Outra Olimpíada será possível?

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Um relato dos I Jogos Indígenas Mundiais. Um ano antes da Rio-2016, esportes inusitados, protestos políticos constantes e um clima de confraternização oposto ao mercantil

Por Eliana Loureiro

Ainda faltam mais de 200 dias para os Jogos de 2016, mas o técnico judiciário, Igor Rodrigues, 41, já viveu a comunhão entre diversos povos e a disputa de uma olimpíada sediada no Brasil. Rodrigues saiu de São Paulo para desembarcar em Palmas, capital do Tocantins, onde teve a oportunidade de assistir ao vivo a quatro dos dez dias dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI).

Mais de dois mil atletas, todos indígenas, de 30 países, participaram do evento, que aconteceu entre 23 de outubro e 1º de novembro de 2015. Além dos indígenas das Américas, também houve a presença de povos da Nova Zelândia, Congo, Mongólia, Rússia e Filipinas. Do Brasil, foram cerca de 24 etnias.

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Entre as modalidades da competição, estavam esportes indígenas como lutas corporais, cabo de guerra, arco e flecha, canoagem e uma espécie de futebol com a cabeça (o profissional destaca que nem todos participavam) e corridas com toras de até 100 kg – as mulheres participavam de uma variação, com troncos entre 50 kg e 80 kg. E havia ainda a apresentação dos grupos, sem caráter de disputa, mas simplesmente para demonstrar a cultura e os ritos de um grupo aos outros.

Vai ter Olimpíadas Indígenas?

Interessado desde os 22 anos pelo xamanismo, práticas do curandeiro da tribo, o xamã, Rodrigues já frequentava há alguns anos a Festa do Índio que acontece em Bertioga (SP), e viu como uma oportunidade única assistir aos Jogos Indígenas. “Eu levaria muito tempo e gastaria muito dinheiro para conseguir conhecer todos esses povos e culturas”, esclarece. Mas diz que foi difícil conseguir as informações sobre o evento na internet, pois, segundo ele, a competição foi mal divulgada, o que avalia como possível resultado da crise econômica. “A impressão que dava é que foi uma festa que você organizou e desistiu de fazer”, assim define Igor Rodrigues.

A tensão política era muito presente, tanto que o público foi impedido de participar da abertura feita pela presidente Dilma Rousseff, mas as vaias aconteceram do mesmo jeito. Só foi possível assistir à cerimônia pelo telão instalado na praça principal, com duas horas de atraso.

“Não sei se é a proximidade com o Distrito Federal, mas todos têm consciência política. A todo momento havia alguma manifestação, levantavam faixas e cartazes durantes os Jogos contra a PEC 215”, relata. Essa Proposta de Emenda à Constituição (PEC) transfere do Ministério da Justiça para o Congresso Nacional a decisão sobre a demarcação das terras indígenas. Uma mudança que foi aprovada pela comissão especial da Câmara dos Deputados, criada para analisar o tema, mas agora segue para votação dos plenários da Câmara e do Senado, com dois turnos em cada Casa. Para passar a valer, a proposta precisa ser aprovada por dois terços dos deputados e senadores.

Sobre a questão, o advogado disse ter ouvido um dos índios dizer: “Não somos uma tribo. Somos povo brasileiro, o primeiro povo brasileiro”, como forma de afirmar que eles são os legítimos detentores da terra. Também como protesto, algumas etnias não participaram do encontro olímpico.

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Nem todos foram convidados

Os Jogos tinham área total de 250 mil metros quadrados e a Arena Verde, onde aconteciam as provas e demonstrações, comportava até cinco mil pessoas em sua arquibancada. O espaço ainda contava com a Oca da Sabedoria, destinada aos debates, a Oca Digital, que oferecia computadores com acesso livre à internet, e havia também uma feira de Agricultura Familiar Indígena e de Artesanato, com a proposta de mostrar as diferentes culturas e seus sabores, assim como comercializar seus produtos. Foi lá que Rodrigues provou a “Paçoca do Tocantins”, uma mistura de farofa com carne-seca; e pode perceber a diferença de organização entre as tribos. “Alguns têm uma marca e vendem seus artefatos para o exterior por meio de sites, enquanto outros indígenas ainda dependem do Estado”, pontua o advogado. E revela que a sensação era de ser uma “festa para a qual nem todos foram convidados”, uma vez que não havia espaço físico para todas as etnias e algumas tribos expunham seu artesanato do lado de fora do evento, no próprio chão.

Tribo digital

Igor Rodrigues sinaliza que era normal encontrar os inúmeros cocares da competição usando smartphones, o que causava estranhamento; mas depois ele entendeu que “a condição indígena está dentro dele, não é a indumentária que o faz índio.” Mas, em contrapartida, em um dos últimos dias do evento, se sentiu à vontade para vestir seu cocar e recebeu tratamento diferente das tribos, foi respeitado como se estivesse entre iguais, como se ele também fosse indígena.

Meninos, eu vi

Das cenas que vai levar dessa experiência, uma delas é a competição de arremesso das lanças. Um indígena americano conseguiu jogar muito além dos demais concorrentes, e só após inúmeras tentativas, um pataxó conseguiu finalmente ultrapassar a marca. Segundo Rodrigues, a torcida vibrou tanto com a conquista de um índio brasileiro que a tribo vencedora jogou colares e pulseiras para a arquibancada em agradecimento.

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Outro fato marcante foi um cabo de guerra entre uma tribo brasileira e os maoris, da Nova Zelândia. De acordo com o técnico judiciário, os maoris eram corporalmente muito maiores e fortes que os indígenas daqui, o que conferia um aspecto de luta sem possibilidade de êxito; um “Davi e Golias”, em suas palavras. Realmente, a tribo da Nova Zelândia ganhou vantagem no início, mas com o incentivo de seu cacique e com persistência, os brasileiros conseguiram virar o jogo. E em seu discurso de vitória, gabaram-se que há quatro anos eram a tribo vencedora dessa prova no país e que o embate foi fácil. “Foi uma superação, difícil de acreditar. Deu orgulho”, relata.

Inesquecível também foi ver etnias diferentes, como a tribo da Mongólia, que em um calor de 32ºC, vestia uma túnica de peles que chegava aos pés, e os próprios maoris, com sua dança tradicional de guerra conhecida pelo filme Invictus, que apresenta o time de rúgbi conterrâneo All Blacks encenando-a antes das partidas. “Vi pessoas correndo de medo quando eles avançavam com seu olhar ameaçador e suas clavas verdes em punho, como parte da coreografia”, relata o técnico judiciário.

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Eliana Loureiro

Jornalista e redatora publicitária apaixonada por escrever e ouvir histórias. Atualmente, dedica-se a entrevistar os moradores de sua metrópole em busca de registrar e reunir suas narrativas singulares, no projeto Gente de São Paulo. Conheça: http://www.facebook.com/gentedesaopaulo

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