É sempre hoje

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Perdoem-me os que esperam passivamente o futuro e os ressentidos, presos ao passado. Opto pelo concreto: a música, o teatro, os saltos de asa delta. Um bloco de carnaval, um orgasmo

Por Maria Bitarello | Imagem: Morte e vida, Gustav Klimt, 1910

Robert Pirsig abre o posfácio da edição que eu tenho do livro “Zen e a arte de manutenção de motocicletas” contando que, na Grécia Antiga, a noção de tempo era a inversa da que conhecemos hoje no Ocidente. Ou seja, caminha-se para o futuro de costas, pois o futuro é desconhecido. E o passado está à nossa frente, aquilo que podemos ver. Não sei você, mas eu acho essa percepção do tempo bem mais fidedigna ao que experimentamos empiricamente na vida do que a ideia de que o futuro está adiante e o passado, atrás. Do passado sabemos – ao menos uma parte –, embora a memória seja uma faculdade criativa sempre em construção, alterando sem cessar nossa percepção do que passou. E o futuro, quem sabe dele?

Nós, humanos, passamos uma grandíssima parte de nosso precioso e finito tempo ocupados com um ou com outro. E o presente nos escapa. É dele que falam religiões e canções. Elusivo, é quase uma abstração. E, no entanto, é tudo o que há, de verdade. Passado e futuro é que são intangíveis, fazem parte do mesmo presente. Minhas projeções sobre o que ainda vem e minhas reminiscências do que já foi integram todas, comigo, meu corpo e mente do presente. Então é como o Zé Celso costuma dizer, é sempre hoje.

Na crônica “Lições de bichos e coisas”, Rubem Alves diz, muito melhor do que eu poderia explicar, que o mal-estar da civilização do qual sofremos é uma doença humana da qual os bichos não sofrem. Transcrevo aqui um trecho: “[Os bichos] Sofrem, pois não existe vida sem sofrimento. Mas sofrem sempre como se deve, quando o sofrimento vem, na hora certa, e não por antecipação. Saber sofrer é uma lição difícil de aprender. Se o terrível nos golpeia e não sofremos, algo está errado. (…) Pois como não chorar, se o destino nos faz sangrar? Se não choramos é porque o coração está doente, perdeu a capacidade de sentir. Mas sofrer fora de hora é doença também, permitir-se ser cortado por golpes que ainda não aconteceram e que só existem como fantasmas da imaginação. (…) Os animais sabem sofrer. Nós não. Somos prisioneiros da ansiedade. Pois ansiedade é isto: sofrer fora de hora, por um golpe que, por enquanto, só existe no futuro que imaginamos (…) Sofremos pelo futuro e, por isso, não podemos colher as modestas mas reais alegrias que o presente nos oferece”.

Bonito isso, né?

Nossa inaptidão pro presente, como todos sabemos, nos traz desconfortos que são, antes de tudo, espirituais. E com razão. Ficar com a cabeça lá na frente é um desassossego, o que chamamos de ansiedade. E viver preso no passado, remoendo e cultivando fantasmas, o tal do ressentimento (re-sentir, sentir de novo). E o que há no meio, dizem, é a libertação, o que Buda alcançou. O que se arranha momentaneamente, apenas, através de uma música, de um espetáculo de teatro, de uma prática de yoga, de um salto de asa-delta, de um bloco de carnaval, de um orgasmo. Não ansiar nem ressentir. Só estar. É sublime. E passageiro.

TEXTO-MEIO

Entre o passado e o futuro, acho mais sofrida a dedicação de tempo e energia ao futuro. O pensamento sempre dinâmico, pezinhos que não param de balançar, pelinhas em volta das unhas que vão sendo arrancadas com os dentes, gastrites e, em estágios mais avançados, falta de ar, ataques de pânico. O passado, visto que já foi vivido, nos dá um pequeno alento pois é território livre pra criações da fantasia, mas com o bônus de não nos pregar mais surpresas como o futuro. Há o risco do remorso e do arrependimento, mas em cima dos fatos vividos podemos construir narrativas. E logo, ficções. É a partir delas que forjamos nossa identidade, nossa história, quem somos.

Kierkegaard diz que “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Talvez por isso eu escreva, pra dar algum sentido pra bagunça que vejo na minha frente, ou seja, no passado, enquanto caminho pro futuro de costas, como os gregos. Tentando não torcer por maravilhosas surpresas nem temer o inesperado tenebroso. Pois, em teoria, sabemos que nenhum dos dois será o presente real, quando o presente chegar. Sabemos que os devaneios são muito melhores e também muito piores. E viver essa sabedoria na carne é nossa terrena finalidade nessa humana aventura.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com