Em BH, um casarão de todas as artes e ativismos

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Começa campanha para financiar reforma do Espaço Comum Luz Estrela. Ocupado em 2013, quase em ruínas, renasceu – para ser espaço de formação política e artística, aberto e autogestionado

Com o slogan “É hora de abrir as portas”, o Espaço Comum Luiz Estrela, de Belo Horizonte, acaba de lançar campanha permanente para financiamento coletivo, na plataforma Evoé Cultural. O objetivo é reformar o casarão do bairro Santa Efigênia – tombado pelo Patrimônio Histórico, ocupado 2013 e já parcialmente salvo da deterioração.

Em 26 de outubro de 2013, artistas e ativistas de Belo Horizonte ocuparam o casarão histórico, situado na Rua Manaus, 348. Nascia espaço comum, com ganas de transformar o imóvel em centro de formação política e artística, aberto e autogestionado. O apoio da comunidade, a luta e a coerência da proposta fizeram com que o Estado reconhecesse a legitimidade do Espaço e cedesse formalmente de uso do imóvel à sociedade civil, pelo período de 20 anos.

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A edificação remete ao surgimento da cidade. O casarão foi construído em 1913, para receber o Hospital Militar da Força Pública Mineira (a atual Polícia Militar). Em 1947, este hospital mudou para seu atual endereço na Avenida do Contorno e o imóvel passou a abrigar o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Com o tempo, a comunidade médica entendeu a necessidade de diminuir o sofrimento das centenas de crianças lá abrigadas. Assim, à medida que os critérios para atendimento aumentavam, o número de internos diminuía.

Em 2013, o imóvel, abandonado havia 19 anos pelo Estado, foi ocupado por artistas e ativistas.

O Espaço Comum Luiz Estrela já realiza atividades culturais e políticas que envolvem o exercício da cidadania, a proteção do patrimônio histórico, a defesa dos direitos humanos, as práticas econômicas solidárias e a participação popular. A Feirinha Estelar e o Sarau Comum são atividades autogestionadas que se constituíram ao longo da história da ocupação e hoje funcionam autonomamente. Acontecem também no Espaço as oficinas da peça Escombros da Babilônia, que será encenado em junho. O espaço está organizado a partir de três eixos: Estruturação e Autogestão; Arte, Cultura e Educação; Patrimônio Cultural e Memória. Cconta com os dez núcleos de trabalho: Patrimônio e Memória, História, Teatro, Audiovisual, Infracultura, Música, Antimanicomial, Autogestão, Legal (administrativo-jurídico), Comunicação, Programação.

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Em 2014, o Espaço Comum realizou uma primeira campanha de financiamento coletivo, que arrecadou recursos para o escoramento do imóvel – fase anterior ao restauro e fundamental para iniciar o processo de construção do projeto arquitetônico. Agora dá continuidade ao processo colaborativo para arrecadar o valor de R$ 150 mil, destinados à restauração da fachada e recomposição das trincas, telhado e laje. Além do valor a ser arrecadado com a campanha, serão destinados a esta fase da obra R$ 89 mil aprovados no Fundo Estadual de Cultura, ponto de partida para realização da reforma na atual etapa. A campanha adota a modalidade de financiamento recorrente, ideal para projetos que possuem atuação contínua, por meio da qual o apoiador contribui mensalmente para a reforma. Serão quatro etapas a ser cumpridas ao todo, sendo que, ao final desta primeira fase, o casarão abrirá as portas para a cidade.

A experiência do Espaço Comum Luiz Estrela representa, no contexto de Belo Horizonte, a urgência, a possibilidade de existência e a potência de uma cultura independente, livre das amarras do mercado. Expressa, ainda, o desejo compartilhado da sociedade em assumir para si as rédeas dos processos de transformação e de efetivá-los de forma coletiva e colaborativa, salvaguardando a memória da cidade.

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No dia 12 de março, às 10 horas, o Núcleo de Restauração do Espaço Comum – composto por arquitetos, urbanistas, historiadores e profissionais de outros segmentos – apresentará o projeto de reforma. Jornalistas e o público serão convidados a visitar o lugar.

Luiz Estrela

Luiz Otávio da Silva, mais conhecida como Luiz Estrela, vivia na rua e era amiga de muitos, principalmente dos artistas e dos habitantes do centro da cidade de Belo Horizonte. Poeta, escrevia seus pensamentos em folhas soltas, numa espécie de diário desencadernado. Participava das mobilizações artísticas e culturais da cidade, como carnaval de rua, Praia da Estação, Festival de Performance, atrações no Teatro Espanca!, no Nelson Bordello, entre outras. Era uma militante da diversidade. Homossexual, Luiz Estrela era muitas, de muitas histórias, de muitas pessoas e foi morta no centro de BH na noite de quarta feira, 26 de junho de 2013. Sua morte não foi investigada.

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