Vazante aponta: o inferno é aqui

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Daniela Thomas mergulhou no inferno brasileiro no auge do regime escravocrata, num filme que não faz concessões à dramaturgia linear norte-americana e das telenovelas. Por isso, incomoda 

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

“O Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos”, escreveu o padre jesuíta italiano Antonio José Antonil, que viveu por aqui no final do século XVII e início do XVIII. Vazante, de Daniela Thomas, parece empenhado em mostrar que se tratava de um inferno para todos. Um inferno com gradações nas penas, por certo, como os círculos descritos por Dante. Talvez não seja casual, aliás, que dois dos personagens centrais se chamem Beatriz e Virgílio.

Passemos ao largo do fogo cerrado a que o filme foi submetido no debate pós-exibição no último Festival de Brasília. Algumas acusações lançadas ali são tão descabidas que não mereceriam comentário. O problema é que as chagas da nossa formação como país são tão profundas que qualquer filme será insuficiente para aplacar as dores acumuladas ao longo dos séculos. Talvez algumas cobranças, por mais legítimas que sejam, só pudessem ser satisfeitas por uma obra programática, que mostrasse negros heroicos e virtuosos batendo-se contra o dragão da maldade do poder branco. Mas uma tal obra teria escassa eficácia política, esgotando-se na catarse, e valor estético nulo.

Fora do lugar

Daniela Thomas optou por outro caminho. Organizou sua narrativa em torno do motivo do deslocamento, da inadequação, do descompasso: portugueses, brancos nascidos na colônia, negros de diversas origens e culturas (e de variados graus na escala entre o cativeiro e a liberdade), homens, mulheres, velhos, crianças, todos estão fora do lugar, numa terra estranha e hostil, conquanto bela. O equilíbrio precário desse complexo de relações se mantém mediante a violência, surda ou explícita, moral ou física – frequentemente moral física. O lugar é a Serra Diamantina, em Minas, e o ano é 1821.

TEXTO-MEIO

No centro do drama há uma menina branca de 12 ou 13 anos, Beatriz (Luana Nastas), que antes mesmo de menstruar é entregue como esposa ao tropeiro português Antonio (Adriano Carvalho), que perdeu a primeira mulher (tia de Beatriz) no parto com o filho natimorto.

Criticou-se, entre outras coisas, a falta de protagonistas negros, ou de personagens negros com identidade, psicologia, vida interior. Inácio Araujo, na Folha de S. Paulo, chegou a dizer que não há personagem algum, branco ou negro.

Não vejo bem assim. Os personagens pouco se expressam ou se expandem, o filme não tenta cooptar nossa empatia ou nossa aversão por eles, mas eles estão lá, revelando-se em falas lacônicas, em olhares silenciosos e em detalhes de comportamento: os sapatos rejeitados pelos pés do bruto Antonio, o encantamento infantil de Beatriz diante do fogo na mata ou do batuque dos escravos, a frustração de sua irmã mais velha preterida pelo pretendente, o orgulho e altivez do negro forro Jeremias (Fabrício Boliveira) ao impor seus saberes agrícolas ao patrão, a revolta indomável dos cativos recém-chegados da África, a submissão dolorida da escrava Feliciana (Jai Batista) aos abusos do senhor, o rancor da mãe de Beatriz (Sandra Corveloni) diante do marido frouxo e do tropeiro que arrebatou os bens da sua família outrora poderosa.

Há toda uma rede de ressentimentos, opressões, atritos subterrâneos que configuram uma formação social torta, fraturada, embrutecida. Os personagens estão na tela, e são mais que meros arquétipos. Talvez o que tenha faltado – deliberadamente – sejam as muletas de uma dramaturgia convencional, engendradoras do mecanismo de projeção/identificação forjado por décadas de cinema norte-americano e telenovelas brasileiras. O olhar da diretora é predominantemente contemplativo, “neutro”, mantendo certa distância objetiva daquilo que retrata.

Beleza e dor

E aqui entramos em outra questão controversa, as críticas que o filme recebeu por seu suposto esteticismo, que amorteceria a violência da dominação patriarcal exposta. De fato, rodado na região mineira do Serro, num preto e branco extremamente matizado (a fotografia é do peruano Inti Briones), com planos abertos que exploram a exuberância heterogênea da região e uma iluminação virtuosística nos planos internos, sobretudo os noturnos, Vazante é de uma beleza evidente, inequívoca. Suas referências iconográficas mais óbvias são as gravuras de Debret e Rugendas.

Talvez, no balanço entre a composição plástica e o drama humano, a diretora tenha pendido para o primeiro termo. Tenho dúvidas quanto a isso. O crítico português Jorge Mourinha, que definiu o filme como “tragédia em câmera lenta”, falou sobre uma “sensação de hipnose” produzida pelas imagens e ressaltou a presença constante dos elementos da natureza (os animais, as árvores, a chuva, o vento, as pedras, os córregos, o fogo) a emoldurar e – acrescento eu – modular ou refratar as desventuras dos homens. O que é defeito para uns pode ser visto como virtude por outros.

Ademais, o apuro plástico não é necessariamente incompatível com a expressão da violência e da dor. Basta pensar, por exemplo, num filme como Barry Lyndon, de Kubrick, ou O Inocente, de Visconti. Sem falar no Dreyer de Dias de ira, no Bergman de A fonte da donzela ou na filmografia toda de Mizoguchi. Não estou dizendo que Daniela Thomas tenha atingido com seu filme o equilíbrio admirável dessas obras-primas, mas apenas que a beleza não é forçosamente uma distração ou uma edulcoração do que há de mais terrível no real.

O que a diretora não pode dizer é que pretendeu apenas narrar um drama particular, sem pretensão de fazer um painel da nossa formação social patriarcal. Alguns indícios apontam, ao contrário, para um desejo universalizante, de relato de fundação: a mera variedade de fatos e situações (comércio de escravos, negros forros, casamento, dote, herança, passagem da mineração para a agricultura, filhos bastardos entre senhor e escrava etc.), a datação da narrativa no ano anterior à independência e, por último mas não menos importante, o fato de começar e terminar o filme com partos – o que de alguma maneira remete a outras obras com pretensões de leitura das nossas origens, como Iracema, de José de Alencar.

Se essa leitura da história é, como todas, contingente, provisória e insuficiente, que venham outras. Material não falta. Como escreveu Thomas Mann na abertura de seu José e seus irmãos, é muito fundo o poço do passado.

No intenso agora

Outra estreia importante da semana, em cartaz no IMS Paulista e no IMS Rio, é o documentário No intenso agora, de João Moreira Salles, que aborda momentos de especial aceleração do tempo histórico e avivamento das emoções na relação entre o indivíduo e a sociedade que o cerca: a Revolução Cultural na China, maio de 1968 na França, a Primavera de Praga, a luta contra a ditadura no Brasil. O filme é todo realizado a partir de materiais de arquivo, reorganizados e comentados pelo diretor. Uma obra singular, extremamente pessoal, de uma riqueza inesgotável para quem quer pensar o caráter a um tempo objetivo e subjetivo das imagens documentais.

TEXTO-FIM
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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.