No MS, coração do agronegócio, avançam os permacultores

Permacultores Adriana Galbiati e Moacir Lacerda

Adriana Galbiati e Moacir Lacerda

Nos anos 1980, eram considerados hippies. Agora, enfrentam uma agricultura marcada pelo latifúndio, monocultura e agrotóxicos. Mas resistem e multiplicam-se, nas brechas de um modelo incapaz de oferecer alternativas reais

Por Djalma Nery

Conheci Adriana Galbiati graças à internet, depois de publicar minha dissertação de mestrado, em agosto de 2017. Já tinha ouvido falar do trabalho dessa permacultora de Campo Grande (MS), instrutora e integrante do antigo IPCP (Instituto de Permacultura Cerrado-Pantanal), fundado pelos permacultores Skye e Ivone Riquelme. Aproveitei a oportunidade para entrevistá-la, animado com sua disponibilidade e simpatia em contar sua trajetória, vinculada à chegada da permacultura na região.

Orientado pelo perfil biorregionalista do movimento, frisei nas perguntas o interesse pela permacultura praticada no bioma Pantanal: suas particularidades, desafios e redes. Logo de início ela me faz um esclarecimento: apesar de o antigo instituto carregar o nome “Cerrado-Pantanal”, o estado do Mato Grosso do Sul é majoritariamente composto por regiões de cerrado, com apenas 20% de sua população vivendo em áreas de pantanal. A maioria habita centros urbanos como Corumbá ou Aquidauana, longe da realidade mais característica do bioma – logo, o viés ‘pantaneiro’ não é tão presente quanto publicizam meios de comunicação e propagandas voltadas ao turismo. O nome foi escolhido para contemplar os biomas da região, sendo que as principais experiências são com comunidades tradicionais, agricultores, indígenas e, atualmente, permacultura urbana e práticas agroflorestais.

A primeira vez que Adriana ouviu a palavra permacultura foi em 1987, através de um amigo que lhe apresentou o livro Permaculture One, então sem tradução para o português. “Na época eu não falava uma palavra de inglês, só vi as figurinhas e pensei ‘cara, é isso que eu quero fazer pro resto da minha vida!’. Era aquilo que estava buscando, que havia de ter uma forma da gente ser feliz no planeta, utilizá-lo de forma harmoniosa.”

Era então estudante de agronomia, onde ingressou já pensando na prática da agricultura ecológica. Mas morava em Dourados (MS) e “não tinha acesso, não tinha pessoas, não tinha como fazer os cursos” de permacultura, conta. Era ligada aos movimentos de agroecologia e frequentava congressos como o EBAA (Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa), grupos de estudo e outros espaços que começavam a se organizar em torno de uma agricultura de base ecológica.

Ela compara essa época com sua experiência atual: “Na década de 80 era difícil porque a gente era tachado de bicho grilo, mas era mais fácil do que hoje. Hoje não tem abertura nas universidades para trabalhar essas questões, mas felizmente há exceções.”

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