Tiradentes, herói sem nenhum caráter?

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“Joaquim”, filme de Marcelo Gomes, humaniza o líder da Inconfidência, apresentando-o como personagem contraditório de uma civilização embrionária e brutal — porém fecunda, múltipla e, portanto, desafiadora

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

A coprodução luso-brasileira Joaquim é uma abordagem fecunda e original da figura de Tiradentes. Ao abordar o personagem antes da sua atuação na chamada Inconfidência Mineira, Marcelo Gomes realiza uma dupla operação: por um lado, humaniza-o, despindo-o (desde o título) da aura mítico-histórica que lhe foi conferida ao longo dos séculos; por outro, insere-o na complexa tapeçaria de uma sociedade em formação.

Vivido pelo ator Júlio Machado, o alferes Tiradentes do filme é hesitante e contraditório: impetuoso e obtuso, ingênuo e calculista, generoso e brutal – demasiado humano, em suma. Do mesmo modo, o mundo social à sua volta é incerto e movediço: a mulher negra de quem ele se enamora (Isabél Zuaa) é escrava de um negro liberto; seus superiores no exército manipulam seu ímpeto e sua ambição para que descubra ouro nos sertões e combata o contrabando; um amigo poeta (Eduardo Moreira) lhe instila ideias libertárias vindas da América do Norte e da França.

Diferentemente de um clássico como Os inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, que perscrutava o ideário e as intrigas dos conspiradores e que se ambientava em casarões, palácios e igrejas barrocas, ou de uma semichanchada como Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, que carnavalizava e edulcorava um tanto as relações entre senhores e escravos, Joaquim se debruça sobre uma paisagem física e humana muito mais selvagem: matas fechadas, desfiladeiros, barracos militares, senzalas, grutas, quilombos, gente rude, de piolhos nos cabelos, roupas rasgadas e dentes podres.

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Também o tratamento cinematográfico é radicalmente distinto. Em vez da elegância dos enquadramentos, da dramaturgia clássica e da dicção elevada, há aqui uma instabilidade deliberada: uma câmera na mão que acompanha a irregularidade da topografia mineira, uma vibrátil oscilação de luz, uma ampla variedade de línguas, registros e sotaques (português lusitano e “brasileiro”, idiomas africanos e indígenas), tendendo a uma brusca coloquialidade, quando não aos grunhidos e onomatopeias.

Civilização embrionária

Cria-se assim uma atmosfera de civilização nascente, embrionária, em que a abertura de possibilidades propiciada pelas terras inexploradas (como num faroeste de desbravadores) é contradita pelas coerções sociais, por um intrincado sistema de opressões: portugueses sobre brasileiros, brancos sobre negros, negros livres sobre negros cativos, oficiais sobre subalternos – e os índios como párias entre párias, escorraçados como mendigos ou explorados como guias de expedições.

Essas fraturas sociais e culturais são apresentadas sem rebuço ou maquiagem, mas também sem simplificação maniqueísta. A negra amada por Joaquim não é simplesmente uma vítima ou um objeto do desejo do branco, mas também uma ardilosa manipuladora e, por fim, senhora feroz do seu destino.

Nesse território traiçoeiro, de lealdades precárias, reina a desconfiança. Mesmo entre Joaquim e o amigo poeta que lhe franqueia as luzes dos pensadores libertários, a relação não é propriamente harmoniosa. No fundo, o alferes sabe que não pertence ao mesmo mundo daqueles senhores que se vestem com rendas e falam francês. Esse descompasso é evidenciado num jantar ao ar livre do protagonista com os intelectuais e clérigos que serão seus futuros companheiros de conspiração.

O único momento em que se esboça uma relação horizontal, de igual para igual, e portanto de não-dominação, é uma cena em que, durante uma expedição em busca de ouro, um negro e um índio, meio embriagados, mostram um ao outro a música e a dança de seu respectivo povo. Falando línguas distintas, comunicando-se por gestos, eles perfazem ali um esboço de fraternidade, um tosco e tocante rascunho de país.

Há ao longo do filme diálogos que, sem deixar de ser historicamente verossímeis, mostram um indisfarçável desejo do diretor de falar, ironicamente, sobre o presente: por exemplo, quando um soldado se nega a dar comida a um menino índio dizendo que “esses vagabundos não querem trabalhar”; ou quando Joaquim, depois de ler o livro de um revolucionário da independência norte-americana, diz que “certamente esse povo que está surgindo na América do Norte jamais vai querer agredir e oprimir outros povos”; ou ainda quando afirma ao amigo poeta que “nesta terra só tem três tipos de gente: bandido, corrupto e vadio”.

Mas é na improvisada dança do índio e do negro à luz do luar que encontramos, a meu ver, a asserção política mais consequente do filme, a utopia sempre adiada de um país solidário e plural.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.