10 futuros possíveis para o Brasil (dentre tantos outros)

1

Foto 6 Todos
Um tsunami atingiu a política brasileira em cheio nos últimos dias. A delação de empresários da JBS, com gravações que comprovam Michel Temer dando aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha e Aécio Neves solicitando dinheiro para sua defesa no âmbito da Operação Lava Jato, onde cita a necessidade de envolver pessoas de confiança e que, eventualmente, poderiam até ser assassinadas antes de proferirem qualquer tipo de delação, balançaram a semi-estabilidade que se instalava no país no pós-golpe.

Com isso, o atual presidente Temer está a um fio de cair, já que negou a renúncia. Aécio já perdeu a presidência do partido, e foi afastado das funções de senador, podendo ser preso a qualquer instante.

Perante isso, inúmeras possibilidades se abrem no sentido de uma reorganização da política brasileira e de suas instituições, e não são poucas as vozes que perguntam: “E AGORA?”. Esse texto faz um breve exercício de análise e visualização para desvelar alguns dos caminhos possíveis.

Elenquei apenas 10 possibilidades que me parecem de alguma forma plausíveis, porém muitas outras são igualmente possíveis e, se quiser, deixe suas contribuições nos comentários.

De acordo com uma lei bastante ambígua e insuficiente, sancionada 7 dias após a efetivação do golpe militar de 1964 e que rege o funcionamento de eventuais eleições indiretas, o Congresso, em sessão unicameral, teria o poder de indicar qualquer cidadão à Presidência da República por meio da votação de seus parlamentares.

Assumindo que o atual governo não terá condições de se manter no poder (e tampouco sua linha sucessória) abrem-se duas principais bifurcações de futuro2: eleições diretas ou indiretas, sendo que, na atual conjuntura, a segunda é a mais provável. Dentro dessa possibilidade, o que se espera, é alguém capaz de criar algum tipo de maioria política parlamentar e, idealmente, que tenha grau satisfatório de apoio popular. Cabe frisar que, a partir do momento em que Temer não foi capaz de aprovar as reformas conforme planejado, simultaneamente atingindo um dos piores índices de popularidade da história, tornou-se ‘carta fora do baralho’.

Quem então pode ‘herdar’ o papel de comando da nação no próximo período? Veja abaixo alguma das minhas apostas (com respectivos comentários e justificativas), fruto de debates, análises e reflexões.

1) FHC

 

 

 

 

 

 

 

Um dos possíveis indicados à presidência pelo Congresso em uma eleição indireta. Já fez post em seu facebook praticamente dizendo “estou à disposição, chama nóis”, defedendo o respeito à Constituição. Ou seja: façam eleições indiretas. Alguns de seus trunfos são não estar envolvido em escândalos atuais e já ter sido presidente por dois mandatos, tendo derrotado, inclusive, Lula. Provavelmente conseguiria maioria política e seria um protegido da grande mídia, além de salvar a imagem do PSDB, que sairia por cima. A ausência de apoio popular poderia ser um empecilho, mas com os milhões que eles tem para investir em propaganda, talvez isso seja contornado via lavagem cerebral, desmemória e saudosismo.

2) Dória

Possível indicado via eleições indiretas ou até mesmo um forte candidato em eleições diretas. É considerado um ‘outsider’ do sistema político, apesar de já estar no metie há muito tempo. Já foi Secretário de Turismo e presidente da Paulistar entre 1983 e 1986 na gestão de Mario Covas a frente da prefeitura de SP; e presidente da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo entre 86 e 88. Íntimo dos Covas, e protegido de Alckmin – Dória teve uma excelente entrada no PSDB, onde atua há mais de 20 anos. Ele é relativamente popular, vende uma imagem de gestor apolítico (papel perfeito em um momento onde política é sinônimo de repulsa, e a despolitização cresce preocupantemente), um sujeito ‘novo’ e depositário de expectativas. No entanto, mal começou a gestão em São Paulo, o que pode se tornar um problema caso não tenha êxito na cidade. Tudo dependerá de sua habilidade de mostrar avanços concretos à população.

3) Luciano Huck

Não, não é brincadeira. Apesar dele negar publicamente o interesse, afirma-se nos bastidores que há disposição e até movimentação no sentido. Há alguns dias, retirou suas fotos junto com Aécio das redes sociais. Por que? Também considerado um outsider, imaculado, surfa em fenômenos como os que elegeram Donald Trump. Um rosto da TV associado ao assistencialismo e a beneficiência; membro de uma família doriana – um sujeito bastante palatável e carismático à grande parcela da população. Completamente despolitizado, facilmente maleável, atenderia facilmente aos interesses de grande parte do empresariado, das elites e de seus financiadores (economica e politicamente).

4) Jair Bolsonaro

 

 

 

 

 

 

 

 

Apenas possível via eleição indireta. É um sujeito muito polêmico para a disputa de um cargo ao executivo. Tem uma fatia cativa do eleitorado, mas tem enorme rejeição. Só teria chance se amenizasse seu discurso, coisa que parece difícil para quem o acompanha e conhece. No entanto, pela via das eleições indiretas poderia muito bem chegar à presidência. Com algum esforço e diálogo, poderia até construir uma maioria politíca (ainda que sua candidatura à presidência da Câmara tenha sido um fiasco, deixando-o na lanterninha). Tem considerável apoio popular, e tem a estima de parcela significativa das Forças Armadas, uma das instituições em que o povo brasileiro ainda deposita mais confiança, segundo pesquisas. Nas intenções de voto para 2018, tem rivalizado com Lula, ainda que perca em todos os cenários possíveis.

5) Geraldo Alckmin

Alckmin tem passado ao largo dos escândalos recentes, apesar de estar atolado até o pescoço em diversas listas e investigações, tais como o ‘trensalão tucano’. O problema é que não tem apoio fora do estado de São Paulo (onde obteve impressionantes 12 milhões de votos nas últimas eleições). É um político experiente e um nome que poderia apaziguar a crise institucional, além de poder contar com Dória como seu cabo eleitoral. Seria um nome viável em eleições indiretas, mas nas diretas, provavelmente perderia pra Lula, como já perdeu (caso ele seja candidato, claro).

6) Marina Silva

Terceira colocada nas últimas eleições presidenciais. Íntima de atores do setor financeiro-rentista (como a família Setubal, do Banco Itaú); da comunidade evangélica; e de parcela das entidades ambientalistas. Até onde consta não está envolvida nos atuais escândalos e é uma das favoritas na reorganização do pacto político brasileiro, pois é capaz de unir maioria política e popular, e contemplar interesses neoliberais do capital financeiros e de setores fundamentalistas, mantendo certa imagem de progressita graças ao verniz ecológico e a um discurso reeditado. Forte nas diretas e nas indiretas.

7) Lula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há anos enfrenta uma verdadeira cruzada contra sua reputação: 16 horas apenas do Jornal Nacional dedicada à propaganda negativa no último semestre; centenas de matérias do Estadão e dezenas de capas da Veja. Isso não quer dizer que sejam mentiras os fatos a ele imputados. A única coisa clara é que se trata de uma das pessoas mais perseguidas pela grande mídia, já que dezenas de outros políticos do mesmo peso tem sido citados e investigados por questões ainda mais graves, mas não recebem nem 10% da publicidade dedicada à Lula nesse sentido. A segunda tática é inviabilizar juridicamente sua candidatura em 2018 com uma condenação em segunda instância antes do pleito, o que talvez não seja possível dados os prazos. Apesar de sentir o golpe, Lula continua crescendo e pontuando nas pesquisas. Em certa medida, as perseguições dão fôlego a um petismo que estava então esquecido, e atraem outros setores como a única opção progressista viável. Em todas as simulações, perde apenas para Moro em segundo turno, e ainda assim por margem pequena. Provavelmente, grande parte do que assistimos nos últimos dias se deve a uma tentativa de garantir eleições indiretas para que ele não venha a assumir a presidência outra vez. Por isso cortar a cabeça de Temer e de Aécio foi tão importante. Isso é só uma hipótese. Se eleito, provavelmente tentaria reeditar seu pacto social de concialiação de classes.

8) Carmén Lúcia

Favorável às reformas da previdência, trabalhista e a PEC 241. Está na linha sucessória caso Maia e Eunício Olliveira se tornem réus. Segundo artigo da lei das eleições indiretas, não poderia se manter no cargo, a não ser que houvesse uma PEC alterando disposições nesse sentido. A ministra tem tido proximidade com os meios de comunicação, e na última semana reuniu-se com um grupo de 13 empresários, dentre os quais o presidente do Itaú e o diretor da Rede Globo. Seria um nome plausível para a pacificação dos interesses, a garantia das reformas regressivas e a estabilização institucional (além de abrir uma cobiçada vaga na presidência do STF)

9) Nelson Jobim

 

 

 

 

 

Ex-ministro da Defesa; ex-ministro da Justiça; ex-ministro do STF; ex-deputado federal; além de outras posições imensamente estratégicas que ocupou. Uma das pessoas com o maior trânsito político no atual cenário. Um nome cotado para dar continuidade ao establishment, ao lado de Henrique Meirelles, no mesmo sentido. Pode ser uma saída de mediação para a mudança sem mudança. Não tem ocupado muito os holofotes da mídia, o que pode ter seu lado positivo

10) ?

No Brasil, tudo pode acontecer. Além de todos esses nomes e de outros como Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Haddad, Freixo, Luciana Genro, etc, existe um infinito de possibilidades.

O mais importante nesse momento seria transcender a institucionalidade, a ‘ordem estabelecida’ e adentrar em um processo de reorganização estrutural verdadeiro. Pra isso, além de garantir eleições diretas, é importante a construção de uma nova e continuada greve geral. De nada adianta novas eleições (diretas ou não) se o atual contexto e as regras que favorecem a corrupção e o desvio de função não mudarem.

Se a temperatura aumentar a ponto de a mobilização conseguir garantir, além das eleições diretas, eleições gerais (com a deposição de todo o atual Congresso), antecipando as eleições de 2018 e propondo uma constituinte popular para a reforma política, pode ser que surjam avanços consideráveis. Ao menos, surgiriam daí possibilidades para além das cartas marcadas que, pouco ou nada contribuirão para mudanças efetivas na vida das pessoas e das instituições.

Por isso é preciso construir uma outra cultura política desde a base; criar mecanismos de poder popular, democracia direta, transparência e controle comunitário de elaboração e implementação de políticas públicas.

Para as coisas mudarem de fato, o Brasil precisa ser passado a limpo. Cortar a cabeça do rei, mas não derrubar o castelo, terá um efeito majoritariamente símbolico e paliativo, na melhor das hipóteses. Alguns nomes e movimentos são favoráveis a mudanças estruturais e profundas. Outros, são agentes do continuismo travestido de novidade. É hora de abrir o olho pra valer.

Espero que vocês tenham gostado dessas breve reflexões, e que sirvam para estimular nosso debate sobre futuros possíveis para nosso país!

 

************* NOTAS ***********

1 – Um dos pilares dessas reflexões é que foi preciso iniciar um golpe institucional para mudar o rumo das coisas em benefício total das elites, que constuiram uma maioria política dentro do Congresso mais conservador desde 1964 e utilizaram uma desculpa burocrática vazia chamada ‘pedaladas fiscais’ para justificar uma deposição completamente arbitrária da ex-presidenta Dilma, manipulando a população e a opinião pública com o apoio da grande mídia e com investimentos pesados vindos do exterior. Os principais objetivos: privatizar empresas públicas brasileiras; flexibilizar legislação trabalhista para favorecer o empresariado; precarizar o acesso a direitos como saúde e educação para fomentar o setor privado; retirar benefícios e investir orçamento no setor financeiro via pagamento de serviço da dívida, etc. A partir daí, o golpe teve que se consolidar.

2 – Assumimos aqui que esse não é o ensejo em que iniciaremos uma organização social comuntária autogestionária, e que, grosso modo, a esrutura básica se manterá mais ou menos inalterada, com alguém ocupando as posições institucionais convencionais tais como a presidência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *