Em SC, Permacultura com os pés na terra

grupo-horte

Turma de um dos Cursos de Design de Permacultura (PDCs) organizado pelo Ivy Porã. Durante 9 dias, participantes realizam vivência que inclui estudo e imersão na natureza

Muito além da classe média. No interior catarinense, Projeto Ivy Porã semeia, há duas décadas, uma permacultura não elitizada, que vai dos assentamentos do MST à universidade

Por Djalma Nery

Uma das grandes lacunas de minha dissertação de mestrado foi não ter conseguido entrevistar pessoalmente os pioneiros Jorge Timmermann e Suzana Maringoni, do projeto Ivy Porã, em Santa Catarina. Felizmente eles mantêm um blog onde divulgam ótimo e variado conteúdo (1), com uma centena de postagens. A partir dele e de outros relatos que se cruzam com sua trajetória, trago aqui um pouco da história regional da permacultura em Santa Catarina, com foco na sua popularização e no trabalho de quase 20 anos de Jorge e Suzana.

Na postagem intitulada “Permacultura democrática, endógena e social”, uma das mais recentes, encontro o que me parece ser resposta a um debate central – em parte suscitado por minha dissertação, publicada três meses antes – acerca da elitização da permacultura e da necessidade de popularizá-la. Dada a riqueza desse texto, reproduzo-o quase na íntegra, com pequenas alterações e supressões. Um relato na perspectiva de seus protagonistas.

A questão é proposta logo de saída:

“Em muitos momentos, a permacultura é rotulada como elitista, algo de classe média ou alta. Talvez esta visão seja pautada basicamente pelo fato de que a divulgação de cursos seja o que mais apareça nas redes sociais e que de fato abarcam este público. Questionamos profundamente esta visão, porque acreditamos que muitos trabalhos com o foco da permacultura acontecem por aí, em todos o país, e poucos deles têm ‘tempo’ para publicar isso no Facebook. Na nossa atuação como permacultores desde 1998 (Jorge) e 2002 (Suzana), participamos de processos e projetos sociais que formaram muitos permacultores, (…) semeando muitos trabalhos e possibilidades.”

Jorge, biólogo, entomólogo e ecólogo, fez trabalho social com agricultores no semiárido argentino, “seja com o controle biológico da doença de Chagas ou com a proposta de manejo agrosilvopastoril no Programa Algarrobo”. Em entrevista ao blog Sem Território, define-se como “homem, professor pardal, permacultor, curioso de engenhocas e tudo que tiver.” Já Suzana define-se, na mesma entrevista, como “mulher, mãe, educadora”, que ama a natureza, educar, compartilhar conhecimentos, ajudar…” E por que o projeto Yvy Porã? “Para viver a terra, para fazer permacultura, para acolher pessoas, para construir uma terra de boa ética (que é o significado de Yvy Porã em tupi guarani).”

O despertar para a permacultura

O despertar de Jorge na permacultura aconteceu em 1997, ao conhecer o educador André Soares numa palestra em Braço do Norte, sul de Santa Catarina. Convidado por ele a participar, no ano seguinte, de um PDC (Permaculture Design Course, curso básico de design em permacultura) Internacional a ser realizado em Manaus pelo PNFC (Programa Novas Fronteiras da Cooperação), faz então sua primeira formação: um PDC ministrado por Geoff Lawton e traduzido por André Soares, reconhecido pelo PRI (Permaculture Research Institute).

De volta ao sul, dá início ao ativismo: organiza um primeiro PDC no Colégio Agrícola Caetano Costa, no município de São José do Cerrito, seguido de outros dois, em parceria com prefeitura, igreja, sindicatos de trabalhadores rurais etc., nos quais agricultores, professores, educadores e outros atores locais puderam participar. “Este curso iniciou um trabalho importante pelo seu cunho absolutamente social, num município de 10.000 habitantes, de perfil agrícola. O impacto deste trabalho aparece registrado no livro São José do Cerrito, sua gente e sua História. A partir dele, cria-se um núcleo que começa a trabalhar permacultura como ferramenta de transformação social.”

Formaram-se cerca de 75 permacultores, e foram realizadas ações de impacto como hortas escolares, construção de banheiro seco e cisterna em escolas, na APAE e num posto de saúde. “Temos notícias de muitos destes permacultores que seguem se aprofundando e praticando a permacultura, desde aqueles que transformaram suas vidas privadas até os que assumiram uma postura política atuante – como por exemplo Iram, plantador de cebola, que fez a transição para agricultura orgânica, envolveu-se nesse modo de vida e produção e hoje é uma liderança na cooperativa Orgânicos Serrano.”

Educação e reforma agrária

Jorge ministrando aula durante capacitação em Permacultura no Pronera

Jorge ministrando aula durante capacitação em Permacultura no Pronera

Entre 2001 e 2007 Jorge e Suzana participaram do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que envolveu 4070 educandos. “O Pronera funcionava com um tripé: um movimento social, que diagnosticava e mobilizava as comunidades e os sujeitos que buscavam escolaridade, chamados educandos, e possíveis educadores dentro desta comunidade; a universidade, que fazia a capacitação desses educadores; e o Incra, que administrava os fundos.” Fizeram desde alfabetização de jovens e adultos no campo até a formação de jovens e adultos como técnicos agrícolas no ensino médio.

Suzana conta que havia sido convidada para capacitar educadores no ensino de matemática. “Quer dizer, rever que matemática ensinar, como dialogar com jovens e adultos do campo, que fazem muita conta, convivem com medidas de superfície, volume e finanças, mas muitas vezes se enrolavam e eram enrolados por terceiros (…).” Mas já no segundo Pronera, em vez de ciências deram aula de Permacultura. “Afinal, a permacultura não é ecologia e ciência aplicadas?”, perguntam. Assim, três PDCs certificaram 85 agricultores-educadores entre 2002 e 2007. Os educadores, por sua vez, tornavam-se multiplicadores em suas comunidades, trabalhando com uma nova turma de educandos, alcançando no total 4070 indivíduos formados em permacultura no estado.

E então em 2003 veio o desafio de montar a grade do primeiro curso técnico com enfoque em agroecologia do Pronera da UFSC, basicamente sobre o conteúdo do PDC. “Foi dado um PDC para a comunidade escolar – professores e assistentes –, líderes comunitários e lideranças locais do MST. Neste projeto também foi realizada numa oficina prática a construção de uma cisterna para coleta de água de chuva e uma bacia de evapotranspiração nas dependências da escola, com a participação de toda a comunidade escolar. Muito desta experiência está relatada em teses do CED (Centro de Ciências da Educação) da UFSC e em livros publicados pela editora da Universidade.” O alcance do Pronera da UFSC é difícil de avaliar, pois foi realizado em comunidades do interior que não estão no radar das mídias. “Mas em alguns momentos, retornos de parceiros desta caminhada que nos localizam no Facebook ou pelo blog reafirmam o quanto esta formação foi importante para eles”, assegura o casal.

Outro projeto relevante foi realizado junto à Agreco – Associação de Agricultores Ecológicos da Encosta da Serra Geral, em 2000. Estiveram envolvidos cerca de 300 agricultores e agricultoras catarinenses de municípios como Santa Rosa de Lima (onde se localiza ainda hoje a sede da associação), Anitápolis e Rio Fortuna, entre outros. Cerca de 50 deles foram capacitados em três PDCs. “Temos notícias de vários agricultores dali que seguem praticando a permacultura e são referência – como o Jorginho Silva de Anitápolis, que recebe constantemente visita de grupos da UFSC e de universidades de outros estados; Remi Beckhauser, da comunidade de Santa Bárbara; e Dida, cujo filho cursou a disciplina de Permacultura na UFSC, da Pousada Vitória em Santa Rosa de Lima.

Permacultura na academia

Aula num dos PDCs de Yvy Porã com presença de Arthur Nanni

Aula num dos PDCs de Yvy Porã com presença de Arthur Nanni

Em 2011 Jorge e Suzana conhecem Arthur Nanni  e Grasi Willrich, permacultores do Sítio Igatu, em São Pedro de Alcântara. Formado em geologia, Arthur havia acabado de ingressar como professor efetivo da UFSC por meio de concurso público e fez uma formação para instrutores de PDC com Jorge e Suzana. Ele já trazia a proposta de introduzir a permacultura como disciplina na universidade e, quem sabe, organizar uma graduação específica na área.

A disciplina optativa Introdução à Permacultura tornou-se realidade no ano seguinte, com uma turma de 20 estudantes por semestre e currículo completo do PDC em formato modular. “Uma formação sólida, gratuita e de qualidade, feita em parceria com a universidade.” A partir dela surge o NEPerma (Núcleo de Estudos em Permacultura), fundado em 2013 e que hoje “funciona a pleno vapor, envolvendo além do Arthur outros permacultores e professores de outros centros da UFSC.” Em 2017 o NEPerma realizou uma formação exclusiva para professores e técnicos de universidades e institutos federais, capacitando e abrindo possibilidades de trabalho em permacultura nessas instituições públicas. “Em todas estas iniciativas, coordenadas pelo amigo Arthur, tivemos a honra e a alegria de participar.”

Outro projeto relevante foi o Terra Permanente, realizado em 2014 com agricultores de três municípios catarinenses e duração de dois anos – o primeiro com o PDC e visitas à propriedade dos envolvidos e o segundo com ações concretas em seus sítios.

Publicar essa trajetória não significa um retorno melancólico ou saudosista, ressaltam Jorge e Suzana. Significa, isso sim, desejo de compartilhar “esta permacultura que existe, é real, endógena, democrática e tem muitos caminhos”. Em seus muitos anos de permacultura, calculam que “mais que a metade da nossa atuação esteve envolvida e dirigida a uma permacultura ‘social’, não elitizada, não midiatizada, não divulgada.”

Seu relato traça um panorama das iniciativas pioneiras do estado de Santa Catarina e é uma parte da história da permacultura no Brasil. Uma história que deve ser registrada e divulgada, fonte de inspiração para quem busca na permacultura uma ferramenta de transformação estrutural e substancial da nossa sociedade.

Referência
(1) Disponível em: <https://yvypora.wordpress.com>. Acesso em janeiro de 2018.

Permacultura: a experiência “anárquica” do Ceará

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011

Conclusão de curso em Meruoca, Ceará, 2011. Foto por Tiago Silva.

Aprendizado nos Fóruns Sociais Mundiais. Ações “Robin Hood”. Viagens a Cuba. Como alguns movimentos cearenses constroem uma forma própria de transformar radicalmente consumo, construção e reciclagem

Por Djalma Nery

Conheci o geógrafo cearense Paulo Rolim Campos, permacultor há mais de 10 anos, participando do grupo de WhatsApp Permacultura Brasil, com mais de 250 membros ativos. Nos esbarramos por causa de uma polêmica: ele dizia ser contra isso de adjetivar a permacultura de popular, social, etc, pois em sua região faziam essa permacultura popular há décadas e nunca precisaram dessa “pirotecnia”. Para ele era permacultura e pronto.

Tendo em vista que passei os últimos cinco anos de minha vida buscando emplacar a ideia de “permacultura popular” e o que deu início à polêmica foi justamente um artigo de minha autoria que alguém havia compartilhado no grupo, senti-me na obrigação de me manifestar. Comecei então a me comunicar em particular com Paulo e logo nos identificamos, com amigos até projetos em comum. Continue lendo

Fala o professor intimado pela USP

171106-Sorrentino

Marcos Sorrentino, que responde a sindicância por realizar atividade em parceria com o MST, descreve a discriminação aos movimentos sociais e denuncia: “há triagem ideológica na universidade brasileira”

Por Djalma Nery

Em artigo recente, o portal da ADUSP (Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo) expôs o gravíssimo caso das ameaças sofridas pelo professor Marcos Sorrentino. Ele é alvo de sindicância e foi convocado para uma oitiva com a finalidade “de investigar uma atividade acadêmica organizada em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”. A atividade foi realizada em abril desse ano, durante a quarta edição da “Jornada Universitária em Apoio à Reforma Agrária” (JURA). Organizaram o evento o Laboratório de Educação e Política Ambiental (OCA, do qual faz parte o professor Sorrentino), o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental (NACE PTECA/ESALQ) e movimentos sociais ligados à Via Campesina.

Segundo conta a matéria, “no dia 18/4, no gramado central do campus, foi organizada uma oficina de lona preta em conjunto com o MST com o objetivo de mostrar como se montam as barracas de assentamentos e promover uma conversa sobre a vida de um militante acampado. Entretanto, no mesmo dia uma notícia falsa foi compartilhada nas redes sociais, espalhando o boato de que o MST estaria promovendo uma invasão do campus. A notícia foi rapidamente desmentida pela direção da ESALQ e pela Prefeitura do Campus”.

Dada a comoção gerada pelo factoide e tendo em vista o intenso momento de polarização e criminalização da política que atravessamos, instalou-se nesse contexto uma Comissão Sindicante, para averiguar os fatos. Sorrentino foi convocado para a oitiva, que trazia dois questionamentos gerais: se havia autorização para utilizar a logomarca da ESALQ no evento; e se algum colegiado havia aprovado a realização das atividades. Sobre os questionamentos, o professor afirma categoricamente trabalhar há 30 anos na ESALQ e sempre haver se utilizado da logomarca da universidade sem qualquer problema; e que, até hoje, jamais precisou de autorização de um órgão colegiado para organizar suas atividades.

O que está em questão, como o próprio professor expõe, é uma espécie de “triagem ideológica”, com as universidades claramente a serviço das elites e corporações. Tanto que se naturaliza e estimula quaisquer eventos empresariais voltados a fomentar o agronegócio — como o ESALQShow, realizado no último mês de outubro –, ao passo em que se criminalizam e dificultam atividades vinculadas a movimentos sociais e de contestação ao estabelecido. A universidade torna-se, assim, uma correia de transmissão dos interesses das classes dominantes, e transforma-se em palco de batalhas e disputas sempre que tensionada a cumprir um papel social, crítico e transformador. Nas palavras de Sorrentino, “a escola serve majoritariamente a essas grandes empresas que trazem recursos a laboratórios, e quando há um conjunto de professores ou estudantes que se comprometem com a agricultura familiar ou com agricultores acampados, vem esta triagem dizendo que não poderíamos usar o gramado para a oficina”.

O blog “Plantar o Futuro” publica a seguir entrevista exclusiva com o professor Marcos Sorrentino, procurando aprofundar o debate. Além disso, iniciou abaixo-assinado em forma de manifesto para denunciar e impedir que tais situações de retaliação ideológica se multipliquem, firmando o papel da universidade como um espaço de liberdade, emancipação e pesquisa voltada ao benefício da sociedade. Você pode ajudar, divulgando e assinando esse manifesto.

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Fala o professor intimado pela USP

171106-Sorrentino

Marcos Sorrentino, que responde a sindicância por realizar atividade em parceria com o MST, descreve a discriminação aos movimentos sociais e denuncia: “há triagem ideológica na universidade brasileira”

Por Djalma Nery

Em artigo recente, o portal da ADUSP (Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo) expôs o gravíssimo caso das ameaças sofridas pelo professor Marcos Sorrentino. Ele é alvo de sindicância e foi convocado para uma oitiva com a finalidade “de investigar uma atividade acadêmica organizada em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”. A atividade foi realizada em abril desse ano, durante a quarta edição da “Jornada Universitária em Apoio à Reforma Agrária” (JURA). Organizaram o evento o Laboratório de Educação e Política Ambiental (OCA, do qual faz parte o professor Sorrentino), o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental (NACE PTECA/ESALQ) e movimentos sociais ligados à Via Campesina.

Segundo conta a matéria, “no dia 18/4, no gramado central do campus, foi organizada uma oficina de lona preta em conjunto com o MST com o objetivo de mostrar como se montam as barracas de assentamentos e promover uma conversa sobre a vida de um militante acampado. Entretanto, no mesmo dia uma notícia falsa foi compartilhada nas redes sociais, espalhando o boato de que o MST estaria promovendo uma invasão do campus. A notícia foi rapidamente desmentida pela direção da ESALQ e pela Prefeitura do Campus”.

Dada a comoção gerada pelo factoide e tendo em vista o intenso momento de polarização e criminalização da política que atravessamos, instalou-se nesse contexto uma Comissão Sindicante, para averiguar os fatos. Sorrentino foi convocado para a oitiva, que trazia dois questionamentos gerais: se havia autorização para utilizar a logomarca da ESALQ no evento; e se algum colegiado havia aprovado a realização das atividades. Sobre os questionamentos, o professor afirma categoricamente trabalhar há 30 anos na ESALQ e sempre haver se utilizado da logomarca da universidade sem qualquer problema; e que, até hoje, jamais precisou de autorização de um órgão colegiado para organizar suas atividades.

O que está em questão, como o próprio professor expõe, é uma espécie de “triagem ideológica”, com as universidades claramente a serviço das elites e corporações. Tanto que se naturaliza e estimula quaisquer eventos empresariais voltados a fomentar o agronegócio — como o ESALQShow, realizado no último mês de outubro –, ao passo em que se criminalizam e dificultam atividades vinculadas a movimentos sociais e de contestação ao estabelecido. A universidade torna-se, assim, uma correia de transmissão dos interesses das classes dominantes, e transforma-se em palco de batalhas e disputas sempre que tensionada a cumprir um papel social, crítico e transformador. Nas palavras de Sorrentino, “a escola serve majoritariamente a essas grandes empresas que trazem recursos a laboratórios, e quando há um conjunto de professores ou estudantes que se comprometem com a agricultura familiar ou com agricultores acampados, vem esta triagem dizendo que não poderíamos usar o gramado para a oficina”.

O blog “Plantar o Futuro” publica a seguir entrevista exclusiva com o professor Marcos Sorrentino, procurando aprofundar o debate. Além disso, iniciou abaixo-assinado em forma de manifesto para denunciar e impedir que tais situações de retaliação ideológica se multipliquem, firmando o papel da universidade como um espaço de liberdade, emancipação e pesquisa voltada ao benefício da sociedade. Você pode ajudar, divulgando e assinando esse manifesto.

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O mundo é o que a gente come – quem inventou a cesta básica?

cesta

Em tempos de ração humana, você já se perguntou qual é a origem da famigerada cesta básica? Quem define sua composição? Quem determina o que é básico, e baseado em que? Por Djalma Nery, em seu blog “Plantar o Futuro”.

Disse Eduardo Galeano que a liberdade de escolha nos permite, no máximo, decidir o molho com o qual seremos devorados – obviamente ele se referia a esse mundo regido pelas lógicas de mercado, pelas imagens superficiais arquitetadas pelo marketing e pela alienação imediatista. Se podemos causar uma congestão fulminante no sistema capitalista certamente isso passa, também, por uma transformação prática do consumo (o polo oposto e conectado ao da produção). Porém, desde já somos capazes de besuntar nossas vidas num molho que melhor nos nutra e que seja, no mínimo, indigesto àqueles que só fazem devorar. Estamos falando, também literalmente, de comida, o mais urgente e imediato dos consumos, a necessidade mais básica. Por isso mesmo, antes de pensar nas sutilezas e matizes que envolvem os gostos e as preferências, vamos à alimentação enquanto manutenção da vida. Eis nossa questão: quem define o que é essencial, básico, indispensável? Não estamos falando de teorias nutricionais que dominam nichos do mercado ou que neles tentam adentrar, nem de qualquer outra sugestão de dieta movida pela possibilidade de se escolher subjetivamente. Estamos falando daquela que, por ser anterior aos critérios de preferência de compra, é o definidor do essencial, do que é o mínimo, o mero suficiente alimentar: a Cesta Básica de Alimentação. E, afinal, de onde vem sua definição? Estado Novo, Decreto de Lei nº 399 (especificamente o artigo 6º, parágrafo 2º), assina-o Vargas, 1938, no outono, e até hoje temos vigente a concepção e o elenco semelhante de itens alimentícios que formam a tão digna Cesta Básica de Alimentação. No mesmo decreto regulamentava-se e fixava-se o Salário Mínimo. Inclusive, o que mais importa ao decreto é que a cesta seja um valor referencial. Porém, a base de cálculo foi o suficiente para que se estabelecesse esse pacote ideal de alimentos que devem nutrir o trabalhador, a ‘ração-tipo’, termo sintomático, que descreve o que seria indispensável. Nem se falava em Nutrição, mas em Alimentação, meramente.

Hoje. É preciso muita ingenuidade para não perceber que cada indivíduo tem uma necessidade alimentar única. Cada pessoa se difere biologicamente, culturalmente, em suas atividades profissionais, físicas e intelectuais. A vida precisa se tornar em cada instante, uma escolha livre, responsável e, por isso mesmo, consciente. Há nutrições, não nutrição. Há saúdes, não saúde. No que tange à cesta, o último item da lei em questão diz respeito justamente a quais são os alimentos e elenca-os, sem apresentar qualquer dado científico ou nutricional sobre a necessidades desses ou daqueles. Porém, há aí uma surpresa para quem se depara pela primeira vez com esse antigo decreto. Não há sequer um tom de rigidez ou clareza de definição da lista expressa como anexo ao final do texto, integrado na época à constituição.

“De acordo com as regiões, zonas ou sub-zonas, os alimentos da ração-tipo poderão ser substituídos pelos seus equivalentes de cada grupo, porém sempre nas quantidades estipuladas no exemplo.”

Tal como está escrita, trata-se de uma sugestão, com força de lei, é óbvio, porém admitindo substituições. De fato, a lei não precisa chegar ao extremo de agir como um controle biológico, excluindo variáveis mais viáveis, mais saudáveis, mais adequadas, ou, até mesmo, satisfazendo eventualmente algum gosto comum. É aceitável que no contexto do Estado Novo – numa realidade predominantemente agrária, num país saído da escravidão e ainda atolado na miséria e na desigualdade – houvesse uma preocupação rudimentar com a “alimentação”, sendo a cesta um direito conquistado para o trabalhador, mas também a garantia de funcionamento dos corpos que moviam, e movem, a produção. Hoje. Por que a concepção de cesta básica continua tão semelhante, se as ideias de trabalho e de alimentação já não são as mesmas? E, mesmo tratando dessas questões iniciais, ainda estamos negligenciando a complexidade da nutrologia.

Sabe o que pode ser mais rígido do que o Estado? O Mercado, especificamente as forças do Capital. É muito provável que essa definição estabelecida pelo Estado Novo tenha impulsionado a atividade de grupos econômicos relacionados às indicações dispostas no decreto de lei. Provável também é que a lei já tivesse em vista, mais do que os não referidos valores nutricionais, a produção agropecuária da época e também os hábitos alimentares predominantes neste vasto e heterogêneo país. Para elucidar, alguns dos alimentos listados em 1938: carnes conservadas (charque, seca), queijo, manteiga, banha, arroz, milho, farinha de mandioca, mandioca, batata, batata doce, inhame, cará, pão de milho, leguminosas (feijão, ervilha, lentilha, fava), agrião, alface, caruru, acelga, couve, repolho, espinafre, abóbora, chuchu, quiabo, jiló, pepino, maxixe, tomate, berinjela, cenoura, nabo, rabanete, beterraba, banana, laranja, tangerina, caju, manga, abacate, abacaxi, mamão, sapoti, melancia, goiaba, castanha do Pará, açúcar, melado, rapadura, mel, café, mate, leite e ovos. Curioso perceber que na ideia comum e corrente de cesta básica não se tem incluído atualmente os perecíveis, obviamente porque sua manutenção geraria contratempos logísticos para as empresas que produzem as cestas prontas para distribuição. Em resumo, hoje nosso leque de produtos oferecido numa cesta básica é bem menor do que o original, sobretudo porque o mercado se acomodou àqueles hábitos, preferências e facilidades produtivas de meados da década de 1930 e, em contrapartida, moldou e fortaleceu seus nichos, contrariando os desenvolvimentos das técnicas agrícolas, da nutrologia e, até mesmo, o dinamismo da economia. Por trás da nossa pouco criativa ideia de cesta básica há um magnata do milho, um rei da soja, um coronel do arroz, um dono da carne seca, um imperador da sardinha, etc. O lado mais conservador do mercado certamente é o latifúndio. Já sabemos do esgotamento que as monoculturas trazem ao solo. Já temos consciência mais afiada sobre a escolha alimentar, levando em conta a saúde. Já temos maior domínio e previsão na distribuição. E, não obstante, faltam cores, sentido e, provavelmente, saúde nas nossas cestas.

São famosos alguns documentários que relatam o dia a dia de quem, para realizar um experimento, se alimentou semanas a fio somente de um tipo de comida, fast food, por exemplo. Os dados resultantes dessas experiências são alarmantes, no que diz respeito à nutrição. E se fizéssemos um experimento semelhante, mas em vez do fast food tivéssemos como protagonistas os itens da cesta básica, que não escapam da transgenia, dos agrotóxicos e do generalismo? Mas espere, se pararmos para pensar, esse experimento já está em curso, pois é desses gêneros que se alimenta grande parte da população brasileira que tem acesso aos alimentos mais baratos e ‘disponíveis’. Será que isso tem algo a ver com o fato de cerca de 23% da população brasileira apresentar, segundo pesquisa do IBGE de 2013, algum índice de insegurança alimentar? Isso significa que 52 milhões de pessoas no Brasil apresentam algum tipo de carência alimentar que impacta em seu desenvolvimento humano. 52 milhões de pessoas. Basta olhar para os itens clássicos da cesta e perceber que a maioria deles é péssimo para a alimentação nas quantidades em que se consome: óleo de soja transgênico; açúcar, arroz e farinha brancos; café repleto de veneno – tudo isso contribui certamente para um cenário de crise na saúde pública, com casos de desnutrição e obesidade multiplicando-se vertiginosa e simultaneamente, além de outros distúrbios e enfermidades mais graves. É preciso que a dieta básica seja repensada. É preciso que a cesta básica seja vista não preponderantemente como uma referência de valores econômicos, mas sim de valores nutricionais, culturais, ambientais e humanos.

veneno

Já existe algum empenho para se repensar esses valores, hábitos e consumo, para além da cesta básica e da política pública de segurança alimentar, instaurando o conceito de soberania alimentar. O SISAN (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), instituído em 2006 pela Lei nº 11.346, criou a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CNSAN), formado a partir de um Conselho, câmaras, instituições e órgãos compostos por representantes governamentais e pela sociedade civil organizada. Ainda que a implementação das deliberações da CNSAN seja lenta e pouco percebida pela sociedade em geral, seus debates, propostas e deliberações são profundos e, pensando nos entraves burocráticos, culturais e mercadológicos, chegam a parecer vanguardistas, diante da nossa sociedade atual, com seus padrões de alimentação e consumo em geral. Quando se lê um relatório da CNSAN, que se reúne a cada quatro anos para apresentar diretrizes e proposições para a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, é comum se deparar com a conscientização de que a Soberania Alimentar, mais do que a Segurança Alimentar, envolve e reconhece a necessidade do aleitamento materno, da produção livre de agrotóxicos e impactos ambientais (que o agronegócio toma como inevitável), do empoderamento feminino, da dieta adequada a necessidades de grupos, regionais e culturais. É preciso que esse termo e essa concepção – Soberania Alimentar, cunhado por movimentos da Via Campesina – sejam adotados pelas instituições e circule mais na sociedade como um todo, a fim de se contrapor ao cientificismo etnocêntrico da Segurança Alimentar, ainda regida, efetivamente, por cálculos que não levam em conta as diversidades socioculturais e biorregionais.

Agora a má notícia: o consumo alienado, não apenas dos gêneros alimentícios, não diminui, além de ampliar seus impactos nefastos na saúde das pessoas e na natureza, seja pela exploração (pecuarista e do agronegócio) desenfreada dos ecossistemas, seja pela produção catastrófica de resíduos ligados ao modo vigente de produção, distribuição e venda. Aqui temos uma pista, para não dizer evidência, do porque continua extravagante entre a maior parte da população a preocupação com uma alimentação consciente. Há uma articulação coesa entre a publicidade, o setor ruralista, os discursos predominantes da saúde e órgãos governamentais, apesar de uma roupagem progressista que alguns desses setores exibem. O “sustentável”, o “saudável” e o “nutritivo” foram rapidamente cooptados. As proposições de instâncias como o CNSAN são amplamente discutidas, mas estão longe de transpor as barreiras levantadas pela famigerada bancada ruralista, uma das principais interessadas na manutenção do status quo, para o melhor escoamento de suas produções monoculturais. Não é conspiratório demais notar o vínculo entre a indústria alimentícia, de agrotóxicos e a farmacêutica: vendem-nos as doenças e também as ‘curas’. A adesão massiva aos transgênicos, tornada política pública contrariou o princípio da precaução ao oferecer à população alimentos que ainda não foram comprovados como seguros. E tudo que é conveniente aos mega produtores e grandes empresários – além de ser o vigente – raramente é o mais conveniente ou mais benéfico para as pessoas. Só isso explica porque na cesta básica – bem como nas prateleiras dos mercados, onde ‘escolhemos’ – há o domínio do refinado, do polido, do quimicamente tratado, do prático, do global, do transgênico sobre o que é integral, orgânico, natural, regional, consciente. A cesta é básica, mas em redor há todo um pacote completo, complexo e transbordante de conveniências, interesses, poder e descaso.

A existência da cesta básica é uma forma de promoção de determinada política alimentar em larga escala, vinculada aos interesses vigentes de mercado e desvinculada da preocupação com a saúde humana. Deveríamos abrir uma ampla discussão sobre a composição dessa cesta, incluindo produtores locais, familiares e agroecológicos como fornecedores prioritários de seus itens. Dessa forma, alimentaríamos, verdadeira e simultaneamente, a saúde do solo, da Terra e das pessoas.