Obituário de uma brasileira

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Uma mulher como a que nos criou, como a que amamos. Amamos? Mas por que tanto ódio? Ódio ao espelho? Ódio ao povo que emerge? Ou ódio ao que fizemos de nós?

Por Célio Turino

De família de imigrantes italianos e trabalhadores na roça, enfrentou a pobreza junto a nove irmãos. Eram muitas bocas a alimentar e a família teve que se transferir para a cidade dos empregos operários, São Bernardo do Campo. Tinha 5 anos de idade, primeiro os estudos primários, mas logo aos 9 já assume responsabilidade como pajem de crianças menores, depois empregada doméstica, e aos 13, operária na Dulcora, embalando bombons. Uma vida de trabalho em meio a muito afeto. O primeiro casamento, a viuvez precoce e o filho que não conhece o pai, assassinado antes dele nascer, em um assalto. O segundo casamento, o operário metalúrgico atuando em Sindicato, mais três filhos e uma enteada. O trabalho, a família, a casa, o amor, os sonhos. Uma vida comum à de tantas brasileiras.

A ditadura e as greves operárias. O marido torna-se líder. Nova greve, a resistência, a solidariedade. As multidões ganham voz no estádio da Vila Euclides. Vêm a repressão e as prisões. O marido é preso junto a tantos outros sindicalistas. Ela resiste, enfrenta e vai às ruas junto a tantas outras mulheres brasileiras. A passeata das mulheres que dão-se as mãos e não temem a soldadesca feroz, nem latidos de cães, nem estampidos de bombas ou barulho de helicópteros, cassetetes em punho e armas a mão. Resistem com coragem. E vencem.

TEXTO-MEIO

O PT, o sonho e o bordado da primeira estrela na primeira bandeira de um partido de sua gente. Segue em luta sem querer aparecer, acompanha a ação política do marido, cuida da casa, dos filhos, participa no que pode, sonha junto. Quem não conhece mulheres assim? Torna-se primeira dama do Brasil. Discreta, acompanha o marido, cuida da casa, dos filhos, sonha junto. É esteio.

É esteio no sucesso e nos infortúnios. Acompanha, cuida, é tronco, raiz e seiva. Segura a família. É filha, esposa, mãe, mulher. Quem não foi criado junto a uma mulher assim? Seja homem ou mulher. Uma mulher como a que nos criou, uma mulher como a que amamos. Amamos? Mas se amamos por que tanto ódio? Será por ódio ao espelho? Ou por ódio ao povo que emerge? Ou por ódio ao que fizemos de nós? Perguntas a serem respondidas no futuro.

Uma mulher comum, uma mulher brasileira. Morreu por ser esteio. Aguentou tudo com força, até as calúnias e infâmias. Nos últimos anos, dia sim e outro também, via a família exposta às mais vis manipulações. Ela própria acusada. Seus crimes: haver comprado dois pedalinhos para os netos e haver visitado um apartamento em que tinha cotas de uma cooperativa habitacional; visitou, pensou em adquirir, mas não comprou. Sua imagem vai às TVs em incontáveis minutos – minutos não, horas de difamação explícita. É acusada por promotores, injustiçada por Juiz, atacada, ameaçada, achincalhada pela mídia e pela gente cheia de ódio. Por coincidência, quando sofre derrame cerebral, na mesma data, a Polícia Federal reconhece que não tem elementos para acusar a família como sendo proprietária do imóvel que nunca adquiriram.

Mas como esteio da família, sua maior preocupação nem era com ela. Todas e todos que já conheceram mulheres-esteio sabem como elas são. Tiram da boca para darem aos filhos, para proteger e cuidar aguentam caladas aos piores infortúnios. Isso porque são esteio, não podem fraquejar, são tronco, raiz e seiva. Cuidam da família, e das lutas coletivas, e de projetos e de sonhos. Não podem fraquejar. São persona, são família, são povo, são humanidade. Cada qual à sua forma, algumas mais à frente, se expondo mais, mas todas protagonistas, como dona Marisa. Quem não conhece mulheres assim? Eu conheço minha mãe, minha avó, minha esposa e companheira, minhas filhas e as tantas mulheres a cuidarem do Brasil, cada qual a seu modo, todas como esteio. Conhecendo mulheres assim, não é de espantar que a pressão tenha lhe subido ao cérebro e lhe tirado a vida. Foi para-raios, foi esteio, foi força de Marisa. E no dia 2 de fevereiro de 2017, dia da rainha do mar, Iemanjá, falece Marisa Letícia Lula da Silva, uma mulher brasileira.

TEXTO-FIM
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Célio Turino

Célio Turino é historiador, escritor e gestor de políticas públicas. Foi idealizador e gestor do programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, tendo exercido diversas funções públicas, entre elas: Secretário de Cultura e Turismo em Campinas/SP (1990/92), Diretor de Esporte e Lazer em São Paulo/SP (2001/2004) e Secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura (2004/2010). Autor dos livros: Na Trilha de Macunaíma – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005) e Ponto de Cultura – o Brasil de baixo para cima (Ed. Anita Garibaldi, 2009), entre outros.