Em SC, Permacultura com os pés na terra

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Turma de um dos Cursos de Design de Permacultura (PDCs) organizado pelo Ivy Porã. Durante 9 dias, participantes realizam vivência que inclui estudo e imersão na natureza

Muito além da classe média. No interior catarinense, Projeto Ivy Porã semeia, há duas décadas, uma permacultura não elitizada, que vai dos assentamentos do MST à universidade

Por Djalma Nery

Uma das grandes lacunas de minha dissertação de mestrado foi não ter conseguido entrevistar pessoalmente os pioneiros Jorge Timmermann e Suzana Maringoni, do projeto Ivy Porã, em Santa Catarina. Felizmente eles mantêm um blog onde divulgam ótimo e variado conteúdo (1), com uma centena de postagens. A partir dele e de outros relatos que se cruzam com sua trajetória, trago aqui um pouco da história regional da permacultura em Santa Catarina, com foco na sua popularização e no trabalho de quase 20 anos de Jorge e Suzana.

Na postagem intitulada “Permacultura democrática, endógena e social”, uma das mais recentes, encontro o que me parece ser resposta a um debate central – em parte suscitado por minha dissertação, publicada três meses antes – acerca da elitização da permacultura e da necessidade de popularizá-la. Dada a riqueza desse texto, reproduzo-o quase na íntegra, com pequenas alterações e supressões. Um relato na perspectiva de seus protagonistas.

A questão é proposta logo de saída:

“Em muitos momentos, a permacultura é rotulada como elitista, algo de classe média ou alta. Talvez esta visão seja pautada basicamente pelo fato de que a divulgação de cursos seja o que mais apareça nas redes sociais e que de fato abarcam este público. Questionamos profundamente esta visão, porque acreditamos que muitos trabalhos com o foco da permacultura acontecem por aí, em todos o país, e poucos deles têm ‘tempo’ para publicar isso no Facebook. Na nossa atuação como permacultores desde 1998 (Jorge) e 2002 (Suzana), participamos de processos e projetos sociais que formaram muitos permacultores, (…) semeando muitos trabalhos e possibilidades.”

Jorge, biólogo, entomólogo e ecólogo, fez trabalho social com agricultores no semiárido argentino, “seja com o controle biológico da doença de Chagas ou com a proposta de manejo agrosilvopastoril no Programa Algarrobo”. Em entrevista ao blog Sem Território, define-se como “homem, professor pardal, permacultor, curioso de engenhocas e tudo que tiver.” Já Suzana define-se, na mesma entrevista, como “mulher, mãe, educadora”, que ama a natureza, educar, compartilhar conhecimentos, ajudar…” E por que o projeto Yvy Porã? “Para viver a terra, para fazer permacultura, para acolher pessoas, para construir uma terra de boa ética (que é o significado de Yvy Porã em tupi guarani).”

O despertar para a permacultura

O despertar de Jorge na permacultura aconteceu em 1997, ao conhecer o educador André Soares numa palestra em Braço do Norte, sul de Santa Catarina. Convidado por ele a participar, no ano seguinte, de um PDC (Permaculture Design Course, curso básico de design em permacultura) Internacional a ser realizado em Manaus pelo PNFC (Programa Novas Fronteiras da Cooperação), faz então sua primeira formação: um PDC ministrado por Geoff Lawton e traduzido por André Soares, reconhecido pelo PRI (Permaculture Research Institute).

De volta ao sul, dá início ao ativismo: organiza um primeiro PDC no Colégio Agrícola Caetano Costa, no município de São José do Cerrito, seguido de outros dois, em parceria com prefeitura, igreja, sindicatos de trabalhadores rurais etc., nos quais agricultores, professores, educadores e outros atores locais puderam participar. “Este curso iniciou um trabalho importante pelo seu cunho absolutamente social, num município de 10.000 habitantes, de perfil agrícola. O impacto deste trabalho aparece registrado no livro São José do Cerrito, sua gente e sua História. A partir dele, cria-se um núcleo que começa a trabalhar permacultura como ferramenta de transformação social.”

Formaram-se cerca de 75 permacultores, e foram realizadas ações de impacto como hortas escolares, construção de banheiro seco e cisterna em escolas, na APAE e num posto de saúde. “Temos notícias de muitos destes permacultores que seguem se aprofundando e praticando a permacultura, desde aqueles que transformaram suas vidas privadas até os que assumiram uma postura política atuante – como por exemplo Iram, plantador de cebola, que fez a transição para agricultura orgânica, envolveu-se nesse modo de vida e produção e hoje é uma liderança na cooperativa Orgânicos Serrano.”

Educação e reforma agrária

Jorge ministrando aula durante capacitação em Permacultura no Pronera

Jorge ministrando aula durante capacitação em Permacultura no Pronera

Entre 2001 e 2007 Jorge e Suzana participaram do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que envolveu 4070 educandos. “O Pronera funcionava com um tripé: um movimento social, que diagnosticava e mobilizava as comunidades e os sujeitos que buscavam escolaridade, chamados educandos, e possíveis educadores dentro desta comunidade; a universidade, que fazia a capacitação desses educadores; e o Incra, que administrava os fundos.” Fizeram desde alfabetização de jovens e adultos no campo até a formação de jovens e adultos como técnicos agrícolas no ensino médio.

Suzana conta que havia sido convidada para capacitar educadores no ensino de matemática. “Quer dizer, rever que matemática ensinar, como dialogar com jovens e adultos do campo, que fazem muita conta, convivem com medidas de superfície, volume e finanças, mas muitas vezes se enrolavam e eram enrolados por terceiros (…).” Mas já no segundo Pronera, em vez de ciências deram aula de Permacultura. “Afinal, a permacultura não é ecologia e ciência aplicadas?”, perguntam. Assim, três PDCs certificaram 85 agricultores-educadores entre 2002 e 2007. Os educadores, por sua vez, tornavam-se multiplicadores em suas comunidades, trabalhando com uma nova turma de educandos, alcançando no total 4070 indivíduos formados em permacultura no estado.

E então em 2003 veio o desafio de montar a grade do primeiro curso técnico com enfoque em agroecologia do Pronera da UFSC, basicamente sobre o conteúdo do PDC. “Foi dado um PDC para a comunidade escolar – professores e assistentes –, líderes comunitários e lideranças locais do MST. Neste projeto também foi realizada numa oficina prática a construção de uma cisterna para coleta de água de chuva e uma bacia de evapotranspiração nas dependências da escola, com a participação de toda a comunidade escolar. Muito desta experiência está relatada em teses do CED (Centro de Ciências da Educação) da UFSC e em livros publicados pela editora da Universidade.” O alcance do Pronera da UFSC é difícil de avaliar, pois foi realizado em comunidades do interior que não estão no radar das mídias. “Mas em alguns momentos, retornos de parceiros desta caminhada que nos localizam no Facebook ou pelo blog reafirmam o quanto esta formação foi importante para eles”, assegura o casal.

Outro projeto relevante foi realizado junto à Agreco – Associação de Agricultores Ecológicos da Encosta da Serra Geral, em 2000. Estiveram envolvidos cerca de 300 agricultores e agricultoras catarinenses de municípios como Santa Rosa de Lima (onde se localiza ainda hoje a sede da associação), Anitápolis e Rio Fortuna, entre outros. Cerca de 50 deles foram capacitados em três PDCs. “Temos notícias de vários agricultores dali que seguem praticando a permacultura e são referência – como o Jorginho Silva de Anitápolis, que recebe constantemente visita de grupos da UFSC e de universidades de outros estados; Remi Beckhauser, da comunidade de Santa Bárbara; e Dida, cujo filho cursou a disciplina de Permacultura na UFSC, da Pousada Vitória em Santa Rosa de Lima.

Permacultura na academia

Aula num dos PDCs de Yvy Porã com presença de Arthur Nanni

Aula num dos PDCs de Yvy Porã com presença de Arthur Nanni

Em 2011 Jorge e Suzana conhecem Arthur Nanni  e Grasi Willrich, permacultores do Sítio Igatu, em São Pedro de Alcântara. Formado em geologia, Arthur havia acabado de ingressar como professor efetivo da UFSC por meio de concurso público e fez uma formação para instrutores de PDC com Jorge e Suzana. Ele já trazia a proposta de introduzir a permacultura como disciplina na universidade e, quem sabe, organizar uma graduação específica na área.

A disciplina optativa Introdução à Permacultura tornou-se realidade no ano seguinte, com uma turma de 20 estudantes por semestre e currículo completo do PDC em formato modular. “Uma formação sólida, gratuita e de qualidade, feita em parceria com a universidade.” A partir dela surge o NEPerma (Núcleo de Estudos em Permacultura), fundado em 2013 e que hoje “funciona a pleno vapor, envolvendo além do Arthur outros permacultores e professores de outros centros da UFSC.” Em 2017 o NEPerma realizou uma formação exclusiva para professores e técnicos de universidades e institutos federais, capacitando e abrindo possibilidades de trabalho em permacultura nessas instituições públicas. “Em todas estas iniciativas, coordenadas pelo amigo Arthur, tivemos a honra e a alegria de participar.”

Outro projeto relevante foi o Terra Permanente, realizado em 2014 com agricultores de três municípios catarinenses e duração de dois anos – o primeiro com o PDC e visitas à propriedade dos envolvidos e o segundo com ações concretas em seus sítios.

Publicar essa trajetória não significa um retorno melancólico ou saudosista, ressaltam Jorge e Suzana. Significa, isso sim, desejo de compartilhar “esta permacultura que existe, é real, endógena, democrática e tem muitos caminhos”. Em seus muitos anos de permacultura, calculam que “mais que a metade da nossa atuação esteve envolvida e dirigida a uma permacultura ‘social’, não elitizada, não midiatizada, não divulgada.”

Seu relato traça um panorama das iniciativas pioneiras do estado de Santa Catarina e é uma parte da história da permacultura no Brasil. Uma história que deve ser registrada e divulgada, fonte de inspiração para quem busca na permacultura uma ferramenta de transformação estrutural e substancial da nossa sociedade.

Referência
(1) Disponível em: <https://yvypora.wordpress.com>. Acesso em janeiro de 2018.

Permacultura: a experiência “anárquica” do Ceará

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011. Foto por Tiago Silva.

Aprendizado nos Fóruns Sociais Mundiais. Ações “Robin Hood”. Viagens a Cuba. Como alguns movimentos cearenses constroem uma forma própria de transformar radicalmente consumo, construção e reciclagem

Por Djalma Nery

Conheci o geógrafo cearense Paulo Rolim Campos, permacultor há mais de 10 anos, participando do grupo de WhatsApp Permacultura Brasil, com mais de 250 membros ativos. Nos esbarramos por causa de uma polêmica: ele dizia ser contra isso de adjetivar a permacultura de popular, social, etc, pois em sua região faziam essa permacultura popular há décadas e nunca precisaram dessa “pirotecnia”. Para ele era permacultura e pronto.

Tendo em vista que passei os últimos cinco anos de minha vida buscando emplacar a ideia de “permacultura popular” e o que deu início à polêmica foi justamente um artigo de minha autoria que alguém havia compartilhado no grupo, senti-me na obrigação de me manifestar. Comecei então a me comunicar em particular com Paulo e logo nos identificamos, com amigos até projetos em comum. Continue lendo

Como a Permacultura vem ganhando o Brasil

História. Comunidades ativas. Caminhos para a expansão, num país que precisa mudar sua relação com a natureza. Após quatro anos, está pronto o primeiro estudo vasto sobre o tema. Veja como transformá-lo em livro. Por Djalma Nery, em Plantar o Futuro

permacultura

No começo dos anos 1990, um gaúcho em viagem pela Nova Zelândia recebeu um pedido de um amigo, agrônomo e funcionário da prefeitura de Porto Alegre sob a gestão de Olívio Dutra. O amigo lhe pedia, dada a oportunidade, que desse um pulo na Austrália (mas especificamente ao sul daquele país, na Tasmânia) para fazer um convite a um homem chamado Bill Mollison, um dos criadores da permacultura ao lado de David Holmgren, com quem publicou o primeiro livro sobre o assunto em 1978.

Bill-Mollison_David-Holmgren-_Permaculture

Ananta Alano (o gaúcho viajante) aceitou o pedido e lá se foi, bater à porta da fazenda Tagari, casa de Bill e sua família. O australiano ouviu atentamente ao convite mas declinou: convidavam-no para ir ao Brasil ministrar uma palestra como parte dos eventos em comemoração ao dia da árvore. Parecia-lhe um tanto absurdo cruzar o planeta para dar uma palestra. Bill agradeceu a visita mas frisou que só iria no caso de se organizar algo um pouco maior, como um curso ou um PDC (Permaculture Design Certificate Course), com o intuito de formar uma turma de precursores da permacultura no país.

Ananta então passou o recado e seguiu sua viagem após o encontro com aquele curioso homem. Alguns meses depois, ao retornar ao Brasil, o amigo funcionário da prefeitura lhe contou que seguira em diálogo com Bill a distância, e que haviam combinado então o tal curso para uma turma de aproximadamente 30 pessoas, no Viveiro do Horto Municipal de Porto Alegre, localizado, à época, em Viamão. E foi assim que o primeiro PDC, ministrado por Bill Mollison e Scott Pittman (com tradução de Marsha Hanzi), veio a acontecer no Brasil, em meados de 1992, inaugurando toda uma trajetória que se desdobraria daí.

Logo nos primeiros dias, Ananta (que fez questão de participar do curso) observou que os quartos em que foram hospedados os visitantes (dentro do próprio horto) eram um tanto precários, e logo os convidou para ficarem em sua casa, o Sítio Pé na Terra, nos arredores dali. Ananta conta então que teve o prazer de conviver mais de perto com Bill, e absorver um pouco daquele conhecimento pulsante através das inúmeras conversas, dicas e sugestões do australiano para incorporar ao sítio elementos da permacultura. Conta ainda ter tido a sorte de que o voo de Bill para Colômbia (onde daria outro curso) houvesse sido adiado devido a questões climáticas, o que lhe concedeu mais 3 dias daquela ímpar convivência.

Durante essa estada muitos foram os planos, e, inclusive, foi fundado aquele que seria o primeiro instituto brasileiro: o Instituto Gaúcho de Permacultura, com sede no Sítio Pé na Terra e aporte financeiro do próprio Bill. Infelizmente a iniciativa não vingou, mas outros institutos surgiram posteriormente, dando sequência a essa história que se desenrola até hoje.

Foram vários os caminhos na difusão dessa ‘cultura da permanência’ pelo Brasil. Cursos, formações, grupos, redes, institutos; encontros, desencontros, uniões e rompimentos. Qualquer tentativa de sistematizar toda essa história seria incompleta e parcial. Mesmo assim, um esforço nesse sentido pode contribuir para chamar a atenção ao tema, espalhar o conhecimento e suscitar importantes debates.

Foi para isso que dediquei meus últimos 4 anos de pesquisas como aluno de mestrado do PPGI-EA (Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada) da USP/CENA, com orientação da prof.ª Laura Alves Martirani. Esse trabalho, intitulado “CAMINHOS E PERSPECTIVAS PARA A POPULARIZAÇÃO DA PERMACULTURA NO BRASIL” tem como objetivos: traçar um breve histórico da chegada e desenvolvimento da permacultura no país; apresentar um mapeamento atualizado de grupos e iniciativas; e fazer uma análise crítica do movimento, no sentido de buscar a difusão e democratização do conhecimento, entendendo a permacultura como uma ferramenta de transformação social ampla e profunda.

nuvem palavras entrevistados

Durante a pesquisa, visitei diversos centros de permacultura; entrevistei dezenas de pessoas engajadas na causa; e recebi contatos e respostas de centenas de grupos e indivíduos interessados em participar.

Algumas das questões levantadas no trabalho são, por exemplo, o envolvimento da permacultura com movimentos sociais e entidades do terceiro setor no Brasil; a força de influenciar políticas públicas; e o engajamento militante de seus praticantes em diversas outras ações. Além disso, a dissertação apresenta análises geográficas, etárias e sociais dos seus principais atores.

Mapa região sul e sudeste

Para quem quiser saber mais, deixo aqui em primeira mão o link para o download do trabalho na íntegra, que em breve estará disponível nos portais da USP.

Gostaria muito de ouvir a crítica de vocês, e deixo esse espaço à disposição para isso. Deixe sua crítica e comentário para que possamos dialogar e evoluir em trabalhos posteriores! Existe uma imensa demanda por vários outros enfoques dentro desse universo e inúmeros caminhos abertos para pessoas interessadas no tema.
Etapa 2: o livro

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Agora, com o intuito de dar mais alcance a esses resultados e contribuir para a difusão da permacultura no Brasil, estou transformando isso tudo em um livro com conteúdos exclusivos; linguagem mais acessível; e em formato esteticamente agradável e interessante. Para viabilizar a sua publicação, criei uma campanha de financiamento coletivo de pré-venda da obra. A ideia é reunir os custos mínimos para rodar uma tiragem de 1.500 exemplares, contabilizando custos de diagramação, impressão, capa, revisão, distribuição, etc!

O título do livro será: “UMA ALTERNATIVA PARA A SOCIEDADE: Caminhos e perspectivas da permacultura no Brasil” e será publicado (se tudo der certo) em meados de novembro desse ano (336 páginas, formato 16x23cm, encadernação brochura).

Para isso preciso atingir a quantia mínima até dia 10 de outubro. Faltam 7 dias! Caso eu consiga atingir uma segunda meta financeira, o livro será traduzido também para o inglês e o espanhol, e farei um lançamento na Convergência Internacional de Permacultura, na Índia.

Uma versão resumida digital da obra será disponibilizada gratuitamente após o término da campanha.

Por isso conto com o engajamento de todas as pessoas envolvidas e interessadas em permacultura – trata-se de um primeiro trabalho aprofundando sobre o tema no país! Participe dessa história e seja um dos benfeitores e apoiadores desse livro!

Divulgue e colabore com a campanha:

https://benfeitoria.com/permaculturabr

Caminhos e perspectivas para a popularização da permacultura no Brasil: os resultados

No começo dos anos 1990, um gaúcho em viagem pela Nova Zelândia recebeu um pedido de um amigo, agrônomo e funcionário da prefeitura de Porto Alegre sob a gestão de Olívio Dutra. O amigo lhe pedia, dada a oportunidade, que desse um pulo na Austrália (mas especificamente ao sul daquele país, na Tasmânia) para fazer um convite a um homem chamado Bill Mollison, um dos criadores da permacultura ao lado de David Holmgren, com quem publicou o primeiro livro sobre o assunto em 1978.

Bill-Mollison_David-Holmgren-_Permaculture

Ananta Alano (o gaúcho viajante) aceitou o pedido e lá se foi, bater à porta da fazenda Tagari, casa de Bill e sua família. O australiano ouviu atentamente ao convite mas declinou: convidavam-no para ir ao Brasil ministrar uma palestra como parte dos eventos em comemoração ao dia da árvore. Parecia-lhe um tanto absurdo cruzar o planeta para dar uma palestra. Bill agradeceu a visita mas frisou que só iria no caso de se organizar algo um pouco maior, como um curso ou um PDC (Permaculture Design Certificate Course), com o intuito de formar uma turma de precursores da permacultura no país.

Ananta então passou o recado e seguiu sua viagem após o encontro com aquele curioso homem. Alguns meses depois, ao retornar ao Brasil, o amigo funcionário da prefeitura lhe contou que seguira em diálogo com Bill a distância, e que haviam combinado então o tal curso para uma turma de aproximadamente 30 pessoas, no Viveiro do Horto Municipal de Porto Alegre, localizado, à época, em Viamão. E foi assim que o primeiro PDC, ministrado por Bill Mollison e Scott Pittman (com tradução de Marsha Hanzi), veio a acontecer no Brasil, em meados de 1992, inaugurando toda uma trajetória que se desdobraria daí.

Logo nos primeiros dias, Ananta (que fez questão de participar do curso) observou que os quartos em que foram hospedados os visitantes (dentro do próprio horto) eram um tanto precários, e logo os convidou para ficarem em sua casa, o Sítio Pé na Terra, nos arredores dali. Ananta conta então que teve o prazer de conviver mais de perto com Bill, e absorver um pouco daquele conhecimento pulsante através das inúmeras conversas, dicas e sugestões do australiano para incorporar ao sítio elementos da permacultura. Conta ainda ter tido a sorte de que o voo de Bill para Colômbia (onde daria outro curso) houvesse sido adiado devido a questões climáticas, o que lhe concedeu mais 3 dias daquela ímpar convivência.

Durante essa estada muitos foram os planos, e, inclusive, foi fundado aquele que seria o primeiro instituto brasileiro: o Instituto Gaúcho de Permacultura, com sede no Sítio Pé na Terra e aporte financeiro do próprio Bill. Infelizmente a iniciativa não vingou, mas outros institutos surgiram posteriormente, dando sequência a essa história que se desenrola até hoje.

Foram vários os caminhos na difusão dessa ‘cultura da permanência’ pelo Brasil. Cursos, formações, grupos, redes, institutos; encontros, desencontros, uniões e rompimentos. Qualquer tentativa de sistematizar toda essa história seria incompleta e parcial. Mesmo assim, um esforço nesse sentido pode contribuir para chamar a atenção ao tema, espalhar o conhecimento e suscitar importantes debates.

Foi para isso que dediquei meus últimos 4 anos de pesquisas como aluno de mestrado do PPGI-EA (Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada) da USP/CENA, com orientação da prof.ª Laura Alves Martirani. Esse trabalho, intitulado “CAMINHOS E PERSPECTIVAS PARA A POPULARIZAÇÃO DA PERMACULTURA NO BRASIL” tem como objetivos: traçar um breve histórico da chegada e desenvolvimento da permacultura no país; apresentar um mapeamento atualizado de grupos e iniciativas; e fazer uma análise crítica do movimento, no sentido de buscar a difusão e democratização do conhecimento, entendendo a permacultura como uma ferramenta de transformação social ampla e profunda.

nuvem palavras entrevistados
Durante a pesquisa, visitei diversos centros de permacultura; entrevistei dezenas de pessoas engajadas na causa; e recebi contatos e respostas de centenas de grupos e indivíduos interessados em participar.

Algumas das questões levantadas no trabalho são, por exemplo, o envolvimento da permacultura com movimentos sociais e entidades do terceiro setor no Brasil; a força de influenciar políticas públicas; e o engajamento militante de seus praticantes em diversas outras ações. Além disso, a dissertação apresenta análises geográficas, etárias e sociais dos seus principais atores.

Mapa região sul e sudeste
Para quem quiser saber mais, deixo aqui em primeira mão o link para o download do trabalho na íntegra, que em breve estará disponível nos portais da USP.

Gostaria muito de ouvir a crítica de vocês, e deixo esse espaço à disposição para isso. Deixe sua crítica e comentário para que possamos dialogar e evoluir em trabalhos posteriores! Existe uma imensa demanda por vários outros enfoques dentro desse universo e inúmeros caminhos abertos para pessoas interessadas no tema.
Etapa 2: o livro

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Agora, com o intuito de dar mais alcance a esses resultados e contribuir para a difusão da permacultura no Brasil, estou transformando isso tudo em um livro com conteúdos exclusivos; linguagem mais acessível; e em formato esteticamente agradável e interessante. Para viabilizar a sua publicação, criei uma campanha de financiamento coletivo de pré-venda da obra. A ideia é reunir os custos mínimos para rodar uma tiragem de 1.500 exemplares, contabilizando custos de diagramação, impressão, capa, revisão, distribuição, etc!

O título do livro será: “UMA ALTERNATIVA PARA A SOCIEDADE: Caminhos e perspectivas da permacultura no Brasil” e será publicado (se tudo der certo) em meados de novembro desse ano (336 páginas, formato 16x23cm, encadernação brochura).

Para isso preciso atingir a quantia mínima até dia 10 de outubro. Caso eu consiga atingir uma segunda meta financeira, o livro será traduzido também para o inglês e o espanhol, e farei um lançamento na Convergência Internacional de Permacultura, na Índia.

Uma versão resumida digital da obra será disponibilizada gratuitamente após o término da campanha.

Por isso conto com o engajamento de todas as pessoas envolvidas e interessadas em permacultura – trata-se de um primeiro trabalho aprofundando sobre o tema no país! Participe dessa história e seja um dos benfeitores e apoiadores desse livro!

Divulgue e colabore com a campanha:

https://benfeitoria.com/permaculturabr