Tia Amélia e seus amigos

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A titia fica sempre falando mal desse PT. Ela gosta mesmo é de outra sigla: PM. Até tirou foto com eles, na avenida, neste domingo

Por Deni Rubbo | Imagens: Jornalistas Livres

Domingo passado a tia Amélia foi na passeata daquela avenida grandona, cheio de prédios e anteninhas que tocam o céu, lá no centro de São Paulo. A tia Amélia, irmã do meu pai, frequenta muito lá em casa e vez por outra, quando está de bom humor – o que é raríssimo –, faz uns biscoitinhos deliciosos. Eu gosto tanto deles que já os como antes deles serem feitos. Sem ela saber, eu raspo aquela bacia em que ela cuidadosamente bate a massa, passo meus dedos e coloco na boca, mas depois de tanta felicidade sinto uma dorzinha de barriga.

A tia Amélia chegou toda alvoroçada em casa no domingo à tarde. A gente estava no quintal brincando, todo sujo de terra, lambuzado de geleia, e a tia Amélia chegou gritando alguma coisa de “viva a intervenção militar” de não se o quê, todinha fantasiada, pintada de verde e amarelo, tinha corneta, bandeira e tudo mais.

Eu fiquei muito contente da tia Amélia chegar assim toda maquiada porque provavelmente era Copa do Mundo, e mamãe sempre fazia umas comidas especiais e o tio Vinicius, que tinha um barriga enorme, sempre ia assistir aos jogos lá em casa e me dava sempre um presente legal. Mas pelo que eu me lembro, no último jogo da Copa (papai disse que a Copa é de quatro em quatro anos, será que já passou tudo isso?) o Brasil não tinha ido muito bem e todo mundo ficou chateado, menos o papai que não parava de rir. E querem saber uma coisa, eu gosto quando o papai cai na gargalhada. E era tão contagiante, como se ele tivesse fazendo cosquinha nos meus pés – porque eu tenho cócegas nos pés, mas é segredo – que eu comecei a rir também. A titia não gostou nada disso, ficou mais séria do que já é e disse que era tudo culpa do PT.

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Aliás, a titia sempre fica falando mal desse tal de PT. Se a torta queima é culpa do PT. Se ela vai no cabelereiro e o corte não fica como desejado, ela fala que é culpa do PT. Ela tropeçou na calçada lá nos Jardins e disse que era culpa do PT. Mas a titia Amélia gosta mesmo de outra sigla: a PM. Sempre fica falando bem deles. Até tirou uma foto com eles no domingo passado. PM sim, PT não. Ninguém me explica o que são essas duas coisas, porque dizem que eu não vou entender, já que sou uma menina de oito anos.

Mas eu não gosto da PM. Vou dizer o porquê. Um dia, passeando com meu pai e minha mãe, a gente viu um PM, que é um homem todo fantasiado de cinza, que gritou com um menino da minha idade e jogou spray de pimenta na cara dele. Ele começou a chorar e a mãe dele ficou triste. Papai ficou tão vermelho, que nem quando escuta a titia falando. A tia Amélia disse que eram bandidos e o papai me disse que estavam apenas querendo caixas para fazer uma casinha. Eu sempre brinco de casinha de papelão no quintal de casa e acho que todos têm o direito de brincar do mesmo jeito.

Parece que a titia é bem informada: tá sempre lendo revistas coloridas, com fotos mulheres e homens bonitos. Tem um monte de fofocas de pessoas famosas. Para completar sua vasta cultura, a titia também assiste um monte de novelas na televisão. Disse que elas retratam a “realidade da vida humana”.

 

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A titia Amélia também tem umas fotos de homens na sua casa que, segundo ela, são “pessoas de bem”: Maluf, Aécio e Alckmin. Esse tal de governador Alckmin disse outro dia que todo ano os professores fazem sempre a mesma novela. Engraçado, porque na passeata de domingo a PM é boazinha com as pessoas pedindo “mais educação”, mas é toda desconfiada e agressiva com aquele monte de professores que anda na rua pedindo mais educação de qualidade. Acho que a PM gosta de gente fantasiada de Copa do Mundo.

A titia Laura é minha professora lá na escola que não estou tendo aula. Ela não é minha “tia” de verdade, mas eu não consigo chamar de “professora” porque é um nome comprido e eu enrolo minha língua para falar. Ela deve estar na passeata que a PM fica brava e desconfiada, aquela que os titios e titias vão sem fantasias. Eu gosto dela porque tem um sorriso lindo e conta histórias que a gente fica muito feliz. Acho que ela é a maior professora do mundo. A tia Laura é uma super-heroína porque ela sim quer o bem para os alunos, para ela e para escola. Ela fala no microfone e todo mundo aplaude. A titia Laura disse que não é nem um pouco parecido com novela não termos aulas, como disse o governador com aquele nariz grande.

A tia Amélia diz que todos eles, governador, o tal de Aécio, não são “corruptos”. Que palavra mais engraçada. Ela me lembra outra palavra, carrapatos, não sei porque. Ah, prefiro ver eles como carrapatos, é mais divertido. Carrapto é um bichinho muito pequenenino que fica às vezes grudado no Noel, o nosso cachorro lá de casa. A gente passa um remédio e eles vão embora.

Vi na televisão um monte de imagens no domingo passado. Todos estavam fantasiados como a tia Amélia. E todos gostavam de carrapatos. Parecia que eu conhecia todos os milhões que estavam lá. Como se reproduzissem milhões de titias Amélias e milhões de titios Amélios, como carrapatos no meu cachorro. É melhor se livrar deles.

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DeniRubbo

Deni Rubbo é doutorando em Sociologia pela USP e escreve sobre Cinema, Política, Sociedade e Comportamento para Outras Palavras