Conto e ouço histórias; logo, existo

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Aderi ao “podcast”. Narrar é nosso jeito de entender quem somos e qual nosso lugar no universo. Quem sabe, de ver com olhos livres

Crônica de Maria Bitarello | Imagem: Emily Balivet

No mês passado ouvi um podcast novo chamado “S-Town” (em inglês). Foram sete episódios de 1 hora de duração cada, todos lançados de uma só vez, como uma série da Netflix. Dá pra ouvir tudo numa sentada só ou ir degustando aos poucos. Só que é um programa de não-ficção pra rádio. De altíssimo nível, a propósito, tanto editorial quanto de produção e narração. Entrevistas são entrecortadas por músicas, com uma harmônica edição de som e, sobretudo, há ritmo. A história guarda um mistério e, portanto, a ordem em que as informações são apresentadas e por quanto tempo sustenta-se o suspense são elementos fundamentais. Caso contrário, o ouvinte perderia o interesse, faria outra coisa, não ouviria o resto. Como um leitor que se entendia com um thriller mal-escrito.

Nós, humanos, sabemos instintivamente como contar uma boa história. Sabemos disso desde o tempo imemorial. Contar histórias é o que fazemos. É nossa arte. Nossa forma de transmitir conhecimento, de passar uma tradição pra frente, de demonstrar afeto, cuidado. Nosso meio de transmitir nossos costumes, como povo, aprendendo os cantos, os mitos, os ritos. Nosso jeitinho de entender quem somos. E nosso lugar no universo. Vem do nosso desejo, da nossa necessidade de nos comunicarmos. Da importância de se passar adiante os conhecimentos de uma geração a outra. Penso, logo conto histórias. Conto histórias, logo existo. E hoje, para além dos anciãos em volta do fogo, das histórias de ninar e também da rádio AM, há podcasts pra se baixar no smartphone.

O formato não é popular no Brasil, pelo que sei. Ou pelo menos não esse formato, o narrativo. Pesquisando pra escrever esse texto, descobri que existem, sim, muitos programas em português, há inclusive uma lista com sugestões interessantes no site do Meio & Mensagem. Não os conheço, mas vou ouvir. O Nexo também faz umas edições em formato de rádio e há outros, claro. Fora da internet, a Rádio USP (FM 93,7) tem programas de entrevistas bem legais e uma seleção musical acima da média. Empolgada e instigada pelos desafios de roteiro, ritmo, edição e produção, em 2015 fiz um podcast caseiro (em inglês), “A primitive at heart” , baseado em material gravado com Dot Fisher-Smith, uma octogenária incrível com quem viajei pelo Nepal em 2014 e sobre a qual escrevi aqui nesse espaço em outra crônica.

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Pra quem encarar a escuta em inglês, sugiro: This American Life, o pioneiro e mestre nesse estilo de contação de histórias e que inspirou não só “S-Town”, mas seu predecessor, “Serial”, que inaugurou essa era netflixiana dos podcasts e talvez permaneça sendo o best-seller do gênero até o presente. TED Radio Hour também segue um formato parecido, servindo-se das milhares de horas de conferências TED pra escolher e esmiuçar um tema por semana. Esses três programas, aliás, têm regularidade semanal. Já o New Yorker Fiction Podcast é mensal e convida sempre um escritor a ler um conto de outro autor, de sua escolha; em alguns episódios a experiência é sublime. Por fim, Fresh Air é um programa diário de entrevistas que podem variar do ex-presidente Barack Obama a uma atendente de tele-sexo (aparentemente ainda existe o serviço de tele-sexo).

Confesso que ouço podcasts todos os dias, ou quase. O hábito começou com os audiobooks quando, há uns sete anos, decidi ‘escutar’ livros que queria ‘reler’ e o fazia durante minhas travessias semanais pra trabalhar em outra cidade. E há uns cinco anos adotei os podcasts com afinco. A possibilidade de me informar sobre atualidades, conhecer novos autores e novas histórias, e fazê-lo sem precisar passar ainda mais horas diante de uma tela, com a alternativa de escutá-los enquanto limpo a casa, faço comida, preparo o café-da-manhã, pego um metrô ou ando pela cidade é muito sedutora.

Além disso, percebi que aprendo e apreendo melhor através da escuta. Somos uma espécie gregária, a humana. A colaboração, segundo ouvi em outro podcast, é uma de nossas características mais contributivas pra nossa permanência e sobrevivência na Terra. Nas palavras de Ailton Krenak, no livro da série “Encontros”, “Na nossa tradição, um menino bebe o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência, nos cantos, nas narrativas”. É o que busco. Porque aprender junto é muito mais gostoso. Eu pelo menos gosto de gente, de histórias. E mesmo que eu não esteja cara-a-cara com os apresentadores dos podcasts, já estabeleci uma relação afetuosa com eles pela familiaridade que suas vozes evocam.

Fico torcendo pro formato “pegar” aqui no Brasil também. Temos tantas histórias a serem contadas, mas mais ainda a serem ouvidas. Dentre elas, tenho um desejo crescente de que venham de uma tribo indígena, de uma ocupação urbana, de um assentamento no campo. Quem sabe assim não aprendemos a nos comunicar, algo que me parece cada dia mais ameaçado. Quem sabe não deslocamos nosso ponto de vista e, como diria Oswald de Andrade, consigamos ver com olhos livres. Fica a dica. Fica o convite.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Maria Bitarello trabalha como escritora, jornalista, tradutora e é mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro e outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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