O uso do dinheiro revela a alma

Dinheiro

Moeda é presença inevitável na vida em sociedade. Vencer seu poder é olhá-la de frente, como o que ela de fato é: um instrumento, um objeto, que tem o sentido que lhe damos 

Por Débora Nunes | Imagem: Patrick Kramer, Medindo Valor, 2014

Um dos motivos da adoração ao dinheiro é seu poder de evitar frustrações. Quem tem dinheiro pode ter “tudo” o que deseja – materialmente – e assim não precisa priorizar, frustrar desejos. O dinheiro também traz descanso: paga serviços, bens e situações que evitam trabalho e permitem “curtir a vida”.  Mas a liberdade de escolha e o conforto que o dinheiro permite é apenas um componente do seu fascínio: a alma quer mais.

A promessa de aprovação social que o dinheiro oferece favorece o reconhecimento que cada ser humano busca. É fato que as pessoas tentam, por diferentes meios, conseguir reconhecimento: a maioria tenta ser útil, trabalha no que lhe cabe buscando mostrar seu mérito, tenta ser bom pai, mãe, filho, amigo, colega de trabalho, etc., confiando colher amor e respeito de si mesmo e dos outros. O dinheiro desestabiliza a equação social. Como poderoso motor de reconhecimento, particularmente numa sociedade consumista, ajuda a criar uma imagem pública favorável até para quem não tem mérito e o usa para criar a desejada admiração pública.

TEXTO-MEIO

Pode-se imaginar que quando uma pessoa obtém dinheiro por algo meritório – um serviço profissional bem feito, por exemplo – ela se sinta reconhecida pela própria atividade exercida e tenha menor necessidade de reconhecimento público pela exibição de poder econômico. Nessa linha, seria exagerado dizer que o apego excessivo ao dinheiro e mesmo a exibição pública da riqueza estaria mais presente naqueles que não têm outros merecimentos para serem reconhecidos? Ou que, intimamente, duvidem de seu próprio valor? Nestes casos, o dinheiro pode facilmente virar uma prisão, ao invés de um instrumento de liberdade de escolhas.

O uso do dinheiro é um revelador da alma: desprendida ou apegada; cuidadosa consigo e com os outros, ou controladora das pessoas ao redor. Do mesmo modo que as compras sem fim são sinal evidente de frustrações da alma, o dinheiro também pode ser uma força de vida e justiça, quando usado para serviços honestos e comprar produtos que fazem bem a si, a quem se ama, à Natureza e ao mundo.

Para aqueles que querem uma existência plena, não é possível ignorar como o dinheiro lhes afeta, nem desconhecer que ele é também uma metáfora de poder.  A alma, ou a consciência de cada um, não quer subterfúgios, não quer vender ilusões a si mesma ou aos outros. Ao invés de execrá-lo, talvez a melhor forma de vencer o poder do dinheiro seja simplesmente olhá-lo de frente, como o que ele de fato é: um instrumento, um objeto, que tem o sentido que lhe damos. Como diz a música de Frejat “desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também… E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem…”.

 

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.
Débora Nunes é arquiteta,doutora em Urbanismo, com pós doutorado em Extensão Universitária pela Universidade Lumière Lyon II (2008) e em História das Cidades e Cidades do Futuro pela Bangalore University, India (2015). É coordenadora da Escola de Sustentabilidade Integral e professora titular da Universidade do Estado da Bahia, no Curso de Urbanismo. Autora dos livros Os Novos Coletivos Cidadãos (2014), com Ivan Maltcheff; Incubação de Empreendimentos de Economia Solidária (2009) e Pedagogia da Participação - Trabalhando com Comunidades (2002 e 2006).

Latest posts by Débora Nunes (see all)