Revista Terena ‘Vukápanavo’ une saberes tradicionais e científicos

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Publicação que une pesquisadores da etnia será lançada durante assembleia na Terra Indígena Buriti, quatro anos após assassinato de Oziel Gabriel

Por Izabela Sanchez, de Campo Grande

Há exatos quatro anos, Oziel Gabriel, de 35 anos, liderança Terena da Terra Indígena (TI) Buriti, em Sidrolândia (MS), a cerca de 60 km de Campo Grande, foi assassinado durante um conflito entre fazendeiros, policiais federais e indígenas Terena, em terra ainda não demarcada pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Maior reunião política da etnia, a Assembleia Terena ocorre a partir desta quarta-feira na aldeia Buriti, uma das reservas inseridas nos 17.200 hectares da TI.

A 10ª Assembleia lança, pela primeira vez, uma revista com saberes da etnia Terena. A Revista Terena ‘Vukápanavo’ une pesquisadores Terena das universidades e conhecimentos tradicionais das comunidades.

Advogado, pesquisador e assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Terena Luiz Henrique Eloy explica que o nome da revista significa “adiante” e terá um conselho editorial formado exclusivamente por indígenas da etnia. Ele conta que a revista reunirá os pesquisadores para a divulgação de material a partir de uma ótica indígena, “questionando a própria ciência, a própria universidade”.

Assim, serão debatidos saberes que, na maioria das vezes, na visão de Eloy, são rejeitados pela sociedade. Ele observa que quem detém os saberes tradicionais produzidos na aldeia são os anciões. Mesmo não tendo passado pela universidade, pontua o advogado, eles têm função equivalente à dos saberes científicos. “Então a revista vem nesse sentido de promover também uma descolonização”, afirma.

Uma das pesquisas divulgadas pela revista é assinada pela enfermeira Zuleica Terena. Ela estuda a doença sífilis entre a população indígena do Mato Grosso do Sul, em dissertação de mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Zuleica considera a construção de uma revista Terena a realização de um sonho, algo inédito no país. E questiona as imposições feitas aos povos indígenas no Brasil. “Ao longo dos anos fomos amostra de pesquisas”, analisa. “Agora somos os pesquisadores que nossos avós reivindicavam”.

EM PAUTA, DEMARCAÇÃO DE TERRAS

A Assembleia promove este ano uma plenária de discussão voltada para as mulheres e uma mesa de discussão com vereadores Terena. A Assembleia ocorre duas vezes por ano no Mato Grosso do Sul, desde 2012, promovida pelo Conselho Terena e com apoio de entidades parceiras.

Eloy explica que ela resgata a cultura do conselho tribal Terena, espaço de deliberação política tradicional para a etnia desde o século XVII. No século XXI, no entanto, a pauta é a demarcação de terras. Desde 2012, o advogado explica que os indígenas ocuparam cerca de 60 mil hectares de territórios ainda não demarcados:

– A assembleia Terena renasceu em 2012, porque há registros antropológicos, históricos, que a organização tradicional dos terena, desde o século XVII, era em forma de conselho tribal, que reunia os caciques Terena, reunia as mulheres. Só que até 2012, os Terena estavam dispersos, estavam todos espalhados pelas comunidades e não havia um debate único.

A Assembleia começa nesta quarta-feira (31/05) e vai até sábado (03/06). Participam também do encontro representantes de organizações indigenistas, procuradores da República, membros da Funai e pesquisadores, não somente brasileiros.

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