Pensando as cidades rebeldes

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Resenha: coletânea reúne críticos de primeira linha para pensar marchas de junho sob prisma de aguda crítica ao capitalismo contemporâneo

Por Alexandre Pilati

Pouco mais de um mês depois das emblemáticas marchas de junho, que levaram milhares de pessoas às ruas de várias cidades do Brasil, aparecem algumas ações editoriais cujos objetivos centrais são tentar alcançar alguma compreensão dos protestos e indicar que possíveis desdobramentos eles terão. Permanecendo de forma residual predominantemente no Rio de Janeiro e em São Paulo, as manifestações continuam a agregar pautas de reivindicações diversas e mantém (ainda que não com a mesma espetacularização eufórica que a velha mídia praticou em junho) o estado de mobilização da juventude diante dos olhares perplexos de alguns setores da sociedade brasileira, das academias de ciências sociais embasbacadas aos telejornalões com idiotia crônica.

Entre os livros organizados “no calor da hora” (1) para ajudar a pensar e a interpretar essa movimentação politicamente instigante da sociedade brasileira está Cidades Rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. O livro, lançado na última semana pela editora Boitempo, configura-se de longe como o que de melhor se produziu até o momento sobre a questão.

Trata-se de um conjunto de ensaios que reúne nomes importantíssimos do pensamento crítico atual, seja em âmbito brasileiro ou internacional, além de trabalhos de cartunistas, fotógrafos anônimos ligados à Rede Ninja, entre outros. Há também um texto-manifesto assinado coletivamente pelo Movimento Passe Livre de São Paulo, que dá o pontapé inicial e oferece a pedra de toque para os artigos subsequentes: o problema do direito à cidade no capitalismo periférico como gatilho da força de indignação coletiva das marchas. Assinam os textos os estrangeiros David Harvey, Mike Davis e Slavoj Žižek, além dos brasileiros Ermínia Maricato, Paulo Arantes, Roberto Schwarz, Ruy Braga, Lincoln Secco, Jorge Luiz Sotto Maior, Venício A. de Lima, Leonardo Sakamoto, Raquel Rolnik, Mauro Luis Iasi, Silvia Viana, João Alexandre Peschanski, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Essa junção de especialistas locais com pensadores de amplo alcance mundial dá o tom da perspectiva de análise embalada na dialética local/cosmopolita. Embora tragam às vezes posições relativamente contraditórias, os textos valem no todo porque a sua competente reunião configura não apenas um conjunto de análises, mas uma análise em conjunto da maneira como as marchas de junho se formaram e sacudiram “placas tectônicas” da vida social brasileira. Essa visão em conjunto tem de saída um grande mérito que é o de nem idealizar nem demonizar as manifestações. Todos os textos procuram, à sua maneira, ater-se às seguintes questões: o que nos dizem as cidades rebeldes da atual situação do capitalismo global? Como se pode diagnosticar a dinâmica local das forças do valor e do liberalismo? E, principalmente, o que esperar doravante em se sabendo que não dá mais para mascarar tão facilmente os “problemas no paraíso”, conforme a expressão de Žižek. Essa unidade é, por um lado, garantida pelo fato de que a maioria dos textos foi diretamente encomendada pela equipe editorial aos autores, a partir de uma pauta previamente definida; por outro lado, é reforçada pela temática crítica colhida no pensamento do geógrafo David Harvey, especialmente na obra que empresta título a esta coletânea brasileira: Rebel Cities: from the Right to the City to the Urban Revolution (Verso, 2012).

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Do conjunto que é Cidades rebeldes, é possível levantar ao menos sete pontos que estão entre os elementos fundamentais para a compreensão, não apenas das marchas de junho, mas também da atualidade do capitalismo e da forma como ele é sentido a partir das classes exploradas do Brasil, sem esquecer a gravitação global das contradições do sistema. Espraiados ao longo dos ensaios, os sete pontos a que daremos atenção aqui podem ser tomados como uma possível pauta de mobilização que precisa se fazer resistente após o terremoto do meio do ano. Não nos podemos esquecer: virão eleições no próximo ano que e o rol dos debates vai estender-se entre diversos desses pontos, mas com grande tendência a simplifica-los e polariza-los. Mobilizar-se, a partir de agora, significa ampliar o significado e o alcance da rebeldia nas cidades.

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Mas vamos aos tópicos. O primeiro deles, do qual, à sua maneira, praticamente todos os ensaios escritos por brasileiros tratam é o tema ligado a uma sensação que paira no ar desde os protestos de junho, acerca do aparentemente desfeito consenso do capitalismo à brasileira dos últimos anos. Com as manifestações, ao que parece, algo se quebrou ou está se quebrando na calmaria do pacto social que combinava desenvolvimento capitalista com assistencialismo. Alguns mitos ligados à ação dos governos FHC, Lula e Dilma, segundo certos autores presentes em Cidades rebeldes, começam a ter sua face esboroada pelo insuportável que é o ritmo da vida urbana no nosso atual estágio do capitalismo. Segundo Paulo Arantes, “as Jornadas de Junho começaram de fato a desmanchar o consenso entre ‘direita’ e ‘esquerda’ acerca do modus operandi do capitalismo no Brasil”. Combina-se com esse sentimento, uma espécie de alvissareira, ainda que tímida, retomada de disposição crítica na política, no pensamento e na cultura. É Roberto Schwarz que fala sobre isso em seu pequeno texto de abertura do volume. Segundo ele: “O espírito crítico, que esteve fora de moda, para não dizer excluído de pauta, teve agora a oportunidade de renascer”. De toda forma, parece benéfico que a juventude ocupe as ruas, a despeito da sua evidente imaturidade política, expressando sua indignação derivada da anomalia que é a construção da sociedade contemporânea no Brasil. Se não se pode falar ainda em crítica articulada, no geral, as manifestações de junho dispararam a necessidade e a possibilidade da crítica, o que não deixa de ser muito forte, especialmente quando a ausência de “nervo crítico” parecia ser o destino de nossa cultura cada vez mais anódina. Quem sabe não começa a renascer a partir da fratura do pacto capitalista brasileiro dos anos 2000 algo que renove o jogo político e anime a cultura com outros matizes, talvez mais críticos.

O segundo tópico que aqui apresentaremos é alvo da maioria dos textos de Cidades rebeldes. Ele diz respeito à questão da cidade no alto capitalismo atual, seja em sua figuração periférica à brasileira, seja em seu espectro globalizante personificado nas grandes metrópoles do centro do capitalismo. Nesse quesito é o insuportável da experiência urbana capitalista o alvo dos ensaístas do livro. Mike Davis, em um irônico texto sobre o trânsito na Califórnia, intitulado “Estrada de metal pesado”, afirma: “Em uma recente e respeitável pesquisa de opinião realizada no sul da Califórnia, o tráfego figura muito à frente da oferta de trabalho, da criminalidade, da educação e da habitação como um dos principais problemas da região”. A constatação vale para as cidades brasileiras também, nas quais o trânsito, se não figura como o principal problema, é capaz de configurar-se como uma lente a partir da qual se pode enxergar, em distorção realística, as verdadeiras e grandes chagas sociais do cotidiano capitalista. Numa perspectiva progressista, diríamos que o problema das metrópoles é fundamentalmente ligado ao do tráfego urbano, pelo fato de que ele é um dos aspectos decisivos para o acesso do trabalhador à riqueza da cidade, que por ele é criada. Da forma como se estruturam, os sistemas de transportes das grandes cidades brasileiras contribuem para a segregação e não para a ampliação da experiência urbana verdadeira dos trabalhadores. Constatar essa anomalia ajuda a ver como vivenciamos gravemente a dualidade básica da metrópole periférica, entre o formal, lugar do lucro, e o informal, lugar do favor, conforme demonstra em seu texto Ermínia Maricato: “Como integrantes de um país da periferia do capitalismo, em que pesem as novas nomenclaturas definidas pelo mainstream, as cidades brasileiras carregam uma herança pesada. A desigualdade social, uma das maiores da América Latina, e a escravidão vigente até pouco mais de um século atrás são características que se somam a um Estado patrimonialista e à universalização da ‘política do favor’”. Trata-se, portanto, de fazer ver que as cidades rebeldes de agora são fruto de séculos e séculos de uma experiência que condenou os habitantes da “cidade informal”, ou seja, os pobres, os precarizados, os explorados, ao conflito, à violência, à opressão. Nesse contexto, a ideia de criar um conjunto de demandas cujo centro seja a Tarifa Zero representa uma possibilidade de bafejo utópico das lutas políticas. Ou seja, a Tarifa Zero encerraria, em seu desejo profundo de tornar concreto o abstratíssimo “direito de ir e vir”, uma verdadeira força de concretização possível do direito à cidade.

Disso decorre o terceiro ponto que vemos abordado na obra: a cidade não é, ou não deveria ser, apenas o palco das lutas, mas ela é, substancialmente, aquilo pelo que se luta. As Cidades rebeldes assim, ao que parece, levantam-se contra a cidade-negócio, a cidade curvada aos interesses do capital do neoliberalismo. Talvez a melhor definição seja mesmo a de David Harvey, autor que inspira a coletânea. Para ele, o direito à cidade: “não é apenas um direito condicional de acesso àquilo que já existe, mas sim um direito ativo de fazer a cidade diferente, de formá-la mais de acordo com nossas necessidades coletivas (por assim dizer), definir uma maneira alternativa de simplesmente ser humano. Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser reimaginado e refeito”. A nesga de possibilidade de refacção da experiência urbana a partir da utopia da Tarifa Zero parece ser algo que não se pode perder de vista após as marchas de junho. Em Cidades rebeldes essa possibilidade de refacção do sonho urbano, rejeitando aspectos fundamentais da lógica reificadora do capitalismo, é algo que move a articulação crítica dos discursos.

Um outro aspecto muito relevante presente nas discussões do livro é aquele relativo à relação das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação TICs (notadamente Twitter e Facebook) e da velha mídia com os protestos. Uma das conclusões para as quais os textos apontam deriva da constatação de que o conjunto amplo de opiniões presente na sociedade atual não logra canalização nem nos meios tradicionais de veiculação da informação nem nas chamadas TICs, embora no caso dessas haja uma grande tendência a ceder ao fetiche do novo. Na verdade, o que se conclui é que graças ao monopólio da informação por grandes conglomerados econômicos, dos quais a velha mídia é canal, muitas pautas geradas exatamente no contexto desse monopólio acabam se espalhando pelas chamadas redes sociais, que, sob alguma aparência de liberdade, repetem uma velha ladainha que não interessa às reivindicações legitimamente populares. Entretanto, é inegável que a mobilização promovida pelos contatos rápidos através das novas mídias acabou por contribuir, por contraditório que pareça, para uma espécie de quebra na serialidade alienante do capitalismo brasileiro. É sobre essa dialética entre romper com e viver a serialidade que fala com muita propriedade Mauro Luis Iasi em “A rebelião, a cidade e a consciência”. Para ele: “as pessoas vivem as explosões cotidianas das contradições urbanas na forma de uma serialidade, isto é, presas em seus casulos individuais, estão no mesmo lugar fazendo as mesmas coisas, mas não formas um grupo, e sim um coletivo serial no qual prevalece a indiferença mútua”. No caso da utilização das redes sociais nos protestos, vemos os dois lados da moeda atuando. Nessas redes agitam-se forças de ruptura e de manutenção da serialidade reificadora. Entretanto, de alguma forma, prevaleceu a força das contradições que levaram as impossibilidades ganharem corpo de impossibilidade. Lembram-se aqui as palavras de Sartre: “Aquilo que chamam de sentido de realidade significa exatamente: sentido daquilo que, por princípio, está proibido. A transformação tem, pois, lugar quando a impossibilidade é ela mesma impossível, ou se preferirem, quando um acontecimento sintético revela a impossibilidade de mudar como impossibilidade de viver. O que tem como efeito direto que a impossibilidade de mudar se volta como objeto que se tem de superar para continuar a vida”.

É nesse momento que explode a serialidade, quando as impossibilidades se tornam elas mesmas impossíveis. Mas há que se levar em consideração que “apesar de a maioria dos jovens manifestantes usar a internet para combinar os protestos, os temas continuam sendo produzidos pelos monopólios e comunicação”, conforme alerta Lincoln Secco. Assim, um dos desafios que está posto para a sequência das mobilizações é separar o joio do trigo, ou seja, quais são as impossibilidades que se tornaram verdadeiramente impossíveis? Essas são impossibilidades que nos são impostas ou aquelas que abafamos em nosso cotidiano?

O sexto componente do conjunto de questões que ajudam a explicar as cidades rebeldes diz respeito à massificação do precariado na urbanidade brasileira. Ruy Braga assim propõe o conceito de precariado no livro: “a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram e saem rapidamente do mercado de trabalho, por jovens à procura do primeiro emprego, por trabalhadores sub-remunerados”. Segundo Braga, é essa massa que está nas ruas, ainda que sem grande consistência de formação política, mas com uma legítima disposição de manifestar “a sua insatisfação com o atual modelo de desenvolvimento”. Para ele, “estamos diante de um autêntico processo de mobilização do proletariado precarizado em defesa tanto de seus direitos à saúde e à educação públicas e de qualidade quanto pela ampliação de seu direito à cidade”. Quem quer que deseje entender as manifestações terá de ouvir essa voz para a qual se construía até pouco tempo um discurso que era ‘enfiado goela abaixo’, versando principalmente sobre conquistas, estabilidade, crescimento, melhoria de vida etc. Há um certo amadurecimento da chamada classe C, que, se não pode ser compreendido totalmente quando lido pelo prisma da política tradicional, é legítimo e aponta para os desdobramentos eleitorais brasileiros num futuro próximo. Quem são esses sujeitos? O que desejam como sujeitos? É isso que o Estado brasileiro precisa entender caso não queira perder de vista os mais profundos ideais republicanos.

Essas pessoas foram à ruas sem formação política, mas com raiva e indignação legítimas. Esse é o sétimo e último ponto de nossa explanação. Na visão de Leonardo Sakamoto, “um gigantesco grupo de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta desses contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra o sistema partidário, mas sim contra as instituições tradicionais que representam a autoridade como um todo”. As instituições, portanto, precisam se reinventar. Esse é um dos legados das manifestações de junho que não podem ser esquecidos. E, entre essas instituições, estão, por exemplo, as escolas e universidades. Ao que parece, a atitude dos jovens que foram às ruas é também um pedido desesperado por compreensão das suas próprias demandas, por educação política. Os professores, os educadores, os políticos, enfim, os que vivem a força da batalha político-pedagógica cotidiana como profissão, precisam levar a sério a consideração de Erminia Maricato em Cidades rebeldes: “Se fizermos um bom trabalho pedagógico, teremos uma nova geração com uma nova energia para lutar contra a barbárie”.

Como disse Žižek no texto2 que encerra Cidades rebeldes, o divórcio entre o capitalismo e a democracia é iminente. A barbárie que serve de liga a esse entrosamento tão naturalizado entre nós ocidentais está a ponto de tornar-se um dado inegável até para aqueles que não leram Marx, mas sentem a dor de não serem ouvidos e de sofrerem o capital da pior forma possível. O poema de Brecht utilizado pelo filósofo em seu texto é cáustico e desestabiliza as consciências mais tranquilas; entretanto, parece ser o que de melhor em termos de conquista em negativo das cidades rebeldes brasileira de junho de 2013. Fiquemos com esta elegia brechtiana, à guisa de conclusão e de lição:

A aldeia de Hollywood foi planejada de acordo com a noção
Que as pessoas desse lugar fazem do Céu. Nesse lugar
Elas chegaram à conclusão de que Deus,
Necessitando de um Céu e de um Inferno, não precisou
Planejar dois estabelecimentos, mas
Apenas um: o Céu. Que esse,
Para os pobres e infortunados, funciona
Como Inferno.

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1.  Entre esses livros estão os interessantes textos de NOBRE, Marcos. Choque de democracia e de LOCATELLI, Piero. #VemPraRua, ambos lançados pela Cia das Letras pela coleção Breve Comapanhia. Mas também está o volume cheio de clichês conservadores e preconceitos de classe organizado pela editora GLOBO intitulado O Brasil nas ruas. Também é digno de referência o esforço de sítios cuja mirada progressista ordenou um enfoque bastante interessante dos movimentos, reunindo textos de pensadores brasileiros e estrangeiros sobre o tema. Entre esses sítios destaco www.outraspalavras.net e também o http://blogdaboitempo.com.br.

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Alexandre Pilati

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília, poeta e crítico literário. Autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009). Para ler seu blog clique aqui