Enfim, o Mario Pedrosa político

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Crítico intransigente do stalinismo e do getulismo, Mário flertou com os liberais; rompeu com eles em 1966; participo do MDB e da fundação do PT

Nova biografia expõe, em detalhes, trajetória militante do maior crítico brasileiro de artes plásticas. Surge um pensador maduro, às vezes ambíguo e contraditório, mas sempre comprometido com a ideia do socialismo democrático

Por Isabel Loureiro


Prefácio do livo
Pas de politique, Mariô — Mário Pedrosa e a Política
De Dainis Karepovs

Ateliê Editorial e Fundação Perseu Abramo
R$ 46, à venda aqui

“Ser revolucionário é a profissão natural de um intelectual.” A frase, dita por Mario Pedrosa em entrevista ao Pasquim quase no fim da vida, poderia sem dúvida servir de epígrafe à trajetória dessa figura exemplar no cenário político-intelectual brasileiro. Reverenciado como nosso mais importante crítico de artes plásticas, é sabido que Mario Pedrosa nunca separou a lida estética da militância política. Mas, embora arte e política sempre andassem juntas, o fato é que a grande maioria dos estudos publicados a seu respeito trata da obra estética, ficando a atuação política praticamente resumida à militância no trotskismo, ainda que ele houvesse abandonado a organização em 1940, devido ao seu “sectarismo esterilizante”. Até hoje ninguém se aventurou a escrever uma biografia que juntasse o Mario Pedrosa crítico de arte e o militante político, em parte por causa da desinformação a respeito do último. A longa e paciente pesquisa do historiador Dainis Karepovs, dando acesso pela primeira vez a passagens pouco exploradas ou mesmo desconhecidas da trajetória política dessa que é uma das personagens mais importantes da esquerda brasileira do século XX, representa uma grande contribuição nesse sentido.

Intelectual irreverente, ardoroso e combativo, adepto a vida inteira de um marxismo avesso à ortodoxia dogmática, Mario Pedrosa foi jornalista, editor, professor de História, crítico de arte e militante político – no PCB no começo da vida adulta, em seguida na construção da Oposição de Esquerda no Brasil, depois no Partido Socialista Brasileiro, na época da ditadura, no MDB; no fim da vida, já doente e debilitado, ainda contribuiu para a fundação do PT. Os grandes traços da sua atuação política são conhecidos.

Mas agora esse homem dos sete instrumentos tem seu rico e atribulado itinerário – pontuado por prisões, exílios, duas candidaturas a deputado federal – exposto e analisado do começo ao fim, no intuito de pintar a personagem política em toda a sua inteireza. Procurando mostrar a coerência do percurso de Mario Pedrosa, Dainis Karepovs situa cada momento da sua vida política no contexto da época, passando pelos acontecimentos mais relevantes da história da esquerda nacional e internacional, dos fins da década de 1920 ao começo dos anos 1980. Ao fecharmos o livro, temos diante de nós uma trajetória ímpar, não isenta de ambiguidades, que se confunde com as lutas mais significativas do século XX em prol da liberdade e da igualdade social.

TEXTO-MEIO

Mario-Pedrosa

Capa do livro “Pas de Politique Mariô! Mario Pedrosa e a Política”

Uma das primeiras novidades desta biografia consiste em mostrar que a adesão de Mario Pedrosa à Oposição de Esquerda no final da década de 1920 não foi uma resolução adotada subitamente em Berlim, quando entra em contato pessoal com os militantes que já haviam se afastado do stalinismo, mas o resultado da leitura das publicações comunistas, sobretudo francesas, desconhecidas da grande maioria da militância brasileira. Informado a respeito da luta pelo poder na URSS e do papel dos PCs como instrumentos da política externa soviética, Mario Pedrosa rompe com o comunismo oficial. Segundo Dainis Karepovs, foi uma decisão amadurecida, e não uma atitude intempestiva tomada no calor da hora.

Sem dúvida, porém, a grande novidade e originalidade do livro está na exposição detalhada de uma fase da sua atividade política praticamente desconhecida e que sempre despertou a curiosidade dos pesquisadores. Refiro-me ao período que começa com o retorno ao Brasil em 1945 (depois de um exílio de sete anos nos Estados Unidos) e termina perto do final da década de 1950, período em cuja boa parte militou no PSB até a ruptura em 1956. Além das palestras e entrevistas aqui comentadas por Dainis Karepovs, foi uma época em que exerceu intensa atividade jornalística publicando artigos na Tribuna da Imprensa, n’O Estado de S. Paulo e no Diário de Notícias. Com exceção de alguns poucos estudos sobre a Vanguarda Socialista, semanário editado por ele no Rio de Janeiro de 1945 a 1948, que, em oposição ao stalinismo e ao varguismo, tinha por objetivo o “esclarecimento ideológico” da esquerda a fim de conquistá-la para as ideias socialistas democráticas, pela primeira vez a atuação política de Mario Pedrosa é iluminada em todos os detalhes.

A defesa do socialismo democrático no plano teórico, inspirada nas ideias de Rosa Luxemburgo, procurava desesperadamente uma tradução no plano prático. O que oferecia o Brasil da época a um militante socialista que procurasse fugir ao baluartismo dos pequenos agrupamentos sectários? O amplo e heterogêneo espectro das forças políticas que se opunham ao varguismo, num leque que incluía desde o liberalismo conservador da UDN à esquerda radical – representada justamente por figuras como Mario Pedrosa – que, devido à sua marginalidade política, não viu alternativa a não ser apoiar a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes nas eleições presidenciais de 1945. Dainis Karepovs sugere que o projeto de Vanguarda Socialista, ancorado na crítica ao PCB, ao stalinismo e ao varguismo, não conseguiu superar a incompreensão do udenismo em relação a este último, como o próprio Mario Pedrosa reconheceu bem mais tarde.

Não é o caso de fazermos aqui um comentário detalhado, mas apenas procurar entender esse período obscuro da vida política do nosso biografado, totalmente desconhecido até agora. O autor relata as peripécias da acidentada militância política de Mario Pedrosa no PSB, sempre pontuada por rusgas e divergências com a direção nacional, de perfil bastante conservador. Mas a atuação política do próprio Mario na década de 1950, cuja tônica era dada pela crítica virulenta a Vargas e ao PCB, num tom que beirava por vezes o moralismo udenista e o anticomunismo – mas sempre contra o fechamento do PCB –, é quase incompreensível aos olhos de hoje. Era tal sua repulsa ao populismo varguista que em novembro de 1955 compartilha por breve espaço de tempo a posição da UDN e dos militares, questionando a vitória dos herdeiros de Getúlio Vargas – Juscelino Kubitschek e João Goulart – nas eleições presidenciais. Em artigo publicado no Diário de Notícias chega ao ponto de apelar para as Forças Armadas. Posição tão paradoxal merece explicação.

Dainis Karepovs é muito criterioso ao tratar desse episódio ambíguo, tentando elucidar por que um adversário feroz da política de conchavos dos partidos brasileiros pôde acreditar, embora por pouco tempo, que a vitória eleitoral de JK e Jango, por se inscreverem na tradição política do varguismo (além de não terem vencido por maioria absoluta), devia ser questionada. Nosso autor evita o anacronismo de situar a UDN a partir da perspectiva posterior à ditadura militar de 1964, lembrando que a boa explicação é oferecida pelo próprio Mario em 1966, no livro A Opção Brasileira, quando menciona o arco de forças “golpista” que se opunha ao governo Kubitschek, que ia da extrema direita à esquerda radical. “Para esta, “o ‘golpe’ era uma preliminar necessária à quebra da legalidade a fim de se iniciar o processo verdadeiramente revolucionário reclamado pelo Brasil”[2] . Talvez fosse ingênuo acreditar na adesão das Forças Armadas a um projeto desse gênero e não deixa de ser paradoxal que um luxemburguista como ele, adepto da participação consciente das massas trabalhadoras na política, passasse a simpatizar com a quebra da legalidade, mesmo que fosse pela esquerda. De qualquer modo, em 1958 ele se desliga do que denomina em 1966 de “faixa golpista”.

Independentemente dessa explicação a posteriori, Dainis Karepovs procura também interpretar esse momento contraditório no contexto da época. Mario Pedrosa, numa postura esclarecida em reação ao autoritarismo stalinista, desejava convencer os liberais “golpistas” de que o Brasil, para entrar no rol das nações civilizadas, carecia de transformações estruturais – desde a reforma agrária à nacionalização das indústrias de base, passando por mudanças nas instituições econômicas, políticas, culturais e militares – e para tanto seria necessário atraí-los para o campo progressista pela força dos argumentos. Almejava, assim, que os liberais brasileiros emparelhassem com o mundo contemporâneo, mas acabou se persuadindo da inutilidade de dar murro em ponta de faca, uma vez que eles não aceitavam que trabalhador tivesse qualquer direito – como direito de greve e liberdade sindical, pauta desde sempre defendida por ele –, para não falar da reforma agrária.

Segundo nosso autor, Mario Pedrosa acabou por se dar conta de que “apenas o antagonismo a Vargas era uma base muito precária para mudar o Brasil”. A partir daí, “tomou um rumo mais à esquerda” e começou a reformular parte de sua crítica ao populismo varguista, sobretudo no tocante à questão do nacionalismo, passando a ver aí um elemento indispensável na luta contra o imperialismo. Essa pauta mais à esquerda incluía apoio à Revolução Cubana e ao terceiro-mundismo. No entanto, mesmo afastando-se definitivamente da má companhia da UDN, ele nunca deixou de rejeitar o legado populista do getulismo. Contra a manipulação populista, a saída era uma “Revolução Brasileira” que construísse uma verdadeira democracia ancorada na autonomia dos trabalhadores. Daí a luta, num primeiro momento, para fortalecer o PSB como partido de massas que unisse proletariado e classe média, com o objetivo de pôr em prática esse projeto, e, bem mais tarde, o apoio à criação do PT, visto justamente como o partido socialista por tanto tempo sonhado.

A biografia também se detém longamente sobre a atuação política de Mario Pedrosa nos quatro anos iniciais da ditadura militar. Algo que chama a atenção é ele ter demorado algum tempo a perceber que o golpe de 1964 implantara no Brasil uma ditadura que viera para ficar. Na sua análise, o golpe era um subproduto da Guerra Fria e da doutrina da segurança nacional, forjada nos Estados Unidos e exportada para a América Latina, com o objetivo de impedir abalos internos que ameaçassem os interesses do capital norte-americano. Basta traduzir doutrina de segurança nacional por lei antiterrorismo para ver como essa análise continua atual.

Em suma, o que a biografia sublinha é que, apesar das aparentes contradições no terreno da política prática, que, aliás, davam o tom do período logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, existe uma grande coerência no itinerário político de Mario Pedrosa. Nesse sentido, o episódio comentado linhas atrás é apenas um ponto fora da curva. As ironias da história fizeram com que a política caudilhesca de manipulação das massas de um “ditador bonapartista”, “fascista”, “totalitário”, como dizia nosso biografado, garantisse pela primeira vez direitos trabalhistas, complicando assim a tarefa da oposição socialista, perplexa diante dos paradoxos da situação brasileira. Como reconheceu Hélio Pellegrino, quando da morte de Mario, não basta criticar o getulismo por enganar os trabalhadores, por lhes tirar a autonomia e a iniciativa “em troca de algumas concessões feitas de cima para baixo. Acontece que, no Brasil, a lenta, dolorosa ascensão dos trabalhadores passa pelo populismo e, particularmente, pelo getulismo, sua expressão principal” (3).

Por sua vez, os liberais, ao mesmo tempo que empunhavam a bandeira da liberdade e da democracia, não hesitavam em apelar aos militares sempre que a situação fugia ao seu controle. Tiveram êxito em 1964. É nesse terreno pantanoso que Mario Pedrosa atua no período de 1945 a 1958, em que o espaço para uma esquerda democrática e independente — tanto do populismo quanto do stalinismo — era muitíssimo reduzido. O que não impede Antonio Candido de reconhecer que, em reação à ditadura stalinista, Mario Pedrosa foi levado, nessa época, a excessiva confiança nos liberais (4) .

Mas, mesmo aí, salta à vista a espinha dorsal de seu pensamento político, sintetizada por nosso autor nas duas epígrafes que funcionam como os eixos estruturantes da biografia: o Brasil e o socialismo. Inserido na tradição crítica do marxismo, Mario Pedrosa nunca deixa de analisar a situação brasileira à luz das transformações do capitalismo mundial, o qual condena o Brasil, desde a Colônia, a uma posição subalterna que impede a superação do atraso. Mudam os tempos sem que nos tornemos uma sociedade integrada. Por isso, “[n]o Brasil nada tem consequências, nada se aprende da experiência”, como reza a primeira epígrafe. A repetição, com ares novidadeiros, é traço constituinte da dominação capitalista, sobretudo na periferia, mas também na metrópole. Daí a atualidade exasperante da formulação a seguir, escrita há mais de sessenta anos:

Nas democracias capitalistas o mal não está nas restrições à liberdade, mas na formação clandestina de uma oligarquia dominante que se instala nos postos de comando de toda a sociedade e de lá dirige, por cima dos governos, parlamentos e instituições, irresponsavelmente, como numa sociedade anônima, os destinos do país, os negócios públicos e privados e… a independência dos jornais e a liberdade dos cidadãos (5).

Entretanto, não é o caso de ficarmos na constatação paralisante de que o capitalismo como sistema mundial coloca os países periféricos num lugar subalterno, e sim de lutar para romper com essa situação. Mario dizia: “Sempre sonhei uma revolução para o Brasil” (6), cujo objetivo último era a construção de uma sociedade livre, justa e igualitária, alicerçada na autonomia dos trabalhadores e na mais ampla democracia. Donde a segunda epígrafe do livro: “Socialismo é conseguir que a dignidade humana não seja mais o monopólio de uma elite, no fundo já hereditária”.

Isso posto, é preciso perguntar, no caminho aberto por Otília Arantes em relação ao Mario Pedrosa crítico de arte (7), qual é, 36 anos depois, a atualidade desse projeto político.

No final da vida, como sabemos, ele participou ativamente da construção do PT, escrevendo artigos em que aplaudia a iniciativa dos trabalhadores brasileiros de construírem um partido de massas, a partir de sua própria luta e não como resultado de conchavos de supostas vanguardas. O Partido dos Trabalhadores tinha a missão “civilizadora” – “O Partido dos Trabalhadores é o grande projeto de transformação do Brasil” – de revolucionar o Brasil de norte a sul, em vez de se limitar “aos velhos moldes do capitalismo das nossas classes dirigentes”. Trocando em miúdos, isso significava, só para mencionarmos ideias que cada vez mais nos interpelam, impedir a destruição da Amazônia pelo capital, aproveitar a energia solar do Nordeste para o desenvolvimento da região, fazer a reforma agrária para atender “aos interesses dos camponeses médios, miseráveis e sem terra”, fortalecer a pequena agricultura, não a agricultura industrial de exportação, que só serve para dar lucro às multinacionais (8).

Numa palavra, significava parar de imitar os países da metrópole, abolir o “neocolonialismo” implantado com a ditadura militar, possível apenas com um projeto socialista democrático, em ruptura com o Estado burguês, pois este “não admite […] nenhuma transformação estrutural seja de que natureza for” (9). É difícil que um leitor da minha geração não sinta profunda melancolia ao constatar que essas tarefas, entre muitíssimas outras, continuam pendentes. Entra governo, sai governo, a propriedade do solo continua intocada e com ela a desigualdade escandalosa reinante no país. Por tudo isso, o sonho de Mario Pedrosa – ou a utopia, já que se considerava um utópico – de ver o Brasil se transformar numa nação integrada continua na ordem do dia.

2. Mario Pedrosa, A Opção Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, pp. 172- -173. Aspas de Mario Pedrosa

3. “Presença de Mario”, Folha de S.Paulo, 20.12.1981, p. 3.

4. Antonio Candido, “Um Socialista Singular”, em José Castilho Marques Neto (org.), Mario Pedrosa e o Brasil, São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 16.

5. Mario Pedrosa, “Democracia versus Banco”, O Estado de S. Paulo, 13.1.1953, p. 7.

6. Pasquim, cit.

7. Otília Beatriz Fiori Arantes, Mario Pedrosa: Itinerário Crítico, 2. ed., São Paulo, Cosac Naify, 2004, pp. 171-177.

8. Citações tiradas de “O Futuro do Povo”, em Mario Pedrosa, Sobre o pt, São Paulo, Ched, 1980, pp. 19-21.

9. Mario Pedrosa, “O PT e o Estado”, Sobre o PT, p. 48.

 

TEXTO-FIM
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Isabel Loureiro

Isabel Loureiro é filósofa e especialista em Rosa Luxemburgo, organizadora e tradutora de muitas obras que discutem esta obra, como “Socialismo ou Barbárie – Rosa Luxemburgo no Brasil” (FRL) e “Rosa Luxemburgo – textos escolhidos“, Ed. UNESP. É professora aposentada do Departamento de Filosofia da UNESP.