Horto em seu prato

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Numa fazenda do Pará, o velho touro resiste: sossegado, porém galante. Chegou aos 17, um recorde. Talvez sinalize que outra relação com a natureza é possível

Crônica de Ana Aranha, no blog 3 por 4

O pasto brasileiro, de onde vem a carne que você e boa parte do mundo comem, é um lugar de muitos números e poucas identidades. Fora as crianças mais sensíveis, ninguém quer saber a história do bife à sua frente. Mas tem muita gente grande fascinada pela economia da pecuária.

O Brasil tem o segundo maior rebanho de bois e vacas do mundo, 180 nações alimentam-se da “nossa” carne. Só na primeira metade do ano, foram três bilhões de reais na exportação de bovinos. E há toda uma tecnologia em desenvolvimento para aumentar essa cifra. Nas fazendas mais modernas, os bezerros e novilhas ganham um brinco em forma de etiqueta quando nascem e são monitorados diariamente para o controle do peso e qualidade da carne. Professores universitários especializam-se nos hábitos e medos das vacas, pois cada centímetro de pasto mastigado pode significar aumento ou queda na produção.

Mas todo mundo sabe que há outro elemento por trás dessa indústria que abastece a nossa mesa: vida e morte. São cerca de 200 milhões de bois e vacas no Brasil, todos engordando para virar alcatra. Esse texto não tem como objetivo convencer ninguém a virar vegetariano. É apenas um convite para que você conheça um outro ângulo do seu bife.

Afastando-se da estrada por onde passa o motor das picapes, ao cair da tarde no Norte do Pará, ele anda vagarosamente em direção à represa. Conhece bem os dez mil hectares da fazenda onde nasceu e cresceu, mas agora é obrigado a economizar os passos. A idade pesa. A artrite avançou e enrijeceu suas articulações, deixando o andar cada vez mais lento e doloroso. No último ano, os dentes da frente caíram, período em que ele perdeu peso e as pregas no couro multiplicaram-se.

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Aos 17 anos, Horto vive algo que nenhum outro dos sete mil animais da fazenda experimentou: a velhice. Ninguém sabe direito quem deu (ou deixou de dar) a ordem, mas há dois anos ele perdeu sua “utilidade” e mesmo assim escapa da lista do matadouro. Os funcionários dizem que o dono tem dó, o dono garante que nenhum animal é mantido por afeto. Mas Horto está lá.

Talvez os homens não tenham coragem de abater o maior e mais vigoroso touro de que já se teve notícia por aquelas léguas. Bateu tantos recordes que os funcionários lembram de cor os números do seu passado. Horto chegou a pesar 1.103 quilos, enquanto os outros da sua espécie não passam de 950.

E foi o mais notável em sua função. Certa vez, ficou sozinho com 50 vacas. Dois meses depois, 46 delas estavam prenhas (ou “cheias” na linguagem dos negócios). Nem as inseminações artificiais controladas por profissionais das melhores universidades conseguem uma “produtividade” tão alta de um animal só.

Apesar da imponência, Horto não perdeu a ternura. Sua principal característica sempre foi a docilidade. Ele nunca enfezou com outros touros ou com os funcionários, aceitava até cabresto. Até hoje, mesmo sem poder manter relações com as vacas (a artrite não deixa), ele ainda faz sucesso. Horto vive cercado de novilhas e vacas jovens. Ele também já não consegue mais ecoar seu rugido grave pelo pasto, mas faz um barulhinho baixo (segundo os funcionários, “barulho de namoro”), que parece atrair ainda mais a fêmeas.

Seu pai, Zefec Abdala, e sua mãe, Cortesia, nunca se conheceram. Horto foi fruto de inseminação artificial dentro da fazenda. É um Nelore, raça originária da Índia. Ironicamente, o mesmo país onde se considera que os bovinos são sagrados é de onde vieram os animais que hoje são predominantes nos pastos brasileiros e nos pratos do mundo todo. No hinduísmo, os touros são associados a divindades. No sistema de castas, estão acima até dos humanos.

Na fazenda, os touros indianos já não têm tanto prestígio, estão sendo substituídos pelos da raça Angus, do Reino Unido. Mas, embora a carne britânica seja mais tenra, os touros não aguentam o calor do Pará. Ficam sonolentos, preguiçosos. Alguns sentem tanto calor que passam o dia dentro da represa, o que acaba por apodrecer os cascos. Horto nunca teve problema parecido. Suas características foram tão apreciadas pela fazenda que há um estoque de 2.500 palhetas com o seu sêmen.

É impossível saber quantos bezerros e novilhas Horto já colocou no mundo. A única certeza é que todos viraram bife em alguma mesa. Mesmo depois de tantos serviços prestados, seu futuro é incerto. Pode ser que ele bata mais um recorde e viva à beira da represa até a velhice acabar. Pode ser que cumpra a sina de toda a sua família e acabe no nosso prato. Não há crianças sensíveis no pasto para lhe proteger. Mas, quem sabe, Horto despertou nos homens da fazenda uma brecha além dos números.

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Ana Aranha é repórter apaixonada pelo ofício de contar histórias. Trabalhou na revista "Época", na agência "Pública" e colaborou para diversos veículos, como o jornal inglês "The Guardian". Tem 11 prêmios de jornalismo. Para o blog do Yahoo, de onde republicamos para esta coluna, conta as histórias de quem vive o cotidiano da notícia, mas nem sempre ganha as páginas dos jornais.

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