A vida como linha de montagem

thewallmensagem para o início de ano

as pessoas devem organizar-se para recuperar e assumir o controle das próprias vidas”

Alberto Acosta, “O Bem-Viver”

Mal nascemos e a esteira já nos coloca em movimento.

A exemplo do que ocorre nos sistemas fabris, existe um caminho definido a priori para conduzir nossas vidas. Este caminho precede nosso nascimento e transcende nossa morte.

O livre arbítrio se efetiva dentro de um conjunto limitado de escolhas para a imensa maioria da população, convencida de que a normalidade requer certas condutas. Há um caminho a seguir, que comporta suas variações, mas no que há de essencial, inexoravelmente definido.

Nascemos e, logo, temos um nome. Afinal, coisas precisam de nomes; nossa existência é registrada – temos também um número (como lidar com tantas coisas iguais senão numerando-as?).

Espera-se que nossa família nos proteja e alimente, ainda que de forma precária. Devemos ser educados e socializados, aprender a nos comunicar por sons e produzir imagens mentais através da semântica.

Devemos ir à escola, que podemos concluir ou não e, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, devemos trabalhar, produzir algo, produzir valor. Somos estimulados a sermos úteis. Mas úteis para quem? Para que? A reflexão acerca disso é opcional, diferente da necessidade do trabalho para a maioria.

Espera-se que tenhamos amigos, amigas e amores, e a importância disso nos é ensinada. Um pouco mais adiante na esteira, chega da hora de constituir família: casar, ter filhos, dar sequência a espécie. É claro que a nada disso somos obrigados, mas, certamente, muitos nos verão como peças incompletas ou defeituosas caso alguma etapa não seja concluída; quem sabe até nós mesmos.

Essa esteira tem estações importantes e repetidas: aniversários; natal; virada de ano; férias; dia do casamento; nascimentos e mortes.

E ela não para com a nossa morte: que cultura não enterra ou ritualiza seus mortos? Ou seja: já temos pelo menos um programa marcado para o pós-vida e, mesmo defunto, nosso corpo segue um movimento dado à priori.

Talvez fosse adequado dizer que a realidade estabelecida, nos ‘coage’ a seguir determinado script, de diversas formas. Essa maneira de viver é tão ‘comum’, que se confunde o que é natural com o que é cultural. A algumas coisas somos de fato obrigados para poder viver: comer, respirar, dormir – tratam-se de imposições fisiológicas, essas sim vinculadas à natureza material da existência humana. Porém, todas as demais são convenções.

O incrível é que a fábrica da vida não carece de unanimidade. Tem gente que caminha contra a esteira; outros que pulam fora dela; mas isso não altera a lógica da linha de montagem – a esteira segue seu curso. Ninguém te perguntou “você aceita?”; na maioria das vezes nem sequer “o que acha?”. O tal script já vem incluso no pacote – chamado vida.

Isso quer dizer que subversões isoladas são permitidas como exceções, e até esperadas para mostrar o quão duro é optar por não seguir a esteira: você será chamado de louco, criminoso, ficará pobre, sozinho, e coisas do tipo. Te jogarão à margem da esteira, mas ainda será imposto o fluxo do seu movimento.

Essa fábrica não tem um dono, mas tem muitos sócios. Investidores leais, de todas as proporções, que cobram seus juros e correção monetária; de alto a baixo; gigantes e nanicos; uns se empenham mais que outros, mas não são poucas as mãos que sustentam esta esteira, administrando-a ou operando-a. O fato é: existe uma esteira rolando, fabricando gente como em uma linha de montagem. O controle de nossas vidas não nos pertence, a não ser em micromovimentos permitidos.

É por isso que Alberto Acosta, ao falar do ‘bem-viver’, usa o plural: “as pessoas precisam”, e a palavra “organizar”, que significa uma ação coletiva coordenada. Apenas juntos poderemos tomar de fato as rédeas de nossas vidas. Quem sabe escolher outra esteira; ou até mesmo abolir a fábrica – mas que esta escolha dependa de nós; de nossa consciência!

Apesar do entretenimento barato, da comida processada e das injeções artificiais de alegria, as coisas não vão nada bem – e ainda podem piorar. Que esse início de ano nos faça refletir profundamente; nos inspire a perceber que nunca é tarde pra organizar uma greve ou pra mudar o rumo da história (ou o sentido da esteira).

Precisamos decidir e agir, mudar tudo pra valer – da comida ao governo. Para nós, para os filhos, e para os netos. Para que, ao chegarem, as novas crianças sejam embaladas por outra coisa que não pelo movimento inexorável desta tenebrosa esteira que nos é imposta como comum. Para que, ao nascer, não sejamos conduzidos, tediosamente, à mesma e conhecida morte. Há de haver mais pelo caminho! E se não houver, faremos!

Que o ano de 2017 seja auspicioso para nossa civilização!

5 ideias sobre “A vida como linha de montagem

  1. Parabéns pelo texto, mostrando que a sociedade moderna nos molda, economicamente e culturalmente a seguir o padrão de produtos em série, sendo descartardo ao menor sinal de reação aos padrões construídos. Uma das grandes armas atuais é o poder dá tecnologia em unir os diferentes, senão para mudar a direção dá esteira, para construir uma linha de produção paralela com produtos mais conscientes de sua consciência e liberdade , conscientes do código que opera a esteira e dá liberdade em reprograma-la. Nossa tarefa é juntar as partes dessa esteira e a tecnologia da comunicação que hoje não delimita distâncias pode ser uma grande aliada.

  2. Olá companheiro. Gostei muito da clareza de pensamento. Excelente comunicação com uma linguagem simples e de fácil acesso. Brilhante raciocínio.

  3. Lindo texto uma reflexão dos dias atuais onde tudo é globalizado para que todos pensem iguais e façam coisas iguais uma engrenagem perfeita.

  4. Análise provocante , interessante e indispensável . Minhas considerações apontam para dois aspectos que me parecem oportuno e humildemente colaborativo.
    1- causas fundamentais : Estigmas do sistema de crença e técnicas de propaganda para imposições invisíveis em desobstrução aos aspectos culturais de resistência em cada segmento social de cada população por suas raízes regionais e antropológicas .
    2-Propostas de ações reacionárias : a) Estímulo ao caráter analítico dos resultados por cada indivíduo determinando a liberdade de pensamento como a fronteira da satisfação pessoal (a exemplo desta matéria ) b) Prevenir emoções que conduzem as armadilhas e ilusão de escolhas pré definidas pelo sistema através de auto-conhecimento c) Fomentos de espécies e soluções em defesa dos ataques psicológicos para enfrentamento e racionalidade de opções entre o real e o imaginário com exemplos de ferramentas que ajudem a valorizar o indivíduo nas suas formas mais frágeis , crianças e ignorantes .

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