Afinal, o que é ecossocialismo?

ecosoci

O progresso está
Se alastrando
E o vegetal
Vai sumindo da praça
Com a natureza
Estão acabando
A cada dia que passa

Erva proibida – Bezerra da Silva

Os últimos 40 anos – marcados por um intenso desenvolvimento tecnológico, industrial e produtivo – propiciaram o ensejo para que o debate ecológico viesse a emergir com força, alçando-o à centralidade que hoje possui. Já não é mais possível oferecer uma análise social completa ou minimamente consequente sem falar da relação do ser humano com o seu entorno, com a natureza e as outras formas de vida.

Isso se dá, por um lado, devido à percepção da finitude material do planeta, que se faz cada vez mais óbvia. A exploração daquilo que muitos chamam “recursos naturais” tem um limite – o limite de sua existência. Logo, o pensamento ‘econômico’ de crescimento linear infinito não pode se ajustar em um mundo finito, e precisa ser revisto, principalmente, no que diz respeito à sua interface com o mundo natural.

De outro lado, a ascensão do pensamento sistêmico1 – que percebe a Terra como um organismo vivo onde todos somos partes conectadas de um mesmo todo, junto com outras formas de vida – modifica cada vez mais nossa percepção de mundo. Além disso, a ideia de ciclo torna-se inegável – em nosso planeta, tudo vem de algum lugar; não existe “jogar fora” em um mundo integrado. Essa visão vem reorientando nossa maneira de estar no mundo, e alimentando muitas experiências, reflexões e possibilidades

Mas como se deu este encontro entre um tema tão atual (a ecologia) e algo que se discute incessantemente nos últimos 150 anos?

Se aceitamos a definição simplória (para não transformar este texto em ensaio) de que socialismo é a busca por um mundo mais justo, fraterno e igualitário, iremos perceber que, em uma dada perspectiva, na verdade, esses conceitos (socialismo e ecologia) encontram-se naturalmente associados, pois possuem objetivos comuns. Mas nem sempre foi assim, e precisamos revisitar brevemente a história de ambos para entender porque chegou-se a conclusão da necessidade de se forjar uma terminologia específica para explicitar a união destas duas linhas de pensamento, dando origem ao termo ecossocialismo.

SOCIALISMO: utopia antropocêntrica e ‘modernização do bem’

É preciso levar em conta que as pessoas são, em grande medida, reflexo do tempo em que vivem e suas subjetividades são formadas pelas experiências e possibilidades que as cercam. Marx e Engels – para citarmos diretamente dois expoentes na concepção daquilo que entendemos por socialismo hoje – foram sujeitos de seus tempos: a saber, meados do século XIX, momento marcado por intensos processos de industrialização, expansão e consolidação do Capital, e pela ausência de uma percepção massificada da finitude do planeta e, portanto, da necessidade de um pensamento ecologicamente orientado. Afinal, em um mundo sem internet, aviões, carros, rádio, e com uma população global 7 vezes menor do que a atual, realmente as problemáticas centrais trazidas pela ecologia pareciam distantes da realidade concreta da população.

Neste sentido, seria demais esperar que pessoas do passado resolvessem antecipadamente uma questão que não estava realmente posta para elas. Isso não quer dizer que Marx e Engels jamais pensaram na relação entre ser humano e natureza2, mas que, talvez, em seu tempo, não tenham dado à temática, a importância que ela hoje exige.

Diversos teóricos apontam aquilo que seria a obsessão pela “missão civilizatória do Capital” nos escritos de Karl Marx. Ou seja: como etapa prévia a emancipação humana, seria necessário desenvolver ao máximo as forças produtivas, libertando os seres humanos da escravidão do trabalho, fazendo com que as máquinas e as tecnologias trabalhassem para prover nossas demandas materiais – uma realidade que facilmente poderia nos lançar à uma distopia, retratada em diversos filmes que abordam o tema.

Desta forma, alguns pressupostos apresentados por tais pensadores em termos de reordenação social traziam, em síntese, diversos elementos em comum com o positivismo, e a ânsia por um progresso material e tecnológico tão em voga à época. Tais pressupostos, à luz dos novos conhecimentos e fatos, mostram-se insatisfatórios perante um mundo finito e, no limite, até mesmo antiecológicos. Para dar um exemplo: as imensas fábricas ou os modelos centralizadores de produção (tais como os campos de monocultura do agronegócio) não constituiriam, a priori, um problema para os socialistas, mais preocupados com a distribuição (ou posse) dessa produção do que com seus métodos – o mais importante seria garantir que aquilo que fosse socialmente produzido fosse socialmente distribuído. Digo “a priori” pois aos socialistas do passado não foi dada a chance de vivenciar a produção de larga escala contemporânea em todo seu gigantismo e suas consequências e, talvez, se aqui hoje estivessem, reorientariam seus pensamentos e percepções no sentido do que hoje apontamos como ecossocialismo.

Porém, dada a difusão de perspectivas contemporâneas como a teoria da complexidade (MORIN, 2010); a teoria dos sistemas (VON BERTALANFFY, 1975), entre outras, que apontam críticas intrínsecas a essência dos modelos de industrialização, a centralização da produção e a questão da escala, foi necessário ressignificar o que se entende por socialismo, pura e simplesmente, agregando ao mesmo o qualitativo ‘eco’, trazendo novos parâmetros à equação.

Isso se dá, também, porque não há um consenso entre os socialistas sobre a centralidade desta pauta, e alguns ainda defendem que a mesma é secundária em relação a luta de classes, a relação capital-trabalho e a exploração da mais-valia, por exemplo. Estes defendem que é preciso antes de mais nada pensar em um modelo socialmente justo de organização humana, ainda que isso signifique reproduzir os métodos de produção industriais e centralizadores do regime capitalista.

ECOLOGIA: caminho do meio, crítica da modernidade

O que traz de novo a ecologia para as lutas sociais afinal?

Antes de mais nada, é interessante dizer que as chamadas lutas identitárias ou setoriais trouxeram um ‘problema’ ao materialismo histórico dialético em sua concepção ortodoxa pois, muitas vezes, suas lutas setorizadas desfaziam (mesmo que aparentemente) tensões até então calcadas em um recorte de classe, transferindo-as para outras localidades. Por exemplo, a luta das mulheres poderia, a princípio, unificar mulheres de classes sociais distintas (burguesas e operárias) em torno de um objetivo comum – combater o patriarcado. O mesmo poderia se operar para as questões de racismo, homofobia, etc. Com a ecologia não foi diferente – de ricos a pobres, de patrões a empregados, a busca por um ambiente saudável poderia suplantar antagonismos de classe. Como o marxismo poderia lidar com isso?

De fato, sem a compreensão classista da sociedade, todas essas lutas, fragmentadas, encontram-se sob risco de não apresentar uma resposta global a problemática que as origina pois, em nossa concepção, todas estão associadas ao modo de produção hegemônico, e só podem ser superadas de fato com a superação do mesmo. Ou seja, racismo e capitalismo encontram-se associados e, para superar o primeiro, é preciso superar também o segundo, pois, nos marcos do atual sistema, toda conquista é transitória. Logo, assumindo a pluralidade da ecologia, existem escolas não classistas, que se desvinculam de um projeto global de enfrentamento, e preferem tratar a questão ambiental isoladamente, assumindo ser possível construir um mundo sustentável, com relações harmônicas com a natureza sem, necessariamente, superar o sistema capitalista. Nós, ecossocialistas, discordamos e nosso lema é: ecossocialismo ou barbárie. Não existem alternativas mediadoras.

Desta maneira, começamos a compreender como a ecologia, a princípio, emergiu no final dos anos 60 como um caminho do meio ante as polaridades políticas demarcadas da época3, e se postulou com força aonde parecia não haver espaço para novas abordagens.

A crítica central que ela traz pode ser resumida na crítica à modernidade4 como uma visão de mundo hegemonizada pela concepção linear de progresso, pelo cientificismo e pela razão. Tal visão se constituía enquanto elemento comum das duas grandes polaridades mundiais postas durante grande parte da segunda metade do século XX e, em especial, durante a Guerra Fria: os blocos capitalista e comunista do globo – ambos corriam para garantir a aumentar sua produtividade, calcados na noção de disputa pela hegemonia através do progresso científico. Mas a ecologia questiona o ‘como’ fazer, sem esquivar-se de questões concretas como garantir alimentação, abrigo e todas as condições necessárias à população mundial.

Esta crítica parte da percepção de que, ainda que tenham fins diferentes (em um caso, a superprodução visa aprofundar as desigualdades; em outro, diminuí-la), valendo-se dos mesmo métodos, a permanência do ser humano na Terra encontra-se ameaçada. Logo, repensar o modo de produção em sua totalidade faz-se necessário para garantir a continuidade da experiência humana. Podemos criar maneiras sustentáveis de produzir aquilo que se faz necessário, sem agredir a natureza e inviabilizar a vida das futuras gerações, às quais caberá a tarefa de aprimorar as relações sociais existentes, visando uma sociedade cada vez mais justa, fraterna e igualitária.

ENTÃO, ECOSSOCIALISMO?

Logo, o Ecossocialismo é uma tentativa de harmonizar o que consideramos descuidos ou perigos na atuação ortodoxa do materialismo histórico e da ecologia – ao primeiro, é preciso acrescentar uma dimensão de crítica ao método de produção; ao segundo, faz-se importante impedir uma prática segmentada que acredita na possibilidade no bem-estar ecológico desvinculado do bem-estar social coletivo.

Além disso, o ecossocialismo traz, também, uma dimensão da práxis individual muitas vezes negligenciada pelos círculos socialistas. Esse ‘outro mundo possível’ pode e deve ser vislumbrado (ainda que não possa ser concretizado a contento) em experiências pontuais que nos sejam possíveis, e inspirem processos mais profundos e amplos, tais como as diversas experiências comunitárias em ecovilas, centros de permacultura e agroecologia espalhadas pelo mundo. Obviamente sua influência é restrita, porém tais práticas não devem ser desvalorizadas ou desconsideradas, e sim estimuladas e vivenciadas.

A existência do termo, por si, indica que ainda falta um pouco para podermos dele nos desfazer – esse seria nosso ideal: ter as coisas tão associadas, ao ponto de não necessitar de um qualitativo extra e, ao falar de socialismo ou de ecologia, simplesmente, já abarcar todas as questões acima elencadas que nos parecem cruciais.

Temos a convicção que se a camarada Rosa Luxemburgo estivesse aqui entre nós, muito provavelmente, ela gritaria conosco: ECOSSOCIALISMO OU BARBÁRIE!

BIBLIOGRAFIA

ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Paz e Terra, 1979.

MARX, Karl. Sobre a nacionalização da terra. Estudos de Sociologia, v. 2, n. 3, 2008.

MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. 2000.

VON BERTALANFFY, Ludwig. Teoria geral dos sistemas. Vozes, 1975.

DUPUY, Jean Pierre. Introdução à crítica da ecologia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

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Notas:

1 – A visão sistêmica é parte de um novo paradigma emergente das ciências que surge no século XX e faz oposição ao pensamento mecanicista do século XVII representando principalmente pelas figuras de Decartes, Newton e Bacon. Ele aponta, em suma, para a não fragmentação das esferas da vida e da ação humana, a partir da perspectiva de integração entre ser humano e natureza, afirmando a interconexão latente que nos une como em uma “Teia da Vida” (obra de um dos principais expoentes dessa corrente de pensamento, Frtijof Kapra). Também confere valor científico a subjetividade (através das artes e da espiritualidade), colocando-a como componente fundamental, ao lado da racionalidade, para promover um real desenvolvimento humano. Dessa maneira, estimula a dinâmica de transversalidade e interdisciplinaridade na pesquisa, no ensino e na ciência de um modo geral.

2 – Muito pelo contrário, como podemos constatar em diversos textos e excertos como em “A dialética da natureza” (ENGELS, 1979); “Sobre a nacionalização da terra” (MARX, 2008); e diversos trechos do ‘Capital’ e dos “Manuscritos Econômico-Filosóficos” onde tal temática aparece.

3 – Sobre isso, Dupuy (1980) oferece um interessante panorama, comentando aquela que seria a primeira candidatura oficialmente ecológica a nível mundial, demarcando os primeiros passos da ecologia na política institucional (após os ‘sucessos’ na luta anti-nuclear): o candidato à presidência da França, em 1974, o ecologista e agrônomo René Dumont.

4 – Sobre este ponto, recomendo este vídeo onde toco exatamente neste grande diferencial do pensamento ecológico: https://www.facebook.com/djalmaneryneto/videos/341354122880545/

3 ideias sobre “Afinal, o que é ecossocialismo?

  1. Tudo aboatadinho, claro, perfeito! A caminhada é longa e árdua. Muita paciência pedagógica, andragógica e, mormente, sacológica face ao radicalismo de ambos os lados aqui tratados. É triste constatar que o ser humano quase só aprende na porrada, no desvio. Documentos que me parece convidativos e no sentido do aqui exposto e que muito estão ajudando para o nivelamento da intenção desse artigo são: Louvado Sejas Meu Senhor, do Papa Francisco e Uma Obra Em Verde de Eugênio Giovenardi da Ed. Kiron.

  2. Acrescente-se a essa perspectiva, a lucidez de Boaventura: “Os outros saberes, não científicos nem filosóficos, e, sobretudo, os saberes não ocidentais, continuaram até hoje em grande medida fora do debate. (…) Da minha perspectiva, para haver mudanças profundas na estruturação dos conhecimentos é necessário começar por mudar a razão que preside tanto aos conhecimentos como à estruturação deles. Em suma, é preciso desafiar a razão indolente. (…) Do mesmo modo, a presença ou relevância dos antepassados em diferentes culturas deixa de ser uma manifestação anacrónica de primitivismo religioso ou de magia para se tornar uma outra forma de viver a contemporaneidade.” E, em outra passagem, “A razão indolente produz ausências. Produz exclusão. Dou um exemplo: a razão indolente acredita que só a ciência é pensamento rigoroso. E todos os outros saberes são irracionais. Acontece que a biodiversidade nos mostra o quão importante é o saber dos índios, o saber dos povos originários de certas regiões. Saberes sem os quais não conseguiremos preservá-la. Portanto, a visão indolente da ciência, como fonte única de saber, produziu, por exemplo, a ausência do pensamento indígena. É simples: se eu quero ir à lua, precisarei do pensamento científico. Mas se eu quero preservar a diversidade amazônica, preciso conhecer o pensamento do índio.” (Boaventura de Sousa Santos). Desse modo, temos a agricultura sintrópica, de Ernst Götsch, que aprendeu com os índios. E temos todas as pesquisas em torno de outras formas de saber, a que Boaventura chama de saberes contra-hegemônicos. Ecossocialismo transdisciplinar.

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