pessoas cujos comportamentos esteja além daquele das massas. Como bradar estar ao lado do povo e, ao mesmo tempo, não aceitar a consciência geral que ao povo é imposta pelas classes dominantes? Claro que existem exceções, e é justamente ao conjunto destas exceções que chamamos vanguarda. Se apenas elas estão em nosso campo de disputa, pouco conseguiremos transformar substancialmente, apostando em táticas hierarquizadas onde sempre se fará necessária uma “direção” formada por setores mais avançados para ‘conduzir’ as massas.

Ampliar as fronteiras de captação de militância, trazendo pessoas de ‘fora’ para uma perspectiva crítica e progressista de sociedade deve ser uma das nossas grandes tarefas para superar esse canibalismo que impede o real crescimento das organizações de esquerda, relegando-as à marginalidade.

Em resumo: abrir mão de jargões, purismos e, principalmente, da percepção de que a esquerda e seus militantes são moral ou intelectualmente superiores. O povo não está interessado em discutir as etapas de implementação do socialismo; e não adianta artificializar processos. As pessoas querem é melhorar de vida, ainda que seja aos pedaços; e isso só pode ser ignorado por quem não precisa realmente de mudanças imediatas, e pode esperar. É importante dar atenção às questões práticas e urgentes da vida cotidiana, e nos aproximar ombro a ombro de quem vive à beira do abismo.

Sobre a relação e a importância das igrejas, uma pequena citação que li no Blog de Douglas Belchior, que me fez entender muita coisa:

“Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras? Nenhuma.”2

4) Superar o canibalismo; dialogar sempre

A maior parte da população, politicamente falando, reside em uma grande área cinzenta indeterminada. Não há um cenário de “avanço do conservadorismo” tão preocupante e alardeado pela esquerda. Existe sim um avanço do desinteresse e da desilusão que abre brecha para setores organizados e abastados. Não podemos atribuir à população em geral os anseios de um Bolsonaro.

Precisamos falar com as pessoas. Inclusive com aquelas que votam e apoiam candidatos conservadores por inércia, por identidade, desconhecimento ou qualquer outra questão; e que tem visões pejorativas de movimentos sociais organizados e combativos, provavelmente forjadas pela grande mídia e pelos aparatos de comunicação.

Para sairmos da marginalidade, será preciso abandonar esta conduta canibal de incorporar apenas os setores e indivíduos ideologicamente próximos de nós, e adentrar num mundo de desafios que é nos relacionarmos com subjetividades e indivíduos complemente distintos dos que estamos acostumados. Aceitar o que as pessoas tem pra nos dar. Disputar a vanguarda é uma prática que estimula o comportamento fratricida da esquerda, ávida por novos quadros; é preciso sobretudo disputar a consciência e o coração das pessoas comuns, não apenas a partir de nossos próprios referenciais, mas ouvindo a aprendendo com sinceridade.

Será preciso paciência, método, humildade e sabedoria.

Não há outro caminho possível.

Ao trabalho.

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1 – Fisiologismo é um tipo de relação de poder político em que ações políticas e decisões são tomadas em troca de favores, favorecimentos e outros benefícios a interesses privados, em detrimento do bem comum. É um fenômeno que ocorre freqüentemente em Parlamentos, mas também no Executivo, e está estreitamente associado à corrupção política, uma vez que os partidos políticos fisiologistas apoiam qualquer governo – independentemente da coerência entre as ideologias ou planos programáticos – apenas para conseguir concessões deste em negociações delicadas (FONTE: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fisiologismo )