Permacultura: a experiência “anárquica” do Ceará

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011. Foto por Tiago Silva.

Aprendizado nos Fóruns Sociais Mundiais. Ações “Robin Hood”. Viagens a Cuba. Como alguns movimentos cearenses constroem uma forma própria de transformar radicalmente consumo, construção e reciclagem

Por Djalma Nery

Conheci o geógrafo cearense Paulo Rolim Campos, permacultor há mais de 10 anos, participando do grupo de WhatsApp Permacultura Brasil, com mais de 250 membros ativos. Nos esbarramos por causa de uma polêmica: ele dizia ser contra isso de adjetivar a permacultura de popular, social, etc, pois em sua região faziam essa permacultura popular há décadas e nunca precisaram dessa “pirotecnia”. Para ele era permacultura e pronto.

Tendo em vista que passei os últimos cinco anos de minha vida buscando emplacar a ideia de “permacultura popular” e o que deu início à polêmica foi justamente um artigo de minha autoria que alguém havia compartilhado no grupo, senti-me na obrigação de me manifestar. Comecei então a me comunicar em particular com Paulo e logo nos identificamos, com amigos até projetos em comum.

Decidi entrevistá-lo ao perceber que ele havia vivido uma parte da história da permacultura no Brasil até então desconhecida para mim. Foi assim que tomei conhecimento da chamada “Escola Cearense de Permacultura”, segundo Paulo uma alusão de brincadeira a esse jeito de fazer permacultura.

Sempre tivemos essa pegada de anarquizar a permacultura, de fazer chegar muitos projetos, muitas formações, dando uma de Robin Hood, captando recursos de fora e injetando na formação da galera. Já trouxemos o [permacultor australiano] Skye; já organizamos não sei quantos PDCs (Permaculture Design Course, o curso básico de design em permacultura), trouxemos Johan Van LengenMarcelo Bueno, fizemos formação GAIA (com currículo criado pela equipe internacional de educadores GEESE – Educadores de Ecovilas do Mundo para um Planeta Sustentável); especialização em permacultura; disciplina dentro da universidade – tudo completamente de graça!”, diz ele.

Paulo conta que atualmente estão realizando um PDC Modular gratuito no Cariri, às quintas-feiras, com 5 instrutores (as). “Estamos ocupando os espaços que nos estão sendo permitidos, e forçando a barra para ocupar outros”, diz. “A gente não faz pirotecnia, a gente quer é fazer. Somos mesmo invisíveis. Quem nos visita se surpreende”.

Ele está nisso desde 2004, e antes dele já tinha gente fazendo permacultura no Ceará, conta. “Nós estamos fazendo, botando nossos tijolinhos em várias frentes, nas várias regiões do estado: nas políticas públicas, nas questões sociais, trabalhando com indígenas, trabalhadores rurais, com zona urbana, assentado, favela, projeto de mulheres, pescadores… Se eu for fazer uma lista pra você, meu amigo, não acaba não! A galera vem sistematicamente criando possibilidades de formar gente e ocupar os espaços.”

Filho de agricultores que nos anos 1970 migraram pra cidade por conta da seca, Paulo possui uma ligação estreita com o interior e com o modo “roceiro” de ser. No início dos anos 2000 morava em Fortaleza, no Benfica, bairro universitário que abriga o centro de humanidades da Universidade Federal e “epicentro da subversão e da política na cidade”, segundo ele. É dessa forma que toma contato com os movimentos ambientalistas, de contracultura e resistência.

Em 2004 participa do Encontro Nacional de Comunidades Alternativas (ENCA) em São Gotardo, Minas Gerais, onde conhece pessoas do IPEP (Instituto de Permacultura dos Pampas); é também quando escuta pela primeira vez a palavra permacultura, com a qual se identifica logo de cara pela possibilidade de realizar mudanças concretas em sua vida e no entorno. Na volta encontra Luciana, sua esposa, que já conhecia permacultura devido aos projetos que existiam em Maranguape, região metropolitana de Fortaleza, de onde vinha. Quando percebeu, a permacultura estava em todo lugar à sua volta.

No ano seguinte participa do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e fica acampado em um local estruturado pelo IPEP, em parceria com o MST e o Exército, que abriga vários movimentos de base ecológica, “quase uma convergência latino-americana de permacultura montada ali”, e após conhecer mais uma leva de pessoas engajadas Paulo se encontrava definitivamente inserido no universo da permacultura.

Na volta, faz um curso de introdução à permacultura organizado pelo professor Marcondes Araújo Lima, que no início dos anos 1990 estudou design ambiental na Austrália e teve a oportunidade de fazer um curso com o próprio David HolmgrenMarcondes retorna ao Brasil em 1998 trazendo a permacultura para o Ceará – organiza cursos, na época do PNFC (Programa Novas Fronteiras da Cooperação), e traz o André Soares, do Ipec, para a região para ministrar as primeiras formações, já com viés social, inclusivo, voltadas às comunidades rurais.

O Ceará não teve um instituto que centralizasse as atividades no estado, sempre pulverizadas e descentralizadas. O grupo Permatório, Laboratório de Permacultura, durou de 2004 a 2006 e reuniu várias pessoas que fizeram cursos na região. O IPC (Instituto de Permacultura do Ceará) seria fundado apenas em 2010.

Em 2007 Paulo ingressa no curso de geografia na Universidade Estadual do Ceará, num campus rural onde tem início o Núcleo de estudos e práticas permaculturais do semiárido (Neppsa).(2) Esse núcleo reúne estudantes, professores e pessoas não vinculadas à universidade e encontra-se em plena atividade, realizando trabalho pedagógico e formando pessoas aptas a difundir a permacultura nas várias situações: urbana, rural, indígena etc.

De início organizaram um PDC na região para formar os membros do núcleo, e com a vinda de Marcelo Bueno, do Ipema (Instituto de Permacultura da Mata Atlântica), 44 pessoas foram formadas – 20 do Neppsa e o restante de movimentos sociais e pessoas indicadas pelos membros do núcleo, seguindo critérios de inclusão.

Em 2008, Paulo e Luciana (que trabalhava em um projeto de permacultura numa escola municipal de prefeitura gerida pelo PT) foram a Cuba participar da 3ª Convergência Latino-Americana de Permacultura. Lá apresentaram as atividades que desenvolviam na cidade, com financiamento da gestão municipal, e conheceram permacultores de todo o mundo.

Em 2010 foi a vez do permacultor Skye (que hoje vive em Fortaleza mas à época morava em Minas Gerais) ser convidado para ministrar um curso avançado de educação em permacultura, com recursos captados junto a um edital do Banco do Nordeste. Foram reunidos parceiros de várias regiões do estado: da zona norte, de Sobral, do Instituto Carnaúba, do recém-criado Instituto de Permacultura do Ceará, do Instituto Nordeste Cidadania, entre outros.

Nesse mesmo ano, com recursos da mesma fonte, realizou-se a Jornada Permacultural do Ceará, aproveitando a vinda de Skye, que passou cerca de 20 dias rodando o Ceará. Foram feitas formações em vários pontos do estado, todas elas abertas e gratuitas aos participantes.

No ano seguinte o Neppsa aprovou um projeto do CNPq para fortalecimento de núcleos de agroecologia. Paulo conta que realizaram então uma memorável e primeira expedição científico-permacultural ao semiárido.(2)

Alugamos um ônibus, colocamos 25 doidos juntos e saímos rodando várias experiências de permacultura. Fomos até Rio de Contas, na Chapada Diamantina. Fizemos formação com Marsha Hanzi, permacultora norte-americana que vive na Bahia; formação em meliponicultura; levamos agricultores, técnico, mulher, menino. Tudo ninguém gastou um centavo, tudo bancado pelo estado. Passamos quase um mês fora.”

Tudo isso além dos vários PDCs que organizaram em parceria com Tiago Silva, permacultor de Sobral, Suzana Maringoni e Jorge Timmermann, do projeto Ivy Porãcom recursos de ONGs e sindicatos; as formações e atividades sobre Transition Towns ministradas pela ecologista e ativista May East, e toda Educação Gaia que trouxeram para a região, de forma democrática e popular.

Paulo conta ainda que, mais recentemente, a permacultura foi incorporada no plano de manejo da unidade de conservação do Parque Natural Municipal das Dunas de Sabiaguaba, uma experiência que vem sendo muito exitosa e constitui um capítulo importante para o fortalecimento da permacultura na região.

Só pra você ter ideia, no plano de manejo a gente colocou que a via que cruza o parque seria de paralelepípedo, para ajudar na retenção de água, desacelerar o trânsito e produzir um passeio mais paisagístico, entre outros benefícios. Mas aí, quando foram fazer as obras, asfaltaram. Por conta desse plano de manejo a sociedade civil conseguiu reivindicar que se arrancasse o asfalto e colocasse o paralelepípedo. Ou seja: o design permacultura está sendo aplicado, pelo menos na medida do possível!”

É muito sintomático o fato de que, em 2017, a prefeitura de Fortaleza tenha convocado (3) um concurso público com uma vaga para técnico em permacultura. Acredito tratar-se do primeiro precedente nacional nesse sentido.

Por isso falo que a gente desenvolveu essa ‘Escola Cearense de Permacultura’, essa história da gente se formar e formar gente sem fazer pirotecnia. A gente faz várias empreitadas aqui e o povo nem sabe, porque é como o pato: bota ovo e não faz zuada; e não como galinha, que nem bota o ovo e faz uma zuada, entende? Nós sempre fomos felizes nessa perspectiva de fazer a permacultura ocupar alguns espaços intangíveis, como as políticas públicas e espaços de tomada de decisão.”

Realmente a história ‘invisível’ desta “Escola Cearense de Permacultura” é inspiradora, e, vindo à tona, pode servir de exemplo acerca daquilo que é possível realizar no sentido de popularizar e difundir a permacultura. Obviamente não se trata de simplesmente transplantá-la para outras circunstâncias e contextos, mas sem dúvida seu estudo nos dá boas pistas de como prosseguir nessa missão de tornar a permacultura ainda mais democrática e inclusiva, com humildade e sem “pirotecnia”.

Para saber mais

(1) http://neppsauece.blogspot.com.br/2010/10/i-jornada-permacultural-do-ceara.html [Acesso em janeiro de 2018.]

(2) http://neppsauece.blogspot.com.br/2011/10/i-expedicao-cientifico-permacultural-no.html [Acesso em janeiro de 2018.]

(3) http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/02/selecao-publica-em-fortaleza-tem-33-vagas-e-salarios-de-ate-r-94-mil.html [Acesso em janeiro de 2018.]

3 ideias sobre “Permacultura: a experiência “anárquica” do Ceará

  1. Interessante, ainda mais numa região em franco processo de desertificação. Desertificação esta causada por excesso de gente (e de pastoreio) e apoio a governos corruptos e responsáveis por barbaridades ambientais como Belo Monte e transposição do São Francisco. Mas enfim, quem sabe com a ajuda do Padim Ciço!

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