Visita a Guimarães Rosa, regada a finas cachaças

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Uma viagem à história, ao ambiente natural e aos grupos de brasileiros que povoaram o palco regional de Sagarana, no 70º aniversário da obra

Por Mauricio Ayer


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TEXTO-MEIO

“– Soltem um cálice de branquinha potabilíssima de Januária, que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!…”

Pois sim, senhor João Rosa, que seja pelos 70 anos da publicação do Sagarana, o seu primeiro livro de narrativas, que o inseriu de pronto e definitivamente na literatura brasileira. Tudo bem que 10 anos antes o senhor vencera um importante concurso da Academia Brasileira de Letras com um livro de poemas – Magma, que só veio a ser publicado mais de meio século depois – e que 10 anos mais tarde o senhor colocaria em nossa balança um peso de desequilibrar o que é viável pensar da nossa cultura e de nossas letras – com as novelas e romances de Corpo de Baile e o gigante Grande Sertão: Veredas.

Mas é sobre Sagarana, de onde a citada fala foi extraída, no conto “Minha Gente”, que gostaria de começar a conversa, se o senhor permitir.

Pois bem: quem cala consente, pois não.

Para a circunstância e cerimônia abrideira, entendi que o senhor sugere uma cachaça de Januária, como tantas boas há. Poderia acatar-lhe o mandado, mas… como haveria de alcançar a dimensão do respeito pelo grande mestre se não for ramificando suas ideias, usando o adorno de suas flores, para que, sem mesmo percebermos, ensejem raízes tanto mais profundas na terra que compartilhamos?

Vamos, bem entendido, harmonizar o imaginário com o calor de uma selecionada cachaça de alambique, e que seja amadurecida na amburana, como o senhor quer. Mas o tempo modificou um pouco as coisas. Ainda hoje se usa a amburana para dar aroma, cor e sabor à cachaça, e é de forte interesse ler que, lá nos anos 1930 e 40, quando o senhor escreveu, revisou e publicou essa fala, essa prática era célebre em Januária, onde até hoje a tradição viceja. Só que não mais pela infusão de uma lasca de madeira na garrafa, o que atualmente se chama de “chipagem” e se proíbe por força de lei, ao menos para a produção das marcas oferecidas no mercado. Faz-se, ainda assim, seja ao modo informal, para servir em casa aos amigos, seja clandestinamente, com o intuito desleal de acelerar a transmutação da cachaça, sem o devido tempo da espera. Em vez da infusão, a amburana hoje é aplicada na tanoaria para a produção de tonéis voltados ao armazenamento de bebidas. Hoje como ontem, Januária armazena suas cachaças na amburana, como comprovam algumas marcas tradicionais da região: Claudionor, Januária, Velha Januária e Caribé, entre outras.

A fala que selecionei aqui sugere que Januária carimbou seu nome nas garrafas com o aroma da amburana. Não é de se crer que isso antecipa, para todos os efeitos, a própria tanoaria?

Bafejo à cachaça, quando o pasto da prosa era pra ser a literatura. Mas os acasos tampouco são gratuitos. A cachaça não é só elemento da paisagem do centro-norte de Minas Gerais, onde as estórias do Sagarana nascem e circulam. Historicamente, ela foi um fator essencial na formação desse pedaço de mundo. Farinha de mandioca e cachaça eram os produtos obrigatórios no “portfolio” dos tropeiros que circulavam por todas essas terras, desde o século XVIII, quando os eixos eram as rotas do ouro, conhecidos como Estradas Reais. São os dois alimentos que forneciam energia aos trabalhadores – principalmente os escravizados, mas não exclusivamente – das minas. Assim se cria uma tradição alimentar e uma cultura de produção e consumo.

Para fins e efeitos turísticos, fixou-se a “Estrada Real” como um caminho em forquilha partindo de Diamantina e bifurcando em Ouro Preto para chegar ou em Paraty (Caminho Velho) ou no Rio de Janeiro (Caminho Novo). Mas na verdade tratava-se de um conjunto de vias mais ramificado e complexo1. Havia, por exemplo, um ramal do Caminho Velho que corria pelo vale do Paraíba até São Paulo e o porto de Santos, refazendo ao contrário o percurso bandeirante que, tendo índios como guias, levou até o tesouro escondido.

Havia também uma outra rota, pouco mencionada hoje mas de grande importância naquele tempo, conhecida como Caminho da Bahia, que subia o rio das Velhas, depois o São Francisco mais ou menos até a altura de Bom Jesus da Lapa, aí despegava do rio e cortava pelo sul da Chapada Diamantina para chegar a Salvador – que era a capital da colônia até a metade do século XVIII. Em sentido inverso, este caminho foi um vetor para que, atraída pela demanda de alimentos da população que chegava de toda parte para se concentrar na região da mineração de ouro, como Ouro Preto (então Vila Rica), Sabará e Mariana (então Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo), a cultura dos vaqueiros do sertão nordestino gerasse fazendas nas margens do São Francisco e do das Velhas e, depois, ocupasse a extensão do norte de Minas. A cidade de Januária, à margem do grande rio que amarra Minas à Bahia, está ali, como uma pedra bem no meio do caminho.

O senhor sabe disso tudo, muito mais do que eu poderia, mas agora estou falando com quem nos lê, não é mesmo. A geografia da ficção do Sagarana é a dos arraiais, vilarejos, fazendas e do sertão, dos chapadões e das veredas, do cerrado, com muitos ribeirões e alguns poucos grandes rios (além dos dois mencionados, há também o Paraopeba e o Pará). Essa terra é ocupada por vaqueiros, seleiros, ferradores, tropeiros, pequenos agricultores e comerciantes, mulheres territoriais das casas, igrejas ou prostíbulos, ofícios de gente nascida em um norte de Minas que, tendo prosperado com a pujança da atividade aurífera no setecentos, quedou-se assim um tanto ao-deus-dará, e ali desenvolveu uma cultura peculiar. Também terra de valentões – pois, como diz Antonio Candido, “o valentão armado, atuando isoladamente ou em bando, é fenômeno geral em todas as áreas onde a pressão da lei não se faz sentir, e onde a ordem privada desempenha funções que em princípio caberiam ao poder público”2. Mas vale também um a ética, construída a cada gesto compartilhada, negociada e reafirmada a cada ato social, a cada fala, cada gesto.

Já temos aí um pouco do caldo de fermentação do Sagarana: cachaça (herança do ciclo da cana, amplamente plantada nos engenhos de açúcar pernambucanos, baianos, paulistas e fluminenses); farinha de mandioca e o milho (legado índio incorporado em definitivo na dieta, principalmente dos caipiras); a cultura vaqueira do sertão de Pernambuco e Bahia (que continua Minas Gerais adentro); e, por fim, a formação dos arraiais e vilarejos como extensão de um modo de vida caipira, paulista, dos pequenos agricultores, produtores de alimento.

Isso aqui vale um parêntese. Os bandeirantes, empreendedores ferozes, herdeiros terrestres e silvícolas dos portugueses desbravadores de mares, depois de estabelecidos os locais das minas, foram trucidados ou expulsos da região mineira na chamada Guerra dos Emboabas – exceto por alguns que, seduzidos pela coroa, incorporaram-se como donos de terras ou administradores a essa civilização curtida na brutalidade. Foi aliás um bandeirante que se ocupou da construção do Caminho Novo, ligando por via direta a Vila Rica ao Rio de Janeiro, passo definitivo para a prosperidade daquela que viria a ser a capital da Colônia, do Império e da República do Brasil, que por outro lado reduziu consideravelmente a relevância de São Paulo.

Se os brutos sapadores foram excluídos, foi principalmente a gente comum de São Paulo que estendeu o tapete de sua cultura caipira pelo território mineiro. Isso, desde a expedição de Fernão Dias e Borba Gato que chegou às minas nas cabeceiras do rio das Velhas, cuja grande inovação foi plantar ao longo do caminho, com roças de milho e mandioca e algumas criações como galinhas e porcos, a semente dos arraiais que se tornariam as futuras cidades. Em Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre compara, nos séculos XVI e XVII, a cultura paulista, muito antes do domínio do café – horizontal, policultora, produtora principalmente de alimentos (até para abastecer o restante da colônia), fundada no trabalho próprio e incorporadora de alimentos, hábitos e parentescos indígenas – com a cultura do nordeste canavieiro (sobretudo a Zona da Mata pernambucana e o recôncavo baiano) – fundada, como ele bem distingue, na escravidão, na monocultura canavieira e exportadora e numa estrutura social aristocrática, em que o senhor de engenho concentra praticamente todos os poderes, e a massa trabalhadora é escravizada. Então foi a estrutura social gestada em São Paulo que proliferou para além da Mantiqueira.

É preciso lembrar aquilo que surge, pela primeira vez, nas Minas Gerais. O ouro, além da ganância, de brutal escravidão – que impulsiona imensamente o tráfico de escravos africanos no século XVIII, numa intensidade que o ciclo da cana jamais imaginaria – e das cidades, permitiu também formar, já naquele tempo, centros de cultura letrada ainda inéditos no Brasil, e que deixariam também o seu legado. Antonio Candido, novamente, conta desse início na Formação da Literatura Brasileira. Vamos vendo aí alguns dados de formação da paisagem que irá fermentar a imaginação deste mesmo Guimarães Rosa que agora recebemos como ilustre visitante.

A cachaça estava ali, estabelecida. É célebre a fórmula de Câmara Cascudo segundo a qual “Onde mói um engenho, destila um alambique”3, ou seja, a produção de cachaça sempre esteve presente junto da produção açucareira. Mas agora, na região mineira, se não havia uma produção de açúcar visando a exportação, pequenas plantações de cana serão estabelecidas para se produzir a rapadura, o açúcar e a cachaça para o consumo local. E lá estavam os tropeiros para circular pelas Estradas Reais com produtos do reino e da terra, entre os quais, obrigatoriamente, a cachaça.

O território do Sagarana, Guimarães Rosa conheceu primeiro como um nativo e morador, na infância, da cidade de Cordisburgo. Foi lá que muito cedo se interessou pelas línguas e leituras. Diz-se que aos 6 anos começou a aprender sozinho o francês e aos 7 tinha lido um livro nesta língua. Por esta época, com a chegada à cidade de um frei franciscano holandês, o padre Canísio Zoetmulder, começou a ter aulas de francês e de holandês. Aos 9 foi viver em Belo Horizonte e estudar no colégio Arnaldo, de padres alemães, onde ampliou consideravelmente seu cabedal linguístico, não só pelo alemão e o inglês, como também o grego e o latim, que faziam parte da formação clássica da época.

Aos 16 anos, João Guimarães Rosa entrou na faculdade de Medicina, onde veio a se formar aos 23. Foi então que ele fez uma nova incursão no território, agora com um olhar transformado, que se adicionava de sua formação médica, a um só tempo técnica e interessada pelas relações de homens e mulheres entre si e com o meio. Essa lente lhe renderá muitas observações para as tramas do Sagarana. E sabe-se que desde muito novo o escritor mineiro comportou-se como um pesquisador, por um lado, da língua e das línguas, mas também profundamente da paisagem, sua fauna e sua flora, sua gente, com suas idiossincrasias e universalidades. Vivia munido de um caderninho em que anotava tudo o que via, perguntando os nomes de cada planta ou bicho, saboreando as palavras e seus usos (e usando também seu conhecimento de outras línguas para “enriquecer” a sua, como ele dizia).

Como esculápio da roça, o doutor João Rosa foi recebido em casas das pessoas, pôde conversar com elas, observar seus modos de viver, saber de seus bens e de seus males, conhecer as suas alegrias, os seus dramas e as suas tragédias – que tratava de integrar na compreensão de seu ofício. Seu ofício, que era sim, também, o do cuidado, porém não restrito à medida do possível, com as pessoas dali e suas precárias condições, mas ainda mais genuinamente na medida do impossível com a formação de seu imaginário – imanente-transcendente, formador e parabolar.

São todas coisas que aparecem no relato do senhor, João Rosa, ao editor João Condé, que contém as explicações da escolha da terra-mãe – tão real, quão fabular, e que fabulosa – para situar sua ficção. Aliás, vou ler aqui um trecho dessa carta que o senhor escreveu, tal como publicada na edição da Editora Nova Fronteira que tenho em mão:

Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, “poses” – dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.4

Então essa é a matéria-prima (a paisagem local onde está impregnada, por força de formação, no território do imaginário universal da arte – do europeu ao chinês, para ficar em apenas dois exemplos –, o saber popular e o clássico, o conhecimento médico e a superstição, e por aí vai) que vai fermentar na produção de seus contos. Isso vai ser intimamente aquecido, para retirar aquilo que é mais o próprio , como o senhor mesmo, João Rosa, afirma, por uma “depuração”. Leio agora esse outro trecho, tal como o senhor conversou com Fernando Camacho, em 1966:

A criação da minha obra corresponde a uma depuração, à procura de um ideal […]. Esse ideal, essa procura, dentro de si próprio, aliás, permite-me às vezes um contato com qualquer coisa de […] comum a todos os homens. Paradoxalmente, o contato com os outros raramente se consegue quando se é extrovertido.5 (citado por Fantini, 2003, p.44)

Ou destilação, claro, para chegar à quintessência – da terra opaca e fabular à potência transparente do sentido. Então deixar as estórias maturarem nas madeiras da terra ou dos reinos, e assim nuançar seus caracteres, ásperos ou azeitados, com cores e humores os mais sutis – a ironia, o espanto, o sarcasmo, a crueldade, a ruindade.

Olhe o senhor, e ouça: entusiasmado, cheio de si, empavonado no proscênio, solando sobre o senhor, alcancei o extremo de olvidá-lo, o senhor. Rogo-lhe a vênia, é comum em homenagens nos engancharmos nos emaranhados de nossas admirações, a ponto de nossa imagem do herói, tão louvada de sincero amor, apagar da cena o homem – e a cachaça é o homem.

Devo-lhe oferecer, para o tanto, da melhor penicilina, apta a curar minha estima pelo senhor e pelo que nos legou. Não será de Januária, antes ofereço-lhe uma do lugar que veio a tornar-se seu rival, superando-a talvez em fama, mas, há que dizer, filha dos mesmos vaqueiros e cosedeiras, localizado em um atalho para o Caminho da Bahia – porquanto se chegava mais retamente do arraial de Diamantina aos cotovelos da Chapada, já em terra baiana, prolongando o vale do Jequitinhonha ao setentrião.

Mas, você sabe, a cachaça que escolhi não deixa de ter o seu laço com a cidade franciscana: é envelhecida em tonéis de amburana (e também de carvalho), equilibrando ambas no nariz e na língua. Isso redunda em um rosário de doçuras, rezadas no fundo ferroso de melado de cana, no mel especiado do lenho brasileiro e na baunilha frutada da madeira europeia. Como que permeando isso tudo há um toque de anis, fresco, que me provoca, por estranha sinestesia, a sensação da cor verde, em meio aos tons terra das madeiras.

Nomeio, pois, já que este era, desde o princípio, o nosso fim: uma cachaça que é uma obra prima, a Encantos da Marquesa Ouro. Ela tem algo singular, um sabor quase cítrico, que até se sente mais em sua versão prata mas que se prolonga sob a maturação das madeiras.

Espero que seja de seu agrado, já que é erguida e vertida, singelamente, em sua homenagem.

***

Esta carta é o começo de uma série de visitas a João Guimarães Rosa, que será benzida pelo “mais brasileiro dos prazeres”, no dizer do meu mestre o cachacista pernambucano Jairo Martins. As cachaças foram generosamente cedidas pela Amburana.

 

1. As informações sobre as Estradas Reais foram obtidas no livro de Márcio Santos, Estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e dos diamantes no Brasil, Belo Horizonte, Editora Estrada Real, 2001.

2. Antonio Candido, “Jagunços mineiros de Claudio a Guimarães Rosa”, Vários Escritos, São Paulo, Duas Cidades, 2004, p. 99.

3. Luís da Câmara Cascudo, Prelúdio da Cachaça: etnologia, história e sociologia da aguardente no Brasil, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, p. 25.

4. João Guimarães Rosa, “Carta a João Condé”, Sagarana, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001, p.25.

5. Citado por Marli Fantini, Guimarães Rosa: Fronteiras, Margens, Passagens, São Paulo, Ateliê Editorial e Editora Senac São Paulo, 2003, p. 44.

TEXTO-FIM
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