Revolução & Democracia — cem anos de busca

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Um século depois dos bolcheviques, superar o capitalismo parece mais necessário que nunca. E fazê-lo em bases radicalmente democráticas é, ainda, um desafio à procura de resposta

Por Eduardo Mancuso | Imagem: Ilya Kabakov

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Esta é a terceira e última parte de A Revolução Russa de Outubro de 1917, livro recém-lançado por Eduardo Mancuso. Historiador, colaborador editorial de Outras Palavras, ele soma, à militância de mais de trinta anos pelo socialismo democrático, a capacidade de refletir sobre esta luta, seus avanços e seus erros. Breve e pedagógico, o texto não cede, porém, às simplificações e dogmatismos. É uma provocação útil, tanto aos que querem começar a estudar a experiência soviética quanto a quem deseja rever as polêmicas que a marcaram

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TEXTO-MEIO

Restabelecer a democracia soviética

Como era possível opor-se eficazmente ao processo de burocratização na Rússia de 1920, um país isolado internacionalmente e destruído pela Guerra Mundial e pela guerra civil? Um país golpeado pela fome, com seu sistema de transporte desorganizado e uma classe operária reduzida a menos da metade do que era em 1917? Em tais condições materiais e sociais, reconhece Ernest Mandel, o imediato restabelecimento da democracia soviética, e inclusive a gestão operária, eram impraticáveis. Após a sobrevivência da revolução estar assegurada, graças a vitória do Exército Vermelho, a direção do partido e do Estado deviam priorizar o relançamento da produção, em especial da produção agrícola, e o restabelecimento do emprego. E assim foi feito, mesmo com o atraso provocado pelo “comunismo de guerra”.

Desde o início da Nova Política Econômica (NEP), em 1921-1922, com a retomada lenta da economia, o debilitamento numérico da classe operária havia sido interrompido e começava a recuperar-se nas grandes cidades. Para Mandel, nesse momento, a progressiva ampliação da democracia soviética poderia acelerar o restabelecimento social e político da classe operária, viabilizando um processo de repolitização da base social da revolução. Porém, ao reduzir de maneira autoritária e centralista aquilo que ainda subsistia em termos de democracia, os dirigentes soviéticos agravaram a despolitização do proletariado e do próprio partido. Essa situação, combinada com o isolamento provocado pela derrota da revolução europeia, foi determinante para a burocratização da Revolução de Outubro.

A democracia soviética foi definitivamente asfixiada quando proibiu-se os partidos soviéticos após a guerra civil, e não antes, quando a luta de vida ou morte contra os exércitos brancos estava em desenvolvimento. Mandel assinala o caráter paradoxal dessa situação: a democracia soviética foi cerceada depois da vitória definitiva dos bolcheviques, quando já nenhum exército branco ou estrangeiro atuava no território da Rússia dos Sovietes.

Segundo Mandel, as medidas então tomadas basearam-se na ideia de que, justamente em função da vitória na guerra civil, a mobilização revolucionária do proletariado decresceria (ela havia sido fundamental para derrotar a contrarrevolução). E de forma um tanto ilógica, para os bolcheviques esta desmobilização ameaçava o poder soviético, ao contrário de representar um desafio e uma nova condição favorável para a politização da sociedade. Naquele momento, restabelecer a democracia soviética não apenas era possível, mas era o caminho correto a seguir.

Rosa Luxemburgo, em seu texto de 1918 sobre a revolução na Rússia, em que reconhecia e aplaudia a ousadia histórica dos bolcheviques, lembrava que a revolução socialista e o início da construção da sociedade sem classes constituíam uma experiência totalmente nova. Não havia nenhum manual de regras previamente estabelecidas para ser consultado. A revolução russa foi um imenso laboratório histórico, ao mesmo tempo emancipador e dramático. A única maneira de avançar era experimentando e tateando. Nesse sentido, somente a prática pode demonstrar se uma decisão política ou uma simples medida concreta é correta ou equivocada. Todo enfoque dogmático, que parta de esquemas preestabelecidos, resulta contraproducente (como resulta contraproducente, aliás, toda orientação puramente pragmática). Ambos os enfoques, dogmáticos ou pragmáticos, são reducionistas, e costumam elidir as grandes decisões políticas estratégicas.

A revolução necessita de maneira vital da democracia pluralista, do pluripartidarismo, de uma vida política ativa, do direito de crítica e de intervenção pública das massas. Porque se a revolução e o início da construção de uma sociedade sem classes são um imenso laboratório, os erros são inevitáveis: resulta vital dispor de mecanismos que permitam não evitar os erros – o que é impossível – mas sim corrigi-los o mais rápido possível e depois tentar evitar a sua repetição. Mandel lembra que o próprio Lenin ressaltava que a forma como um partido se comporta frente a seus próprios erros condiciona seu futuro. E é nesse contexto histórico que a democracia soviética adquire todo o seu valor. Os exemplos da Comuna de Paris e da Revolução de Outubro demonstram as possibilidades históricas da democracia radical dos “de baixo”, do “governo do povo, pelo povo e para o povo”, de seu potencial político e de sua carga utópica. Esses exemplos históricos revolucionários continuam presentes e atuais.

A legitimidade da Revolução de Outubro

Após a vitória bolchevique, tanto a direita liberal e a reação imperialista e conservadora como a social-democracia internacional atacaram violentamente a Revolução de Outubro. Alguns, afirmando que se tratava de um golpe de Estado; outros, de que só havia semeado destruição, e até mesmo que era expressão da “barbárie asiática”. Nada mais distante da realidade. Considerando a perspectiva marxista crítica de Ernest Mandel, a revolução política e social dirigida pelos bolcheviques, baseada na democracia dos conselhos de operários, soldados e camponeses, contou com o apoio manifesto da maior parte do proletariado e do povo russo e expressou, melhor do que qualquer outra corrente política naquele momento histórico dramático, o desejo das massas da Rússia e da Europa de encerrar a carnificina imperialista (capitalista e ocidental) da Primeira Guerra Mundial.

Além de ser o único partido a defender a paz imediata e sem anexações, o bolchevismo de Lenin e Trotsky encarnou, na teoria e na prática, o internacionalismo dos povos contra a opressão nacional, a revolução agrária que distribuiu terra para os camponeses, a democratização da educação e da cultura para as massas russas. Aliás, sobre o tema da cultura, o historiador Beryl Willians destaca que, no final de 1918, já havia três vezes mais museus que antes da revolução.

 A combinação de experimentações em matéria de arte e de intensos debates intelectuais sobre questões culturais deu origem a um período de vigor artístico e sonhos utópicos nos anos de revolução e guerra civil.[1]

As inúmeras e relevantes vanguardas estéticas surgidas em meio ao redemoinho da revolução de Outubro atestam isso, e têm seu lugar assegurado na história da arte mundial. Com Anatole Lunacharsky como Comissário do Povo para a Educação e Cultura, durante os primeiros anos da revolução russa, o desenvolvimento e a qualidade do teatro e do cinema, da pintura e da escultura de vanguarda, do urbanismo e da arquitetura, da psicologia, da análise de conjuntura econômica e da historiografia, bem como da literatura e da poesia, realmente impressionaram  o mundo.

A revolução empreendeu um imenso esforço de alfabetização e expansão da educação. O orçamento da educação, aumentado pela revolução de fevereiro, foi triplicado pelos bolcheviques em 1918 e novamente triplicado em 1919. O número de escolas primárias cresceu de 38.387, em 1917, a 52.274 em 1918, e para 62.238 em 1919. A educação pré-escolar, praticamente inexistente sob o czarismo, alcançou a 200 mil crianças em 1921.[2]

171018-MancusoCapaAo proibir a venda de álcool, a revolução praticamente eliminou a embriaguez nas grandes cidades, como atestam diversos testemunhos. Quando se sabe o grau em que o alcoolismo golpeava a Rússia antes de Outubro (e continua golpeando ainda hoje), pode-se avaliar a importância para a saúde pública dessa medida (revertida mais tarde por Stalin, com a implantação do monopólio estatal da venda de álcool).

Em 1918-1919 as obras de clássicos da literatura como Puschkin, Gogol, Tolstoi, Turgueniev, Dostoievski, Zola, Anatole France, Walter Scott, Romain Rolland e de teóricos social-democratas como Jean Jaurés, inclusive de adversários da Revolução de Outubro (como Plekhanov e Kautsky), alcançavam tiragens que variavam de 25 mil a 100 mil exemplares (isso em plena guerra civil!).[3]

Ao mesmo tempo, a revolução iniciou um trabalho de resgate e de pesquisa dos clássicos do pensamento marxista, fundando o Instituto Marx-Engels, sob a direção do historiador comunista Riazanov. Também impulsionou-se uma formidável participação das massas na vida cultural. Mandel cita o célebre filme O Encouraçado Potenkin, de Serguei Eisenstein, que envolveu milhares de populares em sua rodagem.

Para exemplificar o sentido histórico e as esperanças utópicas despertadas pela Revolução de Outubro, Mandel recorre ao testemunho de um autor ferozmente antibolchevique, Leonard Shapiro, que recorda seus momentos em finais de 1920, quando era um jovem habitante de Petrogrado:

 A vida era extraordinariamente dura. O nível de alimentação se aproximava da fome […]. E no entanto, minhas recordações, indubitavelmente influenciadas pelos adultos que me rodeavam, são os de entusiasmo e de exaltação. [Essa] vida nova, de esperança, anunciava um grande futuro. Ape sar das privações e da brutalidade do regime, o sentimento de euforia suscitado pela queda da monarquia, em março de 1917, ainda não estava morto.[4]

Após a Revolução dos Sovietes, a fusão do partido bolchevique com o Estado representou o retorno a uma concepção tradicional do poder político, na contramão dos interesses dos trabalhadores, do movimento socialista e do próprio pensamento marxista clássico. Como disse o filósofo Alain Badiou, na Revolução Russa de Outubro de 1917, a organização revolucionária acabou se fundindo ao Estado e, assim, a ideia comunista de emancipação foi engolida e devorada pelo poder político.

Nos dias atuais, de crise sistêmica da civilização capitalista, a experiência histórica do “socialismo real” certamente está encerrada, mas a atualidade da utopia democrática e internacionalista, representada pela Revolução de Outubro, permanece viva no horizonte da humanidade. E a disjuntiva histórica que está colocada pode ser resumida nas palavras de Ernest Mandel:

 [. . .] a barbárie, como resultado possível do afundamento do sistema, é uma perspectiva muito mais concreta e precisa hoje do que foi nos anos 1920 e 1930. Inclusive os horrores – de Auschwitz e de Hiroshima – parecerão mínimos em comparação com os horrores que a humanidade deverá afrontar durante a contínua decrepitude do sistema. Nessas circunstâncias, a luta por uma saída socialista adquire o significado de uma luta pela sobrevivência da civilização humana e do gênero humano.[5]

 

Glossário

Anarquistas: Corrente revolucionária com importante tradição na Rússia, que remonta ao século 19 e teve em Bakunin e no príncipe Kropotkin seus maiores expoentes, e que vai colaborar com os bolcheviques no período inicial da Revolução de Outubro, mas depois volta-se para a oposição ao novo poder. O líder camponês Makhno foi o dirigente anarquista mais conhecido durante a revolução.

Assembleia Constituinte: Assembleia de representantes eleitos que têm a tarefa de discutir e votar a Constituição do país. A necessidade de uma Constituinte impõe-se na Rússia a partir da revolução de fevereiro de 1917. Porém, quando finalmente se reúne, após muitos adiamentos, sua legitimidade é duplamente questionada. Como seus membros são eleitos antes da Revolução de Outubro, mas apenas se reúnem depois, sua constituição não refletia a experiência da revolução e a profunda alteração na correlação de forças ocorrida — política e social. Assim, a Assembleia Constituinte acaba por se confrontar com a nova legitimidade do Congresso dos Sovietes, e será dissolvida pelo governo revolucionário em janeiro de 1918.

Auschwitz: Nome do local, na Polônia, onde os nazistas constroem um dos principais campos de concentração, em funcionamento entre 1940-1945, e onde morrem quatro milhões de prisioneiros, sobretudo judeus e poloneses.

Austro-marxismo: Corrente marxista austríaca, particularmente forte antes da Primeira Guerra Mundial. Max Adler, Rudolf Hilferding, Karl Renner e Otto Bauer foram seus principais expoentes, políticos e teóricos. Em 1918-1919 defendem a “teoria da revolução lenta” e se opõem a conquista do poder pelo movimento socialista.

Bakunin, Mikail (1814-1876): Revolucionário anarquista russo, contemporâneo de Marx, foi o tradutor da primeira edição russa do Manifesto Comunista e membro da Primeira Internacional.

“Brancos”: Termo utilizado para designar os contrarrevolucionários, em oposição aos “vermelhos”.

Brest-Litovsk: Cidade da Bielorussia (antigamente polonesa) onde, entre o final de 1917 e o início de 1918, desenrolaram-se as negociações entre o poder soviético e o bloco alemão para uma paz em separado.

Bolchevique: Termo originado da palavra russa “maioria”. Denominação da corrente dirigida por Lenin a partir do II Congresso (1903) do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), filiado à Segunda Internacional. Em 1912 constitui-se em partido independente, em 1917 dirige a Revolução de Outubro e, em 1918, adota o nome de Partido Comunista.

Bukharin, Nikolai (1888-1938): Membro do Comitê Central bolchevique em 1917, era próximo de Lenin e um dos mais brilhantes teóricos do partido. Em 1918 opõe-se ao tratado de Brest-Litovsk, animando o grupo dos “comunistas de esquerda”. Defensor da NEP e dirigente da Internacional Comunista durante os anos 1920, enfrenta Stalin no período da “coletivização forçada” no campo, é afastado da direção e depois liquidado sem piedade nos Processos de Moscou.

Cadete (KD): Corrente liberal, “constitucionalista-democrata”, em fevereiro de 1917 constitui-se como o principal partido burguês e forma o Governo Provisório, depois da queda do czar.

Comunismo de guerra: Nome da política econômica de comando adotada durante a guerra civil (1918-1921), caracterizada pelo espírito igualitário, a estatização radical e por medidas excepcionais, como as requisições forçadas de alimentos entre os camponeses, para alimentar as cidades e o Exército Vermelho.

Congresso de Baku dos Povos do Oriente: O primeiro Congresso dos Povos do Oriente realizou-se em Baku, Azerbaijão, em setembro de 1920, e reuniu dois mil delegados (entre eles 55 mulheres) dos quais dois terços eram comunistas de quarenta nacionalidades, principalmente turcos, persas, russos e povos do Cáucaso e da Ásia Central (armênios, georgianos, uzbeques, curdos, tadjiques, chechenos, inguches etc).

Cossacos: Designa as comunidades guerreiras que nos séculos 15 e 16 resistiram aos conquistadores (tártaros, turcos) estabelecidos ao longo dos rios Don e Dnieper. Derrotados pelos russos, os sobreviventes formam corpos de guarda enviados às fronteiras do império, como guarda pessoal do czar e forças de cavalaria para repressão interna. Alimentam parte dos exércitos brancos na guerra civil, mas também houve setores que se aliaram aos bolcheviques e aos anarquistas (Ucrânia).

Czar: Palavra russa que designa soberanos eslavos, entre outros o imperador da Rússia.

Dan, Teodoro (1871-1947): Dirigente da social-democracia russa, porta-voz da corrente menchevique a partir de 1903. Pacifista durante a guerra. Em 1917 une-se à ala direita do menchevismo e opõe-se à Revolução de Outubro. Exilado em 1922, foi autor, junto com Martov, da História da socialdemocracia russa.

Dzerzhinsky, Felix (1877-1926): Militante da social-democracia russa e polonesa, passa onze anos nas prisões czaristas. Libertado após a revolução de fevereiro, integra o Comitê Central do partido bolchevique desde agosto de 1917 até a sua morte. Fundador da Tcheka, foi também Presidente do Conselho de Economia Nacional.

Governo Provisório: Denominação dos vários governos burgueses que sucederam a revolução de fevereiro de 1917. Após a Revolução de Outubro, adotou-se o nome de “Governo provisório de operários e camponeses”.

Guerra civil: Guerra generalizada provocada em 1918 pelas forças contrarrevolucionárias nacionais e internacionais para derrubar o poder soviético, provocou centenas de milhares de mortes e só foi encerrada em 1920-1921, com a vitória bolchevique, graças à resistência popular e ao Exército Vermelho.

Guerra russo-polonesa: Guerra deflagrada pela invasão polonesa ao território russo entre maio-setembro de 1920, leva ao contra-ataque do Exército Vermelho, que chega até as portas de Varsóvia.

Império Russo: Império constituído do século 10 até o início do século 20, estendia-se da Europa Oriental até as fronteiras da Turquia, Mongólia e China, e do mar Báltico à Sibéria. O Império russo dominava etnias e nacionalidades diversas, incluindo populações muçulmanas ao sul e sociedades industrializadas e católicas como a Polônia. Depois da Revolução de 1917, o antigo império transforma-se na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Internacional, I: Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1876). Marx e Engels participaram ativamente de sua construção, exercendo papel importante em sua direção política e na elaboração programática da primeira organização internacionalista da classe trabalhadora.

Internacional, II: Internacional Socialista, fundada em 1889. Sofre uma profunda divisão em 1914, quando a maioria dos partidos social-democratas capitula diante da guerra imperialista. Será reconstituída na década de 1920.

Internacional, III: Internacional Comunista, fundada em 1919. Lenin e Trotsky dirigem seus primeiros quatro congressos, até 1922. No final dos anos 1920, e durante a década de 1930, transforma-se em instrumento político e diplomático da burocracia stalinista da União Soviética.

Internacional, IV: Fundada em 1938 por Trotsky, resgata as bases teóricas e programáticas dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista e da Oposição de Esquerda antiestalinista.

Jaurés, Jean (1859-1914): Dirigente da II Internacional, deputado e principal representante do socialismo humanista francês, foi assassinado por suas posições pacifistas contra a Primeira Guerra Mundial.

Kamenev, Lev (1883-1936): Um dos principais dirigentes bolcheviques, muito próximo a Lenin. Detido em 1914, é libertado pela revolução de fevereiro de 1917. Opõe-se à orientação de Lenin em abril de 1917, e depois contra a decisão da insurreição em outubro. Nos anos 1920 segue sendo um dos principais dirigentes do Partido Comunista da União Soviética e da III Internacional. Primeiramente, constituindo a chamada Troika, o triunvirato com Stalin e Zinoviev. Em 1926, com Zinoviev e Trotsky, forma a Oposição Unificada contra Stalin. Foi liquidado durante os processos de Moscou.

Kautsky, Karl (1854-1938): Colaborador e executor testamentário de Engels. Principal teórico da social-democracia alemã e da II Internacional até a Primeira Guerra Mundial (situando-se então na ala de centro-esquerda), influenciou teoricamente a Lenin até a ruptura de 1914, opondo-se, depois, à revolução russa.

Kerensky, Alexandre (1881-1970): Advogado e principal dirigente da corrente trabalhista, em 1917 assume no Governo Provisório como Ministro da Justiça, depois Ministro da Guerra e, a partir de julho, como Primeiro-Ministro. Reprime o movimento revolucionário e, após Outubro emigra para a Inglaterra, depois França e Estados Unidos.

Kolontai, Alexandra (1872-1952): Revolucionária e feminista marxista, integrante do POSDR em 1899, adere aos bolcheviques, primeiro, mas depois participa da corrente menchevique até 1914. Internacionalista durante a guerra, volta ao bolchevismo em 1915, e entra no Comitê Central do partido em agosto de 1917. Comissária de Saúde do governo dos Sovietes e porta-voz da corrente interna Oposição Operária entre 1920-1922. Sob o regime stalinista afasta-se politicamente e assume apenas funções diplomáticas.

Kornilov, (1870-1918): General do alto oficialato do exército czarista. Nomeado Comandante em Chefe em julho de 1917, tenta organizar um Golpe de Estado, mas é derrotado. Forma um “Exército Voluntário” no início da guerra civil.

Kun, Bela (1885-1937): Revolucionário húngaro, torna-se bolchevique quando é prisioneiro de guerra na Rússia. Chefe da República Húngara dos Conselhos em 1919, emigrado após a derrota da revolução, torna-se dirigente da Internacional Comunista e apoia Stalin, mas acaba liquidado pelo regime stalinista.

Lenin, Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924): Dirigente da corrente bolchevique a partir de 1903 e um dos principais integrantes da esquerda da II Internacional. Principal líder da revolução russa de outubro de 1917, do partido comunista e da III Internacional, até sua morte.

Leninismo: Terminologia adotada após a morte de Lenin. Designa o corpo teórico, a doutrina e a prática política personificada pelo maior revolucionário do século 20.

Lunacharsky, Anatole (1875-1933): Crítico literário e de arte, bolchevique desde 1903, se afasta de Lenin em 1908 e se aproxima do menchevismo. Autor de Religião e Socialismo. Internacionalista durante a guerra, membro da organização Interdistrital de Trotsky, em 1917 retorna ao partido bolchevique antes da revolução. Comissário do Povo para a Educação e Cultura de 1917 a 1929.

Luxemburgo, Rosa (1870-1919): Revolucionária e teórica marxista polonesa, assume um papel importante na luta contra o reformismo e o revisionismo na social-democracia alemã. Conhecida por seus estudos sobre o imperialismo e as críticas que formula ao leninismo (sobre a questão do partido, assim como, no caso da revolução russa, sobre a questão agrária e a democracia). Internacionalista, durante a guerra é encarcerada, sendo liberada em 1918. Rompe politicamente com a social-democracia, forma o partido comunista (espartaquista), é assassinada na primeira fase da revolução alemã.

Makhno, Nestor (1889-1934): Anarquista, depois da Revolução de Outubro organiza um exército de camponeses e cossacos no sul da Ucrânia. Alia-se ao Exército Vermelho contra Denikin (1919) e Wrangel (1920). Esta aliança acaba após a derrota dos exércitos brancos. Refugia-se na Romênia e depois em Paris.

Martov, Julio (1873-1923): Dirigente do POSDR e amigo de Lenin. A partir de 1903, representa a ala esquerda da corrente menchevique. Líder dos “mencheviques internacionalistas” durante a guerra, adota uma posição “centrista” diante da questão da revolução socialista e a tomada do poder em outubro de 1917. Dá apoio crítico ao regime soviético durante a guerra civil, mas em 1920 abandona a Rússia.

Marx, Karl (1818-1883): Elabora, com Engels, as bases do materialismo histórico. Teórico e militante do movimento operário comunista. Fundador da I Internacional. Nos anos de 1880, Marx compreende que a Rússia, mesmo nas condições prevalecentes no final do século 19, poderia iniciar a transição socialista sem passar por uma etapa histórica de desenvolvimento capitalista (sendo que a concretização desta virtual possibilidade dependeria do curso da luta de classes nacional e internacional). Dessa forma, opõe-se às interpretações mecanicistas de sua teoria e às concepções unilineares da história mundial das sociedades humanas.

Menchevique: Minoria, em russo. Corrente social-democrata reformista do POSDR, constituída em 1903, em oposição ao bolchevismo. Durante a guerra mundial divide-se entre uma corrente “menchevique internacionalista” (Martov) e a ala majoritária, favorável à intervenção militar contra a Alemanha (Plekhanov). Em 1917, a corrente menchevique divide-se entre uma ala de colaboração de classe, majoritária (Dan), e uma cisão de esquerda (Martov), mas ambas opõem-se, em graus variados, à Revolução de Outubro.

NEP: Sigla em russo de Nova Política Econômica, iniciada em 1921. Representa uma profunda ruptura com a economia de comando do comunismo de guerra. Libera o mercado e a produção camponesa, favorece o desenvolvimento da pequena indústria privada e abre-se ao investimento de capital estrangeiro.

Oposição Centralismo Democrático: Grupo de oposição no IX Congresso do partido comunista (bolchevique), denuncia a centralização excessiva e o abuso nos métodos autoritários.

Oposição de Esquerda: Oposição antiestalinista (antiburocrática), também chamada “bolchevique-leninista”, formada por Trotsky em 1923. Em 1929, após a expulsão de Trotsky da União Soviética, torna-se Oposição de Esquerda Internacional e, em 1938, funda a IV Internacional.

Oposição dos Comunistas de Esquerda: Grupo formado em torno a Bukharin no início de 1918, contrário a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk. Propõe um programa “sem concessões”, de continuação da “guerra de defesa revolucionária”, a extensão das nacionalizações e a centralização do controle no domínio econômico, além do reforço do poder das estruturas soviéticas de base.

Oposição Operária: Grupo de oposição no partido formado em 1920, com a liderança de Alexandra Kolontai. Defende o controle da produção por parte dos sindicatos, expressa uma visão “obreirista” do partido e reclama o retorno do princípio da eleição para todos os responsáveis e cargos.

Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR): Fundado em 1898, reagrupa todas as correntes revolucionárias e reformistas que reivindicam o marxismo, integrando a II Internacional. No congresso de 1903 divide-se em duas frações: bolchevique (Lenin) e menchevique (Martov). A revolução de 1905 as reunifica, mas em 1912 dividem-se formalmente em dois partidos. Em 1917, vários quadros e personalidades independentes, inclusive Trotsky, unem-se ao partido bolchevique, que em 1918 converte-se em PCUS.

Plekhanov, George (1858-1937): Intelectual e filósofo da primeira geração do POSDR, fundador da II Internacional, introduz o marxismo na Rússia. Dirigente menchevique a partir de 1904, adota uma posição ultrapatriótica durante a Primeira Guerra Mundial. Opõe-se à Revolução de Outubro por considerá-la “historicamente prematura”.

Populismo: Principal corrente revolucionária na Rússia do século 19. Engloba movimentos e orientações diversas (incluindo o trabalho de organização rural e urbano, a propaganda e atentados contra altos funcionários e ao próprio czar). O marxismo russo se constituirá polemizando com as orientações políticas do populismo. A corrente populista marca a tradição radical russa, influenciando, no começo do século 20, o Partido Socialista Revolucionário.

Primeira Guerra Mundial (1914-1918): Chamada de “Grande Guerra” até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Primeiro grande conflito militar interimperialista pela repartição do mundo. Opõem os “Impérios Centrais” (Alemanha e Áustria-Hungria) e seus aliados contra a “Entente” franco-inglesa e seus aliados (entre eles o Império Russo e os Estados Unidos). Termina com a derrota dos Impérios Centrais e milhões de mortos.

Processos de Moscou: Sucessão de processos políticos organizados entre 1936 e 1938 na URSS, em que a fração stalinista lança acusações inverossímeis contra a maioria dos dirigentes leninistas da Revolução de Outubro, apresentando-os como contrarrevolucionários e agentes de potências imperialistas. Através dos processos, Stalin busca eliminar fisicamente e desmoralizar toda a oposição interna no seio do PCUS e do Estado Soviético.

Reich: Palavra alemã que significa império. Utilizada para designar o Estado alemão durante três regimes políticos: Primeiro Reich ou Santo Império Romano-Germânico (962-1806); Segundo Reich (1871-1918), estabelecido por Bismark; Terceiro Reich (1933-1945), hitlerista.

República de Weimar: Regime estabelecido na Alemanha em novembro de 1918, após a abdicação de Guilherme II, com a participação de social-democratas. Depois de reprimir a revolução alemã, o regime de Weimar mostra-se incapaz de superar a crise econômica e social e, com a chegada de Hitler ao poder, em 1933, entra em colapso e a partir daí, inicia-se a ditadura nazista.

República Socialista Federativa dos Sovietes da Rússia: Fundada em janeiro de 1918 pelo Terceiro Congresso Panrusso dos Sovietes.

Revolução alemã: Trata-se das lutas revolucionárias que sucedem-se na Alemanha de 1918 a 1923.

Revolução francesa: Trata-se do longo processo da revolução burguesa ocorrido na França entre 1789-1815, especialmente de seus primeiros anos mais radicais (1789-1794). As principais etapas da revolução francesa são a derrubada do antigo regime e a proclamação da República, em 1792; o governo dos jacobinos de Robespierre, entre 1793-1794; o “thermidor” de 1794; o regime do Diretório, de 1795-1799; e a ditadura de Napoleão Bonaparte, entre 1799-1815.

Revolução de Outubro: Trata-se da revolução russa de outubro de 1917 e de seus primeiros anos.

Revolta de Kronstadt: Trata-se da sublevação, em março de 1921, dos marinheiros da fortaleza militar de Kronstadt, no porto do mar Báltico, contra o poder bolchevique. O fracasso das negociações leva ao esmagamento da rebelião pelo Exército Vermelho, com grandes perdas de vidas para ambos os lados.

Rússia: Centro de um vasto império, entre os séculos 10 e 20, dominado pelo czarismo. Grande potência europeia (e asiática: Sibéria). A partir da revolução francesa, torna-se guardiã da ordem no continente europeu, junto com a Alemanha imperial. Cenário da revolução de 1917, torna-se o centro do regime burocrático da URSS, até sua dissolução, em 1991.

Riazanov, David (1870-1938): Historiador marxista e militante socialista russo, nega-se a optar por alguma das grandes frações do POSDR. Internacionalista durante a guerra, membro da organização de Trotsky, a Interdistrital, une-se aos bolcheviques em 1917. Partidário da colaboração com os mencheviques depois de outubro. Fundador e diretor do Instituto Marx-Engels até 1930, desaparece durante os processos stalinistas.

Serge, Victor (1890-1947): Revolucionário e escritor belga, filho de um intelectual russo exilado, passou pela militância anarquista, comunista até a dissidência com a Oposição de Esquerda, nos anos 1920, e o exílio. Autor de Memórias de um revolucionário, O ano I da revolução russa e Vida e morte de Trotsky.

Social-democrata: O termo designava, antes da Primeira Guerra Mundial, a corrente marxista em seu conjunto e diversidade, incluindo socialistas reformistas e revolucionários.

Socialista-revolucionário: Partido membro da II Internacional, constitui o prolongamento da tradição do populismo russo do século 19. Hegemônico no movimento camponês, existia também nos centros urbanos. Participa da revolução de fevereiro de 1917 e da política de colaboração de classe com o Governo Provisório. Durante o verão divide-se em uma ala esquerda, revolucionária, enquanto a ala direita participa da oposição contra a Revolução de Outubro. Os SR de esquerda participam do governo dos Sovietes até a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, ao qual denunciam como uma traição. Organizam, em julho de 1918, um levante contra os bolcheviques.

Soviete: Termo russo que significa “conselhos”, refere-se às estruturas de auto-organização surgidas na revolução de 1905 e depois, em 1917. Os conselhos de operários, camponeses e soldados, formados a partir da eleição de representantes com mandatos revogáveis pela base, tomaram toda a Rússia, das fábricas e cidades, até as áreas rurais e as forças armadas. Perdem vitalidade e dinâmica política durante a guerra civil. A burocracia stalinista acaba despojando os Sovietes de toda sua representatividade democrática e poder real.

SPD: Partido Social-democrata alemão, fundado em 1891, herdeiro do partido operário surgido da fusão entre as correntes lassalianas e marxistas. Até a Primeira Guerra Mundial era o principal partido da II Internacional, mas após apoiar a guerra imperialista e participar dos governos que reprimiram a revolução alemã, converte-se em partido reformista. Participa com destaque da rearticulação da Internacional Social-democrata após a guerra.

Stalin, Josef (1879-1953): Georgiano, adere ao POSDR em 1898, torna-se bolchevique em 1903. Pertence à ala leninista do partido, mas adota uma política conciliadora frente ao Governo Provisório. Adere às posições de Lenin, expressas nas teses de abril, integra o Comitê Central bolchevique em 1917. Comissário das Nacionalidades de 1919 a 1923, Secretário do Comitê Central a partir de 1922, choca-se violentamente com Lenin na questão das nacionalidades e do regime interno do partido. A partir de 1924, torna-se o principal dirigente do PCUS e do Estado Soviético. Preside a coletivização forçada no final dos anos 1920, os expurgos e os processos repressivos dos anos 1930. Personifica o processo de deformação burocrática do partido e do regime e, finalmente, a sua degeneração totalitária.

Tcheka: Comissão Extraordinária, polícia política do regime soviético.

Termidor: Termo originalmente usado para denominar a contrarrevolução política ocorrida durante a revolução francesa, a partir de julho de 1794 (“thermidor” no calendário da época), com a derrubada de Robespierre e o desmantelamento das formas de poder popular e democráticas nascidas durante os levantes contra o antigo regime. Por analogia, o “thermidor soviético” designa a contrarrevolução stalinista que vai liquidar a democracia socialista e instaura a ditadura burocrática, sem contudo restaurar o capitalismo na URSS.

Trotsky, Leon (1879-1940): Participa do congresso do POSDR de 1903 e polemiza contra as teses de Lenin sobre o partido, adotando postura independente em relação às duas grandes frações internas. Um dos principais representantes da revolução de 1905 (presidindo o Soviete de São Petersburgo). Entre 1910-1912 busca conciliar as frações menchevique e bolchevique. Internacionalista durante a guerra, rompe definitivamente com os mencheviques. Em 1917, unifica a sua organização Interdistrital com os bolcheviques, integrando o Comitê Central, e coordenando o Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado, responsável pela tomada do poder em outubro. Chefe da delegação soviética nas negociações de Brest-Litovsk, organizou e chefiou o Exército Vermelho durante a guerra civil. Opõe-se a Stalin e ao processo de burocratização do regime depois da morte de Lenin. Expulso do partido e da Internacional Comunista, em 1927, e da União Soviética, em 1929, organiza a Oposição de Esquerda no exílio e funda a IV Internacional. Assassinado pelo stalinismo no México.

União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS): Fundada em 1923, formalmente dissolvida em 1991 e substituída pela Comunidade de Estados Independentes.

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[1] Willians, B.. op. cit, p. 80.

[2] Morizet, A. in Mandel, E. op. cit., p. 43.

[3] Morizet, A. in Mandel, E. op. cit., p. 44.

[4] Shapiro, L., op. cit., p. 219.

[5] Mandel, E. Marx, K., O Capital, livro III. Penguin, 1981, p. 89.

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Eduardo Mancuso

Historiador e membro do comitê local de Porto Alegre do Fórum Social Mundial.