Banhista na Paulista

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Nua, com dreadlocks coloridos, banhava-se na tempestade. A parede de água afastava os pedestres. Não estávamos ali com ela — que agora era uma mulher limpa

Crônica de Maria Bitarello | Imagem: João Rabello

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa
Angélica Freitas*

Numa tarde especialmente chuvosa de novembro, parei o carro num sinal da Avenida Paulista com a Alameda ministro Rocha Azevedo, em São Paulo. Ali, naquela esquina, uma mulher se banhava na enxurrada. Pelada, com cabelos em dreadlocks coloridos, idade indefinida (nem jovem nem velha), estava sentada num ponto em que a água empoçou bem no encontro do asfalto com a subida do meio-fio e formou uma piscininha rasa. A chuva torrencial despencava e a mulher se lavava embaixo dos braços, fazia concha com as mãos pra lavar os cabelos, levando também água à boca pra beber. Não havia pedestres e os motoristas nos carros desaceleravam pra observá-la. Era uma cena impressionante. Seus gestos não carregavam nem um tom exibicionista nem maluco. Não se tratava de uma performance, creio eu, nem de uma doida. Havia uma naturalidade que conferia a seu banho um ar corriqueiro. “Hora da chuva, hora do banho”. E só.

Confesso que fiquei muito marcada pela cena. Passei o resto do dia pensando nela e continuo, ainda hoje, revivendo aquele momento. Percebo que foi justamente esse ar de não-excepcionalidade que me imprimiu a cena na memória. Até onde sei e pra fins da história que eu agora conto a mim mesma (e a vocês), essa mulher pode tomar seu banho todos os dias quando a chuva ali naquela esquina é forte ao ponto de empoçar a subida do meio-fio e, quem sabe também até, de afastar os pedestres. Talvez ela prefira a privacidade da Paulista deserta de pedestres. Só ela e a parede de água. Quem sabe.

 há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava
 

Não sei se ela é moradora de rua, mas se for, imagino que o banho seja uma questão complexa, que exija estratégia. E logo entendi sua urgência higiênica diante do dilúvio – e também sua aparente indiferença à nudez pública. Pode ser que a indiferença seja seu café-da-manhã, almoço e janta de todos dias. E a invisibilidade, sua roupa. Se ninguém te vê, qual o problema em ficar pelada no meio da rua? Ela estava só, tratava-se de um momento seu. Qualquer um podia ver isso. Nós não estávamos ali com ela. Ela que agora era uma mulher limpa.

TEXTO-MEIO

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

Na verdade, eu não sei se ela estava suja antes. Não sei nada sobre ela. Só vi essa cena. Mas tudo isso me fez pensar em nossa relação com a água. A água purifica pelo batismo, pelo moksha nas águas sagradas do Rio Ganges, pelo banho de ervas num terreiro de candomblé, pelo mergulho nas ondas de Iemanjá. Um banho melhora a bebedeira, lava o choro, renova as energias do corpo e da mente, permite o recomeço. À entrada de templos sikhs ou hindus e também das mesquitas, fiéis lavam pés, mãos e bocas pra se prepararem pra oração. E nós, aqui no Brasil, temos uma relação particularmente indígena com a água: banho, quanto mais melhor. Gostamos de torneirinha pra lavar os pés quando chegamos da praia, de lavar a varanda com baldes de água, de botar as cortinas de molho.

E é compreensível, tratando-se de um país tropical. Em pouco tempo os odores começam a sobressair. Cecê, bafo, chulé. É preciso vigilância constante com a higiene pra se manter sempre cheirosa – ou ao menos minimamente apta ao convívio social. E como nossa cultura também é dada a uma proximidade física entre as pessoas que em outras partes do mundo seria desconfortável – abraços, beijos, toque –, o seu fedor também me diz respeito. É uma questão de etiqueta e norma cívica manter tudo limpinho – e sequinho, senão dá frieira, micose, seborreia e, pior, afasta as outras pessoas.

Por que isso seria diferente pra banhista da Paulista? Não sei de suas reais motivações, mas acredito que, em seu lugar, faria o mesmo. Manter-se limpa é uma forma de sanidade.

 há milhões, milhões de anos
pôs sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa 

 _____________________

* “porque uma mulher boa”, aqui transcrito na íntegra, é o poema que abre o excelente “Um útero é do tamanho de um punho” (Companhia das Letras, 2017), da poeta gaúcha Angélica Freitas, e que eu tomei emprestado pra contar essa história. Obrigada, Angélica.

 

TEXTO-FIM

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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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