Saudável provocação no centro de S.Paulo

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“Outras Palavras” inaugura coluna de análise arquitetônica. Enxergamos a Praça das Artes, cuja poesia e musicalidade, abrigadas em seu interior, parecem ganhar expressão no corpo do edifício

Por Mariany Araujo

“A arquitetura pertence à poesia, e seu propósito é ajudar o homem a habitar”
- Norberg Schulz

O centro de São Paulo é hoje mais uma região que sofre com o processo de gentrificação comum a lugares normalmente vítimas de uma administração pública descuidada, permanecendo à espera da tão prometida revitalização anunciada a cada troca de governo, porém pouco implantada efetivamente. Segue através dos anos tendo edifícios hoje parte abandonados, altamente deteriorados e não raro ocupados por empresas que estão ali não por outro motivo que a falta de opção, normalmente atraídas pelo aluguel mais baixo que em outras áreas ‘nobres’ da cidade. Ainda assim, emerge do centro uma população que busca este espaço justamente por conta do abandono que – ambos, o povo e o espaço construído – vêm sofrendo; e desta ocupação ocorre então a inevitável troca entre habitante e espaço, quando a população vivifica o lugar ao mesmo tempo que é acolhida por ele. Entre as esquinas acomodam-se movimentos populares de habitação, as iniciativas autônomas para fomento artístico e humanização do espaço público, artistas de rua, vendedores ambulantes, e uma parcela extremamente expressiva de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social.

Faz-se importante frente a este cenário que profissionais das mais variadas áreas do conhecimento possam atuar em esforço conjunto em uma tentativa de organizar e humanizar este espaço, fazendo coro às iniciativas espontâneas populares que buscam trazer novos sentidos a lugares esquecidos. O urbanismo e a arquitetura, que possuem por excelência a organização do espaço como objeto de estudo, podem ter papel fundamental neste trabalho assim como tiveram na construção do cenário atual, seja pela intervenção mal sucedida ou pela ausência de intervenção. A feliz escolha de caminho entre tantos outros possíveis para a uma intervenção no centro, fez com que a Praça das Artes, um projeto do escritório Brasil Arquitetura, fosse construída em 2012. Como espaço de união e articulação de diversas demandas culturais preexistentes à sua construção, a Praça das Artes tem por uso um misto de praça pública, galeria de exposições, apresentações culturais diversas, além de espaços de ensino e administração ligados ao Teatro Municipal de São Paulo.

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kon5A demanda inicial para a construção do edifício nasceu da necessidade de unir os corpos artísticos do Teatro Municipal em um único ponto, que além de permitir maior contato entre os profissionais também oferecesse instalações adequadas para as atividades, já que o Teatro foi originalmente concebido para apenas receber espetáculos e não se esperava que fosse produzi-los ou abrigar corpos estáveis. Estes grupos, como Quarteto de Cordas e o Balé da Cidade de São Paulo, para citar 2 entre os 11 corpos artisticos agrupados, encontravam-se dispersos em outros edificios nem sempre plenamente adequados às atividades.

O projeto toma partido do sistema de calçadões do centro de São Paulo, para o qual abre duas de suas três entradas, reforçando o caráter integrativo da praça junto ao tecido urbano através deste prolongamento de um percurso já oferecido. Esta abertura que parte do edifício é permitida pelo seu próprio vazio: pela decisão de projeto de liberar o térreo para a rua, que por sua vez se estende pelo entorno, o “vazio” do edifício se vê “cheio” de cidade.

A Praça, assim como toda construção que se ergue no espaço e acolhe pessoas, exerce grande influência neste corpo que acolhe. Ao entrar nos seus limites, se é guiado gradativamente ao silenciamento do caótico espaço “de fora”, e o passante é imerso em sensações diversas decorrentes desta aquietação. Enquanto se aguarda para ver o próximo evento nas galerias, é possível aproveitar os bem conformados ângulos e vistas, se entregar a um momento de contemplação, de respiro, e a um estar consciente que configura esse paralelo, onde vencendo poucos metros novamente se mergulha na caótica interatividade do centro da cidade.

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O conjunto une. O poder de aproximação é uma das mais urgentes demandas contemporâneas, e sua presença se torna especialmente relevante quando da produção do espaço público. É neste espaço que a proposta de convivência, no sentido mais elementar, toma corpo; e é sobre este espaço que a arquitetura encontra grande responsabilidade pela produção. Ele é integrado, é opaco, é permeável, é visível e é homogêneo. Ocupa todos os espaços nos limites do lote, assim como o paulista está acostumado: a convivência próxima ainda que mandatória, o lugar cheio, o contato imediato.

O programa foi dividido em blocos de geometrias diversas, conectados entre si. Se organizam ora completamente pressionados uns contra os outros, remetendo à própria constituição do centro da cidade e ao seu caráter de lugar de encontro, de embate, de pressão e acordo; ora afastados senão por rampas e pelo grande pátio térreo que permeia o conjunto. Essa aparente movimentação entre os sólidos, como se a própria musicalidade inerente ao programa extrapolasse os limites do interior e ganhasse expressão no corpo do edifício, poderia talvez causar estranhamento ao observador em busca de uma paisagem mais consoante. No entanto, para o centro de São Paulo, a unidade está justamente na diversidade. O edifício possui esse caráter de unir o que parece díspar: agrega em si o pequeno prédio de fachada eclética, que abrigava o Conservatório de Música de SP, e que é um dos prédios mais antigos da Av. São Joao. Conserva também a fachada do Cine Cairo, à Rua Formosa, que foi mantida como registro histórico apesar de não ser tombada pelo patrimônio histórico. Através desta “dança” entre os blocos, é como o projeto congrega as disparidades e reforça sua identidade.

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Por fim, a retomada de um certo brutalismo que remete ao Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi, não deve ser encarada como anacronia saudosista e sim como um passo à frente no desenvolvimento de uma linguagem arquitetônica de significado histórico e simbólico. O edifício faz clara referência a uma linguagem que é cara à arquitetura paulista. Afora as considerações se é pertinente alguma possível recuperação do brutalismo, e qual o seria o seu papel em um cenário arquitetônico atual, esta escolha é no mínimo cuidadosa com passado da cidade. A inserção desta linguagem arquitetônica em meio a tantas outras como o eclético do século XIX, e o moderno de meados do século XX, localiza o edifício em um conjunto múlti; em uma linha do tempo, de tempos simultâneos, mas reconhecíveis. O espaço central se mostra novamente um lugar de todos os tempos; um lugar de todos.

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Mariany Araujo

Arquiteta e estudante das relações entre arte, arquitetura e sociedade