Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima

 160519-carybe

Nesta sexta, em SP, ativistas e pesquisadores debatem “Golpe, Resistência e Reinvenção da Democracia”. Atividade inaugura série de encontros sobre Outra Política — e outra esquerda

Por Antonio Martins | Imagem: Carybé


CONVITE
Debate em São Paulo
Golpe, Resistência e Reinvenção da Democracia”
Com Natália Szermeta (MTST), Reginaldo Nasser, Tatiana Roque e Henrique Costa (moderação de Antonio Martins)
Sexta-feira, 13/5, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bela Vista – São Paulo — Metrô Brigadeiro ou São Joaquim (veja mapa)

Agora, está consumado: desde hoje, o Brasil tem um governo ilegítimo. Eleito indiretamente, por um Congresso infame, ele procurará impor à sociedade um programa oposto ao que esta tem escolhido, em sucessivas eleições desde 2002. Para empurrar tais retrocessos, é provável que apele para ações repressivas e a busca de bodes expiatórios. É o que sugerem as decisões de recriar o Gabinete de Segurança Institucional, reunindo em torno dele a antiga “comunidade de informações” da ditadura pós-64, e de nomear de um ministro da Justiça de tendências ultra-autoritárias.

Como enfrentar o cenário inteiramente novo que se abrirá? Tudo indica que as respostas convencionais não bastarão. Será preciso, é claro, ampliar a luta pelas liberdades civis e gerar solidariedade ativa aos que forem atingidos pela violência do Estado. Será necessário, também, reforçar a ideia de nenhum direito a menos, numa fase em que os novos poderosos já falam em restringir (“focar”) os programas sociais, reduzindo-os a “auxílios”, que humilharão os “5% mais pobres”.

TEXTO-MEIO

Mas toda resistência é pobre e débil, se não ousa propor alternativas. Em paralelo à trama do golpe, o Brasil vive intensamente, há várias semanas, um processo incomum de reinvenção política. O fato novo, nas manifestações em defesa da democracia, foi terem reunido muito mais que os partidários do governo e de seu projeto. Diante do risco de um país regredido, convencional e careta, autoconvocaram-se não apenas as múltiplas esquerdas mas, principalmente, as lutas que desafiam a ordem imposta pelo Macho, pelo Branco, pelo Normal.

A este caldo, juntou-se o sabor de outros ingredientes finos. Em diversos Estados, jovens, quase-crianças, ensinaram que é possível desafiar com potência a ordem conservadora, quando se expõe seu ridículo. A Alesp Fashion Week, encenada pelos jovens que ocuparam a Assembleia Legislativa de São Paulo, ou garota que encarou o deputado- coronel Telhada, fizeram mais, contra o reinado decadente do PSDB no estado, que dezesseis anos de oposição parlamentar “responsável”. Os mais de mil índios reunidos no Acampamento Terra Livre para denunciar o golpe, em Brasília, mostraram, a um governo que nunca os tratou de forma digna, que a generosidade pode e precisa entrar na ética e gramática da política.

Este choque de criatividade, autonomia e invenção não é o canto de morte de um projeto que termina. Ele anuncia, ao contrário, a possibilidade de construir uma nova perspectiva pós-capitalista percorrendo dois caminhos esquecidos ao longo de treze anos daquilo que André Singer caracterizou como um período de “reformismo fraco”.

O primeiro caminho é a indispensável construção de um novo projeto nacional. Um dos pontos frágeis do lulismo foi a recusa a encarar as reformas estruturais, a sacudir as estruturas encarquilhadas há séculos, de um país sempre dividido entre Casa Grande e Senzala. Nesse sentido, nunca houve ruptura com o neoliberalismo, mesmo enquanto projeto econômico. Depois de duas décadas de paralisia, o Estado voltou a investir – é verdade. Mas as inversões estatais não se orientarem por uma lógica de garantia de direitos – a uma Educação igualitária e inovadora, à efetivação do projeto revolucionário de Saúde Pública proposto (mas nunca realizado) pelo SUS, ao respeito às Culturas dos povos originários, à Mobilidade e Infra-estrutura urbanas necessárias para assegurar Cidades para Todos, por exemplo. O dinheiro público foi consumido, ao contrário, por projetos que reforçam a (in)civilização do automóvel, das rodovias e viadutos; da produção predatória de energia; de sua contrapartida obrigatória: o poder das empreiteiras e o controle que exercem sobre os orçamentos públicos e os parlamentos – do Congresso Nacional à Câmara de Vereadores do menor município.

Debater outro projeto nacional – Outro Brasil, para insistir em nossa tentação a expressar a alteridade – significa retomar uma tradição que a inteligência brasileira cultivou no passado mas foi, infelizmente, esquecida nos últimos anos. Precisamos nos entregar ao exercício árduo e fascinante de debater nosso futuro coletivo. Ele tem de ser o produto de diálogos, controvérsias e conflitos entre pessoas de carne e osso e classes sociais com interesses muitas vezes opostos. Não pode ser a escolha fria e automática das “forças de mercado” – sob pena de nos reduzirmos a uma sociedade cada vez mais desigual, alienada e insensível.

Mas construir uma nova sensibilidade de esquerda implica um segundo esforço – complementar à reconstrução de um projeto nacional. A democracia foi sequestrada, a representação está em crise e os antigos subalternos já não aceitam os papéis que a sociedade lhes reservava. Por isso, a Política já não se faz nos gabinetes, nos plenários, nos corredores atapetados. Ela está nas ruas, nos colégios ocupados, nos bailes funk, nos muros grafitados e pichados, nos saraus poéticos da periferia, nos protestos das torcidas de futebol.

Como interagir com estas novas formas de expressar presença no mundo, inconformismo e desejo de transformação? Como dialogar com esta Outra Política – muito mais difusa, informal, afetiva? É um segundo desafio, igualmente crucial.

Criado para examinar a globalização, as alternativas e a possível construção do pós-capitalismo, Outras Palavras voltou-se especialmente, nos últimos meses, para o debate da crise política brasileira – que agora tem, como desfecho, o golpe. Vai, agora, prosseguir neste esforço. Uma sequência de debates, em nossa redação em São Paulo, debaterá Outro Brasil e Outra Política.

A série começa já nesta sexta-feira (12/5), um dia após a posse do presidente ilegítimo. Golpe, Resistência e Reinvenção da Democracia serão debatidos por ativistas e intelectuais intensamente envolvidos nas mobilizações das últimas semanas e na reflexão sobre elas.

Natália Szermeta, da coordenação do MTST, ajuda a construir um movimento que foi capaz de sensibilizar os grupos sociais mais marginalizados; e que levou a debater e a pressionar o Estado na definição de temas complexos e cruciais, como a elaboração dos Planos Diretores municipais.

Tatiana Roque, matemática e filósofa, é presidente da Associação dos Docentes da UFRJ. Publicou, entre inúmeros artigos, que enxerga o avanço do conservadorismo político como produto tanto dos êxitos quanto dos limites e contradições do lulismo.

Reginaldo Nasser é professor e coordenador do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP. Dedica-se, em especial ao estudo do Oriente Médio, intervenções “humanitárias”, terrorismo e golpes de Estado. Tem intensa participação nos movimentos de refugiados e nas lutas pela transformação social no Brasil.

Henrique Costa é mestre em Ciência Política na USP. Sua dissertação de mestrado abordou, com profundidade e de forma original, a emergência, nas univerisidades brasileiras de um grande continente de estudantes “prounistas”. Analisou, em especial, os dilemas destes estudantes, entre integração à ordem e contestação.

Nos últimos segundos de um clipe memorável de sua composição Volta por cima, o compositor Paulo Vanzolini adverte: “nesta musica, todo mundo destaca a ‘volta por cima’. Mas há algo muito mais importante: é o ‘reconhece a queda'”. Nossa série de debates vai abordar tanto a necessária revisão crítica quanto a busca de saídas. Vamos juntos, você é mais que [email protected]

 

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.